Capítulo LVII — Espancamento de Irmão
Acordei repentinamente, assustada, com a sensação de que o mundo inteiro estava caindo sobre a minha cabeça.
Eu simplesmente havia me esquecido de como era ser acordada de forma brusca; acho, aliás, que se acostumar com esse tipo de coisa é muito difícil, o que torna a raiva ainda mais fácil de surgir. Senti uma mão puxando o meu pé e me sentei, surpresa, embora eu só fosse gritar realmente alguns segundos depois, e não por estar assustada:
— Sesshoumaru!
Não sei como as coisas foram ficar assim, a única coisa que sei é que marido que deveria estar deitado ao meu lado na verdade estava ajoelhado no colchão (quer dizer, em parte, já que o outro pé estava apoiado no chão) segurando um Daiki muito pálido pela gola da camisa.
Sim, Daiki.
Percebi que os olhos de Sesshoumaru estavam avermelhados e que as linhas youkais em seu rosto estavam visíveis. Prendi a respiração e engatinhei na cama, segurando o braço de Sesshoumaru e tentei entrar entre ele e Daiki para forçá-lo a olhar para mim.
— Sesshoumaru, está tudo bem. — falei, tentando soar calma, mas, na verdade, apenas sendo suplicante. Empurrei-me ligeiramente contra o peito de Sesshoumaru, tentando afastá-lo de Daiki — Estou bem, Sesshoumaru. É apenas o meu irmão.
Ele piscou e seus olhos voltaram à cor normal. Quase suspirei de alívio quando ele soltou Daiki bruscamente e saiu da cama, caminhando até o banheiro.
Massageei a testa, atordoada, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Daiki passou a mão sobre o pescoço, completamente consternado. Foi a voz de Hiroko que me fez voltar à realidade.
— Achei que meu bebê iria ficar órfão de pai.
— Quase me borrei aqui. — respondeu Daiki, sem ar.
— Daiki! — exclamei. Ele piscou e se afastou, enquanto eu me levantava apontando o dedo indicador para ele. — O que diabos pensa que esta fazendo?! Como você aparece no meu quarto e sai me puxando pelo pé enquanto estamos dormindo, seu idiota? O que você tem nessa cabeça azulada? — Soquei seu ombro. — Quer que Sesshoumaru te mate? Juro que na próxima eu deixo ele te matar.
— Desculpe, é que você estava toda aconchegada nele... — ele disse, fazendo beicinho, e gesticulando com as duas mãos para a cama, o que quase me fez ruborizar.
— Não tem desculpas... Quem te deixou entrar?
— Hiroko distraiu o Ryuuji enquanto eu passava correndo.
Franzi a testa, lembrando de Hiroko. Ah! Voltei-me para ela sorrindo e a abracei.
— Saudades. Como você está? E o bebê? — questionei sorrindo e alisando a barriga ainda lisa de Hiroko. Daiki comentou algo sobre mudanças de humor e eu lhe lancei um olhar irritado.
— Estamos bem, desculpe, mas é que o inútil do seu irmão viu umas mensagens no celular do Hideo e não me deu descanso até estarmos tocando a campainha. — ela sorriu. — Foi fácil chegar até seu quarto, deveriam arrumar a segurança daqui.
— Abre aspas: fácil; fecha aspas. Foi só o Ryuuji te ver que ficou tudo mais simples.
— Me trouxe apenas para me usar contra o Ryuuji? — Hiroko perguntou, cruzando os braços.
— Sim. Óbvio. — ela acertou um tapa na nuca dele.
— Senhora Kagome! — Dmitri apareceu na porta com o rosto demonstrando algo entre pânico e súplica de desculpas. — Desculpe.
— Não se preocupe. — suspirei. — Dmitri, mostre a cozinha ao Daiki e a Hiroko. Se conheço bem essa praga, ele te fez vir direto do aeroporto para cá, certo, Hiroko?
— Sim, é muito difícil lidar com seus irmãos. — reclamou bufando.
— Eu sei. — Prendi a respiração quando vi Sesshoumaru sair do closet vestindo calça jeans e camiseta azul-escura. Inclinei ligeiramente a cabeça ao perceber que eu havia dado aquela camiseta para ele um ano atrás. Pensei em fazer um comentário engraçadinho, mas senti meu irmão tremer ao meu lado; parece que meu marido o assustou de verdade. — Vou trocar de roupa e encontro vocês na cozinha.
— Desculpe ter entrado assim em seu quarto, Senhor do Oeste. — falou Hiroko segurando a orelha de Daiki e puxando-o para fora. — Vem peste.
