Capítulo LV — Cadela é tua mãe
— Ainda faltam quantas horas? — questionei para Dmitri enquanto ele encara o relógio no pulso com expressão preocupada.
— Precisamos fazer escalas para reabastecer… Umas dez horas. — respondeu — Nós vamos chegar pouco depois que a Convenção tiver terminado.
Massageei o peito ansiosamente. Já estávamos viajando há mais de quatorze horas. O avião particular de Sesshoumaru era confortável, mas eu não conseguia relaxar o suficiente para dormir. Isso significava quatorze horas pensando em todo tipo de bobagem. E o mais assustador de tudo isso era perceber como me abalava a ideia de que algo acontecesse com Sesshoumaru.
Não havíamos conseguido entrar em contato com Sesshoumaru ou Kazuki porque eles estavam viajando, então Dmitri e eu decidimos não esperar que eles chegassem ao destino e pegamos a estrada (quer dizer, não necessariamente) o quanto antes fosse possível — embora o quanto antes tenha demorado muitas horas. Agora que estávamos viajando há tantas horas eu começava a me questionar se tinha tomado a decisão correta. Talvez eu conseguisse contatá-los se tivesse esperado ou talvez eles não notassem as dezenas de mensagens que deixamos ou talvez já fosse tarde.
Droga.
Suspirei e encostei-me na poltrona, encarando pela janela um céu tão azul que causava pulsos de dor em minha cabeça. Onde estaríamos agora? Que diferença fazia realmente? Só havia tons de azul e tons terrosos desde que saímos de Naha. E ainda havia outras longas dez horas para pensar na possibilidade de perder Sesshoumaru.
Foram as dez horas mais angustiantes da minha vida.
— O que está acontecendo? — perguntei impaciente para Dmitri. Estávamos a uma hora esperando na imigração para que liberassem a nossa entrada no país. Parece que tudo é burocracia para esse povo.
— Estão analisando meus documentos. — Dmitri respondeu, massageando a testa — A minha mãe era russa, sempre tenho problemas quando tento entrar nos Estados Unidos. Os seus já foram liberados.
— Será que eles vão demorar muito?
— Uma vez já me fizeram esperar todo um dia antes de me liberarem. — ele respondeu — Meus antecedentes às vezes não batem. Isso acontece porque tenho cem anos de idade, mas eles acham que eu sou algum espião da KGB.
— Não temos um dia inteiro. — comentei angustiada — Que inferno! Kazuki ou Sesshoumaru atenderam?
Ele negou com a cabeça, discando o número de algum deles pela enésima vez.
— Tentei Ryuuji também, mas ninguém atende. — ele disse.
— Meu relógio diz que é quase oito horas da manhã. — falei, ligando a tela do meu celular — Isso quer dizer que a gente está a quase quarenta e oito horas sem dormir. Que horas são aqui? A gente ganhou ou perdeu um dia?
— A gente perdeu. — ele disse, olhando o celular também — São 17h48 da tarde. A Convenção deve estar acabando. — Dmitri apertou o celular, irritado — O que meu pai quer com esse celular desligado? E esses putos ainda resolvem arranjar problemas nos meus antecedentes logo hoje?
— Eu estou liberada, não é? — perguntei, já pegando a minha bolsa e os documentos que ele havia deixado no banco.
Antes que Dmitri percebesse minhas intenções, eu já andava apressada para a saída da sala de espera. Entreguei meus documentos para um agente do aeroporto e ele liberou minha passagem com um aceno curto e uma frase ensaiada de boas-vindas.
— Senhora Kagome! — exclamou Dmitri, tentando me seguir, mas foi impedido por dois brutamontes uniformizados. Olhei por sobre o ombro e lancei um sorriso de desculpas para ele. Eu realmente não podia ficar esperando enquanto Sesshoumaru corria perigo. Por mais que eu soubesse que ele era poderoso, eu também estava consciente de que um ferimento raso seria suficiente para condená-lo, assim como os yaoguais haviam feito com o meu pai.
