Capítulo XL — E a morte chega

Não tive tempo de reagir. Minha mente ficou completamente em branco.

Tudo estava tão silencioso que por um momento cheguei a duvidar que tivesse ouvido a explosão ou os gritos. E então tudo recomeçou, como um vácuo repentinamente sendo preenchido por matéria, sons e energia.

Youkais e hanyous começaram a brotar no corredor, havia homens e mulheres (coisa que me surpreendeu, já que não tinha visto nenhuma delas por todo esse tempo), todos atordoados, questionando uns aos outros sobre o que estaria acontecendo.

Kai saiu da sala de reunião apenas alguns segundos depois, aparentemente muito chocado, e começou a dar ordens. Tudo aconteceu rápido demais, o choque, a inércia, a reação. Menos de um minuto depois da explosão, todos já se movimentavam para combater qualquer que fosse a situação que estivesse se desenrolando.

Dmitri me puxou para trás dele. Seus braços e ombros estavam tensos e seus olhos observavam tudo, frenéticos. Foi esse estado de alerta que me fez entender: estávamos sob ataque. Parecia absurdo que os yaoguais resolvessem atacar a Yakuza diretamente, contudo, não quis arriscar e corri na direção do meu quarto apenas parando e soltando um suspiro aliviado quando encontrei Aika no corredor, vindo na minha direção.

— O que foi isso? — ela perguntou atordoada.

— Não sei.

— Senhora, fique perto de mim. — demandou Dmitri, mantendo-se incomodamente perto.

Certo, vamos respirar e tentar entender que está acontecendo. Pensar era algo realmente complicado de se fazer nessa situação, mas de extrema necessidade.

Estava acontecendo um ataque. Na Yakuza. Durante a noite. Enquanto todos estavam no local. Parecia idiotice, mas esses eram os fatos. Os yaoguais estavam ali para me matar. Como sei disso? Uma adaga passou cortando meu rosto de leve e apenas não me acertou em cheio por que Aika havia me empurrado bem a tempo. Fiquei com os olhos arregalados enquanto observava a movimentação, Kane gritou para Dmitri me tirar de lá enquanto chutava algo que acredito ser uma bomba de gás, já que uma fumaça branca escapou pelo corredor enquanto o cilindro escuro voava para longe.

Dmitri me puxou junto com Aika, segurando nossos braços. Seguimos para o portão dos fundos, já que, pelo fluxo de pessoas, o ataque acontecia pelos portões frontais e a prioridade de Dmitri era nos colocar fora de perigo. Algo me dizia que não era exatamente inteligente correr na direção oposta. Sei lá, parece questão de estratégia básica que se você quer atrair um animal para uma armadilha, você tem que guiar sua presa até ela com uma isca ou assustando-a para seguir na direção desejada.

Olhei para Dmitri e percebi que ele estava plenamente consciente desse fato pela forma como ele movia os ombros, quase como se estivesse se preparando para uma boa briga. Ele escolhera nos levar para a direção mais perigosa, já que a outra opção seria nos esconder embaixo de uma cama.

Respirei fundo e tentei me preparar como era possível. Atacar era a nossa melhor defesa no momento. E, convenhamos, por mais que fosse a atitude mais imbecil a se tomar, com certeza não era mais do que a dos yaoguais.

Quem em sã consciência faria um ataque à Yakuza nessas condições? Era suicida, estúpido, com poucas chances de sucesso. Simplesmente não fazia sentido que tivessem tomado uma atitude tão desesperada. Admito que todos nós estávamos incrivelmente relaxados e confiantes e que isso nos deixou em desvantagem por sermos pegos desprevenidos... Mas por quanto tempo o efeito "surpresa" realmente seria eficaz?

E pensar que até alguns minutos atrás eu havia falado tão arrogantemente com Sesshoumaru. Odeio admitir que estou errada.

Dmitri parou de andar em um dos caminhos do jardim, tirando-me dos meus devaneios pessoais de auto recriminação.

Aika e eu também paramos, confusas, então houve outro som de explosão enquanto o portão dos fundos caía. Bingo. Poeira e detritos se espalharam pelo jardim, diminuindo a visibilidade por algum tempo.

Com toda essa barulheira, a polícia logo estaria aqui, e realmente não estou curiosa para saber como a Yakuza lidava com esse tipo de situação.

Quatro sombras apareceram da nuvem de poeira que se dissipava, deixando Dmitri ainda mais tenso do que já estava. Eu lembrava perfeitamente do yaoguai de aparência humana que eu havia visto no estacionamento em Taiwan... Só que esses quatro yaoguais não se pareciam em nada ao que eu tinha visto. Todos tinham aparência em geral antropomórfica, mas os detalhes eram de feras, antinatural.

