Capítulo LXIV — Cortar o orçamento, meu nariz

Eu devia estar assistindo o meu dorama. Sesshoumaru deveria estar trabalhando. Mas não, estávamos fugindo de nossos compromissos para ficar juntos, aproveitando um ao outro.

Eu preciso fazer uma pausa nesse momento para dizer como isso é muito estranho. E não do tipo "olha, aquele gato está latindo", mas sim do tipo "puta que pariu, Sesshoumaru está tendo momentos românticos com a mulher dele!". Sim, porque estamos falando de Sesshoumaru, é difícil imaginá-lo fazendo essas coisas. E sabe por que é difícil? Porque ele não faz essas coisas! Dizer apenas que estávamos "aproveitando um ao outro" omitia muita coisa. Na verdade, acho que é importante explicar que Sesshoumaru realmente queria estar trabalhando, mas eu fiz o maior drama, dizendo que ele havia passado três dias fora e que eu tinha ficado sem carinho por aqui — não me diga mentirinhas, dói demais —, então o convidei para assistir o dorama comigo.

Óbvio que ele me olhou com desprezo e sequer gastou energia me respondendo. Fui para a sala de cinema sozinha, passei uma hora inteira encarando a tela de cara feia, até que senti alguém sentando ao meu lado e, para a minha surpresa, era Sesshoumaru! Ele não estava lá com a melhor das caras — nunca está —, mas pelo menos estava ali.

Foi algo tão… tão fofo. Sei que é meio doente achar uma coisa assim fofa, mas é que algo do tipo, para Sesshoumaru, era o equivalente a ele me trazer um buquê de flores. Se bem que não gosto de flores tanto assim. Enfim, deu para entender. Eu fiquei idiotamente feliz apenas com isso e fui incapaz de resistir: simplesmente me inclinei e o beijei.

E isso resume tudo por trás do "aproveitar um ao outro".

Quando percebi, ele havia me puxado para seu colo, e eu comecei a rir, tentando manter o equilíbrio. Sesshoumaru rosnou para mim, resignado que eu tivesse a ousadia de rir enquanto estávamos nos beijando.

A já conhecida verdade: Sesshoumaru é muito dominador. Às vezes, eu tentava controlar a situação apenas para instigá-lo a me dominar. Eu sou meio doente, acho, mas foi com ele que descobri esse meu lado. Então, para provocá-lo, eu entrelacei meus dedos no cabelo dele e puxei para trás, inclinando-me e mordendo o lábio inferior de leve. Quando percebi, ele já havia invertido completamente as posições, segurando minhas coxas e forçando-me a deitar no sofá. Ajudei-o a tirar a camisa que ele usava, aproveitando-me para beijar seu pescoço no processo.

Eu já tinha chegado à conclusão de que nós precisávamos, sei lá, ser um casal normal pelo menos uma vez na existência e termos uma lua-de-mel decente, longe de pessoas conhecidas que pudessem julgar essa necessidade constante que tínhamos um do outro nesse começo, só que eu ainda não tive coragem de dar essa ideia para ele. É um plano que preciso amadurecer e avaliar.

Mas depois. Nesse momento em questão eu não consigo pensar.

— Sabia que qualquer pessoa pode entrar na sala? — sussurrei.

— Você fala demais. — Sesshoumaru reclamou, segurando minhas mãos e prendendo-as acima da minha cabeça.

— E você é estupido demais e mesmo assim não estou reclamando.

Ele parou de beijar o meu pescoço para erguer o rosto e me encarar.

— Já está reclamando.

— Bom, na verdade agora não tenho tantos motivos assim. — respondi, erguendo umas das minhas pernas e envolvendo o quadril dele, tocando a parte de trás de suas coxas com a sola do meu pé. — Você tem? — perguntei baixinho.

— Apenas fique calada.

Não impedi a risada, não sei se ele ficou ofendido com o isso, apenas me beijou, segurando os meus quadris e me puxando firmemente contra ele.

Hum... bom.

Apesar disso, aquela música de psicose vinda do meu celular invadiu o pouco do meu cérebro que ainda era capaz de absorver coisas do ambiente a minha volta.

— Meu celular… — falei contra a boca dele.

— Ignore.

Eu queria realmente ignorar, mas lembrei-me que escolhi aquela música aterrorizante em questão como toque para uma pessoa bastante específica: o meu irmão mais velho. Sério, afastei-me tão rápido que fui parar no chão e, depois de um gemido doloroso, sentei o corpo, pegando o celular que estava até então muito esquecido ao lado do sofá.

Eu sei que devem estar pensando que foi exagero meu, mas bateu aquele medo de Hideo entrar pela porta e iniciar a terceira guerra mundial aqui mesmo colocando meus DVDs lindos em perigo.

— Hideo? — perguntei nervosamente, atendendo ao telefone, praticamente sem fôlego. Não tive coragem de virar o rosto para ver a expressão de Sesshoumaru nesse momento, porque eu quase podia sentir o sorriso de ódio que ele devia ter tatuado no rosto.

Eu não sabia ao certo se me focava no que o meu irmão dizia ou se no fato de Sesshoumaru estar muito irritado ao meu lado. Era muito estranho falar com o meu irmão mais velho quando o telefonema dele havia interrompido… bem…

Mas, então, algo que Hideo falou me fez prestar atenção no monólogo.

— Como é que é?!


Não dá para acreditar.

Simplesmente me recuso a acreditar que Sesshoumaru tenha feito algo tão infantil, como mandar seus cães barrarem a entrada do meu irmão no território. Eu havia ficado tão furiosa que tinha apenas levantado e exclamado:

— Você barrou o Hideo? — Ele não pareceu surpreso com a minha pergunta. Na verdade, parecia perversamente satisfeito. — É por isso que divórcios acontecem. — e saí da sala pisando firme.

Claro que não tenho a mínima vontade de me divorciar, mas nada me impede de sonhar com uma pensão milionária enquanto vivo no Caribe, apenas me preocupando com a temperatura do meu champanhe.

