Capítulo XLVI — Estude desgraça!
Entrei no gabinete de Nagi. O local parecia ter sofrido uma revolução desde a última vez que eu havia estado ali. Havia notebooks e pilhas e mais pilhas de folhas de papel espalhados pelo local. Isso somado a um Nagi de barba ainda maior e olhar vidrado. Hiroko havia comentado uma vez como o irmão a deixava assustada quando entrava nesse frenesi obsessivo, e agora eu entendia o porquê.
— Você me deve explicações, Nagi! — exclamei, deixando minha bolsa em uma poltrona, andando na direção dele e parando, embora eu estivesse tão nervosa que "parar" não era exatamente o termo correto, já que eu não conseguia deixar minhas mãos sossegadas.
Ele não ergueu os olhos para mim.
— Eu insinuei que você iria morrer. — disse calmamente — É de se imaginar que eu deva explicações.
— Você disse que essa coisa dentro de mim matou o meu pai. O que você quis dizer com isso? — questionei, falando rapidamente.
— Não tenho dados suficientes para comprovar. Mas tenho certa propriedade para afirmar isso. Tanto ele quanto eu havíamos percebido que o cheiro dele havia mudado depois de ele voltar de Hong Kong, mas na época nós não tínhamos equipamentos adequados para identificar a causa dessa mudança. Ele sentia que algo estava diferente com o poder dele e com o passar dos anos isso foi se tornando mais e mais grave, até que em um momento ele morreu por uma simples gripe. — Ele resmungou alguma coisa como "Dá para acreditar?" para si mesmo, enquanto mexia em um maço de folhas — Uma doença humana facilmente curável matou o Senhor do Norte.
— Hideo disse que ninguém sabia a causa da morte de papai. — exclamei, confusa — Ele disse que a verdade acerca da morte de papai havia desaparecido junto com ele. Hideo nunca me falou nada sobre isso.
— Como se Takashi fosse falar algo assim para Hideo. — Nagi rolou os olhos nas órbitas — Não fazia sentido preocupar Hideo com algo que não podia ser resolvido. Claro que eu não pude acreditar que um vírus tão simples como um influenza pudesse matar um youkai, então guardei essa informação para mim. Agora vejo a possibilidade de explicar o que aconteceu. Meu faro nunca falha. Seja lá o que matou Takashi foi causado pelos yaoguais. E eles fizeram a mesma coisa com você.
— Você... Você quer dizer que eu vou morrer? — perguntei, chocada.
— Não se descobrirmos do que se trata e combatermos. — Ele olhou para mim dos pés à cabeça e então aspirou lentamente — A questão é que o seu cheiro está mais forte que o de Takashi, embora esteja mais fraco do que ontem... Pergunto-me se isso tem alguma coisa a ver com o fato de você ser uma hanyou. — Ele coçou o queixo — Não importa, — disse, enérgico — vou descobrir do que se trata. É uma droga não ter equipamentos de última geração. Você tem o cartão de crédito do Hideo, não é? Em quanto tempo você pode conseguir uma analisadora de espectro para mim?
Arregalei os olhos. Nagi estava estranhamente animado com tudo isso, de tal forma que fazia com que eu me perguntasse se ele não se importava com o fato de estar profetizando a minha morte. Abracei meus ombros, confusa, estranhando o fato de não estar tão abalada como pensei que ficaria, mesmo depois de Nagi me contar tudo isso.
Parece que o poço de dor secou.
— Eu preciso de um instituto de pesquisa. — Nagi disse, encarando-me. Ele passou muito tempo fazendo isso, até que eu percebesse que ele, de alguma forma, esperava que eu providenciasse o que ele queria.
— O quê? — questionei — Você acha que posso fazer um instituto inteiro brotar do chão apenas para o seu prazer?