Dmitri pediu licença e saiu do quarto, fechando a porta. Soltei o ar pesadamente. Daiki era de fato um idiota completo. Voltei minha atenção a Sesshoumaru que havia ido até a mesa dele, caminhei até o arco que separava o quarto do escritório de Sesshoumaru e fiquei observando-o organizar uma pilha de pastas mecanicamente.
— Obrigada. — Ele desviou o olhar das pastas por cinco segundo para me olhar, mas foi apenas cinco segundos mesmo... O suficiente para me fazer abrir um sorriso bobo, o qual eu tentei esconder enquanto andava na direção do closet.
Entrei na cozinha, encontrando Jinx fazendo companhia para Hiroko e Daiki. Eles conversavam de forma animada sobre algum assunto que eu não consegui identificar, mas eles voltaram atenção para mim quando entrei.
— Bom dia. — disse olhando para Jinx, ela respondeu com seu sorriso costumeiro e uma piscadela de olho.
Precisei passar por Daiki para alcançar o outro lado do armário, resultado foi ele me puxar para seu colo e enfiar uma colher com algo que identifiquei ser cereal de chocolate na minha boca.
— Dai... — comecei a falar, enquanto tentava mastigar o que ele havia me dado (minha revolta foi tanta que esqueci os bons modos), mas logo parei, peguei a colher dele e apanhei um pouco mais do que ele havia me obrigado a comer. — Isso é bom.
— Richard trouxe uma caixa disso... E mais alguns outros doces. — informou Jinx.
— Isso que é exemplo de marido. — Hiroko comentou.
— Eu estou aqui.
— Não somo casados, Daiki. — foi a resposta azeda.
— Porque você não me quer... Meu destino é ficar com você, Kagome.
— Nem vem. — falei, empurrando-o com uma mão em seu peito enquanto me concentrava no cereal.
— Claro que é... Eu sou seu lindo e gostoso irmão. Temos o mesmo sangue, já compartilhamos de metade do mesmo código genético, como não poderíamos ser mais perfeitos?
— Primeiro. Não, a probabilidade de carregarmos metade do código genético um do outro é tão alta quanto respirar na lua. — Levantei-me e sentei no banco ao lado. — Se quer me visitar, ótimo, você é muito bem vindo a minha casa, mas ligue, seja ao menos educado. Não se aproveite do fato de ser meu irmão para ter acesso mais facilitado, e não adianta falar nada, pois tenho certeza que usou isso para a criadagem não estranhar uma montanha de músculos desconhecida como você vasculhando a casa.
— Ele se anunciou como seu irmão para o tai-youkai que estava na entrada. — delatou Hiroko, Daiki lhe lançou um olhar nervoso. — Depois me jogou no Ryuuji... Em seguida saiu te procurando pelo faro, nunca vi um tengu farejar tão bem.
— Não delate seu marido.
— Não somos casados. — ela respondeu novamente rolando os olhos dessa vez.
— Vamos casar.
— Já disse que não quero. Sério mesmo, pode parar de falar essas coisas.
Em que momento a discussão se tornou Hiroki e Daiki e não eu com ele? Enfim, quando dei por mim, os dois já estava discutindo sobre o fato de terem que se casar e não terem que se casar.
Pensei em continuar minha bronca, mas, além da discussão dos dois, havia o fato de Richard aparecer na cozinha proferindo palavrões em inglês pelo celular. Foi realmente curioso vê-lo com o rosto corado totalmente irado com quem é que fosse a pessoa do outro lado e, então, ele simplesmente abrir um sorriso gigante, desligar o celular e jogá-lo por sobre o ombro, arrebentando o aparelho na parede.
— Dailicia! — ele gritou, enquanto eu encarava horrorizada o celular espatifado no chão
— Richielicia! — gritou meu irmão de volta, erguendo os braços.
É, parece que eles se conhecem.
Os dois começaram a saltitar sem sair do lugar, soltando gritinhos, que nem duas adolescentes cheerleaders. Depois se abraçaram e espalmaram a mão nas nádegas um do outro, comentando sobre "gostosura" e "pegancilidade" de ambos. Foi uma cena horrível de se ver.
— Saudades amor. — Richard apalpou os braços do meu irmão. — Está mais forte, meu garoto, se exercitando com sexo... Queria que Ryuuji me desse ouvidos como você.
— Hiroko tem sido muito prestativa.
— Teu rabo. — respondeu Hiroko fazendo Richard arregalar os olhos.
— Até no rabo? Menino, você não era assim.
— Ai... Vou morrer. — Finalmente notei o quanto Jinx estava rindo, ela respirou fundo e se arrumou no banquinho. — Richard, comporte-se, por favor.
— Sempre. — ele sorriu. — Vejo que gostou do cereal Kagome... Vou providenciar muitos para você.
— Obrigada.