Parei, olhando em volta. Era um ambiente limpo, branco, cromado, brilhante. Tinha um teto interessante e janelas altas. Aquele era o Aeroporto Internacional Washington Dulles, de acordo com uma placa negra de letras prateadas pendurada acima da minha cabeça. Essa sou eu, sozinha, em um país desconhecido, agindo impulsivamente. Não que eu ache que vai ser mais estranho que pular num poço e sair quinhentos anos no passado, mas ainda acho que é razão para um ligeiro estresse.
Certo. Prioridades. Preciso pegar algo que veio no avião. Segui a plaquinha até a área de desembarque de bagagens. Por ser um voo particular, as bagagens haviam passado pela alfândega e estavam esperando na esteira para que fossem recolhidas por alguém. Só que não era a bagagem que eu queria e sim um pequeno kennel amarelado que esperava em um carrinho.
Um funcionário da Receita Federal esperava atrás de um balcão. Segui na direção dele e fui informada, em um inglês formal e educado, que a bagagem havia sido liberada e que ele estava em posse de todas as documentações. Apresentei meu passaporte, informei que outra pessoa pegaria as bagagens e que eu queria apenas os documentos referentes ao kennel. Ele me entregou o Certificado Zoosanitário Internacional. Sorri e inclinei-me ligeiramente, em um agradecimento. Segui até o kennel, acocorando-me para ver o seu interior. Engraçado ninguém ter notado que eu havia trazido uma gatinha nada comum, com detalhes vermelhos e dois rabos. É realmente como disse Sesshoumaru, os humanos enxergam o que querem.
— Como foi a viagem, querida? — perguntei para Kirara, que apenas coçou uma orelha com a pata — Está muito cansada?
Ela miou ligeiramente. Sorri, levantando-me e pegando a alça do kennel. Shippou ficara atormentado com a ideia de não poder me ajudar (não havia tempo para organizar uma viagem comigo até o outro lado do planeta) e havia mandado Kirara com uma documentação otimista de que ela era um gato de espécie rara.
Eu acredito que Dmitri havia comentado que o aeroporto ficava há uns trinta quilômetros do centro comercial da cidade, onde ficava a sede do Banco Mundial, local da Convenção. Ter uma gata demônio com supervelocidade vinha a calhar melhor que um táxi.
— Você acha que pode encontrar Sesshoumaru? — perguntei, abrindo o kennel e deixando que Kirara saísse. Olhei em volta para ter certeza que não havia qualquer pessoa por perto. Quando voltei a encará-la, ela havia se transformada numa gata gigante. Levei a mão ao peito, surpresa por um momento. — Nossa. Nossa! Eu tinha me esquecido disso! Não me assuste desse jeito.
Ela encostou o focinho na minha mão, e acabei sorrindo, fazendo carinho em sua cabeça deslizando a mão até o torso.
— Devo entender isso como um sim? — questionei, ela empurrou o focinho contra mim novamente, dessa vez com mais força — Certo. Então faça sua mágica. E tome cuidado. Ninguém vai querer que saia nos jornais que uma gata gigante com patas em chamas foi vista disparando pela cidade, não é?
Subi em seu torso e agarrei seu pelo. Um sentimento de nostalgia me atingiu. Nunca, em todos esses anos em que se passaram desde a última vez que fui levada por Kirara, ocorreu-me que poderia viajar dessa forma novamente. Dessa vez, estava preocupada em não ser vista, o que tornava tudo mais estressante. Eu não parava de pensar que a qualquer momento apareceria algum helicóptero de alguma emissora que anunciaria que uma mulher viajava montada em um felino com patas de fogo. Isso seria divertido demais, demais. Isso e mais o estresse de pensar que deveria ser mais rápida para conseguir chegar até Sesshoumaru e o avisar sobre os planos dos yaoguais.
Kirara parou de repente. Estava costurando entre os becos, tão rápido que, se fosse vista por alguma pessoa, seria tomada por alguma ilusão; então, quando ela parou de repente, eu tive que me agarrar aos seus pelos para não cair.
— Não podemos parar, Kirara, alguém pode nos ver. — falei, inclinando-me para tentar olhar para seu rosto. Ela virava a cabeça de um lado para o outro, cuidadosa. Olhei em volta, o beco era escuro e apertado e havia pouquíssima chance de que nos vissem da rua. Olhei novamente para Kirara. — O que você está percebendo?
