Capítulo LXIII — Personalidade do Ano
Entrei na cozinha, colocando a sacola plástica contendo quilos de manjar divino (conhecido pelos mortais como sorvete) em cima do balcão. Jinx estava colocando açúcar em uma caneca e parou para me observar, sorrindo maliciosamente enquanto a erguia até os lábios.
— Você está com cara de quem teve bom sexo. — ela disse por trás da caneca — Eu não tinha dúvidas de que Sesshoumaru era bom de cama... Mas isso me faz questionar qual motivo você teria para comprar tanto sorvete.
Suspirei, lutando contra a vergonha. Eu tinha que encarar o fato de que era impossível estar numa casa cheia de youkais e querer que eles não notassem coisas assim. Mas isso não me impedia de querer abrir um buraco sob meus pés e sumir.
— Levei um sermão de Sesshoumaru. — comentei apenas, enquanto pegava uma colher, abria um pote de sorvete, e iniciava a árdua tarefa de devorar tudo. — Eu acabei dando uma resposta ruim para ele. Agora fico me perguntando se ele está com raiva de mim e isso me deixa deprimida… E com fome.
— Muito cedo para a primeira briga, não? — Jinx questionou, sentando ao balcão também — Se bem que estamos falando de Sesshoumaru. É óbvio que ele é superprotetor e territorialista. Do tipo que faria você dormir em cima dele por ter ciúme da cama.
Isso me fez ficar vermelha e engasgar com o sorvete. Não que ela tenha falado algo escandaloso, apenas consegui imaginar a cena com uma facilidade desconcertante; e pior, adorei a ideia.
— Onde está todo mundo? — questionei, tentando fugir do assunto.
— Ryuuji sumiu ontem o dia todo e ninguém sabe onde ele se meteu. Ficou sabendo que Dmitri estava de castigo? Papai deu 24 horas para que ele invadisse o Pentágono. — Jinx deu de ombros — É o que se ganha quando se brinca com os pertences do chefe.
— E Richard? — perguntei, ignorando de propósito a insinuação.
— Está cuidando para que Daiki fique bem longe daqui. — ela explicou — Ao menos por hoje. Seu cheiro está forte o suficiente para até mesmo um tengu perceba o que aconteceu. E ninguém quer ver a reação do Daiki, não é?
— Não é possível que ele ache que eu ainda… — então me calei, ficando ainda mais vermelha, enchi a boca de sorvete. Droga. Era muito estressante ter que lidar com o fato de todo mundo saber de algo que dizia respeito apenas a mim e Sesshoumaru.
— Ele não precisa ter certeza. — Jinx brincou — Então, deu tudo certo sobre enviar os arquivos para Nagi?
Parei, com a colher de sorvete a meio caminho da boca.
— Que arquivos? — questionei confusa.
— Richard me pediu para incorporar os dados sobre o Composto Yong no CD que ele te deu junto com a carta, lembra? Ele tinha dito que você precisaria para mandar para Nagi.
— Não havia coisa alguma no CD além de músicas. — expliquei. Eu bem havia tentado olhar os tais arquivos com os dados do Composto, mas havia apenas um monte de músicas melosas.
Jinx deu risada, deixando-me desconfortável.
— Desculpa. — ela disse, ainda rindo — Acho que exagerei na segurança das informações. Apenas por precaução, eu incorporei os dados aos arquivos de música. Como fazemos com vírus, só que é apenas informação, sem nenhum potencial lesivo aos dispositivos. Pensei que Richard avisaria o que eu tinha feito.
— Hum… Não, ele não avisou. — afirmei, então percebi algo desconcertante. — Espera... Agora que percebi, o nome do composto é Yong? — questionei, lembrando-me do bilhete estranho que os yaoguais haviam me mandado e me questionando se haveria alguma ligação.
— Ahn, é sim... Acho que é da mitologia chinesa. Existe uma lenda milenar sobre um dragão que trazia a morte para os imortais. Enfim, onde está o CD? Posso te mostrar como extrair os dados dos arquivos mp3. — Então se levantou, sorrindo para mim e piscando marotamente — Trabalho é melhor que sorvete para se distrair de uma briga de casal.