Um deles chamou imediatamente minha atenção quando se adiantou com graça e agilidade contra nós. O corpo era humanoide, braços e pernas musculosos, abdômen definido e mãos e pés que terminavam em garras. O corpo inteiro estava coberto por pelos negros, alaranjados e brancos, num padrão que lembravam o de um tigre, o que parecia se encaixar perfeitamente aos seus olhos alongados e felinos.

Senhor, preciso dizer: ele parecia muito assustador.

Pensei que ele se chocaria contra Dmitri, mas três hanyous pularam do teto do alpendre em seu caminho e impediram seu choque imediato contra nós. Infelizmente, os hanyous não duraram mais que três ou quatro golpes.

Vi o meu guarda-costas estralar os dedos das mãos e se colocar ligeiramente à minha frente, bloqueando o primeiro golpe das garras do inimigo com o braço direito. Sua mão esquerda foi de encontro a minha barriga e ele me empurrou para trás. Aika me puxou, fazendo com que nos afastássemos alguns passos de Dmitri, que se inclinou ligeiramente e recuou o corpo, preparando-se para desferir um soco no estômago do yaoguai, que desviou com bastante facilidade.

Observei os outros yaoguais que tinham entrado junto com o tigre, mas só consegui achar dois deles: um bisão monstruoso usando um machado de duplo fio e um tigre-azul bem parecido com o que lutava com Dmitri, exceto pelo fato de que aquele era do sexo feminino.

— Nós temos que tirar você daqui. — Aika rosnou, olhando em volta. Fico agradecida pela consideração, mas acho que precisamos sair todos daqui, não apenas eu. Imitei o gesto dela e olhei em volta, procurando uma saída. Tudo parecia um pandemônio. Oito anos longe das batalhas na Era Sengoku haviam me deixado mimada, haviam feito com que eu esquecesse como o mundo do youkais podia ser brutal.

— Por aqui. — disse Aika, segurando minha mão.

— Mas o Dmitri…

— Ele está se saindo bem sozinho. — Olhei para ele e percebi que ela tinha razão. Ainda assim hesitei na hora de segui-la, e isso foi decisivo, já que a tigresa-azul e o bisão nos alcançaram.

Arfei, surpresa, ao ver a tigresa ser tomada por uma agilidade surpreendente, alcançando-me em menos de um segundo e pondo suas mãos em volta do meu pescoço. O mundo parou; a respiração ficou presa na garganta, meus braços pareciam pesados como rocha. A única coisa que eu via eram os olhos felinos num rosto anguloso, coberto de pelos branco-azulados. E havia tanto ódio naquele olhar, que eu fui tomada pelo medo e pela confusão.

Por quê? Sei que não era o momento para me perguntar isso, ainda mais quando as mãos dela se posicionaram no meu queixo e na minha nuca para quebrar o meu pescoço rapidamente, mas eu só conseguia me questionar o motivo para o ódio que aquela yaoguai sentia por mim. Por quê?

Então o tempo voltou a correr novamente. Aika gritou, uma explosão aconteceu ao longe, e o som de garras arranhando concreto irritou minha audição. De repente, meu corpo era todo adrenalina. Simplesmente não importava o motivo... Este era o inimigo e eu não passei por tudo o que passei, aprendi tudo o que aprendi, para ficar questionando os motivos do meu oponente.

Coloquei a mão fechada em punho entre os braços dela e empurrei rapidamente em um só impulso e forcei a tigresa a me soltar. Acho que ela ficou tão surpresa com o fato de eu reagir que não percebeu que eu prendia seu braço e girava, fechando uma chave que prendia a cabeça dela e um dos seus braços entre os meus. Ela rosnou, possessa, e eu apertei a chave, sentindo o osso do ombro dela estralar. Pensei seriamente em quebrar o osso, mas hesitei. Esse foi o tempo que ela levou para reagir, erguendo a mão livre e fincando as garras profundamente no meu ombro.

Apertei os dentes. Porcaria, como isso ardia.

Senti que ela perfurava mais fundo em meu ombro e soube pelo movimento dos quadris que ela pretendia me jogar por cima de sua cabeça. Em questão de força, eu estava obviamente em desvantagem, só que eu era mais baixa do que ela, mais leve; e Raiden havia me ensinado muito bem que a vantagem de um hanyou estava em sua destreza e não na força.