Como um chicote estalando, Kirara voltou a se mexer, ainda mais rápida e freneticamente que antes. Soltei o ar num fôlego por causa do movimento brusco.
— O que foi?! — questionei, embora não tenha certeza que ela tenha me ouvido, já que o ar sibilava em volta de nós enquanto ela o cortava. Kirara ganhou altura ansiosamente e então alguma coisa muito pesada se chocou contra nós, tirando-me do torso dela e nos jogando contra a cobertura de um prédio.
Soltei um gemido, ao perceber que eu havia atingido dolorosamente alguma coisa sólida. Abri um olho a contragosto e olhei em volta. Kirara estava levantando-se a poucos metros de mim. Mesmo sem saber o que havia acontecido, eu peguei a primeira coisa que estava ao meu alcance para usar como arma. E era uma barra de ferro. Uma barra de ferro, sério? Não é um taco de beisebol ou coisa assim, mas ainda é uma ótima coisa para se ter em mãos quando se é atacada.
— O chefe mandou pegá-la, princesa. — soou uma voz masculina em chinês.
Yaoguais.
Levantei-me rapidamente, virando para encarar meu agressor: um rapaz baixo de cabelo de um ruivo tão artificial que parecia um palito de fósforo — fiquei tentada a esfregar a cara dele no chão para ver se entraria em combustão instantânea. Mas, claro, ele não estava sozinho; havia outros dois com ele.
Segurei a barra de ferro com as duas mãos e senti Kirara aproximar-se de mim.
— Tenha calma, gatinha, e vai ficar tudo bem. — disse o que estava à minha esquerda, erguendo uma mão — Só precisamos levar a cadela para atrair o macho dela.
— Por que ninguém ensina a falar palavrão nos cursos de mandarim? — rosnei, irritada.
Olhei para Kirara e tudo se ajeitou em segundos, como se todos os anos passados desde a última batalha que enfrentamos juntas não tivessem passado. Ela pulou na direção do yaoguai à minha frente e eu girei a barra com força, enfiando uma de suas pontas no peito do yaoguai que havia se aproximado de mim.
Foi tão rápido, que ele sequer percebeu o que aconteceu. Meu poder de sagrado agia e a barra era o caminho. Eu o vi arregalar os olhos e tentar me afastar, mas eu empurrei com mais força, derrubando-o, ferindo. Os olhos reviraram nas órbitas e ele parou de se mexer.
Puxei a barra de ferro e a agitei. Por mais horrível que fosse ver o sangue pingando, aquela ainda era a única arma que eu tinha.
Sou uma Kil Bill nipônica.
Poxa, Kagome, deixa de ser retardada.
Cabeça de Fósforo ainda estava parado, surpreso. Kirara prendia o outro sob as patas e abaixou a grande cabeça, apertando o pescoço dele com a mandíbula. Ele gritou, ouviu-se um estralo, e este também estava silenciado.
Eram fracos. Isso feria um pouco o meu orgulho, mas, ao mesmo tempo, deixava-me aliviada. Cabeça de Fósforo só tinha duas opções: ou atacava ou corria. Ele resolveu atacar. Segurei minha arma improvisada de prontidão quando o vi impulsionar-se na minha direção, mas toda a minha segurança se desfez quando um vulto alto passou ao meu lado e interceptou o yaoguai no meio do caminho.
Era um homem. Ele tinha cabelos prateados, e por um momento de alívio e ansiedade extremos, pensei que fosse Sesshoumaru; mas não era. Esse tai-youkai usava o uniforme de camuflagem do exército americano, incluindo coturnos e uma automática presa à coxa direita. Ele segurou a gola da camisa do yaoguai e parou-o, empurrando-o com força para baixo e forçando-o a se ajoelhar.
Por um momento, eu não acreditei no que estava acontecendo. O tai-youkai tirou a arma do coldre e descarregou-a entre os olhos de Cabeça de Fósforo. O som dos disparos ecoou; o vermelho do sangue fez com que seu cabelo parecesse mais natural. Observei, estática, enquanto o via cair de lado, com o rosto completamente desfigurado.
O tai-youkai tirou o pente de sua automática e olhou com desgosto ao perceber que não tinha mais munição. Então, virou-se para mim. Ele era uma versão mais bonita e menos forte de Ryuuji, notei.
