Capítulo XXXVII — BatRaposa
Shippou abriu a porta do apartamento para mim, mas ficou sério ao perceber Dmitri parado em frente à sua porta, encostado na parede.
— Esses hanyous… — reclamou Shippou, por não ter percebido que Dmitri estivera ali todo esses tempo. Ele virou-se para mim — Então você tem um cão de guarda.
Dmitri afastou-se da parede, enquanto dizia:
— Estou vigiando o galinheiro.
Espera, oi?! Ele estava me chamado de quê ao dizer isso?!
Shippou começou a rir. E não foi um riso contido, foi um som limpo e extremamente divertido. Dmitri ficou sem saber se Shippou estava debochando dele. Melhor sempre acreditar que sim, tive vontade de aconselhar, mas fiquei em silêncio.
— Você entendeu? — perguntou Shippou, olhando para mim enquanto ainda ria — Ele estava falando do fato de eu ser uma raposa. — disse, como se eu não tivesse entendido a piada.
Acabei rindo, embora não da forma como Shippou ria — era um som que rolava com facilidade, mesmo quando era inoportuno. Eu estava rindo apenas pela expressão de Dmitri.
— Podemos ir para casa, senhora Kagome? — perguntou Dmitri, visivelmente desconfortável com os risos.
— Senhora? — Shippou me olhou dos pés à cabeça. — Quem diria que você um dia teria esse tratamento de um hanyou.
— Não enche. — Empurrei levemente seu ombro e sorri. — Obrigada.
— Amantes são para isso; dar prazer a suas parceiras.
Dmitri estreitou os olhos e foi necessário que eu ficasse entre os dois. Sei que ele não seria capaz de ameaçar um Senhor, contudo meu histórico com tai-youkais me faz ser cautelosa, já que esse maldito não tem senso de humor.
— Ele está brincando. — afirmei, em seguida beijei a bochecha de Shippou, que sorriu. — Até logo.
— Até, cuide-se e lembre-se que se precisar de mim, é só dar o BatSinal que virei voando em meu BatJatinho.
— Certo, BatRaposa.
— Viu, hanyou? Pessoa com senso de humor de verdade, Kagome é dessas.
Antes que Dmitri respondesse, eu o empurrei pelo corredor, dizendo que precisava de açúcar em meu sangue naquele momento e por isso iríamos comer donuts em qualquer lanchonete no caminho de casa. O maldito não me deixou pagar pelos donuts dele, e eu fiquei realmente frustrada, ainda mais nervosa com toda aquela formalidade que Dmitri usava para se comunicar comigo. Tem sido assim desde que Sesshoumaru nos encontrou jogando RPG em seu escritório.
Soltei um suspiro alto enquanto saíamos do carro. Minha intenção era fazer com que ele me olhasse... E eu consegui.
— Não sei como faço para concluir aquela maldita missão do Skyrin. — resmunguei teatralmente.
— Qual missão? — Precisei segurar meu sorriso vitorioso enquanto voltava minha atenção para Dmitri.
— Não lembro o nome... — Apertei o dedo indicador sobre o queixo pensando — Preciso recuperar um objeto.
— Metade das missões consiste nisso.
— É... Bom, vou jogar um pouco para relaxar... Dias difíceis. — Tirei os sapatos para entrar em casa. — Você poderia me ajudar.
Foi até fofinho ver o dilema interno dele. Quando cansei de esperar a resposta e ele já havia terminado de descalçar os sapatos, eu o puxei até a sala de vídeo, local aonde meu videogame havia ido parar depois que cansei de ficar no escritório de Sesshoumaru.
Conversar com Shippou realmente me ajudou muito, de certa forma sentia que havia afrouxado aquele aperto que sentia em meu peito todos esses dias. No entanto, ainda não estava tudo tão esclarecido para mim e sinto que pensar nesse assunto agora só vai me deixar mais nervosa e chegarei a respostas erradas. Por isso, apenas por agora, nem que seja apenas algumas horas, vou me distrair um pouco.
Depois de algumas horas de entretenimento com videogame e uma ótima noite de sono combinada com um banho quente na banheira com espumas logo pela manhã, me sentia pronta para pensar sobre o assunto Sesshoumaru.
Respirei fundo enquanto me espreguiçava, ainda dentro da banheira. Recostei a cabeça no espaldar, pensando sobre tudo que Shippou havia me dito.