— Você é a Administradora do Leste, não é? — ele perguntou, irritado — É de se imaginar que você deva fazer investimentos. Comece com esse. É difícil trabalhar sem os materiais corretos. Tive que mandar seu sangue para um laboratório de alta tecnologia para conseguir a bateria de DNA em tempo recorde. Eu só consegui que realizassem os exames, ainda tenho que fazer a análise. Eu sozinho trabalho mais rápido que aqueles humanos idiotas. Vinte dias? Acredita! Vinte dias para me entregarem o laudo. Bando de inúteis. — Ele apontou para a caixa apinhada de papeis — Vou precisar de ajuda para estudar esses dados. Vista alguma coisa confortável.
Entreabri os lábios, pasma (e não apenas com o fato de Nagi estar tão, tão falante).
— O quê? Você está me intimando para ajudá-lo?
— Estou tentando salvar a sua vida aqui, você não percebeu?
Estreitei os olhos e respirei fundo. Realmente... Esse dia nunca vai acabar.
Saí do gabinete de Nagi e pedi para Dmitri ir em casa para buscar algumas roupas e artigos de higiene (fui bastante específica quanto ao fato de ele pedir para uma das criadas irem ao meu quarto mexer nas minhas coisas, já que não queria Dmitri fuçando na minha gaveta de roupa íntima). Depois que ele saiu, fui à cozinha preparar café e alguma coisa substancial para comer. Voltei para o gabinete e Nagi finalmente se deu ao trabalho de me explicar como analisar as baterias de DNA. Quando ficou óbvio que ele faria isso mais rápido do que eu, ele me deu a missão de fazer o estudo hormonal (ele fez questão de deixar claro que eu era tão inútil quanto um humano).
— Meu colesterol está alto. — resmunguei, logo quando comecei a olhar as taxas.
— Você acha que eu vou perder minha noite para saber se seu colesterol está alto? — Nagi perguntou rudemente.
— Eu sou uma hanyou... Isso não é normal.
— Que tal me atrapalhar quando tiver algo digno de discussão?
Fiz careta para ele e comecei a morder o bocal da minha caneta, usando-a eventualmente para marcar as raras irregularidades. Foi quando Dmitri abriu a porta do gabinete, segurando uma bolsa de lona em uma das mãos.
— Você foi rápido. — falei, levantando-me — Vou trocar de roupa, volto já. — Peguei a bolsa da mão de Dmitri — Espere aqui. — instruí.
— Espere, senhora, eu preciso avisar que...
— Tudo bem, eu pego da Aika qualquer coisa que tenha faltado. — E então saí apressadamente em direção ao meu quarto. Abri a porta e entrei... Apenas para encontrar Sesshoumaru parado no meio dele, olhando curiosamente para as dezenas de sacolas de lojas infantis espalhadas pelo chão.
Acho que Dmitri queria me avisar que havia trazido algo a mais do que eu havia pedido, não que tinha esquecido alguma coisa.
Droga.
Agi como se ele não estivesse ali, apenas segui para o banheiro e vesti os shorts e a camiseta que Dmitri havia me trazido. Saí do quarto sem falar uma única palavra e senti Sesshoumaru atrás de mim. Porcaria, o que posso fazer? Enquanto ele ficar quieto e me permitir ficar, vou ficar quieta também. Tudo que eu falar será usado contra mim e não quero correr o risco de ser jogada no ombro do Dmitri e levada embora a força daqui — afinal, não consigo imaginar Sesshoumaru fazendo isso ele mesmo.
— O trabalho não vai andar se você fica sumindo por qualquer motivo. — Nagi ralhou, quando abri a porta. Ele franziu o cenho, ainda de olhos baixos, e então ergueu o rosto, percebendo Sesshoumaru. Nagi ficou ereto, parecendo irritado pela visita inesperada. — Isso aqui virou alguma espécie de sala de chá-da-tarde e esqueceram de me avisar?
Sesshoumaru ignorou completamente e sentou-se numa poltrona, tirando o celular do bolso e se concentrando no aparelho. Nagi desviou os olhos de Sesshoumaru para mim, como se me culpasse por alguma coisa.
Expirei de forma exausta e voltei para o corredor, fechando a porta antes de sussurrar acusatoriamente para Dmitri:
— Por que você falou para ele?!