— Oi, Kagome. Nossa... Há quanto tempo, hem? — ele cumprimentou. Franzi o cenho ao perceber que reconhecia sua voz, mas sem saber precisar de onde.
— Você sabe quem eu sou... — comentei retoricamente.
O tai-youkai abriu um largo sorriso e acenou afirmativamente.
— O quimono dele ainda guarda o seu cheiro.
Antes que eu pudesse questionar, no entanto, uma voz masculina soou perto de nós:
— Você usou uma arma?! — Virei-me e me deparei com Ryuuji, vestindo calça jeans e camiseta regata preta. — Sério? Uma arma de fogo?
— Mano, o meu negócio é chumbo. — O tai-youkai respondeu. Ryuuji e o desconhecido olharam os dois yaoguais que Kirara e eu havíamos matado e se entreolharam, em uma conversação silenciosa. Muralha ainda lançou um olhar desconfiado para mim, como se não acreditasse que aquilo havia sido obra minha, mas acho que mudou de ideia ao ver a barra de metal ensanguentada que eu segurava. — Temos que ir.
— Quem é você? — perguntei finalmente recuperando fôlego e sentindo Kirara empurrar a cabeça por baixo do meu braço.
— Eu sou Richard Grimlock, general do Corpo de Fuzileiros Navais. — respondeu, sério. Então piscou — Pensei que você fosse me reconhecer. Todo mundo diz que minha voz é inesquecível.
— Corta o papo fodido. — rosnou Ryuuji — Não temos tempo. Você e Dmitri demoraram o inferno para chegar, hanyouzinha. Aliás, cadê o inútil?
— Teve problemas com a imigração. — respondi de forma ausente. Ryuuji lançou um olhar acusatório para Richard, que apenas deu de ombros. — Espera, vocês estavam nos esperando? Onde está Sesshoumaru? Nós precisamos avisá-lo que os yaoguais estão…
— Aqui. — Richard me interrompeu, jogando uma bolsa de lona preta na minha direção, a qual eu peguei por puro reflexo. Soltei a barra de ferro para segurar o peso da bolsa e encarei Richard, confusa — Sesshoumaru pediu para que trouxéssemos isso para você.
Abri a sacola, deparando-me com um objeto negro de estrutura metálica que parecia mais um daqueles protetores de telas antigos do Windows onde um monte de canos entrelaçavam-se uns nos outros. Tirei-o da sacola, tentando compreender o que seria.
— Segure na parte texturizada e agite-o uma vez no sentido horizontal. — instruiu Richard. Olhei para ele por alguns segundos e fiz o que ele mandou. A estrutura se desdobrou e se encaixou e, surpresa, percebi que tinha em mãos um arco profissional, daqueles que se via nos campeonatos, só que sem as estruturas de auxílio que só atrapalhavam se usadas em provas de tiro-rápido.
Na bolsa de lona também havia flechas de material sintético, um suporte de couro para flechas que se prendia na cocha e uma luva de tiro.
— Eu nunca usei um desses. — falei, enquanto vestia a luva na mão direita — Vamos torcer para não ser muito diferente do arco convencional.
Afivelei o suporte na minha perna e testei o peso do arco com a mão esquerda. Era leve. Deliciosamente leve. Retesei a corda, satisfeita com a tensão que senti em meus dedos. Sorri para Richard.
— Bem melhor do que a barra, não acha? — Richard perguntou, com um sorriso torto — Vamos lá. Sua gata consegue nos seguir?
— Pode apostar que sim.
— Parem de conversa! — exclamou Ryuuji, já na beirada do telhado — Temos um caminho longo até o Smithsonian.
Pensei que tinha ouvido mal quando Ryuuji disse "Smithsonian". Só que não estava. Ele realmente estava querendo dizer que iríamos ao maior complexo de museus e centros de pesquisa do continente americano.
Eles só podem estar brincando, não é? Eles acham mesmo que nós vamos passar despercebidos por um sistema de segurança de alta tecnologia com uma gata gigante de dois rabos que tinha partes do corpo em chamas? Eu realmente acho que não, mas não argumentei, apenas me equilibrei enquanto Kirara aterrissava diante do Museu de Arte Americana.