Eu não era, nem de longe, capaz de fazer estudo químico do composto, mas encarava a cadeia carbônica descrita no papel como se fosse passar a compreendê-la apenas intimidando a fórmula. Eu não conseguia deixar de pensar em como seria coincidência demais uma arma química como aquela ter o mesmo nome do yaoguai que, aparentemente, havia decidido pela trégua entre eles e os youkais.
Suspirei.
— Você parece bem estressada — Jinx comentou. Ergui os olhos, percebendo que ela me observava. Estávamos na sala do servidor, onde, enquanto Jinx parecia concentrada em alguma coisa no computador, eu lia as informações do composto que ela tinha imprimido para mim.
— Eu não sou muito boa nisso. — expliquei — Eu preciso de um biomédico urgentemente, ou de um doutorado. O que vier antes serve.
— Você vai ter muito tempo para isso. — ela comentou — Nós todos temos muito tempo para gastar. É um bônus de termos vidas longas.
— Mesmo sabendo que temos muito tempo, não consigo parar de lembrar que aqueles a quem seriam destinados os resultados do estudo não têm, sabe? Eu sei que tem um longo caminho pela frente, desde abrir o instituto de pesquisa até obter resultados aplicáveis… Só que eu não consigo evitar a ansiedade ou querer respostas imediatas. — Massageei as têmporas. — Eu tenho que tentar ser paciente, de qualquer forma. Ainda mais com essa história de que os yaoguais quererem que eu seja a negociante do acordo de paz… São tantas coisas para lidar que nem sei por onde começar.
— Ah, acho que você não precisa se preocupar tanto com isso. — Jinx comentou, voltando a digitar freneticamente no teclado — Youkais e yaoguais são todos iguais: imortais cheios de tempo para gastar. Eles não se importam com imediaticidade. Antes de começarem as negociações, os Senhores vão ter que se reunir e tomar decisões. Depois, apenas para protelar e criar pressão psicológica, vão ficar jogando com a economia. Uma espécie de Banco Imobiliário de imortais… Só que com multinacionais e corporações. Então, você só vai precisar agir quando eles cansarem de brincar.
— Por que isso não me surpreende? — questionei, suspirando — Minha vida era mais feliz quando eu só tinha que me preocupar com quantas horas o meu plantão iria durar no hospital.
— Às vezes esqueço que você é médica.
— Às vezes até eu esqueço. — comentei — Tenho saudades da época em que eu vivia com uma caneta esferográfica no estojo, para o caso de precisar fazer uma cricotireidostomia de emergência. — Jinx ficou me encarando, sem entender o que eu queria dizer — É… Abrir o pescoço de alguém para que ele possa respirar... Enfim, é o sonho de qualquer estudante de medicina.
— Parece algo bem doente, do meu ponto de vista. — ela comentou, com uma careta.
— É literalmente doente, de qualquer ponto de vista. — respondi enquanto abria um sorriso divertido.
Ela iria comentar alguma coisa, mas foi interrompida pela porta da sala que se abriu, deixando entrar um Dmitri bastante ansioso, carregando uma caixa de papelão. Ele estancou no meio da sala, ao perceber que eu estava ali.
— Ah, senhora Kagome! — disse surpreso — Não esperava que estivesse aqui. Senhor Kazuki estava procurando você.
— Por quê? — perguntei.
— Não sei dizer. Talvez tenha algo a ver com o Prêmio Yataro Iwasaki. — respondeu tranquilamente, enquanto deixava a caixa lacrada em cima de uma mesa.
— Com o quê? — questionei confusa.
— Pensei que Sesshoumaru não fosse receber o prêmio. — Jinx comentou.
Dmitri deu de ombros.
— Ele mudou de ideia na última hora. — respondeu, aparentemente cansado — Não vou questionar as decisões do senhor Sesshoumaru.
Deixei os papeis que segurava de lado e me virei para Jinx, questionando:
— O que é esse prêmio?
— Uma espécie de "Personalidade do Ano", só que com investidores japoneses. Sesshoumaru é o homenageado dessa edição, mas pensei que ele sequer tivesse dado valor a isso. Papai comentou alguma coisa sobre enviar um pedido de desculpas formal ao Conselho Nacional de Desenvolvimento porque Sesshoumaru não iria ao evento receber o prêmio.