— Eu não disse nada. — Dmitri sussurrou de volta agitando as mãos nervosamente na direção da porta do gabinete — Ele simplesmente entrou no carro e me mandou dirigir até aqui.
Estreitei os olhos.
— Você jura?
— Eu juro. — ele respondeu, enquanto revirava os olhos.
Cruzei os braços, fazendo muxoxo. Era estranho imaginar Sesshoumaru sentado no carro mandando Dmitri seguir até a Mansão de seu amado cunhado Senhor do Norte. E para variar agora ele estava na sala de Nagi, parecendo bastante confortável, sem aparentar nenhuma pretensão de ir embora. Estava tão confortável que se não se tratasse de Sesshoumaru, eu poderia até vê-lo pedir chá a uma das criadas.
Suspirei mais uma vez e esquentei as mãos, esfregando uma na outra, antes de voltar para o gabinete de Nagi. Apenas ignorei o meu marido sentado na sala e voltei para a escrivaninha, peguei minha caneta e tentei me concentrar em analisar os dados.
Nagi se aproximou de mim, perguntando baixinho:
— Alguma chance de forçá-lo a nos ajudar?
Neguei veemente com a cabeça.
— Nem se oferecêssemos dinheiro para ele? — Suspirei. — Nem se você oferecer sexo selvagem? — Olhei feio para Nagi. — Ao menos o Hideo serviria de alguma coisa. Dê um jeito de se livrar desse inútil.
Apenas sorri de canto, sabendo que Sesshoumaru tinha ouvido nossa conversa.
Meus olhos estavam doendo, minhas costas também e estou tentando esquecer a situação das minhas nádegas e pernas dormentes. Das duas a uma, Kagome: ou você está ficando velha ou precisa de uma pausa... Acho que as duas coisas. Soltei um suspiro que pareceu transparecer todo o cansaço do meu corpo e me levantei. Fez tantos estalos quando me espreguicei que cheguei à conclusão de que estou crocante e deliciosa, no ponto exato... Possivelmente também me encontro bêbada de sono.
Espiei Sesshoumaru, que ainda estava na mesma posição na cadeira. Segurava um tablet, no qual usava apenas o dedo indicador para mudar a tela de forma robótica e num ritmo que me fez questionar se ele estava realmente lendo algo ou simplesmente vendo as letras subirem no mais perfeito tédio... Primeira opção, claro, é o Sesshoumaru.
Quanto ao Nagi, ele se encontrava a mais de duas horas em um microscópio, de onde desgrudava o olho apenas para fazer alguma anotação no bloco de papel ao lado; às vezes nem olhava o papel para escrever.
Tentei andar e precisei me apoiar no encosto da cadeira; minhas pernas falharam por estarem dormentes. Ainda bem que não caí, teria sido realmente vergonhoso. Quando senti minhas pernas mais firmes, eu caminhei até o banheiro e lavei o rosto. Ao sair, perguntei em vão se alguém queria algo da cozinha, mas eles nem devem ter me ouvido. Segui para cozinha e preparei um macarrão instantâneo, então percebi quão faminta estava e comecei a procurar por biscoito ou qualquer outra porcaria que preenchesse meu buraco negro em forma de estômago.
Odeio o fato de apenas o Nagi estar em casa. Ele tem o péssimo hábito de comer em horários bagunçados e, apesar de cozinhar bem, ele é viciado em fast food e deliveries, então nunca tem comida decente quando ele comanda a casa.
Ao voltar para o gabinete de Nagi, encontrei Sesshoumaru em pé com o maço de folhas que eu estivera analisando em uma mão e uma caneta marca texto na outra. Fiquei encarando a cena sem saber o que falar para ele, alguns segundos depois ele se inclinou usando a mesa na qual eu estava anteriormente como apoio e começou a riscar com o marca-texto de forma frenética e compenetrada. Acho que levou dez minutos para chegar na última folha e finalmente ficar ereto; foi quando nossos olhos se encontraram.