— No Museu de Arte? — questionou Ryuuji para Richard desconfiado. Depois de apenas receber um dar de ombros como resposta, Muralha suspirou, cansado. — Tem certeza que desligou o sistema de segurança, né? — perguntou.
Richard lançou um olhar superior para Ryuuji e apenas disse:
— Algumas décadas servindo de Executor e já esqueceu quem lhe ensinou tudo, moleque?
— Pare de perder tempo. — Ryuuji resmungou — Vamos de uma vez.
Eles entraram pela porta da frente. Simples assim: sem trancas, alarmes ou guardas; apenas entraram. Lancei um olhar avaliativo para Kirara, que diminuiu de tamanho e pulou no meu braço direito. Segurei-a contra o meu peito, sussurrando para que ela se mantivesse alerta. Eu realmente tenho medo de descobrir o que eles poderiam estar tramando fazer.
— Isso é realmente legal? — questionei, seguindo os dois.
— Fique em paz, Kagome. — disse Richard, olhando por sobre o ombro e sorrindo — Eu sou um dos colaboradores da segurança do Smithsonian.
— Certo… É que eu realmente preciso falar com Sesshoumaru. — comentei — Eu vim de Naha praticamente para poder avisá-lo que…
— Você 'tá perdido nessa porcaria, né? — exclamou Ryuuji para Richard interrompendo-me — Se a gente chegar atrasado por sua causa, eu vou mandar o Kazuki arrancar o seu couro, que foi você que inventou essa putaria de vir buscar composto aqui.
— Quando sairmos daqui, vou comprar um sorvete para você. — Richard disse, dando tapinhas na nuca de Ryuuji — Você virou um ogro. Não te criei para ser assim.
Ryuuji apenas afastou o irmão com o braço e fez um barulho de irritação com a boca. Nada de palavrões ou ameaças, apenas um comportamento de afeição tipicamente masculino.
— Que composto? — questionei.
— É, Richard, que composto? — repetiu Ryuuji ironicamente — Também quero saber.
— Achei. — respondeu Richard, ignorando nossas perguntas e abrindo a porta de uma sala — Esperem aqui fora para evitar que o alarme soe.
Cinco minutos depois ele saía da sala de mãos vazias.
— Pronto, Branca de Neve, pegou a maçã? — questionou Ryuuji.
— Se eu desmaiar você vai ser o príncipe que vai me acordar com um beijo?
Ryuuji ficou encarando o irmão com uma expressão ligeiramente nauseada.
— Isso foi muito gay, cara. Em um nível que você sequer imagina. Pode parar com as viadagens.
— Segure minhas mãozinhas e me obrigue. — respondeu Richard — Vamos embora? Vamos embora.
Estávamos passando pela cidade pela enésima vez. Eu simplesmente tinha que achar Sesshoumaru, mas esses tai-youkais ficam indo de um lado para o outro sem nenhum motivo visível. Tenho certeza absoluta de que passamos três vezes por essa cafeteria em formato de contêineres.
Só percebi que eles seguiam rastros quando eles se entreolharam e acenaram afirmativamente um para o outro, aumentando a velocidade. Tenho certeza que não estamos indo para o Centro Financeiro. Quando eles vão parar de passear e finalmente me levar até Sesshoumaru?
As construções e as luzes não passavam de borrões em volta de mim. Chegou um momento em que precisei segurar-me mais forte no pelo de Kirara e concentrar-me nas costas de um dos dois tai-youkais para controlar a vertigem.
Então eles pararam. Kirara parece ter visto algum sinal invisível, porque parou junto com eles.
Desci. Tudo parecia rodar, então demorei alguns segundos para perceber que estávamos no telhado de um armazém. Os dois tais estavam parados na beirada do telhado, observando algo no chão. De costas, eles eram ainda mais parecidos, mesmo com o fato de Richard ser menos forte que o irmão. A mesma postura, o mesmo tamanho dos ombros e as proporções de membros.
Aproximei-me deles, para ver o que tanto lhes prendia a atenção… E então o ar me faltou.