— Hiroko, fiquei sabendo do bebê. — Ele se sentou no banco em que antes estava Daiki. — Tem certeza que não é do Ryuuji? — ela riu. — Uma pena não ser do Ryuuji, eu seria um grande tio.
— Nunca disse que você não será. — ela piscou e os olhos de Richard brilharam, os minutos seguintes foram gastos com Daiki reclamando que o bebê sequer havia nascido e já queriam vetar a paternidade dele.
Soltei um suspiro. Não iria conseguir brigar com o meu irmão naquele momento e provavelmente iria esquecer de continuar meu sermão. Pensei em pedir para todos calarem a boca e saírem da cozinha, deixando-me a sós com o Daiki, mas esse safado iria ter ideias erradas sobre o que eu haveria de querer com ele. Portanto resolvi que era melhor deixar esse assunto por ora.
Foi quando me dei conta de algo.
— Cadê o Hideo?
— Sapporo. — respondeu Daiki passando o braço ao redor dos meus ombros.
— Ele sabe que você está aqui?
— Claro, avisei meu Senhor que iria para casa de outro Senhor.
— E sequestraria a senhora dele. — completou Hiroko. — Nunca vi Hideo dar o cartão tão rápido para alguém.
— O Hideo sabe que vocês vieram?!
— Claro, só não veio junto porque estava ocupado com umas reuniões... Aposto que ele vai deixar tudo nas costas da Aika e aparecer aqui.
— Ela o mata.
— Mata nada. — anunciou Daiki fazendo uma careta de descaso, em seguida me abraçou, pressionando meu rosto contra seu peito. — Hideo tem o poder Tsubasa da sedução. — Ele me olhou. — Você também, o concentre com os seus irmãos, apenas.
— Ela é casada, nem em sonho ela faz isso, Daiki.
— Apesar de que falando do Sesshoumaru. — pronunciou-se Jinx, acho que no intuíto de me fazer corar. — Nem precisava estar casada com ele para querer dar para ele.
Eu juro que esperava qualquer ação do Richard, afinal, ele é o marido dessa hanyou maldita, no entanto, ele apenas segurou as mãos da esposa e com uma expressão de pesar disse:
— Sou macho e quero que ele me possua. Eu te entendo, minha cadela. — Ela acertou um tapa na nuca dele, mas riu, em seguida ele se levantou com um expressão zangada. — Eu vou ter que capar alguém hoje?! — Ele se voltou para mim e sorriu. — Algumas décadas fora e esses malditos ficam muito preguiçosos, já volto.
E saiu correndo, berrando sobre homens incompetentes que iriam ficar sem as bolas.
— O que houve? — perguntei, de olhos arregalados.
— O Masuyo passou pela porta, Richard mandou ele podar o jardim com um tesoura diferente da que ele estava carregando. — Tentou explicar Jinx, mas eu não entendi nada, exceto o fato que Richard era bipolar. — Ei, que tal fazermos um tour pela cidade? Hiroko, vamos procurar roupinhas para o bebê.
— Yuri. — declarou Daiki me fazendo esquecer a colher com cereal suspensa no ar e o olhar. — Decidi que o bebê vai se chamar Yuri. É um nome unissex.
Voltei minha atenção para Hiroko em uma pergunta silenciosa, ela apenas deu de ombro e sorriu. Lembrar de Yuri me trouxe uma sensação estranha de vazio. Ao mesmo tempo, um desejo de saber como Ruri estaria.
— Uma vez ou outra, seu irmão tem uma boa ideia. — ela brincou.
— Como a de te engravidar? — Ele recebeu um tapa. — Ah, o nome, sim... Não temos um nome mais digno que esse, já que Daiki foi excluído de todas as formas violentas conhecidas pela mente de minha futura esposa.
Ri enquanto voltava ao meu cereal, ouvi a voz de Richard no corredor, falando algo sobre colocar um tronco no jardim e distribuir chibatadas. Sorri e me voltei para porta ao ouvir a voz dele se aproximar, estava já o imaginando adentrando na cozinha com uma roupa de couro cantando "I've Got The Power" estalando um chicote, mas foi Sesshoumaru que entrou em meu campo de visão.
Antes que eu percebesse, eu tinha parado de rir, de comer e o encarava. Fiz isso por um minuto inteiro, a ponto de todos perceberem e ficarem me observando, estranhando minha reação. Será que estou com cara de assustada? Ou pior, de boba apaixonada? E se ele notou?! Tudo, menos ele perceber que eu fui idiota o suficiente para me apaixonar por ele!
Levantei-me e simplesmente saí da cozinha apressadamente. Voltei nem dez segundos depois ao ouvir um:
— Você brigou com a minha irmã, seu cão!