— Está fazendo o quê? — perguntei, aproximando-me e vendo o inacreditável: Sesshoumaru estava fazendo o meu trabalho, destacando as taxas anormais dos exames. — Você está me ajudando? — perguntei, deliciosamente surpreendida. Então sorri. — Bom, já que você está sendo útil, vou dormir um pouco. Ainda tenho plantão pela noite. — falei, saindo do gabinete enquanto mordia o biscoito que havia carregado comigo da cozinha.
Eu sei que foi meio loucura (do tipo loucura total) fazer algo assim com o Sesshoumaru, mas saí de um plantão para um trabalho escravo ordenado por um psicopata que atende pelo nome de Nagi. Necessito dormir, Sesshoumaru que me perdoe.
Quase gemi de prazer quando deitei na cama. Ao abrir os olhos novamente, senti que havia cochilado apenas por alguns minutos. Estava pronta para brigar com quem quer estivesse andando pelo quarto no escuro enquanto falava no celular. Sentei, sonolenta, reconhecendo Sesshoumaru mesmo com a pouca iluminação oriunda de uma única fresta da cortina. Espera, já era dia? Peguei meu celular: era quase sete horas da manhã. Dormi quatro horas e nem notei.
Ele parou de andar, voltando sua atenção para mim, afastou o celular do ouvido e desligou. A julgar pelo fato de o telefone ter voltado a tocar, tenho certeza de que a pessoa com quem ele falava não havia terminado a conversa e que o meu marido havia desligado na sua cara sem se importar... Típico dele.
— Vamos embora. — ele disse simplesmente.
— Ainda preciso ajudar o Nagi.
— Sua parte está adiantada. — E, dizendo isso, ele segurou meu braço, fazendo-me ficar em pé.
Espera, como assim adiantada?
Eu o encarei.
— Você fez a minha parte? — Ele não respondeu e isso me fez pensar novamente nessa possibilidade, apesar de achar que ela é inviável. Ele simplesmente virou de costas e saiu me puxando, segurando o meu pulso. Só percebi como aquilo era estranho quando ele me empurrou para dentro do carro e, logo depois, entrou no lado do motorista. Então minha curiosidade foi ao céu e não fez menção de querer voltar. Até mesmo olhei para trás para me certificar que Dmitri não estava ali dormindo.
— Cadê o Dmitri? — perguntei, curiosa. Ele não respondeu. Deu vontade de socar a cara dele no volante, odeio ser ignorada. — Sesshoumaru, cadê o Dmitri?
— Não suporto aquele tengu.
— Nagi? — balancei a cabeça, confusa. — Espera, o que aconteceu enquanto eu dormia...? Sesshoumaru!
— Dmitri ficará no seu lugar.
— Como assim? Por quê? O Nagi pediu? Ele entende algo de medicina? — sabatinei.
— Ele sabe o suficiente e matar o tengu na mansão do Senhor do Norte não é uma opção.
— Você mandou o Dmitri ficar lá só para me tirar de casa?
— Não é mais sua casa. — ele respondeu, estreitando os olhos.
Respirei fundo enquanto ele parava no sinal vermelho. Sesshoumaru havia mandado Dmitri ocupar meu lugar na pesquisa e assim que acordei me arrastou para fora da Mansão Corvo. 'Tá, qual o motivo de ele fazer isso? Cocei os olhos, encostando a cabeça no vidro do carro. Como é complicado desvendar o que se passa na mente desse youkai albino.
— Você por acaso notou que meu cheiro está diferente? — questionei, lembrando sobre o comentário de Nagi acerca do olfato de tai-yokais serem mais sensíveis que o dos tengus, o que realmente é verdade. Ele ficou em silêncio, espalmei a mão no ombro dele, meio irritada. — Sesshoumaru?!
— Sim. — ele respondeu.
— Você tinha percebido?! — Fiquei encarando-o, surpresa — Por que não me disse?
— Por que diria?
— Por que esse cheiro é de um veneno que matou o meu pai? E que posso estar correndo risco de morrer também? — indiquei, chocada com a frieza dele.
— Tudo está sob controle. — disse parando o carro na frente da torre do Tai Group.