Maldito sortudo, se eu não o amasse, chutaria aqueles fundilhos.

Admito, foi engraçado chegar ao aeroporto com Dmitri me escoltando e ver Hideo sentado de braços cruzados, com uma Aika estressada gesticulando enquanto conversava com um policial que, pelo cabelo acinzentado e a presença completamente camuflada, notei ser um hanyou. Hideo se levantou com a minha aproximação e Aika parou de falar e sorriu.

Estava a um segundo de me abraçar e então parou, franzindo o nariz. Apenas fiquei parada, esperando o que ele faria, já que, a julgar pela reação, ele havia sentido o cheiro de Sesshoumaru em mim. Ele me encarou, ligeiramente surpreso demais, e sussurrou:

— Kagome, esse é o cheiro del...

— Hideo. — alertou Aika, e ele se calou.

Ele me encarou por algum tempo.

— Estava quase declarando guerra aqui. — Seja lá o que ele tenha percebido ou pensado, a solução que ele achou foi fingir que nada tinha acontecido e me deu um tapinha nada honesto no ombro.

— Ele está sendo dramático. — Aika disse balançando a mão. Hideo lançou um olhar bastante eloquente para ela. Minha cunhada apenas tentou não rir, olhando para mim e sorrindo maliciosamente.

Revirei os olhos e virei para o meu guarda-costas:

— Dmitri, pode resolver isso para mim?

— Sim, senhora Taisho. — E ele se afastou segurando o braço do tal policial que, antes de ir, fez uma reverencia para mim.

— Odeio Kyoto. — Hideo resmungou.

— Você mal chegou.

— E já odeio. — declarou friamente — Venha, vamos para Sapporo, saindo agora chegamos a tempo de pegarmos uma sessão de cinema e jantar em algum lugar que tenha uma lagosta decente. — Hideo começou a me puxar em direção aos portões de embarque, foi Aika quem o segurou. — Não me detenha, mulher.

— Pare com isso.

— Venha. — segurei a lapela do paletó do meu irmão, forçando-o a me olhar. — Vamos comer algo e colocar a conversa em dia, não deixa o Sesshoumaru irritar você.

— Ele não me irrita. — ele tentou mentir e eu não segurei a risada.

— Há tanto tempo que não vê sua única irmã e vai ficar com cara feia em vez de levá-la para comer algo gorduroso e gostoso?

— Vamos comer e ir para Sapporo. — ele aceitou a contragosto.

— Uma coisa de cada vez; comer primeiro.

— Tudo bem.

Sorri e pisquei para Aika que soltou um suspiro, aliviada. Dmitri se juntou a nós um pouco antes de chegarmos ao carro, ele nos levou para um restaurante requintado, daqueles que tem um selo Hideo de qualidade. Engraçado que o meu irmão ainda estava aborrecido quando se sentou ao meu lado, Aika ficou na cadeira de frente a ele, enquanto que o meu guarda-costas nerd se recusou a comer e ficou no carro.

— O Senhor do Oeste realmente precisa de uma boa lição. — Hideo resmungou.

— Hideo... — comecei, pigarreando — Não me entenda mal, mas por que você veio para Kyoto?

Ele entendeu mal. E como entendeu mal. Hideo ficou me encarando, de olhos arregalados, parecendo uma criança que foi escolhida por último em uma brincadeira.

— Sou um incômodo? — questionou nervoso.

— Você nunca é. Só de vê-lo já fico absurdamente feliz. — exagerei — Mas é só que fiquei muito surpresa.

— Você não sabia?

— Deveria saber? — perguntei laconicamente, olhando para Aika.

Hideo respirou profundamente, como se tentasse se acalmar antes de me responder.

— Seu marido — enfatizou ele com sarcasmo — convocou uma Convenção de Senhores para discutirmos sobre a trégua com os yaoguais. O fato de ele proibir minha entrada é uma óbvia quebra de protocolo e eu vou...

— Eles têm ótimos vinhos aqui. — interrompeu Aika, olhando para o menu. Hideo pareceu notar como estava exagerando no discurso e apenas se calou, expirando profundamente. — Kagome, me conta essa história do Daiki ter quase sido assassinado pelo Senhor do Oeste. — ela pediu, obviamente tentando mudar de assunto. Tentei ignorar o ataque de nervos de Hideo e, ao lembrar-me da expressão de Daiki no "quase assassinato" em questão, quase caí na risada.

— Ele entrou sorrateiramente em meu quarto e me puxou da cama. Sesshoumaru quase arrancou as vísceras dele.

— Ele nunca aprende. — reclamou Hideo, tomando um gole de água em seguida. Olhei para ele com curiosidade. — Quantas vezes terei que repetir que primeiro se neutraliza o inimigo, depois se resgata o refém?

Rolei os olhos, esses dois são definitivamente irmãos.

— Estamos falando da vida conjugal de sua irmã aqui. — Aika reclamou.

— Por isso mesmo: inimigo, refém. — Ele me indicou com o polegar. — Você era mais esperta, Aika.

O estrondo por baixo da mesa e a careta do Hideo deixou evidente o chute que ele levou na canela.

— Aika!

— Vamos esquecer os estorvos dos seus irmãos. Me conte, como estão as coisas? Soube que esteve em Naha.

— Pesquisa de campo, Nagi insiste em um instituto de pesquisa. — menti descaradamente. Com alguma sorte, Hideo ainda não estaria sabendo que eu levei um yaoguai comigo numa viagem que percorria metade do país.

— Eu ainda estou aqui. — reclamou Hideo, mas nós duas o ignoramos e começamos a discutir ideias e formas de construir o centro de pesquisa em Tóquio.


— Mas o que...

Virei o rosto para olhar meu irmão, que havia se levantado da cadeira. Arregalei os olhos notando os punhos de Hideo se fechando enquanto Sesshoumaru sentava-se calmamente na cadeira ao meu lado (a qual era de Hideo até poucos segundos), Aika notou o movimento e segurou o braço do meu irmão. Eu mal conseguia respirar durante todo o minuto seguinte de silêncio que seguiu.