"Quando Sesshoumaru não se importa... Ele realmente não se importa. Não existe meio-termo." E isso fazia todo o sentido do mundo. Por que esse é o Sesshoumaru. Contudo, era realmente estranho que o interesse dele se resumisse a mim. De certa forma aquela ideia não entrava em minha cabeça.
Mas era inegável que a única pessoa que se beneficiava com minha mãe viva seria apenas eu. Meu peito dói apenas com a ideia de que eu poderia ter crescido sem minha mãe, sem ao menos saber como seria a minha vida... Afastei esse pensamento, não quero pensar como seria minha vida sem a mamãe.
Minha cabeça voltou a doer, então mergulhei e permaneci submersa, voltando apenas quando senti vontade de respirar.
A grande verdade é que ele não é mau, propriamente dizendo, e ser manipulador é de sua personalidade. Não há motivos para ficar guardando rancor, ainda mais por conta de ele ter me dado o rosário de Inuyasha, já que eu compreendo que, embora de uma forma nada evidente, ele estava respondendo as minhas perguntas.
Só posso implorar que, por mais que seja absurdo, Shippou esteja certo. Que Sesshoumaru não tenha me usado.
Saí da banheira e me troquei rapidamente para ir ao hospital, outro turno noturno que espero não termine como o outro, mas antes peguei o celular e mandei uma mensagem para Sesshoumaru:
"Apesar de não entender muito bem o que sua resposta significa, estou feliz que tenha ao menos me dado uma."
Era estranho mandar uma mensagem assim para ele, então emendei com um:
"PS. Meu empenho para estourar o limite do seu cartão está maior esse mês."
Muito bem, tenho uma péssima notícia para dar ao mundo: serei uma tia coruja. Faz menos de duas semanas que descobri que Hiroko estava esperando o bebê e eu já tinha umas quinze sacolas de brinquedos, roupas, acessórios e qualquer coisa que eu achasse interessante para uma criança. Isso tudo era resultado das muitas vezes em que eu pedia para Dmitri parar o carro quando via alguma loja infantil, e saía de lá feliz por comprar coisas para o bebê e ter usado o cartão de Sesshoumaru para isso.
Como a mala do carro já estava superlotada, pedi para Dmitri me levar até a Mansão Corvo, já pensando nas reações de Tomoyo e Hiroko quando começassem a abrir todos os presentes.
E é claro que eu fui completamente frustrada quanto a isso ao andar para cima e para a baixo na casa e não encontrar ninguém. Nin-guém.
Estava tão estranho que quase me assustei quando dei de cara com uma criada.
— Não tem alguém em casa? — perguntei, antes que ela pudesse sair correndo de mim.
— A senhorita Aika está no quarto dela, senhora.
Franzi o cenho, achando estranho tudo aquilo. Apenas deixei as bolsas com os presentes no meu quarto e fui procurar Aika. Bati na porta do quarto dela e estranhei que ela demorasse para abrir. E quando o fez, fiquei surpresa de encontrá-la com expressão abatida, de quem não dormia bem há muito tempo.
— Nossa, Aika, o que aconteceu? — perguntei, entrando no quarto dela e fechando a porta atrás de mim.
— Ah, oi, Kagome. Como foi a viagem de lua-de-mel? — ela perguntou calmamente, enquanto se dirigia para a cama e sentava nela.
— Acho que tem coisas mais importantes para discutirmos aqui. Como por exemplo o seu estado e o fato de não ter ninguém nessa casa além de você. — Sentei-me na cama também, por que sou dessas, uma intrometida de primeira.
— Bom… — ela disse, como se estivesse se controlando para não explodir numa crise de fúria — Eu estou sozinha na casa, por que seu irmão acha que aqui é o lugar mais seguro do Japão. Então, enquanto todos os outros estão em Sapporo arriscando a própria vida, eu fico aqui, sentada no meu quarto, muito bem protegida. Simples assim.
Meu coração quase parou.
— O que você disse? Arriscar a vida? — Acho que ela percebeu como tinha me assustado e piscou algumas vezes, surpresa.
Um segundo depois a Aika que eu conhecia tão bem estava de volta, enquanto se inclinava para segurar meus braços.
— Kagome, você não estava sabendo? — ela perguntou, como se estivesse lidando com uma criança. Apenas balancei negativamente a cabeça — Desculpe… Desculpe. Você não tem culpa de seu irmão ser do jeito que é.