— Ah, está? — perguntei vendo-o sair do carro. Ele realmente não parecia nada preocupado. — Espera... Sesshoumaru! — chamei, chamando atenção do auxiliar que havia se aproximado para estacionar o carro, que me encarou como se eu fosse louca ou qualquer coisa assim.
Pisquei, notando que ele já estava em frente ao elevador privativo. Saí do carro a contragosto e segui até Sesshoumaru.
Não estou vestida para estar na empresa, afinal, calça de moletom e camisa de algodão não são exatamente roupas apresentáveis para uma mulher nesse tipo de ambiente empresarial (sem mencionar o fato de que só agora eu ter notado que estava descalça). Não tive tempo para pensar sobre os motivos de ele ter me trazido aqui, apenas tive tempo de correr para conseguir entrar a tempo no elevador. Fiquei me indagando em como iria resolver esse meu pequeno problema com roupas.
Assim que entramos no escritório de Sesshoumaru, havia uma mulher arrumando algumas sacolas sobre o sofá de couro. Ela me lançou aquele olhar analítico e fez uma reverência, saindo do escritório. Acho que corei. De alguma forma, fiquei envergonhada de ser avaliada daquele jeito.
— São roupas? — questionei, ignorando minha vergonha e apontando para as sacolas. Ele não respondeu, apenas seguiu até sua estante e ficou ali parado, olhando os títulos, suspirei e fui conferir por mim mesma… Eram roupas, então fui ao banheiro me trocar. — Obrigada. — falei, voltando para a sala. — Por que tantos livros?
Estranhei por, de repente, deparar-me com duas pilhas de livros na mesinha que ficava de frente para o sofá.
— Estude. — ele disse simplesmente.
— Por quê?
— Porque não quero mais reclamações sobre centros de pesquisas. — ele respondeu simplesmente enquanto saía.
Vi a secretária se aproximar dele e dizer:
— A senhora Yuna Honshu ligou mais uma vez tentando marcar uma reunião.
— Não tenho interesse em falar com ela. — foi a resposta seca dele, antes de a porta ser fechada.
Fiquei alguns minutos pensando sobre o que ele havia dito sobre centros de pesquisa. Acho que Nagi ficou reclamando a noite toda sobre não ter um centro de pesquisa para fazer aquele trabalho devidamente. Mas ele deve ter falado tanto, mas tanto, que Sesshoumaru provavelmente ficou de saco cheio.
Olhei para a pilha de livros. As chances de o meu marido estar atendendo um desejo de Nagi é muito, mas muito remota, então só posso acreditar que Sesshoumaru está usando isso como desculpa para me manter ocupada aqui, enquanto ele trabalha. Sinto como se eu tivesse três anos e precisasse ser distraída com papéis e gizes de cera. Imagino se ele seria assim se tivesse um filho. Não que isso seja possível.
Então, vamos dançar conforme a música dele e estudar um pouco. Dei uma olhada rápida, registrando que os livros, em geral, tratavam apenas sobre economia e história do Japão. A parte de economia até entendo, mas história? O que tinha a ver com abrir um instituto de pesquisa? Lancei um olhar para Sesshoumaru e suspirei. Não faria mal algum estudar, se era o que ele queria.
Coloquei meu celular para despertar quando fosse o horário para ir ao hospital e depois abri o primeiro livro. Estou sendo relapsa com a minha residência. De certa forma, sinto como se estivesse de novo na escola, onde faltava sempre por culpa de estar na Era Feudal recuperando todos os fragmentos da Joia de Quatro Almas.
Afastei as lembranças de minha mente e sentei na cadeira de Sesshoumaru. Simplesmente comecei a espalhar os livros sobre a mesa dele, em seguida, apanhei uma caneta e comecei a estudar, escrevendo notas ocasionalmente no livro (sei que ele vai ficar irritado por isso, o que é mais um motivo para fazê-lo). Não sei quanto tempo se passou, mas, de repente, tive minha atenção desviada pela secretária que entrou, colocando uma bandeja de café-da-manhã na mesa de centro que ficava em frente ao sofá. Ao notar que eu estava observando, ela fez uma reverência e saiu. Acompanhei ela com o olhar, admito que tenho sérios problemas com pessoas que quebram a minha concentração.
