Capítulo LVI — Sangue, Calor e Champanhe (mais aqui, por favor)

Eu odeio a minha vida.

Na verdade, isso é apenas exagero. Estou sendo dramática por motivos de: minha vida não sabe parar de brincar de ser sacana.

Você está lá, de boa, serelepe, manjando dos paranauês, matando yaoguais... Até aí tudo lindo! Então você pensa consigo mesma: "Vamos acabar com tudo!". Pega uma flecha à toa, coloca no seu arco maneiro, respira fundo para dramatizar... E faz o quê? Faz o quê?! Lança a desgraça da flecha na direção das costas do próprio marido. Gênio! Goaaal!

E essa sou eu, sendo retardada por quase estar colocando o coração para fora. Prendi a respiração, enquanto via tudo aquilo se desenrolar. Meu verdadeiro alvo estava escondido pelo corpo de Sesshoumaru (ou ao menos parte dele, já que Niu Mo Wang era enorme). Ele não podia me ver também. Por que Sesshoumaru tinha feito isso? Por que entrar na frente do inimigo? Quer dizer, ao menos até o momento em que ele girou o corpo ligeiramente e minha minha flecha passou por ele, acertando o Grande Rei Touro em cheio no peito.

Meu fôlego ainda estava preso, eu não tive espírito para voltar a respirar, mesmo depois de ver que a flecha milagrosamente não havia acertado Sesshoumaru. Ou não tão milagrosamente, já que a julgar pelo movimento que meu marido fizera ele calculara tudo com uma precisão nanométrica para que Niu Mo Wang não visse a flecha até que fosse tarde demais e não pudesse desviar.

Não acredito que ele fez isso comigo. Eu quase cuspi minhas vísceras por culpa de Sesshoumaru! Depois que tudo isso acabar, eu vou enfiar um flecha na goela desse albino desgraçado que faz com que eu me desespere sem motivo!

Tudo bem, essa não é uma ideia viável, mas a vontade continua reinante entre os meus desejos. Qual a necessidade de fazer isso, afinal? Eu sei que minha vida parece realmente algum filme de ficção de quinta, mas eu acho que dispenso alguns clichês óbvios como a tragédia iminente e a vitória tirada milagrosamente do pâncreas.

Retiro o que eu disse: não me importo da vitória lugar-comum se o lado vencedor for o nosso. Embora isso não signifique eu não esteja fazendo planos malignos para me vingar de Sesshoumaru pelo susto.

Parei de pensar bobagens quando notei Niu Mo Wang baixar aquela cara de boi para a flecha enfiada em seu peito. A seta brilhava enquanto ele apertava os grandes dentes e tentava arrancá-la. Franzi o cenho, percebendo que ele não estava reagindo como os outros que começaram a desintegrar instantaneamente. O único resultado óbvio era o ferimento escuro e profundo que minha flecha havia deixado em seu peito. Além disso houve uma luz intensa e uma expressão de dor no rosto do Grande Rei Touro.

Quando ele finalmente conseguiu arrancá-la e ficou parado, trêmulo e ofegante, foi que eu percebi que aquilo não era efeito do composto, mas de meus poderes de sacerdotisa que eu, inconscientemente, havia utilizado. Então o composto não tinha efeito nele? Ou será que a flecha não estava mais contaminada por que eu a havia usado anteriormente em outro yaoguai? Por mais que eu não compreendesse, eu tinha que admitir que não fazia mais diferença; o resultado era o mesmo: ele ainda estava vivo.

Apertei meus dedos em volta do arco, decidindo se havia tempo para correr até o telhado e pegar as duas flechas que eu havia deixado separadas. Como eu as esqueci?! Você separa os projéteis que vai usar contra o inimigo, no melhor estilo Velho Oeste, já imaginando em terminar a luta com um final memorável… E aí você esquece as duas flechas na puta que pariu. Eu sou um verdadeiro gênio.

Só que além delas, eu também havia esquecido outro detalhe: Sesshoumaru ainda estava ali... E o meu marido não era qualquer um.

Observei enquanto ele se aproximava Niu Mo Wang com passos calmos, enquanto o outro apenas tremia e tentava respirar. Seja lá o que eu usei naquela flecha foi tão burdensome quanto música invertida de banda satanista.