— E o que isso teria a ver comigo? — questionei.
— Se o senhor Sesshoumaru decide ir de última hora, é de se imaginar que a senhora terá que acompanhá-lo. — Dmitri respondeu.
— E se eu me recusar? — falei com um sorriso — Estou muito ocupada agora estudando essas cadeias carbônicas. E como não sou nenhum gênio, é de se imaginar que precise de muito tempo para isso. Obrigada, de nada.
— Acho que já vi um programa que faz análise dessas coisas. — disse Jinx — Posso achar para você.
— Obrigada. — respondi, bastante agradecida, então suspirei, lembrando que não me serviria de muita coisa — Eu preciso de um químico. E de um geneticista. E de um farmacólogo. E de uma equipe inteira de profissionais. E de investimento. Me dá dor de cabeça só de pensar no trabalho que vai dar.
— Mas vai valer a pena? — ela perguntou com um sorriso.
— Espero que sim.
— Então mãos à obra. — Jinx piscou e fez um gesto com a mão de quem me desejava força — Estamos aqui para ajudar no que for preciso.
— Eu deveria ter conhecido você no ensino preparatório. Teria facilitado muito a minha vida.
— "Facilitadora" é meu nome. Jinx Facilitadora Romanov Yagiu Grimlock. Lindo nome.
— Eu não recebo o suficiente para ter que escutar esse tipo de coisa. — Dmitri resmungou com um suspiro exausto.
— Sesshoumaru te paga o suficiente para manter o Vaticano. Quer que eu invada a sua conta bancária para provar? — ela virou-se para mim, com um sorriso maníaco/ansioso estampado no rosto — Posso puxar o relatório de compras dele. Aposto que ele compra brinquedos eróticos de gosto duvidoso.
— Acho que "gosto duvidoso" define esse tipo de acessório.
— Dmitri queria namorar, mas dormiu na sarjeta, por que ele é careta e a namorada queria brincaaaar~ — Jinx cantou.
— Você não pode esquecer essa história? — ele questionou nervosamente.
— Não, jamais. — foi a resposta da irmã — Kagome, não quer saber os detalhes das noites de tórrido amor do Snowblind?
— Quem?
— É meu nick de hacker. — Dmitri respondeu a contragosto; Jinx abriu um sorriso maldoso — Qual é? É uma ótima música.
— Ele seria muito zoado se qualquer hacker de respeito não soubesse que Snowblind é irmão de Neschastlivyy, que no caso sou eu. — Jinx explicou.
— Isso é para me assustar? Está funcionando. — resmunguei. — E sobre as noites tórridas de amor?
— Parem de enrolar o assunto. — disse Dmitri, parando ao lado de Jinx, enquanto inclinava-se sobre o teclado e iniciava um digitar frenético.
Jinx sorriu para mim e falou, apenas movendo os lábios: "ele está envergonhado, tadinho". Limitei-me a tentar controlar um riso divertido. O irmão dela ainda lançou olhares frios para mim, mas isso só me dava ainda mais vontade de rir.
— Aqui, esses programas vão ajudar a analisar o composto sem que você tenha que se matar…
— Que homem eficiente. — Jinx comentou maliciosamente.
— … E eu realmente acho que a senhora deveria acompanhar o senhor Sesshoumaru ao evento. É muito importante para ele. — ele disse, olhando para mim.
— Se fosse tão importante, ele não teria decidido de última hora. — resmunguei, desviando o rosto. Não era como se eu estivesse tão empenhada assim em não ir, é só que eu estava querendo dar um tempo para me acalmar até encontrar Sesshoumaru. Querendo ou não, a gente tinha passado a noite juntos, aí ele me deu um sermão, eu respondi mal, fugi do quarto… Não é como se eu simplesmente pudesse aparecer na frente dele com o meu sorriso mais honesto, certo? — Outra coisa: se ele quer tanto que eu vá, poderia ele mesmo me chamar, oras.