Era Sesshoumaru, vestido em um terno escuro, com as mãos no bolso, parado no meio da rua. Em volta dele, havia dezenas de yaoguais e um deles era o mesmo homem que eu havia visto tantos anos atrás, no estacionamento em Taiwan.
Meu coração falhou uma batida.
— Sesshoumaru… — sussurrei. Dei um passo a frente, mas uma mão fechou-se no meu braço, impedindo-me.
— Calma aí, hanyouzinha. — ralhou Ryuuji rosnando.
Senti algo úmido escorrer pela minha calça jeans e olhei para baixo, surpresa. A única coisa que consegui ver foi a mão de Richard segurando um vidro vazio. O conteúdo ele havia derramado no suporte das flechas preso a minha cocha.
— O que é isso? — questionei.
— Vamos dizer que é nossa própria versão do Composto Yong037. Uma versão mais maneira, mais heavy metal, sabe como é? Não se preocupe, não vai fazer mal algum a você, mas não deixe isso entrar em contato com qualquer um de nós. — Ele abaixou o rosto para me encarar, piscando um olho e erguendo uma mão com o polegar erguido — Tente usar suas flechas.
Não tive tempo de questionar o que ele queria dizer, de repente só vi dois cães prateados gigantes passando ao meu lado em direção à cena aterrorizante que acontecia no chão. Eram Ryuuji e Richard, em suas versões youkais. Eram semelhantes a Sesshoumaru apenas por serem cães e terem pelo prateado, mas eram bem menores e tinham orelhas e focinhos mais curtos. Eles atacaram no exato momento em que alguns yaoguais se adiantavam contra Sesshoumaru.
Vi Kazuki aproximar-se e entregar a Bakusaiga para o meu marido, antes de se transformar também. Depois disso, tudo virou um pandemônio. Mesmo sob a luz amarelada dos postes, nenhum humano acreditaria se visse aquilo. Os yaoguais começaram a se transformar, tomando variadas formas animais encontradas no leste asiático. O próprio yaoguai que eu havia visto no estacionamento se transformou numa criatura humanoide que poderia facilmente passar pelo minotauro da mitologia: metade humano, metade touro. Foi quando finalmente percebi que ele era Niu Mo Wang, o Grande Rei Touro; um Mówáng como Hu.
Sesshoumaru apenas estava parado no meio do embate, segurando a Bakusaiga com a mão direita e encarando Niu Mo Wang, esperando que ele tomasse a iniciativa.
O Grande Rei Touro bufou, arranhando o chão com os cascos e agitando a cabeça. Não esperei que ele agisse, simplesmente peguei uma flecha no suporte e mirei. A flecha zuniu, cortando o ar com velocidade que eu jamais vi uma flecha ter... mas eu errei o alvo; ela passou a alguns centímetros da cabeça de Niu Mo Wang e acertou em cheio um panda vermelho gigante atrás dele. Maldição. O arco era realmente diferente do convencional de madeira com o qual eu estava acostumada.
Os olhos do touro se ergueram para o telhado e fiquei tentada a acenar, mas ainda temia pela minha morte, e a única coisa que fiz foi pegar outra flecha no suporte. O Grande Rei Touro urrou para mim. Atrás dele, o panda vermelho caía ao chão, tremendo, encarando horrorizado seu pelo que escurecia, caía, o couro que enrugava e ressecava e, então, começava a se desintegrar. Tecidos, ossos, cartilagens... Tudo se desfez em questão de segundos, como se eu estivesse vendo um vídeo acelerado da decomposição de um corpo.
Richard não estava brincando quando havia dito que aquilo que derramou em minhas flechas era algo heavy metal.
Aquilo com certeza chamou a atenção dos yaoguais em volta, inclusive de Niu Mo Wang, que parou o que fazia para olhar surpreso para o que acontecia. Sesshoumaru não deixou que ele se distraísse por muito tempo, tirando a Bakusaika da bainha e falando alguma coisa, a qual eu não pude ouvir dessa distância, mas causou uma reação de fúria em Niu Mo Wang, que agitou a cabeça furiosamente e se jogou contra Sesshoumaru.
Meu marido apenas desviou do ataque, quase como se estivesse caçoando do Grande Rei Touro. Eu não podia acertar o Rei Touro naquele momento, pois ainda estava me acostumando com o arco. E se porventura eu acertasse Sesshoumaru? Eu com certeza morreria antes que a poção hardcore fizesse efeito nele.
