Capítulo LXII — Meia-Lua, "a", Hadouken

Eu acordei devagar, sentindo todo o meu corpo reclamar, lânguido, de ter que voltar ao mundo real. Parecia, de fato, que eu havia tido um sonho muito bom, repleto de sensações incríveis e bons sentimentos... Até eu perceber que não fora exatamente um sonho — ou, ao menos, não um daqueles que a gente tem enquanto dorme.

Abri os olhos rapidamente, percebendo que estava nua sob os lençóis e que estava sozinha na cama. Minha mente, de repente, se via tomada pela vergonha, pela descrença e pelo pânico. O que era exatamente que eu tinha feito? O que nós tínhamos feito (e, se me lembro bem, não apenas uma vez)? Havia algo de chocante em lembrar das reações que eu tive diante dos atos de Sesshoumaru. Eu não havia sido completamente decente ou normal. Pelo contrário, havia exponenciado todas as minhas péssimas qualidades: a impulsividade, a ausência de bom senso e o gostar que sinto pelo cretino do meu marido.

Pensar em tudo isso me deixava sem ar, e, pelo menos nesse primeiro momento, não no bom sentido... A boa falta de ar só surgiu alguns segundos depois, quando lembrei como ele havia feito eu me sentir. Logo quem: Sesshoumaru, em quem eu apostaria dez mangos na completa incapacidade de ter atitudes passionais. E, que os deuses tenham piedade da humanidade, passional era uma palavra que definia o Sesshoumaru das últimas horas com assustadora fidelidade.

Reprimi um sorriso descrente por alguns segundos e coloquei as mãos no rosto para não rir alto. Era completamente inacreditável. E incrível. E sublime. E sei lá o que mais. Sequer consigo parar nesse momento para refletir nas consequências do que tinha acontecido e me deixei ser inundada pelo prazer de saber que, em um aspecto nunca imaginado, eu era muito bem correspondida por Sesshoumaru.

Sentei na cama, segurando o cobertor contra os meus seios, e procurei pela luz acesa no anexo/escritório de Sesshoumaru, mas não havia nada que indicasse que ele estava lá. Pensei que o workaholic crônico estaria trabalhando... Embora eu não gostasse tanto da ideia, acho que ficaria mais feliz de saber que ele estava fazendo isso do que ter me deixado sozinha no quarto.

Notei a porta que levava ao jardim privativo aberta, o que era estranho uma vez que se eu não a abrisse, ela permanecia sempre fechada. O frio me incomodou quando decidi sair da cama, então me embrulhei no edredom e segui até o jardim, notando as luzes acesas. Isso me fez perceber que já era noite e que havíamos passado todo o dia no quarto.

Sorri ao ver Sesshoumaru de costas, parado de pé ao lado das cadeiras e da mesa no centro do jardim, usando apenas uma calça moletom negra (acredito que já discutimos antes essa habilidade sesshoumaruriana de jamais sentir frio). Ele olhou por sobre o ombro, encarando-me e eu andei até ele. Ao me aproximar, acabei percebendo que ele segurava uma caneca com café. Na mesa de centro havia um bule com alguma bebida quente e comida — uma olhada mais clínica evidenciou tratar-se de arenque e lula grelhados, arroz de sushi com cobertura, morango com chocolate e fondue de frutas. Olhei surpresa para Sesshoumaru, que estudava minha reação, então ergui uma sobrancelha.

Imaginar Sesshoumaru andando pela casa com uma bandeja forrada de comida não era possível, então tirei a conclusão óbvia:

— Kazuki trouxe o jantar, você não o deixou entrar e trouxe tudo para cá. — comentei, com um sorrisinho. Acho difícil ele ter deixado qualquer pessoa ter entrado no quarto comigo nua na cama. Sesshoumaru apenas ergueu a caneca até os lábios e tomou mais um gole de café. Dei de ombros. — Meu marido Kazuki é muito gentil. — respondi, sentando numa cadeira e estendendo uma mão para segurar o braço de Sesshoumaru para forçá-lo a se sentar também.

Preciso fazer uma pausa para narrar que um arrepio correu minha coluna ao tocar a pele de Sesshoumaru. Eu sei que é só pele, e sei que é só o Sesshoumaru, mas eu não consegui deixar de lembrar do toque dele, ainda vívido na minha pele, como se minha epiderme tivesse seu próprio centro nervoso cuja única função era me lembrar de como havia sido ter as mãos dele percorrendo meu corpo.