Alguém pigarreou atrás de nós, e, ao nos virarmos, deparamo-nos com Sesshoumaru, de braços cruzados, e Kazuki, com um meio-sorriso.
Que droga. Parece que o mundo gira em função de me frustrar. Custava me deixar quieta por algum tempo? Nãããão. Tem que acabar com qualquer possibilidade de paz mental.
— Acho que é isso que senhor Sesshoumaru vinha fazer. – Kazuki comentou, com um sorriso muito, mas muito divertido mesmo. Como que para me deixar ainda mais constrangida, o marido #2 seguiu até a caixa de papelão que Dmitri havia deixado em cima da mesa e fingiu estar muito interessado nela. Uma espécie de recado a la Kazuki que dizia: vão, finjam que estão sozinhos e se amem.
— Eu não vou. – falei rapidamente, por puro instinto idiota. Sim, porque eu simplesmente não consigo ficar quieta e esperar que os outros me provoquem, eu tenho que amarrar a corda em volta do pescoço e pular no precipício.
— Acho que vai. – foi a resposta calma de Sesshoumaru.
Ah, mas quem esse homem pensa que é para achar que faria Kagome Higurashi obedecer a suas ordens sem uma boa briga? Esqueça a maturidade recém-conquistada, a criança dentro de mim está pronta para uma boa discussão.
— Ah! – exclamou Kazuki, tirando vários DVD's da caixa – São as versões betas do novo dorama que o Tai Group está patrocinando. São muito atenciosos em mandar os episódios quando o dorama só vai ser lançado na próxima temporada. Ainda mais quando vai ser o carro-chefe da TV Tokyo.
Espera... Ele disse o quê? Dorama carro-chefe da TV Tokyo que só vai ser lançado ano que vem?! Marido Kazuki, dê-me isso!
Sesshoumaru obviamente percebeu meu interesse visceral e lançou um olhar desafiador para mim. Então, quase com teatralidade, lançou a ordem cortante para Kazuki:
— Incinere.
O quê?! Não! NÃÃÃÃÃÃÃÃO!
Eu odeio essa existência medíocre que leva o nome de Kagome Higurashi Tsubasa Taisho. Criatura fraca de opinião, sem pulso, incapaz de manter suas decisões. Bastou que o marido salafrário ameaçasse um punhado de DVD's, para que ela cedesse e o acompanhasse até mais um daqueles eventos insuportáveis dos quais ele amava participar.
Mas não era isso que me doía mais, sabia? Era o fato de estar tão absurdamente feliz apenas por estar de mãos dadas com Sesshoumaru (dedos entrelaçados, diga-se de passagem). Veja isso muito bem, Kagome, queime esta imagem na retina e lembre pela eternidade a criatura medíocre que você se tornou simplesmente por estar apaixonada por um cretino. Sinto-ne cada vez mais frustrada comigo mesma, sempre que noto que o maldito sorriso volta insistentemente para os meus lábios, como se mandasse recados frenéticos de que: "daqui não saio, daqui ninguém me tira".
Sempre que noto que estou sorrindo, obrigo-me a parar de sorrir, mas então como passe de mágica… Aham! Sorrisos e palavras educadas de alguém que está amando estar no meio de tanta gente que nunca viu na vida. Ele havia me manipulado com a maestria. Em vez de eu estar muito puta da vida, esbanjando aura de ódio eterno dessa vida ingrata, estou aqui com um sorriso bobo parecendo a mulher mais feliz e satisfeita do mundo.
Como posso me contentar com essas migalhas de afeto?
Suspirei e me mexi na cadeira, procurando uma posição mais confortável. Sei que estou agindo como uma boba, mas a vida é assim mesmo; lide com isso, cresça e aparecera, Violeta.
Estou falando nada com nada e nem comecei a beber ainda, melhor ficar apenas na soda e concentrada em não sorrir; droga, estou sorrindo de novo.
O fato da minha mão estar sobre a coxa dele, comigo inclinada em sua direção, não me ajudava a tirar esse maldito sorriso do rosto. Merda, se eu segurar o pulso dele com a outra mão eu vou abraçar o braço dele.
Abracei. Ele deu brecha, abraço mesmo.