— Minha mulher era mais que suficiente para matá-lo. — Sesshoumaru disse enquanto segurava um dos chifres de Niu Mo Wang e o forçava a se ajoelhar — Fraco demais para ter o direito de me olhar de cima.

Ouvi a risada de Richard em algum lugar. Eu já havia sofrido tantas vezes na Era Feudal com a arrogância de Sesshoumaru que não conseguia achá-la divertida agora. Embora, lá no fundo, eu sinta alívio por vê-lo sendo ele mesmo.

Em meio aos tremores e à respiração ofegante, o yaoguai ainda teve espírito erguer a cara animalesca e olhar com desprezo para Sesshoumaru. A Bakusaiga cortou o ar e luz incandescente irradiou dela em um arco, atingindo Niu Mo Wang e apagando seu olhar, seu corpo e seu desprezo.

Não existia mais Grande Rei Touro.


Agora que estava acabado, eu simplesmente era incapaz de parar de tremer. Passei alguns segundos tentando controlar as reações do meu corpo, de tal forma que, quando percebi, Ryuuji, Kazuki e Richard já haviam se aproximado de Sesshoumaru — estavam em suas formas humanas, já que não havia mais qualquer yaoguai vivo. Fiz uma contagem mental precária, sentindo-me aliviada por todos estarem bem. Matematicamente falando, isso era algo quase impossível, e eu só posso agradecer pelo impossível ter acontecido.

Meu marido ainda estava parado e se moveu apenas para entregar a espada para Kazuki, com expressão impassível, enquanto Richard olhava em volta.

— Cadê a minha cadela? — questionou Richard para Kazuki, sério.

— Já disse para não chamar minha filha assim. — disse Kazuki, embainhando a Bakusaiga.

— Certo. A sua cadela. — Richard completou, enquanto o outro apenas o encarava — Ela é ou não é uma tai-youkai? Por que vocês todos parecem se doer com isso?

— Há forma mais... adequadas para chamá-la.

— Onde diabos está a minha praga eterna que me deixaria apático se não existisse... Soei mais romântico agora?

Kazuki suspirou e massageou a testa parecendo refletir sobre qual resposta dar a Richard, não foi necessário que ele se pronunciasse, pois Jinx se aproximou, soltando o ar pesadamente e se espreguiçando ao parar ao lado de Kazuki e Richard.

— Não vi o meu irmão, onde ele está? — ela questionou, alheia à discussão que estava acontecendo a menos de cinco segundos.

— Richard deixou uma ressalva para a entrada dele no país. — revelou Ryuuji.

Richard encarou o irmão horrorizado.

— Que calúnia! Injúria! Difamação! Aff, qualquer um desses citados anteriormente!

Jinx acertou um tapa na nuca de Richard que o fez envergar para a frente.

— De novo! — ela gritou, parando para respirar fundo. — Quantas vezes vou ter que falar para você não fazer isso com o meu irmão?

— Ele fica atrapalhando nossas tentativas de trazer ao mundo nossos filhotes caninos. — ele reclamou, parecendo muito ofendido.

Kazuki aproximou-se de mim e sorriu, tentando me acalmar. Sem falar nada, ele apenas se inclinou e pegou o arco da minha mão, dobrando-o habilidosamente naquela forma retorcida de proteção de tela do Windows. Os outros continuaram conversando animadamente e brincando, enquanto eu tentava compreender como eles conseguiam fazer isso. Eu não conseguia deixar de me sentir culpada por todas aquelas mortes, e, ao mesmo tempo, aliviada porque Sesshoumaru estava bem.

Aproximei-me dele, respirando pesadamente. Cheguei a erguer minhas mãos para tocá-lo, mas me segurei. O alerta de Richard sobre não deixar que o composto entrasse em contato com algum deles ainda estava vivo na minha mente e eu não tinha certeza de que não haveria resíduos nas minhas mãos. Baixeis os olhos, frustrada, mas tentando controlar esse sentimento.

— Você está bem? — perguntei para ele preocupada — Ele te feriu em algum lugar?