Peguei Daiki pela orelha, que estava em pé, apontando para Sesshoumaru. Meu marido apenas o encarava, muito sério.
— Vem comigo. — Puxei aquela montanha de músculos que ficou choramingando, dizendo o quanto eu não o amava mais. Hiroko continuou na cozinha, acredito que conversando com Jinx.
— Amor... Vida... Paixão... Razão da minha existência... Meu pote de paçoca com nutella. — Parei de andar o olhando de esguelha — Meu salve de rpg de vinte horas.
— 'Tá, entendi o quanto você quer ser carinhoso. — O soltei. — Você já invadiu meu quarto e me deu um susto ferrado, Sesshoumaru quase te matou e, ainda assim, você é louco de falar aquilo?
— Ele brigou com você?
— Não.
— Ele está com ciúmes do nosso relacionamento, pode falar. — Ele me abraçou. — Esses meros youkais que não entendem o incesto de dois irmãos que se amam ardentemente.
— Não temos um incesto. Com o Hideo eu até pensaria, com você não.
— Calada. Você não sabe o que diz.
Rolei os olhos e voltei a andar, puxando-o comigo. Felizmente sabia perfeitamente o que sossegaria o facho do meu irmão, portanto, segui até a sala de vídeo, onde ele escolheu meia dúzia de filmes para vermos e me fez deitar em seu colo alegando ser um youkai muito carente. Em algum momento do primeiro filme, Hiroko entrou no cômodo reclamando que eu a havia abandonado e sentou entre nós dois, abraçando-me.
Vai entender.
O resto da manhã correu de forma tranquila. Exceto, é claro, pela capacidade de Daiki de ser inconveniente. Estávamos assistindo o quinto filme da série "Jogos Mortais" e o idiota do meu irmão a todo momento que eu tentava pegar mais pipoca segurava meu braço e falava "Você quer jogar?"... Então eu jogava pipoca no rosto dele e me recostava comendo. Em algum momento Hiroko perguntou se tinha ficado cicatriz do ataque dos yaoguais à Yakuza e pronto: o barraco estava feito. Daiki estava tentando me despir e ter certeza de que eu não tinha ficado com alguma cicatriz.
Segurei o punho dele impedindo que a minha blusa de lã subisse mais que da altura do umbigo (onde ela estava no momento). Coloquei meu pé no peito do meu irmão enquanto ele ficava sobre mim, franzi o rosto concentrando minha força em manter o punho dele imóvel.
— Daiki, deixa de ser idiota! — reclamei.
Não sei de onde veio e nem como aconteceu, apenas sei que Daiki foi erguido... pela orelha. É a terceira vez que isso acontece só hoje. Arregalei os olhos e me levantei, olhando sem acreditar que Dmitri havia erguido meu irmão como se fosse uma criança. Daiki empurrou Dmitri com uma expressão séria.
— Quem você pensa que é, idiota? — ele rosnou enquanto segurava a gola da camisa de Dmitri.
— Ordens do meu Senhor. — Dmitri respondeu entredentes.
Como se tivéssemos ensaiado, Daiki e eu nos entreolhamos e então voltamos nossa atenção para a porta, onde Sesshoumaru estava parado de braços cruzados.
— Sesshoumaru? — falamos ao mesmo tempo.
Voltei minha atenção ao meu irmão, aproveitando sua distração para fazê-lo soltar a camisa de Dmitri, que apenas arrumou a roupa. Daiki pareceu acordar e voltou sua atenção para aquele que o havia puxado pela orelha.
— Ordens ou não, o que fez me dá motivos para te chutar daqui até a Guatemala.
— Tente, executor.
— Ei, ninguém vai chutar ninguém. — Espalmei as mãos no peito dos dois, eles deram um passo contra o outro. — Parem com isso.
Daiki estendeu o braço para agarrar o colarinho de Dmitri, adiantei-me, usando toda a força que tinha para empurrar meu irmão. Ele desviou o olhar para mim e depois voltou a encarar Dmitri. Eu estava pronta para começar a gritar com ele quando senti um puxão em minha cintura, arregalei os olhos e virei o corpo, percebendo que Sesshoumaru havia me puxado para longe de ambos.
— Espera, eles querem se matar. — falei, tentando me desvencilhar dele, mas sentindo pelo braço em volta da minha cintura que não seria tarefa fácil. — Daiki, pare com isso.
— Ele começou.
— E você é uma criança por acaso? — Exclamei — Sossega ou fora da minha casa.
— Expulsaria seu próprio irmão?
— Sim.