— Eu dispenso a sua companhia, Senhor do Oeste, principalmente depois da recepção que me deu. Se não sou bem-vindo em seu território, você não é bem-vindo à minha mesa.

Sesshoumaru cruzou as pernas, observando o meu irmão com aquele ar de superioridade costumeira.

— Devo recordá-lo que está em meu território, Senhor do Norte. E essa "mesa" que o senhor reclama como sua, também me pertence. Até a cova em que seria enterrado me pertenceria.

Hideo estreitou os olhos, notei Aika segurar o braço dele numa tentativa de acalmá-lo.

— Podem parar com essa intimidação gratuita de Senhores. — reclamei, colocando a mão no braço de Sesshoumaru e apertando minhas unhas em volta do tecido grosso do terno — Por favor, apenas finjam que são civilizados. Se não conseguem ser educados, ao menos fiquem quietos enquanto Aika e eu conversamos.

— Não estamos nos intimidando, Kagome. Apenas estou deixando claro o quanto a presença dele não é desejável.

— Hideo, por favor. — Voltei minha atenção a Sesshoumaru, que descruzou as pernas.

— O Senhor do Norte insiste em crer que levo a opinião dele em consideração. — Ele fez um gesto com a mão, chamando o garçom. Apenas fiquei encarando Sesshoumaru, chocada com a grosseria. O pior é que dessa vez eu nem sabia qual lado defender, já que ambos se provocavam. — Assim como acreditar que pode enviar seu Executor ao meu território sem um aviso prévio de no mínimo sete dias. — ele encarou Hideo. — Houve guerras por muito menos.

— Então, Aika, — falei nervosamente, querendo mudar o assunto da conversa. Eu realmente não precisava que eles discutissem apenas porque Daiki é um inconsequente e veio para Kyoto por impulso. — Hiroko está grávida!

— O quê? — ela questionou visivelmente tonta com toda aquela tensão e a mudança brusca de assunto. — Sim, ela está...

— Ela disse que o nome será Yuri. — supliquei com o olhar que ela puxasse o Hideo até a cadeira ao lado dela. Felizmente ela entendeu e começou a puxá-lo, mas o maldito parecia que tinha sido pregado ali no chão.

— Daiki comentou comigo. — ela puxou meu irmão fazendo-o se inclinar. — Vem.

Hideo se sentou, a contragosto.

— Chateou Lafite. — e novamente todos olharam para Sesshoumaru que entregou casualmente o cardápio ao garçom.

— Safra de 1982? — Hideo questionou, estreitando os olhos.

Sesshoumaru não respondeu. Aika e eu nos entreolhamos, sem saber o que fazer. O maitrë trouxe um carrinho, abriu o vinho e serviu em uma taça uma pequena quantidade para que Sesshoumaru degustasse. Isso obviamente deixou Hideo irritado, e o maitrë consertou o erro colocando outra taça com vinho na frente de Hideo em tempo recorde.

Hideo pegou a taça de vinho, ainda encarando Sesshoumaru com olhar estreito.

Aika se inclinou na direção dele, resmungando:

— Não se atreva a bancar o somelier, Hideo Tsubasa, ou eu juro que faço uma bobagem.

Hideo observou, cheirou, experimentou.

Então resmungou:

— Péssimo gosto para vinhos. Não é de se admirar.

Que droga, Hideo, o que custa dar o braço a torcer? Sesshoumaru não experimentou o vinho, mas vi uma pequena veia em seu pescoço saltar.

— Mas um ótimo gosto para mulheres. — eu comentei, rindo, esperando que isso de alguma forma apaziguasse a ira de Sesshoumaru por ora e ele não retrucasse o meu irmão. Meu irmão se engasgou com o vinho.

— Egoísta, reparte o vinho. — falei tentando consertar a merda que fiz arrancando a taça da mão do meu marido e tomando um generoso gole.

Hideo se mexeu na cadeira, chamando minha atenção, ele torceu o nariz e encarou algum ponto a sua esquerda e resmungou alto o suficiente para todos ouvirem:

— Você está cheirando a cão sujo, sabia? — Quando ele recebeu uma cotovelada de Aika concluiu: — Kagome, não somos tão conservadores, eu apoio o divórcio.

— Assim como apoia união estável sem casamento registrado? — questionou Aika, bebendo vinho. Hideo abriu a boca e fechou em seguida.

— Essa não é uma escolha que eu tenha feito. — ele resmungou de volta.

O clima ficou repentinamente tenso entre ambos. Parece até estranho dizer que, aparentemente, as únicas pessoas que pareciam não estar com indisposição uma com a outra éramos Sesshoumaru e eu. Quem diria, né? O mundo realmente dá voltas e voltas.

Meus braços estavam ligeiramente dormentes e percebi que tinha bebido o vinho rápido demais.

— Forte. — comentei para mim mesma, segurando a taça e erguendo na altura dos meus olhos. O maitrë entendeu que havíamos aprovado o vinho e passou a servir todos com a bebida e com água. Tive a leve impressão de que Sesshoumaru trocou um olhar rápido com o maitrë e magicamente minha taça de vinho sumiu.

Espera, o quê?!

Balancei a cabeça. Não vou brigar com ele, vou apenas ficar no suco e ser feliz enquanto aproveito a única companhia nessa mesa que vale a pena, ou seja, voltei a conservar com a Aika e deixei o Hideo destilando seu veneno para o meu marido e enquanto este por sua vez apenas ignorava a existência do meu irmão.


Onde você está? Por que diabos não me atende mais? Raios, estou com saudades! Estamos na mesma cidade, mas esses cães me mantém longe de você — ouvi Daiki reclamar, soltei um suspiro enquanto Hideo resmungava para Aika que se tratava do nosso irmão no telefone.

— Sesshoumaru está me mostrando os motéis mais caros de Kyoto. São realmente um luxo, deveria fazer o mesmo com a Hiroko.