Impulsionei-me para cima assim que senti o puxão dela rasgar a carne do meu ombro. Soltei a chave de braço e posicionei minhas mãos em seu ombro, agarrando os tufos de pelo branco-azulado para me equilibrar e reaproveitando a força que ela tinha usado para me jogar e fazer o mesmo com ela: finquei meus pés firmemente no chão, fechei as mãos em sua nuca e puxei-a por cima de mim, jogando-a contra uma das pilastras do alpendre com força.

O estrondo foi assombrosamente alto, fazendo com que vários youkais parassem o que estavam fazendo para descobrir a origem do som. As velhas telhas do alpendre caíram sobre ela, cobrindo-a e levantando poeira.

Eu simplesmente não era mais a mesma de oito anos atrás e foi nesse momento que percebi isso. Eu havia amadurecido, havia ficado mais forte. Eu não precisava ser protegida por Inuyasha ou por Sesshoumaru, porque eu tinha minha própria força. E notar isso era, realmente, libertador.

Ouvi um grito atrás de mim e olhei por sobre o ombro. Cinco hanyous prendiam um yaoguai panda no chão e vi Kane se aproximar deles, usando uma espada curta para cortar a garganta do yaoguai caído. Eu vi o sangue respingar nas roupas brancas de Kane, vi a expressão fria dele, senti que havia algo de repulsivo naquilo, mas obriguei-me a não me importar.

Do outro lado, o bisão urrava e girava o machado, tentando acertar um tengu de asas mutiladas. E esse tengu… era Aika. Uma forma alta e encurvada, coberta de penas lustrosas, garras afiadas, bico negro, olhos azuis… E extensões desfiguradas de onde um dia haviam saído suas asas.

"Veja, os yaoguais tinham me obrigado a me transformar e cortaram minhas asas, mas a única dor que eu sentia era de ver o tio Takashi ferido por minha causa", recordei.

Ah, Aika. Senti minha garganta se fechar. Esses yaoguais haviam machucado minha família; haviam machucado meu pai e Aika e tantos outros que eu amava. Eles não mereciam piedade. Não havia espaço para isso.

Se eu estivesse em condições de pensar racionalmente, teria ido ajudar Aika ou Dmitri. Se eu fosse mais egoísta, teria simplesmente corrido para longe. Mas eu não era racional ou egoísta e tenho uma inclinação quase instintiva a tomar decisões idiotas: aproximei-me do alpendre, cavando nos escombros com dedos nus. Alcancei a tigresa e agarrei seu braço, preparando-me para puxá-la do entulho e obrigá-la a encarar minha fúria. Vi youkais irrompendo no jardim vindo da casa, o que, creio, deva significar que os yaoguais que haviam atacado pela frente já tinham sido controlados. Ótimo.

Senti o peso das telhas se deslocando enquanto eu puxava a tigresa dos escombros... E, então, aconteceu.

Primeiro veio o som macio de carne sendo perfurada, depois o ardor em meu estômago. Baixei os olhos e vi o cabo de uma adaga saindo de minha barriga. O sangue vertia e escorria no pelo branco da tigresa, que ainda segurava a adaga contra o meu corpo.

Hesitei, sem saber o que fazer. Não sabia se devia gritar, se devia tirar a adaga ou se devia apenas atacar a minha inimiga. Optei pela última opção porque a raiva me cegou completamente. Ouvi o urro animalesco do bisão e soube que Aika havia vencido. Motivada por isso, eu apenas segurei a mão da tigresa e a puxei mais uma vez, dessa vez tirando-a brutalmente de baixo do entulho.

Não me importava se eu estava ferida, agora eu mal percebia esse fato. A minha oponente era tudo o que existia. Um rápido olhar permitiu que eu notasse alguns ferimentos superficiais, mas nada que diminuísse sua mobilidade... Então eu teria que fazer algo quanto a isso.

Segurei o punho dela com as duas mãos e me joguei contra seu braço, quebrando o osso com um estralo audível. Ela gritou e suas garras procuraram o meu rosto, não me acertando apenas por alguns centímetros, enquanto eu me esquivava. O movimento brusco fez com que a adaga cortasse a minha carne de uma forma dolorosa e perdi alguns segundos para arrancá-la do meu corpo, por mais que a médica dentro de mim não aconselhasse que eu fizesse isso.