— Magoado. — Ele se aproximou de mim, mas encarava Sesshoumaru. — Não sei a droga que estão dando a ela, mas vou descobrir e curá-la da sua satanice, Senhor do Oeste. — E, com isso, saiu irritado puxando Hiroko (que até aquele momento estivera bem sentada assistindo o filme), dando adjetivos nada agradáveis para Dmitri que apenas rolou os olhos e soltou um suspiro.
— Com licença. — E ele saiu me deixando sozinha com Sesshoumaru.
Espera, estou sozinha com ele? Ergui os olhos para Sesshoumaru, percebendo que ainda estava encostada nele e envolvida pelo braço em minha cintura. Ele apenas encarava a porta por onde todos estavam saindo e por onde eu passaria correndo dez segundos depois, com medo de que ele percebesse como eu estava vermelha.
Fui parada no corredor por uma Jinx animada que me mostrou uma lista no tablet.
— Uma lista de lojas que vamos visitar amanhã. Dmitri será o motorista. — ela disse sorrindo. Apenas acenei afirmativamente e tentei parecer concentrada nos detalhes.
Depois do incidente na sala de filmes, Daiki havia ido até Richard para reclamar de Dmitri, apenas soube disso quando Richard entrou na sala reclamando que seu cunhado não podia ficar puxando o macho dele pela orelha daquela forma. Jinx mandou ele calar a boca e voltamos a emocionante discussão sobre os lugares que iríamos depois na saga das roupas de bebê.
Meu irmão logo apareceu reclamando de como eu havia me tornado uma mulher frígida não querendo o corpo nu dele junto ao meu. Ficou falando que Sesshoumaru havia me contaminado com sua doença da frieza/cretinice aguda. Quando o xinguei, o nome da doença se tornou: fieza/cretine aguda com picos de agressividade verbal e física.
O ignorei e ele resolveu que era melhor conversar com Richard. Era estranho ver que um tengu e um tai poderiam ser tão amigos. Embora, quando Ryuuji entrou na sala, Daiki só faltou rosnar.
— Você ainda quer treinar? — pisquei confusa, quando ele se inclinou na minha direção com os braços cruzados. — Treinar, preciso escrever para você entender, retardada?
— Sim paixão, ainda quero treinar.
— Vou programar uma agenda de treinamento para alguém patética como você. — Ele lançou olhares irritados para Daiki e evitou olhar para Hiroko. Então suspirou. — Amanhã de tarde sem falta, é bom não se atrasar.
Daiki fez menção de ir atrás do Ryuuji, mas Richard deu um murro em seu ombro dizendo:
— Quando vai para Washington jogar sinuca no bar comigo e os rapazes?
Isso iniciou uma discussão animada entre os dois. Suspirei aliviada e olhei para Hiroko.
— Eu nunca imaginaria que o Daiki poderia ter uma amizade assim com um youkai que não fosse tengu. — confessei, recebendo um olhar divertido de Hiroko.
— Você é mesmo uma criança. — ela riu, torci o nariz, contrariada. — Desculpe, não disse nesse sentido... é que... — ela suspirou. — Bom, Kagome, temos muitos anos e querendo ou não às vezes as mudanças naturais na historia humana faz com que nós youkais tenhamos que conviver para resolver tal questão. Aquele negócio de alianças forçadas. Estamos há muito anos nesse mundo e o Japão não é muito grande. Enfim, deu para entender alguma coisa? Sou uma grávida muito confusa.
— Entendo, mas mesmo assim...
— É estranho... Eu te entendo. Esses dois são estranhos mesmo. Ryuuji, Richard, Daiki e Nagi tiveram que trabalhar juntos alguns anos atrás nos ataques nucleares. Na época, todos nós esquecemos nossas diferenças para ajudar. Esses dois ficaram amigos. Ryuuji e Nagi viraram inimigos. O de sempre. — ela riu e eu franzi o cenho, prestando atenção no que ela dizia. — Acho que nem eles sabem o que é amor e ódio.
— Entendo. Enfim, vocês vão dormir aqui? — perguntei, depois que ela ficou em silêncio por um tempo.
— Por mais que você seja nossa família, ainda é estranho dormir sob o teto do Senhor do Oeste, por isso resolvemos ficar em um hotel.
— Daiki concordou com isso?
— Ele não pode opinar.
— Se mudar de ideia, ficaria feliz em ter vocês aqui. — ela me olhou de canto. — Você. Eu dispenso o Daiki.
— Imaginei... Eu também não quero esse energúmeno batendo na sua porta reclamando sobre o cachorro do seu marido. Melhor ficarmos em um hotel.
— Mais fácil de controlá-lo?
— Sim.
— Ele estava falando sobre o pedido de casamento?
— Sim, mas não vou aceitar esse pedido apenas por estar grávida. — ela suspirou. — Ele teve muito tempo para fazer as coisas da forma certa.