Respirei fundo e coloquei duas flechas no parapeito a minha frente. Guardaria aquelas para o Rei Touro. Espero que dois disparos sejam o suficiente para que eu o acerte.
Apanhei uma flecha no suporte e mirei em um yaoguai. Parei de ouvir a luta que estava acontecendo ao meu redor, esperei que Richard se afastasse do inimigo e soltei a flecha, acertando o yaoguai. Recebi um olhar de questionamento silencioso de Richard, como se ele perguntasse se eu estava tentando matá-lo.
A boa notícia: um inimigo a menos.
A má notícia: os yaoguais entenderam que precisavam se livrar o quanto antes da minha digna pessoa.
Ainda abati alguns, antes deles me alcançarem no telhado. Abaixei-me, bem a tempo de conseguir desviar de uma pequena explosão que aconteceu exatamente onde eu estava na parede externa do prédio. Notei que a explosão deixou vestígio de garras, ergui a vista para ver um felino de pelo branco e marrom-esverdeado, parecia um gato meio humano, ou um humano meio gato. Eu nunca sei a diferença entre um copo meio cheio ou meio vazio.
Kagome não é hora de ficar viajando em seus pensamentos idiotas.
Desviei do outro ataque segundos antes de suas garras cortarem o ar na altura do meu pescoço. Com o susto eu havia jogado meu corpo para trás, perdendo o equilíbrio. Por sorte, consegui girar o corpo e me recuperar antes de atingir o chão e saí correndo, apertando o suporte na minha cocha para que as flechas não caíssem enquanto eu corria.
A cena seguinte foi eu correndo abaixo na escadaria de incêndio do armazém. Nos quatro últimos degraus um yaoguai saltou, arrebentando a parede um pouco acima da minha cabeça, por pouco não viro a Kagome-sem-cabeça. Uma lasca do muro cortou meu ombro, passei pelo meio das grades do corrimão, bati os joelhos e rolei no chão; doeu, mas precisei ignorar esse fato e me forcei a ficar de pé para encarar outro ataque, mas esse me acertou o ombro.
Segurei um palavrão.
Um barulho agudo soou, fazendo com que eu apertasse as mãos contra os meus ouvidos, e um flash de luz passou por mim, acertando o meio gato. Outro yaoguai em forma de panda (como tem pandas!) parou, olhando para um ponto atrás de mim. Olhei por sobre o ombro e vi Sesshoumaru desviar de um ataque do Rei Touro. A julgar a posição em que ele estava segundos antes de desviar, aquela luz era um ataque da Bakusaiga.
— Abaixa. — disse uma voz feminina, puxando-me apara baixo. Levei uma fração de segundos para notar que se tratava de Jinx. Quando ela havia chegando aqui? Ou melhor, será que ela estava aqui desde o início?
Bom, isso não importa.
Arregalei os olhos quando Jinx lançou um adaga contra a testa do panda que investia contra nós. Mesmo ferido, ele tentou acertar meu rosto com um soco; consegui desviar, sentindo a mão dele roçar em meu cabelo. Jinx esticou o pé em um chute frontal, acertando na costela do nosso amigo panda que urrou e estreitou os olhos com a dor, cambaleando quatro passos até conseguir voltar ao equilíbrio.
Jinx estralou o pescoço e se preparou para iniciar o confronto, mas um cão branco passou por nós, agarrando o panda pela costela com a boca. Ele gritou, esperneou e tudo que o cachorro fez foi sacudir a cabeça com força e o jogar contra a parede. Um segundo depois estava Richard no lugar do cachorro, ele me olhou estreitando os olhos.
— Preciso desenhar para você pegar uma flecha e acerta a bunda desse safado?
Pisquei, finalmente entendendo a oportunidade. Peguei uma flecha e acertei o panda que teve o mesmo fim que o primeiro.
— Cadela, — ele disse, olhando para Jinx e apontando por cima do ombro com o polegar da mão direita — cuida do lado leste, vi umas doidas correndo por suas vidas.
— Cadela é tua mãe, seu babaca. — resmungou Jinx seguindo para o lado que ele havia indicado.