Ele arfou do outro lado da linha e Hideo do meu. Parecia que teriam um enfarte. Aika levou a mão à boca, abafando o riso. E Sesshoumaru?, você deve se perguntar. Continuou indiferente ao meu lado.

Está brincando, certo?

— Calma Sesshy, preciso falar com o meu irmão... espera. — falei teatralmente um pouco afastada do celular. — Daiki, estou ocupada, tchau. — desliguei. Hideo estreitou os olhos. — Que foi? Até parece que você também não perturba o Daiki quando tem a chance.

— Sesshy? — voltei-me para Sesshoumaru, então notei que o havia chamado daquela forma.

— Não gostou? — Não, ele não tinha gostado. Mas não tinha gostado nada. Nada mesmo. Peguei a taça dele e bebi um pouco. — Ei, até que é um apelido fofo. — ele estreitou os olhos e me tirou a taça. Uma mulher tem que matar quem parar conseguir um bom vinho aqui?

— Ah... O que ele quer comigo? — resmungou Hideo, pegando o celular e atendendo. — Não... Se acalme... Não, eu não posso declarar guerra por causa disso... Nem criar uma lei banindo móteis... Daiki... Daiki! Ela está comigo, e sim, estou em Kyoto. — então ele desligou, suspirando.

— Ele vai revirar essa cidade atrás de nós agora. — comentou Aika massageando a têmporas.

— Vamos para casa. — sugeri, antes que Sesshoumaru simplesmente se levantasse e largasse meu irmão e Aika ali — Tem muito espaço e poderemos ficar à vontade.

— Não queremos incomodar... — começou Aika, com um sorriso constrangido de quem não acreditava que algum tengu pudesse ficar à vontade na casa de outro Senhor.

— Queremos sim. — falou Hideo de supetão, recebendo um olhar severo de Aika. Sim, Hideo, a gente percebeu que você que atrapalhar, mas não precisava falar isso em voz alta.

Ele fez sinal para o garçom vir até nós, mas antes que ele pudesse se aproximar, Sesshoumaru se levantou segurando meu braço e me obrigando a levantar.

— Sou o dono. — foi tudo que ele disse, deixando claro à Hideo que a conta de uma mera refeição era bobagem para ele. Hideo obviamente não gostou nada da provocação, mas respondeu com um sorriso:

— Poxa, campeão, parabéns. — Lancei um olhar enviesado para Hideo. Sério, meu irmão não tem limites?

Sesshoumaru ignorou o sarcasmo do meu irmão e, quando notei, já estava dentro do carro. Algum tempo depois Aika obrigava um Hideo extremamente desgostoso a entrar no veículo. O engraçado é que a minha cunhada espertamente entrou no banco da frente e deixou a mim para aguentar Hideo e Sesshoumaru, cada um de um lado, absolutamente concentrados em parecer mais frio que o outro. Eu não mereço essas duas criaturas.

Dmitri, do banco do motorista, olhou para mim pelo retrovisor, com uma sobrancelha erguida. Eu apenas dei de ombros, tentada a deixar escapar um longo suspiro.

Assim que estacionamos na frente de casa, Daiki se aproximou de mim com andar firme. Hiroko estava tranquilamente sentada em uma daquelas grandes motos esportivas, parecendo bastante divertida com o fato de Daiki estar uma pilha. E olha que a péssima expressão dele só piorou quando ele me abraçou e sentiu o cheiro de Sesshoumaru impregnado em mim.

Eu nunca tinha visto Daiki sem uma frase engraçadinha na ponta da língua... Até aquele momento. Foi algo tão engraçado de se ver que tive a paciência de esperar que ele reagisse, só que assim que ele abriu a boca eu percebi pela sua expressão que eu presenciaria o maior ataque de nervos da minha vida, então, antes que ele pudesse começar, minha mão se chocou contra a boca dele.

— Fala com a minha mão. — disse antes de sair andando.


Realmente não sei como as coisas ficaram assim. Por algum motivo muito estranho, Sesshoumaru estava completamente isolado... na própria casa dele. Todos estavam sentados nos sofás conversando (ou, no caso de Hideo, criticando a decoração da casa de Sesshoumaru), enquanto o meu marido permanecia sentado em uma poltrona à distância, parecendo muito concentrado em ignorar que havia outras pessoas ali.

Talvez eu tenha forçado um pouco a barra com Sesshoumaru. Tenho certeza que ele jamais quis ter a casa dele invadida por pessoas que, se não desgostam dele, ao menos não sentem tanta vontade assim de ficar perto dele. Se bem que não com razão, já que Sesshoumaru tem uma épica habilidade ser intragável.

Daiki me beliscou. Olhei para o meu irmão, surpresa, e a única coisa que ele fez foi apontar com dois dedos para os próprios olhos e depois para mim, dando a entender que estava observando o meu comportamento.

Suspirei. Meus irmãos estavam realmente desafiando a minha paciência. E sim, digo os dois, pois Hideo se recusou a deixar que eu me aproximasse de Sesshoumaru e agora estava com o braço em volta do meu ombro, enquanto discute algo a respeito da minha segurança com Kazuki, argumentando que, já que Raiden estava comigo há muito tempo, era mais conveniente que ele fosse meu guarda-costas, uma vez que Dmitri é facilmente manipulado.

Ironicamente, Kazuki concordou e ambos começaram a discutir o assunto seriamente (eles nem imaginam como é difícil fazer o Dmitri participar dos meus esquemas). O pobre do Dmitri se encontrava sentado no sofá ao lado de Jinx que conversava animada com Hiroko e Daiki. Desvencilhei-me dos braços de Hideo e sentei ao lado de Dmitri.

— Sua orelha está queimando? — ele deu um meio sorriso, balançando a cabeça negativamente. — Estou me sentindo mal, fico lhe arrastando para confusões e você ainda leva bronca.

— Meu dever é lhe proteger, mesmo que tenha que concordar com algumas coisas que geralmente não aceitaria. — ele suspirou.