Suspirei irritada. Não gostei da moça. Tudo bem, ela trouxe comida, darei um desconto. Até porque sentir o cheiro fez com que eu lembrasse que estava morrendo de fome. Biscoitos não são lá um jantar que sustente muito. Certo, não estou mais irritada, apenas estou com fome. Levantei e segui até o sofá, sentando e puxando a bandeja para mais perto.
Fui invadida por uma sensação estranha, então olhei para o lado.
— AH! — Pulei para o braço do sofá enquanto Sesshoumaru nem ao menos desviava o olhar. — Desde quando está aí?
Ele não respondeu, apenas ficou encarando o documento que lia, incrivelmente compenetrado. Chutei a concentração dele tirando o documento de sua mão, quase devolvi quando ele estreitou os olhos para mim.
— Fiz uma pergunta. — argumentei.
— Algum tempo. — Ele se inclinou para pegar o documento de minha mão, mas fiquei em pé a tempo, levando minhas mãos para trás e tirando-o do alcance dele.
— Quanto tempo?
Ele se limitou a me encarar com aquela cara de irritação.
— Você pode apenas responder? — Ele se levantou e eu dei alguns passos para trás. — Sabe, apenas dar uma resposta direta sem que eu precise deduzir o que você está pensando? Sério, não aguento mais ter que ficar adivinhando o que você quer.
— Estou aqui a exatamente uma hora e vinte e quatro minutos. — Ele avançou mais um passo, recuei dois.
— Estranho, por que não mandou eu sair da sua cadeira? — perguntei, imitando a expressão dele e estreitando os olhos também, embora eu tenha certeza que parecia mais que eu estava brincando do que tentando intimidá-lo.
— Não preciso estar nela para trabalhar.
— Ora, estamos falantes. Gostei disso. — respondi, sorrindo lentamente.
— Está me atrasando, Kagome.
— Você jantou ontem? — Ele é rápido, segurou o meu braço antes que eu pudesse me afastar. — Jantou? — perguntei, sem soltar o documento e tentando encará-lo, mesmo com o fato de ele estar tão perto e ser tão mais alto do que eu.
— Não tenho fome. — foi a resposta azeda. O nome dele deveria ser Azedo Taisho.
— Respostas diretas. — Indiquei. Como ele se aproximou mais, pude notar a tensão do maxilar dele quando ele apertou os dentes. Olhe só como ele é uma gracinha irritadinho. — Jantou?
— Não.
— Ainda está em jejum? E nem venha com ideias sobre ser youkai pois sei que vocês precisam se alimentar. — reclamei.
— Kagome. — aquilo soou como advertência, mas não me importei.
Virei o corpo em duzentos e oitenta graus e joguei os documentos na mesa. Senti ele soltar meu braço, mas eu fui mais rápida: segurei o dele antes que pudesse seguir até a mesa, juntei toda a força que tinha e o empurrei para se sentar no sofá.
O mais estranho dele ter deixado que o empurrasse foi ele não ter me matado em seguida. Definitivamente era esquisito que ele deixasse que eu fizesse o que eu quisesse; foi ainda mais estranho quando sentei ao seu lado, comecei a nos servir e Sesshoumaru apanhou a comida e se alimentou... Sim, ele comeu! Quieto, com as sobrancelhas franzidas e parecendo que queria vender meus órgãos no mercado negro — o que importa é que ele estava se alimentando. Aquilo era estranho, mas resolvi deixar de lado esse pensamento e me servi com um pouco de salmão.
Ótimo, esse silêncio constrangedor é realmente aconchegante. Acredito que essa é nossa primeira refeição juntos. Refeição efetiva, pois as outras se resumiram em eu estar comendo e ele estar aperfeiçoando suas técnicas de ser inatingível. Balancei a cabeça, afastando aqueles pensamentos de minha mente, voltei a comer tentando não ligar para o homem ao meu lado.