Sesshoumaru me observou, muito sério, e mais uma vez, tive que me segurar para não tocá-lo. Deixei escapar um resmungo e apertei minhas mãos, fazendo-o desviar os olhos do meu rosto para elas e depois novamente para meu rosto.

Passamos algum tempo parados, apenas nos encarando, até que ele ele virou-se para Jinx, dizendo:

— Leve-a para o hotel e ajude-a com as roupas.

Franzi o cenho, tentando compreender o que ele queria dizer, mas Jinx aparentemente já sabia sobre o que ele se referia e olhou para mim, vindo na minha direção.

— Vamos indo Kagome, temos que dar um jeito nessas roupas cheias de sangue e arrumá-la para a recepção. Ah, e senhor Grimlock, trate de ir buscar meu irmão. Estou em greve, diga-se de passagem. — Ela disse, apontando ameaçadoramente para Richard, que suspendeu uma mão, como se quisesse iniciar alguma discussão. Então a abaixou, fechando a boca com resignação e, logo após, avisando:

— Só vou atrás do Dmitri depois; agora Ryuuji e eu vamos caçar os yaoguais que fugiram. Kagome, cadê aquela sua gata linda? Aceito ajuda dela para farejar os fujões.

Abri a boca para responder que a última vez que tinha visto Kirara ela estava no telhado, mas Jinx foi mais rápida e me arrastou com ela.


Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo. Estava ansiosa, meio trêmula, cheia de adrenalina. Minha mente estava borrada de pensamentos retardados. Não percebia que Jinx poderia estar me levando para um matadouro, apenas a acompanhava. Quando dei por mim, ela segurava um vestido azul-escuro com detalhes em renda que com certeza deveria custar tão caro quanto um apartamento em Karuizawa.

— Vista, não temos muito tempo. — Jinx indicou. Engraçado que ela mesma me ajudou a tirar o roupão e começar a vesti-lo. Espera um segundo, quando eu havia tomado banho?

— Eu vou para algum lugar? — questionei meio surpresa.

— Você não ouviu nada que eu disse? Sesshoumaru já deve ter ido para a recepção, nós temos que nos apressar e levá-la para lá. — Jinx fechou o zíper do vestido às minhas costas — Eu não sou muito boa nisso de maquiagem e penteado. O que faremos? Papai deve estar esperando para levá-la e eu ainda preciso fazer uma busca na nuvem para descobrir se algum humano viu qualquer coisa do que aconteceu hoje.

— Espera, recepção? — questionei, mas ela já estava em um tablet, digitando freneticamente. Então olhou para mim, olhou a tela do aparelho e para mim de novo.

— Vamos ver, tem uns penteados bem fáceis e legais aqui. — Virou a tela para mim e mostrou — Ah, você tem boa coordenação motora para fazer a maquiagem? Eu não tenho. Quando tento me maquiar, sempre acabo desenhando uma mandala na minha cara.

Eu me maquiava enquanto ela tentava fazer uma cópia do penteado descrito na tela do tablet. Ela fazia tantos nós e puxões que por um momento perguntei se ela estava vendo um manual de como amarrar gravatas.

Por fim, saímos do quarto de hotel e Kazuki estava esperando no saguão. Assim que me viu, ele desligou o celular e me guiou para a porta sem uma única palavra. Vi dois homens sentados em poltronas no lobby lançarem olhares avaliativos para mim, mas marido Kazuki os encarou por todo o caminho, forçando-os a desviar o rosto.

Ergui as sobrancelhas, pensando se aquilo representava algum perigo, mas provavelmente era apenas interesse masculino inofensivo e eu estava paranoica depois de tudo o que aconteceu. Assim que entramos no carro, eu disse para Kazuki que eu não estava bem para ir a alguma festa.

— Não se preocupe, o avião vai estar pronto para partirmos assim que o evento acabar. — ele disse — Vamos organizar tudo, então apenas se atente em ficar bonita ao lado do Senhor Sesshoumaru e que vocês sejam vistos. Ter um álibi nunca é exagero demais.

— Álibi?

— Para o caso de ligarem o desaparecimento de Niu Mo Wang a nós. Ele é (quer dizer, era) um banqueiro importante, então logo vão perceber a ausência dele. Por isso vamos embora hoje ainda.