Droga, era para eu estar muito brava com ele e não o abraçando como uma tola apaixonada! Odeio perder, mas perder para mim mesma é muito pior.
Ele colocou a outra mão sobre a minha que esta no pulso dele!
Eu odeio ele. Eu odeio ele. Eu odeio ele. Eu amo ele. Eu amo ele.
Espera… Aaaah!
Estreitei os meus olhos e me voltei para Sesshoumaru, que estava observando algo mais a frente, possivelmente o palco. Como sempre, sério e com aquele olhar glacial capaz de congelar seu refrigerante em um instante (já disse que não bebi ainda?). Suspirei e voltei a atenção ao referido palco, notando um senhor careca e barrigudo lá, e, como se houvessem tirado o áudio do mudo, comecei a ouvi-lo.
Ele falava sobre a Fundação que organizava e avaliava os nomeados ao tal prêmio e se gabava de, em todas as edições, terem escolhidos homens que, futuramente, mudariam a economia japonesa. Parei de ouvi-lo e me afastei um pouco de Sesshoumaru para tentar apanhar minha carteira sobre a mesa; jogar Plantas Vs Zumbis nesse momento tedioso de minha vida é opção muito viável.
— Esta homenagem, que leva o nome do honorável Yataro Iwasaki, foi criada para exaltar não os grandes colecionadores de fortunas, mas aqueles que, com um sentido que extrapola a cognição humana, alcançam grandes feitos como economistas, investidores e, principalmente, como seres humanos. — Levei a mão aos lábios, tentando não rir do fato de que, se tem uma coisa que Sesshoumaru não era, seria humano — Esta edição do Prêmio Yataro Iwasaki tem a honra de homenagear um homem muito jovem, mas extraordinariamente competente, o senhor Sesshoumaru Taisho, que, entre tantas outras coisas, representou a Associação Japonesa de Investidores de Risco na Convenção Internacional sobre Disputas e Arbitragens de Investimentos. É com muito prazer que anuncio o senhor Taisho para receber as honras.
Os holofotes nos encontraram, na mesa, e iluminaram Sesshoumaru. Fiquei tentada a me esquivar do foco de luz, mas então lembrei que, como mulher de Sesshoumaru, o melhor era parecer calma e doce ao lado do meu marido. O estranho era que eu estava com o celular em minhas mãos, e fiquei constrangida ao notar todos estavam vendo a minha falta de interesse naquele discurso, bom, eles não sabiam que eu estava fazendo no celular, felizmente. Abaixei meu celular, sorrindo teatralmente, Sesshoumaru soltou minha mão e se inclinou em minha direção.
— Desligue isso. — sussurrou em meu ouvido.
É assim?
É assim mesmo?
Sorri e beijei levemente os lábios dele, passando depois o polegar para ter certeza que não ficaria manchado com batom.
Ele ficou surpreso por uma fração de segundos, mas conseguiu disfarçar. Sorri enquanto meu marido caminhava até o palco com passos firmes de quem não se abalava com nada. Provavelmente não estava abalado, só que sonhar é algo que faço muito bem.
Suspirei, guardando meu celular novamente na bolsa, afinal, no discurso do meu marido eu tinha que prestar atenção, ainda mais pelo fato de que Sesshoumaru é um homem de poucas palavras e vê-lo agradecer algo é realmente inusitado. Ao voltar a minha atenção para ele, que estava subindo as escadas para o palco, foi que me dei conta de que a luz o seguia, a mesma luz que estava sobre nós quando o anunciariam... E foi quando eu percebi que o beijei quando todos estavam prestando atenção em nós.
Droga.
Minha vergonha apenas aumentou quanto notei as mulheres ao meu redor me olhando constrangidas e algumas até escandalizadas. Se fosse um evento em outro país, seria perfeitamente normal a esposa beijar o marido, contudo estamos no Japão, aqui as coisas são bem diferentes, esse tipo de atitude não é esperada por japoneses.
Corei mais ainda.
Não sabia onde enfiar a minha cara. Eu sei que sou especialista em tomar decisões idiotas, mas às vezes eu mereço um prêmio na categoria. Tenho absoluta convicção que meus irmãos teriam um enfarte se tivessem visto isso — querido Deus, que ninguém tenha fotografado o momento, por favor.