— O que está acontecendo?
— Nossas fronteiras estão sendo invadidas. — ela disse, engolindo em seco.
— Por quem?
— Bom… É complicado de explicar. Vamos dizer que os youkais não se dão muito bem com os demônios chineses, o que gerou várias guerras, principalmente no século anterior, e que mesmo hoje em dia ainda sofremos com a rivalidade...
— Você não estaria falando dos yaoguais, estaria? — perguntei, interrompendo-a.
Ela me encarou, bastante supressa e preocupada.
— Como você sabe disso, Kagome?
Limpei a garganta, percebendo como seria complicado de explicar, então apenas omiti boa parte da informação:
— Ouvi Sesshoumaru falar algo a respeito. Mas continue… O que está acontecendo? Não sabia que os tengus estavam em conflito com qualquer criatura além de Sesshoumaru.
— Essa é uma questão de longa data. Trinta anos atrás… Eles… Eles nos atacaram. — Aika continuou, parecendo bastante abalada ao dizer isso. Então parou, pensou por um segundo, e sorriu tristemente — Eu não vou esconder de você que… em grande parte o fato de Hideo estar tão preocupado em me proteger seja minha culpa, mas ao mesmo tempo eu me sinto triste por ele não confiar em mim… Eu sei que você não entendeu, Kagome… Vou explicar. — Ela fez outra pausa pensativa — Trinta anos atrás, os yaoguais sequestraram um tengu para conseguir manipular o tio Takashi. E esse tengu… era eu.
Apertei as minhas mãos, inconscientemente.
— Eu não… quero falar do que aconteceu naquele dia. Apenas que tio Takashi foi sozinho para me resgatar. Era a condição dos yaoguais para me manterem viva. — Ela passou a mão no rosto, completamente pálida — E ele lutou, Kagome… e eram tantos. — Ela disse com voz embargada — Quando venceu e veio até mim… Ele segurou meu queixo, enxugou minhas lágrimas e disse "venha, filha, vamos para casa".
Senti um bolo se formar em minha garganta enquanto a ouvia, vendo como ela se emocionava por relembrar tudo isso.
— Ele estava ferido, e ainda assim me levou nos braços até Sapporo. Veja, os yaguoais tinham me obrigado a me transformar e cortaram minhas asas, mas a única dor que eu sentia era de ver o tio Takashi ferido por minha causa. — Ela respirou fundo — Nós dois nos curamos, depois que voltamos. E Hideo foi quem me ajudou a curar as feridas daqui. — Ela massageou o peito, explicando. — E agora eles estão de volta, e Hideo me manda para longe dele.
— Por que ele não me falou nada? — perguntei, sentindo a voz faltar.
— Para manter você protegida, querida. — ela explicou — O território do leste é o mais seguro, por questões geográficas. Para chegar aqui, os yaoguais teriam que passar por todos os outros senhores… Sesshoumaru também não está no território dele?
— Está. Mas ele não me conta coisa alguma. Aliás, acho que a vida dele é esconder as coisas de mim. — Massageei a testa, tentando me obrigar a pensar — E pensar que ainda semana passada Shippou me convenceu de que Sesshoumaru havia casado comigo porque sentia algo por mim… Apenas para agora ficar me sentindo tão insegura.
Aika riu, e eu ergui os olhos, estranhando que ela reagisse assim ao que eu havia dito.
— Desculpe. — ela falou, ao perceber como eu tinha ficado desconfortável — É que essa era a explicação mais óbvia para tudo. Quer dizer, tinha tantas outras formas de fazer Hideo ceder, então por que Sesshoumaru foi escolher logo pedi-la em casamento? Eu sempre achei que ele havia feito isso por você.
— Mas o quê?
— O quê… Vai reclamar por que nunca te disse isso? Por favor, mesmo que eu dissesse, você não iria acreditar. — Aika segurou minha mão — Fazer você refém? Unir os clãs? Quanta baboseira. Casamento é a melhor forma de proteger alguém no nosso mundo.
Apenas fiquei encarando Aika, estupefata. Proteger? Então… Era por isso?
— Está bem, não vamos falar mais disso. — ela falou, percebendo como eu estava confusa — Por que você veio aqui mesmo, Kagome?
Parei alguns segundos, tentando me lembrar.