— Estou me sentindo pior agora. — apertei o ombro dele. — Tenho sorte de ter um amigo como você. — Ele lançou um olhar desconfiado para mim, e, antes que eu percebesse, deixei escapar um sorriso triunfante. Olhei para os lados, apenas para ter certeza que ninguém nos observava, e sussurrei algo para Dmitri.

Foi linda a cara de choque que ele me lançou quando terminei de falar, então deixou escapar um longo — mas realmente muito longo — suspiro e levantou-se. Acenei um "tchau" discretamente para ele e olhei para Hideo, que me encarava e parecia a ponto de se levantar e me colocar novamente sentada ao seu lado. Então, resolvi fugir dele antes que tivesse a chance de colocar seus planos de "dominação fraternal" em prática: segui na direção de Sesshoumaru e sentei no chão, entre suas pernas, quase derrubando minha taça de vinho. Encostei-me contra a poltrona, olhando para a bebida e pensando se finalmente já era hora de procurar o A.A.

Engraçado como os olhares pareciam atraídos para nós. Olhei para cima; Sesshoumaru lia algo em umtablet. Típico. Sentia-me frustrada e voltei a prestar atenção nos outros que estavam ali. Ele nunca para de trabalhar? Sim, ele para, mas nunca quando eu quero... Acho que vou precisar conversar com ele sobre esse tema mais tarde.

O vinho acabou e meu marido não me deu atenção, mesmo comigo toda linda e maravilhosa usando a perna dele de apoio, então suspirei e me levantei. Quero mais bebida e não estou a fim de bancar a carente reclamando por atenção — não com os meus irmãos ali.

Foi quando ouvi uma voz bastante conhecida exclamar um:

— Cheguei, Ka-chan! — do outro lado da porta.

Lancei um sorriso vingativo para Sesshoumaru.

— Desculpe-me por isso, amor.

E eu não pude ver a cara do meu marido diante do tratamento inusitado, já que a sala de estar foi invadida por Shippou, Yuna e Kai — o último obviamente desconfortável por estar ali. Dmitri vinha logo atrás e deu de ombros para mim, quando sorri para ele. Ele realmente foi muito rápido em atender o meu pedido de ir buscar Shippou no aeroporto.

Sesshoumaru levantou-se ao meu lado. Ergui meus olhos para o rosto dele, apenas para perceber que eu teria que dar muitas explicações sobre o fato de a casa dele estar sendo invadida por praticamente todas as pessoas que ele odiava. Bom, a culpa basicamente foi dele, já que se afastou de mim quando entramos em casa e me deu espaço para ligar para Shippou e pedir para ele trazer Yuna com ele quando viesse — afinal, se Hideo estava vindo para Kyoto para uma Convenção, então, pela lógica, Shippou também estaria aqui em breve.

— Shippou! — eu disse, enquanto ele se aproximava de nós com um sorriso gigante no rosto. Ele hesitou por um momento, sentindo o meu cheiro.

Interessante é que Shippou não ficou realmente surpreso. Quer dizer, não como eu esperava. Ele mais do que ninguém sabia qual era a verdadeira natureza do meu casamento com Sesshoumaru, era o que mais deveria ficar admirado com o fato de Sesshoumaru e eu termos dado um upgrade no relacionamento.

— Você convocou uma Convenção de Senhores, Senhor do Oeste. — disse Shippou, esforçando-se para soar formal — Aqui estou.

— Apenas um segundo! — esbravejou Hideo, muito irritado, enquanto levantava-se e vinha até nós — Quer dizer que ele não foi barrado no aeroporto, e eu fui?!

— Na verdade, — disse Shippou soando inocente — havia um carro do Senhor do Oeste nos esperando.

— Havia?! — Hideo questionou em tom de descrença.

Engraçado que Sesshoumaru me lançou um olhar, sabendo que em momento algum havia mandado alguém buscar Shippou, senão eu. Dei de ombros. Observei que Kai estava pálido, rígido, desconfortável e a ponto de cair morto. Acho que foi pedir demais que ele entrasse na casa de um Senhor. Ele não parecia em nada com um dos sete líderes da Yakuza — agora imagine essa última frase sendo proferida por uma voz masculina imponente, apenas para causar mais impacto.

Toquei levemente o braço de Sesshoumaru antes de me afastar e seguir na direção de Yuna e Kai. Notei que Dmitri e Daiki lançavam olhares hostis para o meu amigo, o que resultou em Kazuki levantando-se para vir falar conosco.

— Obrigada por me convidar para jantar, senhora Taisho. — Yuna agradeceu com um sorriso cúmplice.

— Bom, estou apenas criando oportunidades. — respondi baixinho, antes que Kazuki finalmente nos alcançasse — Kazuki, esses são Kai e Yuna Honshu. São meus… amigos.

— É um prazer conhecê-los. — Kazuki cumprimentou afavelmente — Senhora Honshu, eu gostaria de parabenizá-la pelo excelente trabalho que realiza no Yumiuri Shimbum. Uma pena que o jornal não tenha uma filial em Kyoto, não crê? — Observei marido Kazuki com cuidado. Ele obviamente sabia de nossas intenções, levando em consideração a pergunta capciosa — Eu particularmente amo a coluna de paisagismo do Ivani Kubo. Ah, acredito que a senhora adoraria conhecer nossos jardins. Foram arquitetados há quase duzentos anos, incluindo um jardim privativo. Eu adoraria acompanhá-la em um tour pela casa.

— Olha aqui, seu almofadinha de vira-latas, se você acha que… — começou Kai nervosamente, mas foi interrompido por Yuna, que tocou o braço do marido calmamente.

— Eu adoraria conhecer os jardins, senhor…

— Yagiu. Kazuki Yagiu.

— Senhor Yagiu. — ela repetiu, com um sorriso calmo — Podemos ir?

— Por favor. — disse Kazuki, indicando com uma mão o caminho que seguiriam e se afastando com Yuna.

Kai apenas ficou muito pálido ao meu lado, observando a mulher dele sumir por uma das passagens para o corredor.

— Kai…— chamei baixinho — Você tem que manter a calma ou você esqueceu de onde está? Os três Senhores estão nessa sala, então vê se controla a língua!