— Tarde demais? — ela deu de ombros. Suspirei, essa decisão cabe apenas a ela.
Voltei minha atenção para Kirara deitada ao meu lado, ela sentou e coçou atrás das orelhas me fazendo lembrar de quando o velho Myouga ficava ali se alimentando de seu sangue. Sorri e afaguei atrás de sua orelha recebendo um miado de aprovação.
— Kagome, me explica isso de batalha em Washington. — Assustei-me quando Daiki sentou ao meu lado, mas logo olhei Richard que apenas deu de ombros e sentou-se ao lado de Jinx que agora estava deitada no chão de madeira com um travesseiro sob sua cabeça. — Ia esconder essa luta do seu irmão?
— Você não perguntou nada.
— Claro, pois a primeira coisa que me ocorre quando te vejo é questionar sobre os yaoguais que você eventualmente encontrou pelo caminho de sua divancia em vida.
— Quer a parte resumida ou completa? — Ele ergueu a sobrancelha. — Ok... Você nunca facilita minha vida.
Comecei a narrar ao meu irmão sobre tudo que aconteceu do momento que saí da alfândega norte-americana até o baile da Convenção. Claro que omiti a parte de sentimentos e tudo o mais, até porque eu ainda estava ruminando essa parte. Daiki começou a fazer perguntas sobre o composto usado contra os yaoguais, foi quando Richard se juntou a conversa começando a relatar seu fantástico plano de usar o veneno contra o estúpido do touro.
— Basicamente deixamos os yaoguais fazerem todo o trabalho sujo e depois Jinx haqueou o sistema deles para pegar a fórmula do composto. Modificar e potencializar foi brincadeira de criança nos laboratórios. — ele explicou.
— O engraçado é que quando eu haqueei o servidor do finado Niu Mo Wang, a única coisa que encontrei foi o mapeamento da fórmula. — Jinx explicou — Pensei que iria encontrar milhões de arquivos de pesquisa, mas não, apenas o mapeamento. A sensação que eu tive era de que o tal Composto Yong não havia sido criado pelos yaoguais, mas sim roubado de alguém. Bom, ladrão que rouba ladrão...
Franzi o cenho, curiosa. Se ele havia sido roubado... Então quem tinha feito? Quem teria conhecimento suficiente sobre youkais para ter feito aquele composto e, posteriormente, ter sido roubado pelos yaoguais?
— Pensei que tivesse todo um estudo patológico para criá-lo. — comentei.
— Eu só sei de tecnologia, não me pergunta dessas coisas de cientistas. — Jinx deu de ombros.
— Nagi daria um braço para ter acesso à pesquisa. — disse Hiroko ao meu lado, e fiz uma anotação mental de pedir à Jinx posteriormente todos os dados que ela tinha colhido.
— Nagi ainda está bem? — Richard perguntou, com um sorriso torto — Nunca mais deu uma de Godzilla e saiu destruindo cidades?
— Você não devia falar assim dele. — reclamou Hiroko.
— Você não viu como ele era cento e cinquentas anos atrás. Ele mudou quando teve que cuidar de você. — Richard disse, às risadas — Nunca compreendi como é que Takashi conseguiu domar aquele monstro. Ele tinha um prazer especial em expor as vísceras das vítimas enquanto elas ainda estavam vivas. Época divertida.
Arregalei os olhos, encarando Hiroko, sem acreditar que Richard estivesse falando do mesmo Nagi que eu conhecia. A palidez dela me fez entender que, fosse o que fosse que Richard estivesse falando, ela sabia sobre o que era.
Daiki percebeu o desconforto de Hiroko e comentou, brincando:
— Época divertida? Está falando de quando você ainda se chamava Urushida?
— Richard é muito mais a minha cara, não é? Um nome forte, sexy, poderoso, colossal.
— Você adotou o nome para se infiltrar nos Estados Unidos? — perguntei curiosa.
— Foi? — perguntou Hiroko, confusa — Pensei que você adotasse esse nome desde a Grande Guerra.
— É. — ele respondeu — Foi o nome que a filha de Sesshoumaru me deu e acabei me apegando.
— Sesshoumaru teve uma filha?! — questionou Daiki, de olhos arregalados, e então olhando para mim — Você sabia disso, Kagome?
— Sesshoumaru não teve filha alguma. É complicado, Daiki, deixa de ser curioso. — Richard respondeu, fazendo-me perceber que ele estava falando de Rin. Ele seria realmente tão velho a ponto de ter conhecido Rin? Se fosse o caso, ele provavelmente já estaria vivo quando eu visitava a Era Feudal. E também significava que Rin e Sesshoumaru nunca haviam tido nenhum relacionamento que fosse além de pai e filha.