Respirei fundo.

— Certo. — falei. — Encontraram a Kirara?

— Sim, ela está com Richard. Ele perguntou se você vendia. Nas palavras dele "troco um irmão pela gata", ou algo assim. — ele suspirou.

— Eu nunca tinha visto esse Richard antes. — comentei.

— Sinto muito se nunca toquei no nome dele... Nós temos alguns problemas pessoais. E a senhora não o viu porque ele se infiltrou no exército americano depois dos ataques atômicos. — explicou — Ele é o tai-youkai mais antigo depois de Sesshoumaru e era o antigo Executor do clã. Depois que ele veio para a América, o irmão dele tomou a função.

— Ele é mais velho que você? — perguntei, curiosa. Era estranho me deparar com uma pessoa que aparentemente tinha tanta importância no clã e de quem eu jamais tinha ouvido falar até o telefonema fortuito sobre a senha do servidor de Sesshoumaru.

— Sim. Ele é muito velho. — ele estacionou — Chegamos. Boa sorte, senhora Kagome.

Abri a porta e fiquei tentada a perguntar se eu precisaria de tanta sorte assim.


Pense sobre o dia de hoje. Veja como foi simplesmente horrível. Eu estou sem dormir a mais de dois dias e, pensando bem, acabo de perceber que já faz bastante tempo desde que me alimentei. Eu queria apenas uma cama e a perspectiva de passar a noite inteira me concentrando para traduzir as conversas em volta de mim não era animadora.

Suspirei de forma audível, erguendo a barra do meu vestido enquanto subia a escadaria que levaria até a entrada do evento. Um dos seguranças se aproximou, provavelmente para averiguar meu convite e fazendo-me perceber que não havia qualquer coisa em meu poder que comprovasse que havia sido convidada para estar ali.

Comecei a me desesperar assim que me voltei para trás e notei que Kazuki não havia me seguido. Ótimo, deseja sorte mas não me dá a porcaria do convite. O que eu faço agora? Pedir para chamar Sesshoumaru e torcer para que realmente o façam? Tenho certeza deve haver mulheres que tentam penetrar nesses eventos importantes. Afinal, cadê Sesshoumaru quando se precisa dele?

O segurança se aproximou e me questionou sobre algo de forma muito rápida, tornando-se incompreensível para mim. Aquela bobagem de pensar em inglês não funciona quando se tem um brutamontes lhe perguntando algo com voz gutural. Estava para pedir que ele fizesse o favor de repetir o que tinha dito quando senti uma mão em volta do meu braço. Voltei meus olhos e me deparei com Sesshoumaru, parado protetoramente ao meu lado.

— Ela é minha companheira. — Olhei para Sesshoumaru, ligeiramente confusa. Será que ele estava consciente de como "She is my mate" era uma expressão meio íntima para descrever nossa relação? Deixei meu questionamento de lado, já que era obviamente idiota ficar imaginando que Sesshoumaru estava sendo subliminar ao dizer que eu era sua companheira, ao invés de usar um simples wife para esclarecer que eu era sua esposa.

O segurança pareceu constrangido e Sesshoumaru me puxou para seguir com ele. Simplesmente me deixei levar, ainda muito envolvida com os meus pensamentos.

Pisquei, recordando-me de algo importante.

Estávamos alguns passos da entrada principal quando me voltei para ele, analisando seu terno: era o mesmo de antes, não havia qualquer evidencia de sangue ou poeira, nada que fizesse alguém pensar que ele havia tido alguma atividade além de se trocar e vir até aqui. Mesmo assim, segurei a gola do de seu paletó e a puxei no intuito de fazer com que ele o tirasse. Sesshoumaru segurou meus punhos e se inclinou na minha direção.

Gosto do cheiro. Oh, Meu Deus, por que estou pensando nisso logo agora?

— O que está fazendo?

— Checando se você se feriu.

Ele me lançou aquele olhar superior idiota. Pensei em dizer que eu precisava ver por mim mesma que ele estava bem, mas controlei-me. Soltei seu terno e cruzei os braços, ensaiando uma expressão frustrada.