Respirei fundo, baixando os olhos para o celular que eu apertava entre as mãos, e tentando não rir de nervosismo. Era difícil agir naturalmente quando praticamente todas as mulheres ao alcance dos seus olhos te encaravam de forma reprovadora. Péssimo momento para lembrar que vivo numa sociedade hipócrita, que permite qualquer tipo de perversão em quatro paredes, mas reprova demonstrações inocentes de afeto realizadas em público.
Foi no meio dessa revolta de esquerda que senti Sesshoumaru sentar ao meu lado. O quê? Ele já estava de volta? Eu perdi a raríssima ocasião de sesshoumaru discursando?! Como eu pude? Como?!
Voltei-me para ele, chocada. Ele havia sido absurdamente rápido! Ao menos havia dito obrigado? Olhei em volta, percebendo que todos olhavam de forma reprovadora para ele… Pelo jeito, ele sequer agradeceu. Tentei conter o sorriso, ao pensar em como agora todos ali deviam achar que éramos feitos um para outro: dois esnobes sem bons modos.
— Por que você fez questão de vir se iria agir dessa forma? — perguntei baixinho.
— Que forma?
— Não agradeceu o prêmio.
— Qual motivo de agradecer se o mérito é meu?
Fiquei encarando Sesshoumaru, perguntando-me seriamente se ele estava sendo irônico ou sincero. Pela forma como me encarou fixamente, ele estava falando sério até demais. Massageei a testa. Acho que aceitar o fato de que o Sesshoumaru é um cretino seja a melhor forma de viver bem com ele pelo resto da minha vida.
— Ao menos poderia ser educado. Não é toda hora que alguém recebe um prêmio importante como esse. — resmunguei.
— Recordo dele várias vezes ontem. — ele comentou, sem olhar para mim.
Levei trinta segundos para entender. E mais trinta segundos encarando Sesshoumaru sem acreditar. Ele. Não. Havia. Dito. Isso. Eu fiquei dividida entre derreter de vergonha e ficar feliz por ele estar tão relaxado comigo a ponto de brincar dessa forma. Certo, esqueça, derreter de vergonha estava vencendo. Um derretimento feliz, talvez?
— Então, quanto tempo mais temos que ficar? — perguntei rapidamente. Ele ergueu uma sobrancelha, então notei como havia soado ansiosa. Droga, não era essa a intenção! Não era para ele achar que era um convite! Embora não fosse uma ideia ruim. Que inferno, essa vida de casada é muito difícil!
Respira Kagome.
— Vamos em breve. — foi a resposta curta.
Resolvi ficar calada dessa vez. Eu ainda estava me acostumando com o desenvolvimento repentino do nosso relacionamento e não me sentia totalmente à vontade para provocá-lo sobre algo que me deixava tão envergonhada.
A grande questão é que eu não posso resistir a dois impulsos ao mesmo tempo: se tenho que me policiar para não falar, então sem chances de impedir o impulso de tocar. E lá vou eu, aproximando a cadeira ligeiramente da dele para segurar a mão de Sesshoumaru por baixo da mesa.
Essa não era nem de longe uma das minhas atitudes mais idiotas. Comparado com o "Ah! Um garoto preso numa árvore! Vou apertar as orelhas dele!", segurar a mão de Sesshoumaru demonstrava que restava alguma racionalidade em meu ser.
Quando a noite foi se desenvolvendo e as pessoas começaram a se levantar para andar pelo salão, nossas mãos dadas geraram olhares de desaprovação, do tipo: "arranjem um quarto!".
Não que eu não quisesse, oras!
— Esses eventos ficam ainda mais tediosos quando não estou bebendo. — comentei — E para variar, não dá para jogar Plantas Vs Zumbis de pé. Ao menos não sem que as outras pessoas percebam e comecem a me julgar por isso. Me julgar mais, quer dizer.
Sesshoumaru apenas lançou um olhar para mim, dando a entender que ele era quem mais estava me julgando no momento.