Por que me sinto aliviada?
Daiki tomou minha confusão por desconforto e mudou de assunto mais uma vez. Em algum momento da conversa percebi o quanto estava com fome e fui na cozinha pegar algo para beliscar, ofereci para os outros, mas eles queriam esperar o almoço feito pela senhora Hakusho.
Assim que passei pelo batente da porta da cozinha eu vi Sesshoumaru. Ele estava de costas a mim e segurava o celular contra o ouvido esquerdo, acredito que ele sentiu o meu cheiro pois desligou a chamada. Saí da cozinha e fui até a sala, sentando no colo do meu irmão que me abraçou com um sorriso satisfeito enquanto dizia:
— Viram, ela me ama.
Algum tempo depois estávamos à mesa almoçando, fiquei agradecendo mentalmente o fato de Sesshoumaru nunca se juntar aos meros mortais para se alimentar.
Quase senti vontade de beijar Hiroko quando ela confessou que queria conhecer o Parque Imperial de Kyoto, pois nunca tivera tempo de ir lá em suas raras visitas ao território do Senhor do Oeste. Richard se propôs a nos levar como guia e Jinx de corrigir as informações errôneas do marido dela.
Depois de uma tarde agradável em um lugar lindo você acredita que vai chegar em casa e falar com seus amigos sobre o quanto foi divertido o passeio, mas não para mim, Kagome Taisho. Afinal, ao chegar em casa, encontrei Kazuki com uma expressão de pesar e isso resultou em minha pessoa quase babando de raiva, na tara de encontrar Sesshoumaru e perguntar o que ele tinha na cabeça para mandar incinerar os filmes da sala de vídeo. Na minha irritação, sequer percebi que, depois de passar o dia todo correndo de Sesshoumaru (incrível, quase nunca ele está em casa, e hoje ele resolveu bancar o marido caseiro?), eu estava fazendo exatamente o contrário: correndo ao encontro dele. Quer dizer, de encontro a ele, por que estou com muita vontade de arranjar uma briga.
A porta do nosso quarto se abriu e Sesshoumaru surgiu no corredor, dessa vez usando um suéter preto. Parei no corredor, enquanto ele me encarava, com braços cruzados.
Parecia quase como se estivesse me desafiando.
Arregalei os olhos, finalmente compreendendo o porquê de ele ter mandando incinerar os filmes.
— Você fez de propósito? — questionei — Você fez isso para que eu viesse brigar com você?!
Acha que ele me deu resposta? Apenas continuou me encarando, com aquela expressão de leão de chácara que não recebe o suficiente para fazer o seu trabalho.
— Não se atreva a tocar nos filmes! — eu disse apenas, apontando para ele ameaçadoramente e virando as costas.
Senti-o segurar meu braço e me empurrar contra a parede. Arfei, de olhos arregalados, surpresa com a aproximação inesperada. Precisei erguer o rosto para observar o dele, pois Sesshoumaru estava muito próximo.
— Pare de correr de mim. — ele ameaçou, colocando a mão espalmada na parede bem ao lado do meu rosto. Apenas fiquei encarando-o, sem piscar, apreensiva com a reação agressiva dele. Questionei para mim mesma se ele estava falando para que eu parasse de correr dele agora ou durante o dia inteiro.
— Não estava correndo. — respondi sonsamente, baixando o olhar. Tentei me afastar dele, saindo pelo lado contrário do que ele mantinha me prendendo, apenas para ofegar quando ele colocou a mão do outro lado e se aproximou mais. — O que você está fazendo? — perguntei quase sem voz.
Sesshoumaru olhou para o corredor, na direção em que eu tinha vindo e eu imitei a ação dele, apenas para observar o corredor vazio. Virei-me novamente para ele, já perguntando o que havia acontecido, quando senti todo o corpo de Sesshoumaru ser pressionado contra o meu e ele segurar minha nuca, colando minha boca entreaberta com a dele.
O quê?
Fiquei paralisada, de olhos arregalados, até perceber que Sesshoumaru estava me beijando. Soltei um gemido involuntariamente, fechando os olhos e colocando minhas mãos nos ombros dele, embora eu não tenha certeza se para empurrá-lo. Antes que percebesse, eu havia agarrado o tecido de seu suéter e o puxava para mais perto, ficando na ponta dos pés para aprofundar o beijo.
Ele mordeu minha boca, e eu deixei escapar um som surpreso, mas não interrompi o contato. O beijo se tornou estranhamente violento. Coloquei minhas duas mãos em sua nuca e puxei-o com força contra mim, recusando-me a ser subjugada por ele. Senti a mão dele na base da minha coluna, pressionando. Suspirei de prazer e, então, como se tudo não passasse de uma piada, senti os dedos dele segurarem meus cabelos e puxarem minha cabeça para trás até que eu me afastasse. Fiquei encarando-o, embora não o visse realmente; a única coisa na qual conseguia me concentrar era nos arrepios que subiam pela minha coluna.