Um rugido se formou atrás dos meus ombros. Tão perto que eu girei, assustada, a tempo de ver o tigre que estivera lutando contra Dmitri se jogar contra mim e me derrubar, caindo sobre mim. Ele poderia ter me matado, poderia ter aberto a minha garganta ou arrancado minha cabeça, mas ele não estava preocupado em me matar, mas sim em dar tempo para que a tigresa fugisse. Eu vi preocupação em seus olhos, caída por baixo dele, quase com a mesma intensidade com que sentia as garras em meus braços. A tigresa ainda andou na direção dele, mas ele rugiu, fazendo-a hesitar antes de correr para fora da propriedade.

Ver aquilo tirou-me do meu torpor cego, fazendo-me vê-los como algo mais do que criaturas feitas somente de anseio assassino. Não consegui pensar em me defender, apenas fiquei embaixo dele, inerte e atenta. Os olhos amarelados me encararam por longos segundos. Ele não me compreendia, da mesma forma como eu não o compreendia. Ele não entendia por que eu não o atacava e eu não entendia porque ele, de repente, parecia tão humano para mim.

Foi ele quem desistiu primeiro de tentar decifrar o enigma; rosnou e ergueu uma mão com garras em riste, mas Dmitri o tirou de cima de mim com um rosnado. Levantei-me a tempo de vê-lo se desvencilhar de Dmitri e girar para correr na direção que a tigresa havia fugido. Aparentemente a missão de me matar tinha sido abortada. Pensei amargamente que, se era para ser assim, deviam ter desistido desde o início.

Afastei esse pensamento bobo. Havia coisas mais importantes no momento.

O tempo tornou-se lento mais uma vez. Parecia que uma entidade desconhecida havia tomado conta de mim. Na Era Feudal, eu havia experimentado essa sensação algumas vezes, principalmente quando usava meus poderes de sacerdotisa, mas nunca tão fortemente. Minha mente parecia vazia e calculista, como se eu fosse capaz de compreender todos os mistérios do universo. 42 era a resposta.

Observei o tigre fugindo velozmente, escapando dos youkais que tentavam impedir sua fuga. Apenas segui na direção de um hanyou que segurava um arco e flecha e tirei a arma de suas mãos. Sequer pensei em ser delicada, e pela expressão assustada do hanyou, ele também não tinha espírito para se opor a qualquer coisa que eu fizesse.

Neste momento em questão, isso não importava.

Posicionei o arco corretamente. Uma respiração antes de tencionar o fio e mirar a flecha. Tudo era silêncio, gelo e sentido. O único som audível era o da minha respiração. Expire, Kagome, inspire… E a flecha cortava o ar num fôlego, acertando o tigre no meio das costas no exato momento em que ele estava para sair do meu alcance.

Uma flecha não mataria um ser imortal; sequer o retardaria... Se fosse uma flecha normal. Aquela única flecha lançada tinha absorvido poder espiritual sagrado, aquele que eu quase sempre esquecia que ainda possuía, mas que naquele momento se mostrou tão natural de ser usado.

E o tigre estava caído, selado, congelado no tempo como um dia Kikyou fizera Inuyasha ficar com sua flecha.

Baixei o arco.

— Senhora Kagome! — ouvi Dmitri chamar ao meu lado, tão horrorizado com o sangue que escorria pela minha roupa que soou quase como uma criança.

Olhei para o meu ferimento, finalmente lembrando dele, e senti meus braços dormentes. Não era um ferimento tão profundo, mas eu sentia meu corpo enfraquecer com velocidade e minha mente ficar pesada. Olhei para cima, mas minha visão já estava embaçada e eu mal conseguia ver Dmitri com seu ombro ferido por garras e Aika com olhos preocupados em seu rosto animalesco de tengu.

— Eu… — falei, olhando mais uma vez para o ferimento em minha barriga e compreendendo — Eu acho que tinha veneno na adaga.

E então eu me perdi na escuridão.


Ladie

Oi, gente, acabei demorando muito mais do que o esperado, sinto muito, é que esse capítulo precisava de uma revisão mais demorada (e ainda não ficou como eu queria, talvez faça modificações depois). ENFIM, AQUI ESTÁ A TRETA QUE EU FALEI! PODEM ME AMAR AGORA. Quer dizer... Ou não, né?

Porque gente... Sério... Vocês VÃO NOS ODIAR NO PRÓXIMO CAPÍTULO. MAS ODIAR TANTO, MAS TANTO, QUE MARY E EU VAMOS DESATIVAR NOSSOS FACES. 1bj.

Brincadeiras à parte, preparem (your ass) seus corações. Por que se nós nos odiamos com o que fizemos, eu tenho é medo do que vocês vão fazer. Enfim.