Alguns minutos depois eu estava comendo tudo que havia sobrado, pois achei que era uma falta de respeito não terminar de comer, enquanto que Sesshoumaru se levantou e pegou os documentos sobre a mesa. Observei-o se sentar na cadeira e soltei um suspiro, arrumando tudo dentro da bandeja a levando para fora do escritório, onde uma mulher saída de uma fenda dimensional pegou a bandeja de minhas mãos e saiu pomposa pelo corredor. Voltei para o escritório e segui até a mesa de Sesshoumaru. Apenas para irritá-lo, apoiei-me nele para pegar o livro que estava lendo e meu celular esquecido ali no canto.
Ele olhou de esguelha para mim, sorri e fui para o sofá e por lá permaneci por um longo tempo, até minhas costas começarem a formigar por causa da má postura. Estralei o pescoço e cocei os olhos, estava começando a ficar cansada com tanta leitura e com dor de cabeça por causa da montanha de informações que estava tentando absorver.
— O Imperador Meiji parecia ser muito obcecado com a imortalidade. — comentei, sem tirar os olhos do livro. Os humanos eram realmente previsíveis. Chegava a ser engraçado que desejassem tanto coisas como vida eterna e jamais tenham percebido criaturas como os youkais à sua volta — Como Shippou, Hideo e você fazem? — perguntei para Sesshoumaru — Ninguém notou que vocês não envelhecem? Quer dizer, vocês são figuras públicas e tudo o mais.
Pensei que ele me ignoraria, mas apenas ouvi um:
— Os humanos enxergam o que querem.
Sorri em razão de ele ter me respondido e então acenei afirmativamente, concordando com o que ele havia dito. Coloquei o livro na mesa de centro e olhei para a pilha de livros que ainda faltava. Sesshoumaru acha que sou uma máquina? Estou na metade do primeiro livro e tem mais uns dez ali.
Aliás, que horas são? Apanhei meu celular sobre a mesa, estava quase no horário do almoço... Olha só, li metade desse livro monstro em meio período, sinto que sou meio sobrehumana, acho que a convivência com esses demônios está surtindo mais efeitos que o esperado. Percebi que havia cinco chamadas perdidas no meu celular, não me lembro de ter colocado no silencioso. Retornei a ligação.
— Kagome? — Himiko perguntou, com voz abafada. Franzi o cenho, estranhando isso. — Você tem que vir ao hospital. Kayanno não está respondendo bem à quimioterapia. Ela está na UTI.
O quê?!
Ladie:
Oi, gente! Promessa é promessa! A partir desse capítulo, Mary e eu estamos de férias. Vamos fazer uma pausa de um mês. Voltamos a postar no dia 02 de maio.
Hum, tá, temos uma proposta para fazer para vocês. A Ka postou uma review e disse que "essa semana reli a fic inteira, sério, acho que a primeira vez que li estava tão obcecada para achar o sesshy que não percebi 80% da fic, foi engraçado reler e perceber tantas coisas novas, inclusive descobrir gostar de tantos personagens e trechos da fic". E percebemos que isso pode ter acontecido com muita gente, por que Mary e eu temos uma mania: nós jogamos nos capítulos informações que só vamos usar muito para frente. São easter eggs. A maioria das coisas que usamos agora, já tínhamos comentado antes. O que vocês mais pegaram foi sobre a filha do Sesshoumaru, mas SN tem dezenas de outros easter eggs. Então que tal aproveitar esse hiato de um mês e reler Senhor do Norte?
Nós também vamos fazer isso. Talvez vocês encontrem coisas na fic que vocês sequer imaginam.
Por exemplo, vou deixar aqui embaixo uma lista de easter eggs para vocês acharem. Sempre que acharem um, basta nos deixar uma review. Que tal?
— O gato da Kagome já morreu.
— O Nagi não deixou a Kagome beber na primeira festa com o Seshoumaru... Bem, por que ele sabe como ela fica bêbada.
— Aika estava grávida do Hideo no primeiro ataque dos yaoguais (do qual o Takashi a salvou), mas perdeu o bebê.