— Vim trazer presentes para o bebê da Hiroko. — Franzi o cenho, então arregalei os olhos — Onde a Hiroko está? Ela está em Sapporo?! Mas…
— Foi escolha dela. — disse Aika, aparentemente desgostosa — Nagi e Daiki quase tiveram um treco, mas ela estava irredutível. Ela é uma guerreira… Uma ótima, aliás. Ela vai saber se proteger… E também o bebê dela.
— Como Hideo deixou?! — exclamei.
— Eu teria muito medo de uma mulher grávida decidida, se fosse ele. Você não?
Ok, sim, eu também teria.
Esse tinha sido apenas mais um dia normal de trabalho, e eu não hesitei quando o meu colega que faria o plantão pediu que eu o ajudasse por mais algumas horas. Afinal, qual era a outra escolha? Ir correndo para a casa vazia de Sesshoumaru, para me sentir sozinha? Não, dispenso.
— Acho que vai ser uma noite tranquila. — eu comentei com o Dr. Gin, enquanto ele apertava as mãos.
— Odeio os plantões. — ele disse — Sempre acontece algo de ruim quando é a minha vez.
— Acontece com todo mundo, ao que parece. — respondi. Senti meu celular vibrar no bolso do meu jaleco. — Só um segundo.
Olhei para a tela do meu celular, sem crer. O número que me ligava era o de Sesshoumaru. A menos, é claro, que fosse o Kazuki, o que é uma conclusão bem óbvia.
— Oi, marido Kazuki, pensei que tinha se esquecido de mim.
— Onde você está? — foi a pergunta fria... E essa voz não era do Kazuki, mas sim do próprio Sesshoumaru.
Estagnei, sem acreditar. Ele nunca tinha me ligado antes, por que ele faria isso logo agora?
— No hospital. — respondi lentamente — Espera, você sabia que está sem falar comigo há um mês e você sequer se importa em me cumprimentar?
— Saia do hospital e vá para casa. Agora.
— Você não pode simplesmente me dar ordens assim, Sessh... — reclamei, mas fui interrompida por ele.
— O que tem de tão difícil em seguir uma ordem clara? Vá para casa e alerte o Dmitri para qualquer eventualidade. — Fiquei estática, finalmente percebendo que o fato de ele estar me mandando ir para casa deveria significar que eu estava correndo algum perigo em potencial. Abri minha boca para protestar, mas ele foi mais rápido — Você ouviu, Kagome? Quero que você esteja em casa agora. Se deixar que alguma coisa aconteça com você, eu vou ficar furioso.
— Você já não está furioso? — perguntei, mas já era tarde demais, Sesshoumaru tinha desligado.
Afastei o celular do ouvido e fiquei encarando-o, revoltada. Haveria no mundo uma criatura tão arrogante como Sesshoumaru?! Mesmo se clonassem, eu duvido que sairia igual. Que ego gigantesco; que arrogância sem fim.
Era incapaz de falar normalmente com as pessoas! Incapaz de dizer que se preocupava com elas.
Foi quando parei, surpresa.
Ele estava preocupado comigo. Poderia haver coisa mais ilógica, mais fora do lugar e mais doce para se descobrir? Peguei-me, sorrindo lentamente, com uma sensação estranha esquentando meu peito.
Virei-me para o Dr. Gin.
— Desculpe, meu caro, mas vai ter que enfrentar o plantão sem mim. — comuniquei, sorrindo de forma apologética — Você vai se sair bem. Não vai acontecer nada.
Virei as costas e segui na direção da sala de descanso dos médicos para pegar minhas coisas. Antes de me afastar muito, no entanto, eu pude ouvir a voz da recepcionista no alto-falante chamando o Dr. Gin na ala de emergências.
Ele passou correndo ao meu lado, na direção dos elevadores. Meus ouvidos de hanyou ainda foram capazes de captar o resmungo desesperançado:
— Por que não segui o conselho da minha mãe e virei oficial de cartório?
É algo para se pensar, Dr. Gin.
Ladie
Ok, gente. Eu vou ter que ser muito rápida, por que literalmente eu estou dentro do carro (roubando internet do vizinho) postando esse capítulo, com a minha mãe me olhando com cara feia ameaçando os netos dela que não nasceram.
Amo vocês (Mary, te amo, escreva, sua maldita, crie vergonha nesse seu traseiro lindo). O podcast deve ser gravado semana que vem. Então façam perguntas!
Próximo capítulo tem tretas. Muitas tretas.
Wait for it.