Ele soltou a minha mão, colocando o braço em volta da minha cintura e me guiou entre as pessoas. Meu sorriso ficou gigante diante da ideia de que estávamos indo embora, mas ele parou diante de um homem vestido em um smoking e o cumprimentou formalmente.
— Professor Harada? — questionei surpresa, ao reconhecê-lo. Meu professor abriu um largo sorriso ao me ver. A última vez que eu o tinha visto fora há quase um ano, quando Ruri e eu havíamos ido ao lançamento do livro dele que discutia seu estudo com células-tronco adultas e que havia lhe rendido o Nobel de Medicina dois anos atrás. Também lembro ligeiramente que, nesse dia em questão, Ruri e eu havíamos desviado um pouco o caminho para comprar lingeries, as quais ainda estavam intocadas em algum lugar, sem que eu tivesse coragem de usá-las.
Senti que ficava vermelha ao olhar para Sesshoumaru e pensar que, talvez, eu tivesse um motivo para tirá-las da gaveta de agora em diante.
— Senhora Taisho. — cumprimentou meu professor, inclinando-se — Ainda bem que pude encontrá-la antes de me retirar. Tinha esperanças de vê-la, mesmo tendo confirmado apenas hoje minha presença nesse evento.
— O senhor queria me ver? — questionei surpresa. Também estava confusa com fato de, assim como Sesshoumaru, ele ter confirmado a presença a um evento com esse tão em cima da hora. Olhei para o meu marido de rabo de olho, perguntando-me se isso seria mais do que apenas uma coincidência, mas a expressão costumeiramente fria dele não foi capaz de esclarecer minhas dúvidas.
— Eu recebi recentemente uma proposta interessante de um amigo seu, o professor Kazuaki Nagi, sobre um estudo de manipulação do sistema imunológico humano. De acordo com o que ele me disse, a senhora estaria responsável por captar investimentos para o estudo. — ele sorriu gentilmente — De fato, eu me interessei muito pelo trabalho, e não é todo dia que o professor Kazuaki Nagi participa diretamente de um projeto. Não sei se ele adiantou algo do que foi discutido para a senhora, mas, assim como eu, o professor Nagi acredita que é necessário alguém com experiência no processo de licitações, e que o meu nome unido ao dele pode lhe dar sucesso em empreitadas do tipo.
Eu apenas fiquei muito chocada, encarando o professor Harada. Era inconcebível imaginar que o ganhador de um Nobel procuraria qualquer ser humano para se oferecer como colaborador de um projeto que ainda estava em seus primeiros passos. Hora de me questionar se isso seria resultado da influência de Sesshoumaru, Hideo, ou do nome de Nagi.
Recobrei a atenção, lembrando-me que agora não era hora para refletir sobre isso. Então me esforcei em agradecer ao professor e tentar lhe dizer, sem parecer ingênua, que realmente não tinha experiência com esse aspecto em questão. Toda conversa se desenrolou tranquilamente e resolvemos que aquele não era o melhor momento para discutirmos a questão a fundo, deixando para quando nos encontrássemos em Tóquio em alguns meses quando ele retornasse de viagem.
Sesshoumaru permaneceu sagradamente quieto ao meu lado, e apenas quando o professor Harada se afastou, foi que ele disse, no mesmo tom frio de sempre:
— Agora sim podemos ir embora.
— Você não teria me carregado para o evento apenas para que eu encontrasse o professor Harada, teria? — perguntei audivelmente do closet, esperando que Sesshoumaru, no quarto, pudesse me ouvir. — Quer dizer, você não parecia tão animado assim para receber o prêmio.
Terminei de tirar a maquiagem e tentei abrir o zíper do meu vestido, soltando um ofego ao sentir um par de mãos se colocar sobre as minhas e descer o fecho. Olhei por sobre o ombro, encarando Sesshoumaru, esperando ansiosamente pelo que ele faria a seguir… E ele se afastou.