Engoli em seco, servindo-me de café. Acomodei o edredom sobre os ombros, protegendo-me do frio, e esquentando minhas mãos com a caneca. Olhei de esguelha para ele.

— Seu colar. — a voz de Sesshoumaru soou, sobressaltando-me. Voltei minha atenção para ele, deixando escapar um confuso "hum?". — Pensei ter deixado claro que você deveria entregá-lo para mim e isso já faz algum tempo.

Ergui uma mão até o pescoço, já que o colar com o pingente em forma de pena era a única coisa sobre o meu corpo além do edredom.

— Lembro de você ficar mandando que eu o entregasse. — falei, revirando os olhos — Sempre um ogro, querido. Por que precisa dele?

— Nunca compreenderei por que é tão difícil para você me obedecer sem fazer perguntas.

— É tão difícil responder? Se quiser, eu posso ensinar: você escolhe palavras que façam sentido quando ditas numa determinada ordem, pensa várias vezes para ter certeza de que o sentido do conjunto não vai me ofender e então usa sua voz para dizê-las. Simples como responder as perguntas que eu faço.

Ele suspirou (sim, exatamente isso) e se aproximou de mim, acho que fiquei tão surpresa em ouvi-lo soltar aquele suspiro que só notei a aproximação quando ele passou os braços por volta do meu pescoço e inclinou a cabeça para ver o feixe da corrente. Fechei o edredom em volta de mim com cuidado, só me lembrando alguns segundos depois que era inútil tentar esconder dele algo que ele tinha visto em todos os detalhes pouquíssimo tempo antes.

— Não vai mesmo me responder? — sussurrei. Ele não disse coisa alguma, apenas afastou-se, sentando-se na cadeira com o meu colar nas mãos. Suspirei, com uma expressão cansada. Sesshoumaru realmente sabe me irritar. — Você deveria dar aula de como ser chato. — Ele me olhou, estreitando os olhos. — Já pensou em investir nisso? Faria sucesso.

— Fique quieta.

Rolei os olhos e voltei minha atenção para a comida, já que comer era melhor que ficar me estressando com a simpatia do meu marido. Percebi uma luz verde envolver as mãos de Sesshoumaru por alguns segundos, enquanto ele segurava o pingente. Então, satisfeito, ele se inclinou novamente na minha direção e fechou o colar em volta do meu pescoço. Segurei o pingente negro em formato de pena na palma da minha mão e notei uma lua crescente prateada desenhada no centro dela. Era bonito. E familiar. E significativo.

Voltei minha atenção a ele.

— Isso significa que estou sob sua proteção também? — Ele tomou mais um gole de café — Se falar domínio juro que jogo esse café quente na sua cabeça. — ele me encarou e por um momento pensei que ele sorriria, mas óbvio que não o fez. Não precisava me responder para saber que ele havia pensado exatamente isso.

Tive que me segurar por bastante tempo para não cumprir a promessa de jogar café nele.


O dia todo sem falar com o Daiki resultou em muitas mensagens em meu celular. Não passava das oito da noite e meu irmão havia enviado exatos mil e quinhentos e-mails. Eu sei que é difícil de acreditar, mas ele conseguiu essa proeza. Pelo que entendi, ele havia saído com Jinx, Richard e Hiroko e me parece que Richard ficou fazendo comentários maliciosos sobre como o Sesshoumaru havia agido essa manhã.

"Como assim ele te pegou embaixo do braço e te levou para castigar?", diziam todos os e-mails. Não sei como o sistema não o bloqueou por causa de spam. Pior, como o Richard pode falar dessa forma para o meu irmão (pois tenho minhas sérias suspeitas de que foram palavras dele isso de castigar).

Suspirei e estralei o pescoço. Sei que ele é louco o suficiente para invadir novamente minha casa, mas também sei que Hiroko vai arrancar o couro dele caso isso realmente aconteça, e ainda tem o fato de Aika terminar de matá-lo quando descobrir tudo que ele andou aprontando.

Respondi apenas com:

"Estou bem. Cuide da sua vida, Daiki."