— Essas três mocinhas?! — ele exclamou, bem alto — Como os três com paçoca no…

— Fica quieto! — mandei, puxando o braço dele e fazendo-o se calar. — Como você quer que eu te proteja deles se você fica fazendo esse tipo de coisa?

— Eu sou um dos sete líderes da Yakuza! É desonroso estar na frente de um Senhor e não ofendê-lo! Com que cara olharei para os meus homens se eu for educado na frente desses comedores de cera de ouvido?!

Acho que não há muita coisa para falar depois disso, exceto que Kai realmente não tem senso de humor algum, o que já era um fato conhecido.

— Kai! — gritou Shippou — Se quiser nos ofender tem que se esforçar mais, amigo!

— Opa! — alguém disse, entrando na sala; era Richard, acompanhado de Ryuuji — Alguém falou em ofender? Que eu manjo disso!

— Meu amor! — alguém gritou. E não foi Jinx. A minha cara e a de Hideo foram praticamente as mesmas quando vimos nosso irmão se levantar do sofá com um pulo e correr na direção de Richard. Os dois se abraçaram e começaram a declamar sobre a saudade que sentiam um do outro. A cara de nojo de Ryuuji foi impagável.

Expirei, aliviada com o fato de a entrada triunfal de Richard ter desviado a atenção do ataque de nervos de Kai. Voltei minha atenção para ele.

— Já que era para fazer isso, para que você veio? — perguntei acidamente.

— E deixar minha mulher vir sozinha onde essa corja toda está? Que tipo de idiota você acha que eu sou? — Resolvi não responder, até porque ele não estava com a melhor das caras.

— Controle-se. — resmunguei apenas, voltando para onde Sesshoumaru… não estava?! Olhei em volta, procurando pelo meu marido, sem encontrá-lo. Aonde ele havia ido? Hideo e Shippou conversavam perto da poltrona onde Sesshoumaru havia estado sentado, mas nenhuma pista de como ele havia sido abduzido tão rapidamente.

Hideo percebeu que eu estava preocupada com o sumiço repentino do meu marido e se aproximou de mim com Shippou, de cara fechada.

— Eu vou querer saber por que o cabeça da Yakuza está aqui nessa sala? — ele questionou baixinho. Minha única resposta foi negar com um gesto e sorrir. Meu irmão ficou encarando Kai e tive a impressão que Shippou fez o mesmo apenas pelo prazer de ver Kai ficar ainda mais desconfortável. De fato, foi hilário ver o lobo olhar em volta, procurando a saída mais próxima. Nesse meio tempo, Hideo endireitou a postura das costas, dando um ar imponente a si mesmo, aproximou-se de Kai, parando na frente do mafioso, e inclinou-se respeitosamente. — Obrigado por salvar a vida da minha irmã.

Agora imagine oito pessoas chocadas. Agora imagine que Kai estava cinquenta vezes mais chocado que qualquer outra pessoa. Ele não sabia se era piada, se era armadilha ou se era apenas uma forma muito maquiavélica de Hideo deixá-lo ainda mais incomodado de estar ali. Kai escolheu a última opção.

— Se queria que eu fosse embora, bastava dizer para que eu saísse. — Kai respondeu com voz cortante, ofendido. No fundo, no fundo, Kai é muito sensível.

— Segura a perseguida por um segundo aí! — gritou Daiki — Salvar quem?! Como assim?!

Ninguém fez questão de explicar para Daiki como a Yakuza estava envolvida com o fatídico evento onde eu quase morri no ataque dos yaoguais à Tóquio. Então ele iniciou um verdadeiro pandemonium, tentando obrigar que Hideo explicasse. Esse percalço durou muito tempo e ainda não tinha acabado quando percebi Sesshoumaru, Kazuki e Yuna entrando na sala de estar. Foi quando finalmente entendi o motivo para o sumiço repentino. Olhei para os três de forma curiosa, recebendo um sorriso de Yuna e um olhar severo de Sesshoumaru. Claro sinal de que as coisas tinham saído como eu queria.

Sou tão inteligente que às vezes sinto vontade de me beijar.

— O jantar está posto. — anunciou Kazuki — Por favor, acompanhem-me.

Jantar? Já? Tirei o celular do bolso e confirmei que já passava das oito horas da noite. Nossa, o tempo havia passado tão rápido! Deixei para Richard o papel de convencer todos os outros a seguir para a sala de jantar com Kazuki e fiquei para trás, com Sesshoumaru.

— Está muito irritado? — perguntei, abraçando-o pela cintura. Ele limitou-se a me olhar. — Não está tão ruim, não é? Poderia ser muito pior... Eu poderia ter convidado o Nagi.

Acho que ele concordou com o meu argumento, já que me afastou e me lançou um olhar de desprezo. Quase tinha sentido falta desse jeito imbecil dele. Porque eu sou esse tipo de pessoa doente que gosta de Sesshoumaru por ele ser um completo babaca. Só faltou mesmo ele sair andando e me deixar sozinha ali. Ah, falei cedo demais, era o que ele estava fazendo agora.

E lá se vai ele.

Suspirei. Está bem, eu realmente estava cobrando demais dele. Não era como se Sesshoumaru pudesse simplesmente amar que eu o forçasse a participar de uma reunião de família/inimigos, não é? Mas custava ele fazer um esforço? Fingir um pouquinho? Uma mão lava a outra.

Desisti de brigar com ele mentalmente e o segui.

Chegando à sala de jantar — que eu jamais tinha usado nessa casa –, percebi que, mesmo que eu quisesse, não havia a mínima chance de eu sentar longe de Sesshoumaru, já que Shippou havia me feito o favor de guardar um lugar junto à cabeceira, onde o meu marido sentava estampando a maior cara de infelicidade que uma criatura vivente poderia ter.

Sentei-me. Hideo à minha frente, Shippou do meu lado esquerdo e, na cabeceira, Sesshoumaru. Nossa, essa vai ser uma noite muito louca, vendo a companhia que eu tinha para o jantar.