Minha expressão de decepção durou muito pouco, ao vê-lo tirar a gravata borboleta, o fraque, e a camiseta social. Era interessante que minha atenção fosse completamente monopolizada por coisas mínimas, como a forma que os músculos dele se tencionavam a cada movimento e como todo o conjunto parecia perfeito, sob medida. Estreitei os olhos, ao me questionar se Sesshoumaru estava fazendo aquilo inconscientemente ou se tinha o propósito de me provocar. Controlei a minha própria respiração, como se isso pudesse me ajudar a pensar com mais clareza. Tirei o vestido de forma displicente, deixando-o em cima de uma poltrona, enquanto caminhava para uma das portas, a fim de pegar alguma roupa para dormir.
Admito que, no fundo, eu estava tentando provocá-lo também. Uma espécie de vingança. Ainda assim, fui completamente incapaz de conter o arrepio que percorreu meu corpo, ao sentir Sesshoumaru passar um braço em volta da minha cintura e me puxar contra ele. Mordi o lábio inferior e fechei os olhos por alguns segundos, aproveitando a sensação de ter minhas costas contra o peito dele, de me sentir protegida, amada e feliz.
Deixei escapar um gemido, ao sentir que ele beijava o meu pescoço levemente. Nossa. Girei devagar entre os braços de Sesshoumaru, erguendo minhas mãos até sua nuca e segurando-o, enquanto me esticava nas pontas dos pés para beijá-lo. Era lento, nada comparado com a intensidade do dia anterior, mas aquele sentimento quente, apaixonado, ainda estava ali, sob uma fina camada de calmaria.
— Você me deu sermão hoje pela manhã. — resmunguei contra os lábios dele, afastando-me um pouco e olhando-o acusatoriamente.
Eu sou uma verdadeira guerreira por conseguir parar nesse momento em questão. E muito idiota também, mas ninguém poderia subestimar minha força de vontade. Tentei ignorar cada centímetro de pele que queimava, em contato com a dele. Era um esforço sobre-humano conseguir não fechar os olhos e aproveitar o prazer que um mísero contato proporcionava.
— Foi necessário.
— Necessário? — respirei fundo e tentei me afastar, inacreditável como ele consegue me tirar do sério tão facilmente. Ele me segurou, mantendo-me ali.
— Sempre que colocar sua vida em perigo, irei passar um sermão. — estreitei os olhos, pronta para começar uma discussão, mas ele foi mais rápido em continuar a falar. — Vai insistir no assunto?
— Como assim insistir? — respirei fundo. Sempre que eu tentava me afastar, Sesshoumaru me apertava contra ele. Era realmente difícil me manter brava com ele com o meu corpo me traindo nessa forma. — Estou chateada com você.
— Agiu de forma impulsiva, colocou sua vida em risco e Dmitri foi seu cúmplice. — Abri a boca, indignada com resposta dele, mas Sesshoumaru calou meu protesto quando abaixou o rosto e nossos narizes se tocaram. — Não banque a vítima. O fato de eu deixar claro que algo me desegradou significa que eu não a vejo como uma.
Respirei algumas vezes. Ele estava certo. Por mais que eu não enxergasse dessa forma, do ponto de vista dele, eu de fato fiz tudo o que ele acusava. Restava simplesmente aquiescer diante das queixas de Sesshoumaru e levar a opinião dele em consideração em minhas ações futuras.
Acho que essa é outra lição que tenho que aprender sobre estar casada.
Ladie
Oi, bandilindo! Demoramos, né? Por favor, peço mil perdões pela demora, tivemos um bloqueio criativo maravilhoso, unido ao fato de eu iniciar no meu novo emprego e Mary ter ficado doente. Espero que nos perdoem. A história tá tããããããão linda... Seria uma pena se algo ruim acontecesse, né? Tsc.
Enfim, antes de qualquer coisa, gostaria de lembrar àqueles que teimam em esquecer, que escrevemos Senhor do Norte como forma de lazer, e que jamais deixaríamos de cumprir nossos compromissos de trabalho em razão de um hobby. Infelizmente (ou muito felizmente), somos pessoas responsáveis, e, mesmo sem ter obrigação alguma de postar capítulos com periodicidade, damos um jeito de sacrificar algumas coisas (como sono, ó, lindo sono) para poder escrever e postar essa fanfiction. Espero sinceramente que todos tenham consciência disso.
Beijos da Ladie
P.s.: quantos anos você tem, fofinha?