Depois do jantar, eu havia entrado para vestir alguma coisa, enquanto Sesshoumaru havia seguido em direção ao anexo para fazer o de sempre: trabalhar. Depois que saí do closet usando um pijama com estampa de Liga da Justiça — pensei em usar algo sexy, mas fiquei com medo de parecer um convite descarado (só depois que vi o olhar de Sesshoumaru quando saí do closet foi que percebi que o pijama, na verdade, era um desconvite; droga!) —, notei a cama completamente bagunçada e, vermelha por lembrar o motivo, passei a arrumá-la.

Sesshoumaru, em vez de fazer qualquer outra coisa, ficou sentado na cadeira, de braços cruzados, observando o que eu fazia. Parecia quase divertido. Então joguei um travesseiro nele e me deitei na cama, virando de costas para o anexo e tentando não ficar envergonhada. Vou ter que trabalhar melhor toda essa coisa de agir com naturalidade.

Suspirei. Os livros não me ensinaram como agir a partir de agora. A única coisa que pude aprender com eles foi como ser uma idiota até ter a parada de ser correspondida dar certo por pura mágica — check! —, e nenhum deles explicou o que fazer depois disso. As opções são inúmeras:

1) Posso bancar a despreocupada. Nada aconteceu, está tudo normal. Eêêê! Somos felizes! Mas então pareceria que eu não me importava com o que havia acontecido, e isso é uma mentira; eu me importava demais.

2) Podia bancar a decente, ficar com vergonha de termos feito amor e ruborizar apenas de ficar no mesmo cômodo que ele. Só que isso não se parece em nada comigo.

3) Podia bancar a descarada, me livrar do pijama da liga da justiça e brincar de cowgirl no colo dele. Mas não sei se ele iria lidar bem em ser dominado, então tenho que pensar com cuidado nos desdobramentos das minhas ações.

4) Podia bancar a sincera: "então, Sesshoumaru, vamos fazer aquilo de novo ou não?". Porém, nem mesmo eu tenho toda essa cara-de-pau.

E 5) podia simplesmente ficar muito bêbada, fazer todas as opções acima e depois colocar a culpa no champanhe. Sempre funciona.

Apertei as palmas das mãos contra os olhos. Que droga! Ficar tentando pensar nisso racionalmente não está ajudando. Pelo contrário: agora estou ansiosa, confusa e exausta. Suspirei, largando os braços sobre a cama e encarando a parede, perdida. Eu acho que estou me preocupando à toa… Talvez fosse mais simples não tentar dar rótulos ao que eu sentia ou ao que deveria sentir e simplesmente… sentir. Sei que isso não fez sentido, mas me trouxe algum conforto.

Ouvi uma gaveta se abrir bem ao meu lado e girei parcialmente o corpo para ver Sesshoumaru parado diante do criado-mudo, segurando um controle. Pisquei algumas vezes, curiosa, observando ele apertar alguns botões e, por magia, um dos paineis de madeira em uma das paredes se abriu, revelando uma tela gigante. Sentei na cama, muito surpresa para falar alguma coisa e engatinhei no colchão, ansiosa, ao perceber que os três aparelhos na estante na verdade eram os três últimos consoles de videogames lançados.

— Mentira! — exclamei, saindo da cama e correndo na direção da estante recém-surgida do paraíso, sem acreditar. Desde quando aquela perfeição em forma de tecnologia esteve escondida, ao alcance dos meus dedos frenéticos?! Tateei a gigante coleção de jogos enfileirados, vendo que fosse quem fosse (provavelmente, marido Kazuki) o autor daquela maravilha, havia sido bastante generoso ao escolher os títulos de maior renome. Segurei um dos controles do PS4 contra o peito e virei-me para Sesshoumaru, com olhos chorosos de felicidade contida. — Dmitri sabe que isso está aqui?

Só percebi que foi a coisa errada de se perguntar quando ele soltou o controle dentro da gaveta e a fechou com um gesto rude. Então virou as costas, seguiu na direção do anexo, e sentou-se na cadeira. Fiquei sem saber como agir. Antes eu apenas pensaria que Sesshoumaru estava sendo ele mesmo, mas depois do que tinha acontecido hoje (ainda mais depois do surto de ciúmes que ele teve por causa de Dmitri) talvez eu pudesse romantizar as atitudes dele.