Fingi que estava analisando a mesa de pernas curtas feita de madeira de lei. Era uma sala-de-jantar tradicional japonesa, daquelas que te obrigavam a sentar formalmente sobre os calcanhares para poder se alimentar.

Alguns segundos depois o jantar foi servido. Tudo obviamente bem preparado e a variedade era realmente surpreendente. Olhei para Sesshoumaru, notando que ele estava me observando de volta. Ergui uma sobrancelha. O que aquilo significava? Parecia até que ele tinha chegado na cozinha gritando "Tragam o que tiver de bom e de melhor! Vamos mostrar para aqueles imbecis que a Kagome é bem tratada nessa casa!".

Imaginar Sesshoumaru fazendo isso foi no mínimo divertido. Peguei a garrafa de vinho de arroz e servi o meu marido, lançando para ele um sorriso desafiador. Ele achava comida humana insuportável, só que ele sabia que eu podia ser mais insuportável ainda. Então apenas disse:

— Tome um pouco. — quando ele estreitou os olhos de leve. Infelizmente não pude ver a reação dele ao meu pedido/desafio, já que um copo foi estendido na minha direção. Era Hideo, obviamente irritado, praticamente me obrigando que eu servisse saquê para ele também. Acho que na cabeça dele, em vez de notar que eu estava apenas irritando Sesshoumaru, ele viu a irmã dele bancando a esposa disciplinada. Ele deve até ter visto luzes e flores em volta de mim naquele momento.

Aika arregalou os olhos ao lado do meu irmão e estava a ponto de bater nele, mas eu me inclinei e servi Hideo. Aproveitei e também servi Shippou, que sussurrou:

— Pensei que você tinha dito que eu era exclusivo.

— Exclusivo até ir para Vegas, você quer dizer. — respondi de volta — Você chega lá e parece pinto no lixo.

— Kagome, — disse Richard, sorrindo — A expressão certa é "que achou o seu pinto no lixo"... Se é que me entende. Aliás, acho inclusive que essa versão combina mais com o contexto. O que acha?

— Eu acho que você devia tomar mais cuidado ao falar esse tipo de coisa para a irmã dos outros. — disse Daiki.

— Até meia hora atrás você pediu para ela te levar para um quarto e te amar como se não houvesse amanhã, e eu que falo coisas erradas para ela?

— Alto lá, padauã, que eu disse "me amar até esquecer esse vira-lata cheirador de calcinhas". — foi a resposta imediata.

Olhei para Sesshoumaru, lançando um sorriso amarelo. Por mais que ele soubesse que meus irmãos podiam ser superprotetores e um pouco exagerados nas formas de demonstrar afeto, acho que ele ainda não tinha visto todo o potencial do exagero em primeira mão.

Aliás, surpreende-me que Hideo não tenha falado nada, mas aí eu percebi que ele encarava Sesshoumaru com uma expressão meio psicótica e virava o copo com saquê. Estranho. Parecia até que ele estava desafiando Sesshoumaru a beber. E mais estranho ainda foi Sessshoumaru ceder à provocação virar o saquê que eu tinha colocado para ele.

— Hideo! — exclamou Aika, tentando contê-lo.

— Se vocês realmente vão competir, acredito que preciso participar. — disse Shippou, sorrindo e virando o próprio copo de saquê.

— Parem com isso. — reclamei. Vi de canto de olho que Kai mal estava aguentando de tanta vontade de vir participar daquela competição idiota. Quase podia ler na testa dele "Nisso esses filhotinhos não me vencem!". Como se o fato de você conseguir beber todo um barril de saquê fosse uma qualidade louvável, Kai.

— Kagome! — Daiki exclamou do lugar dele — Traga essa sua bunda deliciosa aqui e me sirva saquê também. Se você pode servir o pichilinga, o felpudo e o sarnento, então também pode me servir!

— Kagome chegou ao fundo do poço pelo jeito. — Hiroko comentou.

Massageei a testa, começando a perceber que iria me arrepender muito de organizar aquela reunião improvisada. Certo, uma coisa de cada vez. Vamos deixar o arrependimento para depois. No momento, vamos servir o inoportuno. Então segurei a garrafa de saquê e empurrei pela mesa. Daiki me lançou um olhar enfezado quando a segurou.

— Que diabos...

— Sirva-se sozinho, não sou paga para isso.

— Te dou meu corpo.

— Ela não aceita esmolas. — respondeu Shippou com um sorriso sonso. — Se fosse meu corpo ela até poderia aceitar.

— Esse corpo de palito de fósforo? — Shippou franziu as sobrancelha para Hideo.

— Já fui mais respeitado. — a raposa comentou casualmente.

Hideo me lançou um de seus sorrisos sedutores típicos de quando queria me convencer a ficar até mais tarde no meu estágio escravo na empresa dele.

— Claro que o único corpo aqui que vale o preço é o meu, o irmão mais velho, o Senhor dos Tengus, um...

— Pirralho mimado. — 'Tá, acho que ninguém esperava por essa, ainda mais por que foi Sesshoumaru quem disse isso. Olhei para o meu marido, realmente muito surpresa.

— O que disse? — Hideo espalmou a mão na mesa e se levantou.

— Hideo.

— Pirralho mimado. — repetiu Shippou, com um sorriso, enfatizando as duas palavras com o óbvio intuito de começar uma discussão entre Hideo e Sesshoumaru.

— SHIPPOU! — exclamei.

— O quê? Seu marido disse algo inteligente, precisei repetir.

— Esse só quer ver o circo pegando fogo... Gosto dessa raposa.

— KAI!

— KAGOME... Ah. desculpe, achei que era essa a sequência.

— Calado, Richard. — Voltei minha atenção para Hideo e me levantei, percebendo que ficava difícil passar sermão no meu irmão com ele sendo quase quarenta centímetros mais alto que eu, imagine comigo sentada — Senta ou sai da minha casa.

— Vai expulsar seu próprio irmão?