Franzi as sobrancelhas, ofegante, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Baixei os olhos, envergonhada, mas os ergui no segundo seguinte, quando a vergonha se tornou irritação — embora eu não faça ideia do motivo.
— O que foi isso? — questionei, mas Sesshoumaru estava olhando novamente para o corredor, que, dessa vez, não estava vazio, mas preenchido por Richard e Daiki, aquele sorrindo levemente e este tão pálido que poderia se passar por algum mímico de rua.
A vergonha voltou. Eu nem fiquei vermelha, passei direto para o roxo. Sesshoumaru se afastou de mim. Precisei apoiar minhas duas mãos na parede para não cair, mas tive espírito para erguer o rosto e ver o meu marido sair andando, passando ao lado do meu irmão e de Richard. Não faço ideia do que eles viram no rosto de Sesshoumaru, só sei que Richard ficou tão pálido quanto Daiki e colocou uma mão sobre a barriga, encolhendo-se ligeiramente.
Somente quando Sesshoumaru sumiu do nosso campo de visão, foi que Richard conseguiu voltar a respirar, se bem que parecia estar no meio de um ataque de pânico.
— Meu senhor dos chocolates, Daiki, Sesshoumaru te odeia, cara! — exclamou assustado — Você viu aquele sorriso? Você viu? Velho, eu envelheci dez anos aqui! Puta que pariu!
Sesshoumaru havia sorrido? Daiki ainda estava me encarando, muito pálido e sério, e eu não tinha certeza se tinha voltado a apresentar uma cor de pele humanamente possível. E foi quando compreendi o motivo de Sesshoumaru ter me beijado: ele sabia que Richard e Daiki vinham pelo corredor.
Percebi, surpresa, que estava decepcionada com isso. Passei a mão pelo rosto. Não acredito que ele havia me beijado apenas para irritar Daiki. Meu Deus. Tentei recuperar meu fôlego, querendo convencer a mim mesma a não correr atrás de Sesshoumaru e dar uns tapas nele. Bons motivos para não fazer isso: 1. Eu podia considerar isso como uma vingança da parte dele, já que eu o tinha beijado em Naha apenas para confundi-lo e conseguir o que eu queria; 2. Ele iria me matar com um sorriso no rosto ainda maior do que aquele que havia mostrado para Daiki e Richard; e 3. Eu ainda não tinha plena faculdade da minha coordenação motora para fazer isso.
Quando finalmente pude dar alguma atenção a Richard e Daiki, os dois já pareciam ter se recuperado do susto.
— Eu vinha chamar vocês para nos reunirmos… — disse Richard para mim, dando de ombros e rindo — Não pensei que fosse atrapalhar o arrepau no pio de Sesshoumaru.
— Pera… Que reunião é essa? Pensei que você iria me mostrar pornôs. — alegou Daiki.
— Kazuki pediu uma reunião, você que imaginou que tinha algo a ver com safadeza. — respondeu, então se virou para mim — Vamos, Kagome?
— Hum… Eu também? — questionei, tentando parecer natural, apesar de ter sido flagrada numa situação tão constrangedora.
— Claro, ué. — então olhou para Daiki, ficando sério — Você não. É bom que você vá embora. Se eu descobrir que algum tengu andou espionando minha casa, eu vou ficar muito irritado.
Daiki ergueu as mãos, em um gesto de paz.
— Calma, Richie, vou pegar minha mulher e minha cria e me retirar. — avisou — E vai se tratar, cara, que mudar de humor assim não é normal.
— Cinco minutos e quero você fora. — avisou, mas dessa vez em tom de brincadeira — Kagome? O que você ainda está fazendo aí? Quanto antes terminarmos a reunião, mais cedo você volta para a diversão com Sesshoumaru.
Morta de vergonha, eu só tive forças para me despedir rapidamente de Daiki antes de seguir Richard. A única coisa na qual eu conseguia me concentrar era na sensação de formigamento que Sesshoumaru havia deixado em meus lábios.
Ladie
Capítulo meio atrasadinho, hem? Sinto muito pela demora, é que aconteceram alguns imprevistos, como a avó da Fkake ficando doente e minha faculdade me dar até o dia 27 para entregar minha monografia pronta, por isso eu não tenho certeza de quando o próximo capítulo sai. Talvez não antes do dia 27, por motivos de: desespero.
Por favor, tentem ser pacientes e voltamos em no máximo 9 dias. Não esqueçam de comentar. Amamos vocês.