Deixei escapar um sorriso surpreso e larguei o controle, seguindo na direção de Sesshoumaru. Ele ergueu os olhos quando parei ao seu lado, bem a tempo de me ver apoiando a mão em seu ombro e me inclinar para depositar um beijo de leve em sua boca.

— Obrigada. — sussurrei — Foi muito atencioso da sua parte.

Então me afastei, sorrindo, correndo para os bebês que me esperavam na estante. Soltei um gritinho ao ver que tinha o Street Fighter vs Tekken. Dmitri passou duas horas falando mal desse jogo, razão pela qual eu não tive coragem de convidá-lo para jogar, mas agora… Agora "livre estou!". Vou jogar isso até meus dedos caírem.

Dei risada ao perceber que tinha vários jogos de gosto duvidoso, como Lucius ou Alice Madness Returns. Não era exatamente o tipo de jogo para se aventurar sozinho, mas como Sesshoumaru estava no quarto acho que eu não teria tanto medo. Talvez até rolasse um Silent Hill se minha coragem permitisse.

Por via das dúvidas, coloquei o Street, enquanto comentava:

— Você sabe que isso na verdade até que é meio estranho, né? Os jogos, o closet, o escritório anexo ao quarto… até o jardim. Parece que foi tudo feito para alguém, mas não sou tão louca para achar que foi para mim… — dei risada — Até por que se fosse, seria muito doente. Tipo Sesshoumaru stalker. — matraquei, sem conseguir me tocar que estava falando demais. Se Sesshoumaru estivesse realmente me ouvindo, responderia com um curto "a doente aqui é você". Então parei, sentindo o coração gelar, diante de um pensamento idiota, mas muito pertinente que passou pela minha cabeça — Isso foi feito para alguém? — sussurrei, olhando para Sesshoumaru.

De repente, a ideia de estar usufruindo de algo que não foi feito para mim, mas para outra mulher, deixou-me estranhamente nervosa. Eu jamais havia pensado no assunto antes, ou ao menos não me permitia, mas os acontecimentos das últimas vinte horas de alguma forma haviam dado a entender ao meu subconsciente que eu podia cobrar alguma coisa (como titularidade) de Sesshoumaru.

— Sempre só houve você. — Sesshoumaru comentou friamente, sem tirar os olhos dos documentos que segurava.

Aquilo freou a torrente de pensamentos ruins que brincavam na minha mente. Sempre só houve você. Então me vi engolindo em seco, sem entender o que ele queria dizer com uma frase tão enigmática.

Voltei minha atenção para a televisão, sem realmente prestar atenção na abertura empolgante do jogo. Não sabia como reagir agora, então simplesmente apertei start e deixei isso para depois.


Fui dormir muito tarde. Na verdade, nem tenho noção de que horas fui dormir, apenas de que apaguei em algum momento entre Lucius matar a empregada e trancar a irmãzinha no armário escuro cheio de cacos de vidro espalhados pelo chão.

Estranho. Estava na cama, coberta, deitada de lado, sentindo um peso reconfortante na minha cintura. Então bocejei, cocei os olhos, e olhei por sobre o ombro, percebendo que o peso que eu sentia era a mão de Sesshoumaru, que ele mantinha apoiada no meu corpo, enquanto lia um documento.

Parecia algo estranhamento doméstico e caloroso. Algo que eu gostaria que acontecesse pelo resto da minha vida. Aliás, algo bom o suficiente para que eu aceitasse que ele era realmente um viciado em trabalho, incapaz de deixar o mundo a ser dominado de lado por alguns instantes.

— Já é de manhã? — questionei de forma sonolenta.

— Você não dormiu muito. — ele disse, erguendo os olhos para encarar a televisão acusatoriamente.

— São objetos inanimados. — comentei, enquanto voltava a recostar a cabeça no travesseiro — Não vão pedir desculpas só por que você está olhando feio para eles.

Senti a mão dele afastar-se de mim e reclamei baixinho, quase erguendo o braço e puxando-o de volta. "Estava bom assim", sussurrei, mas o som do meu resmungo foi abafado pelas palavras dele:

— Levante-se e vista alguma coisa. — mandou — Kazuki está vindo.

— Estou com sono. — reclamei.

— Agora.