— Você realmente se esqueceu de quem eu sou? — ele questionou, inclinando-se ainda mais na minha direção. Algumas pessoas em volta de nós viraram os rostos para nos observar, curiosos — Você passou tanto tempo seguindo o seu namoradinho Inuyasha que se acostumou a ter que se preocupar com alguém fraco.

Arregalei os olhos, surpresa, sem entender como Inuyasha havia brotado nessa conversa. Ele segurou meu braço e voltou a andar, resignei-me a acompanhá-lo, olhando de vez em quando para seu pescoço e seu rosto, a procura de arranhões ou coisas parecidas. Ele lançou um olhar de aviso para que eu parasse.

— Suporte minha preocupação, Sesshoumaru. — reclamei, irritada, fazendo-o parar de novo e me aproximando para observar o outro lado de seu rosto.

— Não é fácil me ferir.

— Sei, ainda lembro de Inuyasha arrancando seu braço. Lembra disso? Para você pode ter sido quinhentos anos atrás, mas para mim foi um dia desses. — Arrependi-me de ter dito isso no momento em que ele me encarou puto do universo. Se ele estivesse armado, teria ceifado minha vida. Ceifar. Palavra bonita. Caramba, Kagome, concentração! Pigarreei. — Bem... Fácil ou não de ser ferido, isso não faz diferença a mim. — respondi, sem jeito. Por que ele tinha que ser tão malditamente teimoso? — Você não foi mesmo ferido?

Ele ainda estava muito irritado com a minha menção a ele ter perdido o braço e apenas ficou me encarando. Vou entender o silêncio como um: "Não querida, eu não estou ferido. Você está se preocupando demais comigo, mas não é necessário. Apesar de tudo, agradeço isso, sua linda.". Sou dessas que se ilude.

Por que eu fui me apaixonar por esse idiota?

Espera, o quê?

Sesshoumaru me lançou um olhar avaliador e eu tentei me concentrar no presente. Pensar sobre o assunto agora, no meio de um salão de festas, com Sesshoumaru me encarando, não era exatamente o que poderíamos chamar de "bom momento".

Tentei controlar minha respiração acelerada e sorri fracamente para Sesshoumaru, que continuava me encarando, muito sério. Apenas percebi que ele iria me tocar quando o vi erguer a mão e afastar levemente a alça larga do vestido que eu usava, deixando à mostra um arranhão avermelhado no meu ombro. Entreabri os lábios, surpresa, recordando que eu havia me machucado com uma lasca de alvenaria quando o yaoguai destruiu a parede do armazém.

Ergui os olhos e só não recuei porque Sesshoumaru ainda mantinha uma das minhas mãos em seu braço. Por que ele estava tão irritado? Não é como se eu estivesse ferida seriamente, o ferimento já estava até curando.

Eu estava para comentar sobre isso quando um casal parou ao nosso lado. Afastei as mãos de Sesshoumaru e ajeitei a alça do vestido enquanto o homem falava alguma coisa divertida em francês e a mulher ao seu lado erguia uma mão para esconder uma risadinha. Observei os dois, perguntando-me se de alguma forma eles estariam caçoando de Sesshoumaru ou coisa parecida, mas, olhando para postura tranquila do meu marido e o fato de ter ouvido o meu nome em meio à resposta dele, também em francês, eu imagino que a brincadeira do homem tenha sido a respeito de discussões domésticas.

— Este é o senhor Jean-Paul Caderousse, diplomata francês, e sua esposa, Mercedès. — Sesshoumaru me apresentou os dois, falando em japonês.

Sem saber em que idioma responder, optei por ficar calada, sorrir gentilmente e me inclinar da forma mais respeitável que o vestido justo permitia. Ao me erguer, deparei-me com o olhar surpreendido e encantado do casal. Jean-Paul imediatamente comentou algo que, por seu tom, soava como um elogio, e Sesshoumaru agradeceu. Então o francês virou-se para mim, falando em um inglês carregado de sotaque:

— Seu marido fez uma apresentação invejável essa tarde. Deixou muitos ingleses com cara de buldogues de tão irritados... Como se fosse difícil alguma deles ficar com cara de buldogue. — Jean-Paul riu — Apenas isso já seria motivo para convidá-lo para jantar, mas agora que descobrimos que ele tem uma esposa tão graciosa, isso se tornou imperante.