— Os carros de Sesshoumaru sempre são prateados. E não para "combinar", mas por causa de Kazuki, que fez uma pesquisa minuciosa e descobriu que carros prateados são os que mesmo se envolvem em acidentes, por serem facilmente vistos de noite.
— Sabia que todas as empresas e pessoas de Senhor do Norte existem? Não? Jogue o nome Hideo Muroaka no google e divirta-se.
— Ryuuji tem uma queda pela Hiroko. (Por que vocês acham que ele e Nagi não se entendem?)
— Ryuuji tem um irmão mais velho (sim, e ele já foi citado antes).
Ah, além dos easter eggs, também quero deixar dois testes. Primeiro, quero contar um segredo para vocês. Nós usamos a Missing Scene do Nagi (chapter 13) como termômetro para o relacionamento do Sesshy com a Kagome. Por exemplo, quando vocês leram ela pela primeira vez, provavelmente não sentiram que a Kagome fez algo errado. Mas, se forem ler agora, o sentimento vai ser meio diferente. Aliás, quando, para vocês, a Kagome e o Sesshy finalmente estiverem prontos para ficarem juntos, então vocês não vão conseguir ter um sentimento bom lendo a Missing Scene. Façam esse teste e nos digam.
Ah, aqui está uma lista de características da história original (mangá e anime) que usamos para basear SN. Deem uma olhada também:
— No anime, os ferimentos da Kagome se curam de um dia para o outro. Se curam mais rápido, inclusive, do que os ferimentos do Inuyasha.
— Sesshoumaru na verdade não é tão impassível quanto tendem a se lembrar. Ele é muito irritadiço e dado a rompantes de raiva apenas para satisfação fugaz (como maltratar o Jaken).
— A Kagome na verdade é muito retardada no anime. Faz coisas sem pensar (como mandar o Inuyasha tirar a roupa só para curar os ferimentos dele) e parece que não tem o filtro do "bom senso". O comportamento dela já apresentava "excentricidades", imaginem o que conviver com Daiki e CIA não fez a esse potencial.
— Sesshoumaru tem comportamento de cachorro em sua forma animal (lamber ferimentos, latir, rosnar).
— É no tempo do Oda Nobunaga (Hattori Hanzo).
— Quando ela tem que entrar pela primeira vez no reforço de matemática, as amigas comentam que já estão acostumadas, mas que para ela deve ser um choque fazer algo assim pela primeira vez. Kagome sempre teve as melhores notas da turma.
— Sesshoumaru é um verdadeiro poeta da zoação. Tem um prazer especial em achar sinônimos para descrever quão desnecessário é o nascimento de Inuyasha. Em seu auge, diz que o nascimento de Inuyasha foi um "pináculo da desgraça". Na verdade, Sesshoumaru é bem tagarela. Ah, ele também julga o Inuyasha como tedioso. Sesshy, você não se enxerga?
— Kagome tem olhos azuis no mangá.
— Kagome tem cabelo azul-negro no anime e no mangá (já chegaram a observar isso?).
— Inutaisho era Senhor do Oeste (exatamente com essas palavras). Dúvidas? Assistam o episódio 05 do anime.
— Sesshoumaru tem libido e senso de decoro. A prova? Ele fica de costas ao ver Kagura seminua, enquanto Jaken não se incomoda em absoluto em resguardar a privacidade dela.
— Kagome tem o péssimo costume de proteger qualquer um. Principalmente quem tenta fazer mal a ela. Parece até que ela é portadora de Síndrome de Estocolmo eterna.
— Kagome apresenta uma força bem incomum (ninguém notou que ela ergue uma bicicleta carregada de coisas por um poço de cinco metros de profundidade?).
Então, é isso, vamos ficar com muita, muita, muita saudades de vocês.
(Fkake e eu tínhamos cogitado a possibilidade de postar mais um capítulo, mas aí demos uma olhada em qual era o próximo capítulo e chegamos à conclusão que seria muita maldade fazer vocês esperarem um mês pelo capítulo seguinte. Esse tá mais tranquilo para segurar a ansiedade)
Beijos da Ladie