Dei alguns soquinhos no colchão, resmungando contra o travesseiro sobre como Sesshoumaru era um idiota mandão, e me levantei, seguindo muito irritada para o closet e tentada a voltar para o quarto apenas de camisola. Só que por mais que eu amasse o marido Kazuki, eu ainda não estava tão acostumada com essas reações de macho alfa do Sesshoumaru, então vesti uma comportada calça jeans e uma camiseta preta com os dizeres "Minha irmã é linda. E eu tenho uma arma, uma pá e um álibi." que Daiki tinha me dado de presente no último natal (porque demônios japoneses comemoram feriados cristãos).

Saí do closet e me deparei não apenas com Kazuki, mas com um Dmitri completamente fascinado com os videogames. Abri a boca para dizer que usaríamos aqueles primores quando Sesshoumaru não estivesse em casa, mas o demônio em questão estava me observando com cara de poucos amigos. Parecia saber que eu tinha planos malignos.

— Bom dia. — cumprimentei, sentando-me na mesa de Sesshoumaru, apenas para irritá-lo, mas toda a minha cara-de-pau se foi quando percebi o sorriso torto do marido #2. Ele sabia! Meu Deus do Céu, ele sabia! E era óbvio que sabia, por que eles eram tai-youkais, e tinham faro, e tinham audição (santo cristo!) bem apurados!

Aqui jaz Kagome Taisho. Morreu de vergonha.

— Pode começar. — disse Sesshoumaru, bem a tempo de impedir que todos notassem minha cara da cor de tomate. Tomate podre. Espatifado. No chão. De vergonha.

Pigarreei, vendo marido Kazuki ligar o tablet e começar a dar um relatório em tom profissional. Fiz um esforço pessoal para esquecer toda o meu embaraço para prestar atenção na reunião que aparentemente eu havia sido obrigada a presenciar.

— … com a bandeira branca estendida pelos yaoguais, como o senhor previu. — disse Kazuki, fazendo com que eu finalmente prestasse atenção — Com Niu Mo Wang morto, Yi Hu Wang se tornou o Grande Rei. Não imaginava que ele, de todos os yaoguais, fosse a dar o primeiro passo para a trégua, mas não vou reclamar quando a sorte está do nosso lado.

— Espera… — pedi — O que você disse? O que aconteceu?

Kazuki virou-se para mim com um olhar calmo.

— Yin Hu Wang anunciou que os yaoguais estão dispostos a assinar um tratado definitivo de paz.

Arregalei os olhos, descrente. Era verdade que Hu e eu havíamos tido um momento de cortesia amigável quando nos despedimos, mas eu jamais pensaria que ele seria capaz de simplesmente acabar com a guerra que sempre se mostrara tão disposto a vencer. Um único gesto de boa vontade da minha parte não era o suficiente para motivar uma mudança tão profunda no modo de agir de Hu.

— Não faz sentido… — comentei de forma descrente, olhando para Dmitri e percebendo que ele estava tão confuso quanto eu. — Hu não faria algo assim.

— Ele não. — disse Kazuki, tirando um pequeno envelope do bolso — A ordem veio de cima. — disse, estendendo o envelope para Sesshoumaru, que tirou dele um pequeno bilhete, lendo-o com expressão sisuda — Se você acha que isso é surpreendente, senhora Kagome, então vai ficar ainda mais surpresa: a principal condição dos yaoguais para a trégua é que a senhora seja a negociante do acordo.

Arregalei os olhos.

— Como é que é?! — questionei, chocada.

O que Hu tinha na cabeça?! Não é por que eu tinha me mostrado suscetível aos Direitos Humanos (embora ele não fosse humano, lógico), não significava que eu tinha capacidade para ser a embaixadora de todos os youkais para negociar uma trégua numa guerra de três séculos!

Sesshoumaru apenas estendeu o envelope para mim, com expressão irritada. Peguei o papel mecanicamente, enquanto absorvia a informação que Kazuki dera, e tirei dele um bilhete com os dizeres:

戈薇,該井等待。

龍。

Franzi o cenho, tentando compreender aquela mensagem. Meu mandarim não era excelente a ponto de ler grandes textos, mas servia pelo menos para ler aquela curta frase: "Kagome, assim como a espera. Yong.".