— Você é uma hanyou tai, qual a da revolta? Não entendo do que você está falando, já te provei várias vezes. — Richard disse para Jinx, sorrindo. — "Te provei", "Provei para você"... Droga, tão difícil lidar com semântica no japonês... O que importa é que cadela é totalmente aceitável.
— Foda-se, cadela é teu rabo.
— Ui. — Ele deixou escapar, enquanto ele sorria de canto, observando-a se afastar. Richard voltou sua atenção a mim, repentinamente sério. — Está esperando um convite?
— O quê?
— Pega aquele touro pelo chifre, doçura.
Virei na direção em que a luta de Sesshoumaru estava acontecendo, Niu Mo Wang estava a alguns passos de distância, com um sorriso estranho no rosto animalesco. Percebi que havia algo de diferente nele desde a última vez que eu o tinha visto, alguns minutos antes: estava maior, mais escuro, mais brutal, como ele estivesse mudando de forma e tamanho conforme a luta estivesse se desenvolvendo. O que Sesshoumaru estava esperando? Por que se mantinha na forma humana, em vez de se transformar e acabar de uma vez com aquilo?
Sesshoumaru estava de costas para mim. Vi Richard passar em sua forma youkai ao meu lado, lançando um olhar na minha direção. Certo, entendi a deixa. Levei a mão ao suporte, mas meus dedos encontraram o vazio. Olhei o suporte e percebi que as flechas haviam acabado. As duas que eu havia separado especialmente para o Grande Rei Touro haviam ficado no parapeito do armazém.
Revirei os olhos, analisando sobre o que fazer. Foi quando percebi os restos cinzentos do que havia sido um yaoguai. Por um ínfimo momento, eu me perguntei se depois de matar tantos deles, fazia alguma diferença eu ter salvo Hu e a noiva dele. Era o cúmulo da hipocrisia. Mesmo consciente disso, eu sabia que não faria diferente. Eu sou uma hanyou com virtuosidade seletiva.
Respirei fundo e peguei a flecha que pairava sobre os restos mortais do panda, colocando-a no arco, puxando a corda e respirando profundamente enquanto clamava para que dessa vez eu acertasse Niu Mo Wang.
Sesshoumaru estava na minha frente em sua forma humana, então eu tinha uma bela visão do meu alvo. Fechei, enquanto eu fechava os olhos. E se eu acertasse o meu marido por engano?
Acalme-se. Calma.
Abri os olhos. Aquela força sobrenatural que havia tomado conta de mim quando acertei Hu se fez presente novamente. Tudo se apagou da minha mente, exceto fazer aquilo da forma correta. Mirei e disparei a flecha ao mesmo tempo em que Sesshoumaru se movia e entrava na trajetória do meu projétil.
Prendi a respiração, vendo, sem acreditar, minha flecha seguir na direção das costas daquele que eu mais temia perder.
Fkake: Oi, vim divar, agora que divei, vou indo. Beijos.
Enfim, brincadeira, Ladie mandou eu comentar, mas eu não lembro que se passa nesse capítulo, então, sei lá, pensei que estou comentando coisas importantes aqui, e vão em paz.
Ladie: EU LEMBRO O QUE ACONTECE. NO FINAL A KAGOME LANÇA A FLECHA NO TOURO E O SHO ENTRA NO MEIO. LEMBRA DISSO? VOCÊ QUASE ME MATOU DO CORAÇÃO QUANDO ESCREVEU ESSA PORCARIA E VOCÊ NÃO LEMBRA?
Fkake: Lembrei.. todos pensaram que eu estava trollando na foto, todos pensaram... eu tava mesmo, mas deixa pra lá
Ladie: só acho que geral merece uma retratação
Mas só acho
Fkake: hum... certo, ok...enfim, segurem as perequitas e passarinhos que tudo vai dar certo no final, ou não, depende de como eu/Ladie estivermos de animo
Ladie: você é horrível. ENFIM, PREPAREM SEUS CORAÇÕES PARA O PRÓXIMO CAPÍTULO. QUEM ACHA QUE MORREU NO CAPÍTULO PASSADO... REVIVA PARA MORRER DE NOVO. *Risada maligna*