Sorri diante do elogio.

— Espero que você goste de manteiga. — ele continuou — Da última vez que jantamos com o senhor Sesshoumaru, ele se recusou a tocar na comida.

— Garanto que ele não fará isso novamente. — garanti. O casal soltou outra risada. Depois disso, eles pediram que eu obrigasse Sesshoumaru a ligar para eles, caso fôssemos à França. Apesar de saber que as chances de isso acontecer eram mínimas, eu prometi.

Sesshoumaru me encarou, quando eles se afastaram, e eu dei de ombros.

Respirei fundo, balancei a cabeça e aproveitei a oportunidade de ser acompanhante dele para envolver o braço dele com as minhas duas mãos. Peguei um taça de champanhe e fiz algo que estava acostumada a fazer nesses bailes... Beber socialmente para descobrir novas marcas de champanhes que depois seriam adquiridas e degustadas com morangos e chocolate em casa.

Afinal, muito mais fácil beber do que ficar tentando compreender meus sentimentos.

O resto da noite decorreu tranquilamente. Sesshoumaru foi abordado algumas vezes, geralmente para ser parabenizado pelos dados que havia apresentado durante a Convenção. O pouco que consegui entender era de que o evento de hoje serviria como base para votação acerca de modificações de um estatuto internacional sobre investimentos.

Eu passei toda a noite com a mão no braço de Sesshoumaru e em nenhum momento ele mandou que eu me afastasse. De vez em quando, minha mente começava a divagar e me custava a acreditar que o dia de hoje realmente havia acontecido. Era estranho demais assimilar que algumas horas antes eu estava em perigo, lutando por minha vida, e que agora eu pudesse parecer tão elegante e frágil, como se não tivesse feito nada durante o dia todo além de relaxar.

Por puro reflexo, eu fechei minha mão no pulso de Sesshoumaru, como que querendo ter certeza de que ele de fato estava ali e que eu não acordaria de repente no avião, ainda desesperada para chegar à Washington e poder avisá-lo do ataque que aconteceria.

Sem perceber, eu havia voltado a tremer, e isso chamou a atenção de Sesshoumaru. Ele ignorou completamente o homem que falava com ele para me encarar, mas eu mantive meus olhos focados na mão que eu apertava fortemente em volta do pulso dele. Percebi quando ele ergueu o outro braço e forçou-me a soltá-lo, apenas para descer minha mão e encaixá-la na dele, como se estivéssemos dando as mãos romanticamente. Assim, ao menos, eu poderia apertá-lo quanto quisesse sem levantar suspeitas. Ele voltou a atenção para o homem e eu a tentar me acalmar, apertando fortemente meus dedos entre os de Sesshoumaru.

Parecíamos um casal.

Perceber isso me deixou ruborizada, mas, surpreendentemente, não apenas de vergonha.

Finalmente, Sesshoumaru decidiu que poderíamos nos retirar sem causar suspeitas e, como Kazuki havia dito, assim que saímos do baile, todos estavam esperando para seguirmos para o aeroporto. Troquei a roupa de gala por algo mais confortável no avião, depois da decolagem, e fui me sentar ao lado de Sesshoumaru. A única coisa que ele havia feito para tornar a viagem mais confortável tinha sido retirar a gravata.

Inclinei minha poltrona ao máximo, aproveitando que marido Kazuki convenientemente havia me trazido um cobertor e me aconcheguei. Se essas poltronas fossem do tamanho das de classe econômica de voos comercial, eu poderia convenientemente colocar minhas pernas sobre as de Sesshoumaru. E não faço ideia do porquê de eu estar pensando nisso.