Encarei Sesshoumaru e depois Kazuki, ainda de cenho franzido:

— Quem é esse tal de Yong? — questionei, já que tentar compreender a mensagem era obviamente infrutífero.

— Pensei que ele não existisse. — sussurrou Dmitri — Pensei que fosse apenas histórias de terror para filhotes de youkais.

— Aparentemente, não. — disse Kazuki — Não se preocupe, senhora Kagome, não vamos deixá-la sozinha com qualquer um deles, mesmo que a senhora aparentemente esteja familiarizada com o senhor Hu.

Foi sutil, mas eu senti uma ponta de sarcasmo na última frase de Kazuki.

— Não exatamente "familiarizada"... Apenas estava tentando impedir que uma crueldade fosse cometida. — expliquei.

— E para isso, soltou uma prisioneira do clã Tai e me desobedeceu. — disse Sesshoumaru me encarando.

Rolei os olhos. Eu sabia que em algum momento ele traria isso à tona. Não havia forma de eu sair carregando Hu por todo o Japão, soltar a noiva dele e acreditar que Sesshoumaru não me daria uma lição por causa disso.

— Era algo que eu precisava fazer. — repliquei.

— Senhor, — disse Dmitri — deixe que eu assuma a culpa por esse evento. Fui eu que invadi o porão e libertei a tigresa.

— Mas você não foi o mentor. — Sesshoumaru disse, ainda me encarando — Eu preciso confiar em todos aqueles que estão sob meu domínio.

Ai, que filho de uma mãe! Eu sabia que ele iria usar essa maldita palavra em algum momento na existência e que eu iria me arrepender de não ter jogado café quente na cabeça dele!

— Esse é o pior momento possível para você usar essa palavra. — disse entredentes. — E outra coisa, eu fiz isso pensando em você também, seu ingrato. Se Hu está liderando a trégua, foi por que eu desobedeci você. Então não venha me dar sermão por ter feito a coisa certa.

— Essa coisa certa podia ter matado você. — ele disse friamente mas muito irritado — Não vou ficar satisfeito porque sua estupidez trouxe bons resultados.

Eu o encarei, boquiaberta, sem acreditar que ele tivesse falado aquilo. Eu sei que Sesshoumaru é arrogante, grosseiro, nada sentimental e todas essas coisas que caracterizam alguém sem coração, mas essa foi a primeira vez que ele realmente me machucou com algo que dizia. Nem sei direito o porquê, e olha que ele já falou coisas piores. E também não podia reclamar por ele ser assim, pois ele nunca demonstrou ser outra coisa para que eu me enganasse acerca da personalidade dele… É só que… Sei lá, não esperava por essa, tinha baixado a guarda.

Passei uma mão na nuca, enquanto soltava o ar lentamente pela boca.

— Está certo, Sesshoumaru. — falei, tentando soar calma — Eu sabia que você ficaria irritado com o que fiz e corri o risco; é a única coisa que posso dizer… Mas faria tudo de novo. E não pretendo começar a obedecê-lo cegamente só porque você deseja. Acho que está na hora de você começar a lidar com o fato de que estarmos juntos não significa que eu esqueci como tomar minhas próprias decisões.

Kazuki me olhava, um pouco surpreso, um pouco orgulhoso… Creio que no fundo ele pensava que eu fosse surtar como uma garotinha mimada. Sesshoumaru apenas estreitou os olhos, ofendido com a minha afronta.

Decidi que o deixaria lidar sozinho com a irritação que sentia. Segui para o banheiro, tomei um banho, e fui fazer alguma coisa útil, como comprar sorvete.


Ladie

É isso, gente. Acabou nosso estoque de capítulos, então agora temos que escrever antes de postar, e por isso peço que todos tenham um pouco de paciência com eventuais (e curtos) atrasos.

Atualmente a Mary está de mudança, e sem internet. E semana que vem eu vou fazer uma viagem para participar da missa de 30 dias da morte do meu avô, então as coisas podem ficar complicadas por um tempo, por favor, sejam pacientes e nos deem amor.

Sobre as perguntas feitas:

— Para entrar no grupo no facebook, basta acessar

facebook groups/oporao/

As meninas vão aceitar os novos usuários! 3

Não esqueçam de deixar reviews! Grandes emoções are coming!

Beijos da Ladie.