Eu estava tão cansada, depois das mais de cinquenta horas insone, que eu ignorei completamente a conversa excitada de todos ali (principalmente de um Dmitri possesso com o fato de ter sido barrado na imigração por causa de Richard), e simplesmente dormi. As últimas horas de viagem foram preenchidas comigo me distraindo de pensamentos idiotas sobre sentimentos ouvindo Richard contar histórias sobre como Sesshoumaru era incrivelmente vingativo e estava disposto a controlar o mundo. Ri muito quando ele disse:

— O que faremos hoje, senhor Sesshoumaru? — com uma voz esganiçada, que rendeu um olhar irritado de Sesshoumaru, ao meu lado — O que fazemos todos os dias, Richard, continuar a dominar o mundo! — dessa vez ele fez um voz mais grossa, como se estivesse imitando a de Sesshoumaru.

Comecei a rir ainda mais alto e dessa vez Sesshoumaru direcionou o olhar para mim.

— Casei com um louco. — confessou Jinx se arrumando na poltrona ao lado de Richard, mal se controlando de tanto rir.

— Vocês são casados? — questionei surpresa.

— Há quase duas décadas.

— Mas como isso? — questionei, então balancei uma mão — Na verdade, não quero saber dos detalhes.

— Ela me ama. — explicou Richard.

— Ele é bom de cama. — ela disse casualmente, dando de ombros. Corei, foi ainda pior quando Richard soltou um "Yes" e Dmitri começou um sermão de como os dois eram inadequados. O fato de Kazuki se levantar e ir para a cabine onde Ryuuji estava sozinho me fez compreender que o "problema pessoal" entre ele e Richard tinha a ver com Jinx.

Chegamos em Kyoto e eu fui inundada por aquela sensação de que havia algo muito errado. Na verdade, não havia, e isso era apenas fruto dos últimos dias, um resquício de paranoia. Tinha acontecido tanta coisa, que de repente era estranho pensar em casa como casa. Se bem que Kyoto não era bem minha casa, mas eu já mudei tantas vezes nos últimos anos que eu aprendi a ser mais flexível com o conceito.

Apesar de eu ter descansado tanto durante a viagem, eu percebi que ainda estava cansada. A única coisa que fiz, antes de seguir para o quarto, foi ligar para Shippou e avisar que Kirara e eu (e Sesshoumaru, mas ele começou a cantar quando toquei no nome do meu marido) estávamos bem. Depois disso: banho. Apanhei uma troca de roupa e fui ao banheiro, nem mesmo pensei em perguntar a Sesshoumaru se ele queria tomar banho primeiro, apenas entrei, deixando que Kirara me seguisse. Fechei a porta e fiquei por lá por toda uma hora.

Até mesmo Kirara saiu pela janela algum tempo depois e eu continuei lá, pensando em tudo que havia acontecido e me sentindo realmente cansada, tão cansada que assim que saí do banho nem me detive ao detalhe de Sesshoumaru já estar deitado e muito menos que ele já havia tomado banho, apenas me deitei com ele.

Uma onda de insegurança me tomou. Vi-me encolhida, abraçando meu travesseiro. Fechei os olhos tentando compreender o que estava acontecendo comigo mesma e por fim deixei de me controlar e agi por impulso; antes que eu tivesse tempo de me frear, aproximei-me de Sesshoumaru, segurando sua camiseta e encarando as suas costas. Reprimi a tempo a vontade de abraçá-lo e apenas encostei a testa no espaço entre suas escápulas.

Respirei profundamente.

Senti uma emoção estranha sufocar minha garganta. Foi quando eu finalmente compreendi que ele de fato estava bem e que nada de ruim tinha acontecido. Os meus sentimentos voltaram a se mostrar com força, tirando qualquer dúvida que eu tivesse acerca deles.

Mais uma vez, meu coração era tomado pelo calor. Esse mesmo calor que era tão frequente ultimamente, principalmente quando Sesshoumaru estava por perto, e que eu teimava em tentar afastar. Esse calor tão confortável e assustador, que eu não compreendia, ou que fingia não compreender. Calor sentimental, às vezes como a luz do sol pela manhã, às vezes como estar pisando sobre o próprio sol.

Eu podia chamar de calor, mas a verdade era que tinha outro nome.

Eu amava Sesshoumaru.


Ladie

Primeiro: Mary/Fkake mandou um beijo.

Segundo: podem gritar, eu deixo, mas deixem fôlego para o próximo capítulo (que sai sábado).

Beijos da Ladie

~ Sai divando ~