— Se ele não respeita minha casa e meu marido, sim. — Virei o rosto para Daiki. — Isso serve para você também. Agora todos quietos e finjam que se amam, que não conseguem viver sem o outro.

Respirei fundo e fiz menção de me sentar, mas senti um puxão, que veio de Sesshoumaru. Caí em seu colo e arregalei os olhos, assustada. Quando foi que ele resolveu sair do modo passivo?

— Mas...

Recuperei-me do susto rapidamente para ameaçar Daiki:

— Ou você come esse salmão pela boca ou ele vai entrar em você por outra cavidade, Daiki. — respondi apontando o hashi para ele, que apenas engoliu em seco. — Pensa mais uma vez. — disse a Hideo quando o vi abrir a boca, ele fechou, desgostoso.

— Cara... 'Tô amando. Senhora do Leste, pode nos chamar mais vezes para jantar. — Kai disse para mim, com um sorriso gigante. Então se voltou para Yuna. — Manda em mim dessa forma hoje noite no hotel.

— Ok. — ela respondeu simplesmente. Anos vão passar e eu nunca vou entender o senso de humor desse lobo.

— Daiki! — Hiroko exclamou — Faça o favor de virar seus hashis quando pegar comida! Ou você acha que as pessoas vão ficar felizes de comer algo com sua saliva?

— Não me lembro de você já ter reclamado de resquícios da minha saliva antes. — ele comentou — Muito pelo contrário.

— Ninguém precisa saber detalhes da troca de fluídos entre vocês. — resmungou Aika, que mal tinha se recuperado de toda a confusão que eu tinha causado. — Hideo, dá para sentar?

Nunca pensei que meu irmão pudesse cair daquela forma, minha cunhada usou força demais para puxá-lo.

— Calma, já estou sentado. — Hideo reclamou, então virou-se para o nosso irmão — Daiki, você conhece as regras.

— Nada de conversas sobre fluídos corporais na mesa de jantar... Lei 017-B do Código Tengu do Senhor do Norte Takashi. — falou Daiki com um tom de advogado em uma audiência. Eu já tinha os ouvido recitarem essas regras duas ou três vezes em casa, mas nunca vi esse código fisicamente, então jamais levei a sério.

— Não usarás o mesmo lado do hashi ao se alimentar de pratos comunitários, Lei 067. — rebateu Hideo.

— Não usarás o lado contrario da cueca. Lei 10, Artigo 1º, inciso II.

— Minha cueca está limpa.

— Duvido.

— Ninguém quer saber da cueca de vocês. — Aika reclamou.

Desisti de tentar controlar a corja e simplesmente comecei a me alimentar, tentando ignorá-los, sabendo que aquilo poderia demorar horas. O detalhe é que eu continuei no colo de Sesshoumaru. Ele que me colocou aqui, ele que me tire.

— Deveríamos aproveitar que todos estão aqui para iniciarmos as discussões sobre a trégua dos yaoguais. — sugeriu Shippou, enquanto os outros ainda discutiam sobre algum assunto idiota. O engraçado é que até Dmitri estava falando agora, largando sua mudez seletiva para defender a irmã de algum comentário maldoso de Richard.

— Existe um protocolo. — Hideo comentou, ficando repentinamente sério. Observei o meu irmão. — A discussão deve ser finalizada na Convenção.

— Claro. — anuiu Shippou — Mas nada impede de discutirmos previamente, não acha? — Hideo lançou um olhar significativo para Kai — Ah, não precisa se preocupar com Kai. Qualquer coisa que saibamos, ele também sabe. Acredite, o filtro de espionagem dele é muito mais eficiente que o nosso.

Vi que Kazuki abriu um leve sorriso que sumiu rapidamente. Sim, marido Kazuki, eu também sei que o de Sesshoumaru é muito melhor, mas ninguém precisa saber disso, não é? Exato. Então apenas fiquei calada e continuei comendo. Ouvi silenciosamente Hideo e Shippou discutirem sobre quão longe poderiam confiar na palavra de Hu e sobre os ataques que haviam recebido há pouco tempo.

— Acredito que convém que as sedes em Tóquio sejam desfeitas. — Shippou sugeriu — Por via das dúvidas, devemos concentrar nossas forças nas fronteiras, e manter homens em Tóquio pode não ser sábio.

— Mas a segurança da Kagome… — começou Hideo.

— A segurança dela diz respeito a mim. — Sesshoumaru interrompeu — Creio ter deixado isso claro.

— Ela ainda é minha irmã. — foi o comentário de Hideo — Se algo acontecer a ela, eu não vou me contentar até ter uma cabeça de cão na minha sala.

— Eu ainda estou aqui, sabia? — alfinetei.

Aika pigarreou.

— Se as sedes realmente forem desfeitas, então as propriedades seriam vendidas? — ela questionou — Todas as sedes foram financiadas pelo fundo empresarial do Leste. É importante que os valores sejam revertidos, apenas por uma questão de logística.

— Manter casas tão grandes não serve de muita coisa, também. — Shippou disse — Por isso prefiro apartamentos, é mais fácil achar outras funções para eles. Kagome, se Sesshoumaru vender a casa de Tóquio, seria bom que vocês comprassem um apartamento, não acha, já que você terá que passar muito tempo lá?

— Eu compro. — afirmou Hideo — Também não gosto da ideia de ter a minha irmã sozinha numa casa enorme.

— Não se atreva, Senhor do Norte. — Sesshoumaru respondeu secamente.

— Hum… — comecei, pensando — Na verdade, eu gostei muito da ideia. Podemos comprar um apartamento para a gente? — perguntei, olhando por sobre o ombro para observar Sesshoumaru.

— Nós podemos discutir isso depois que resolvermos nosso assunto dessa manhã. — ele respondeu. Estava tão sério que eu demorei vários segundos para entender sobre qual assunto ele se referia. Certo, Kagome, não fique vermelha, Hideo vai notar.

Pigarreei.

— Gostou tanto assim do dorama? — perguntei, vendo-o estreitar os olhos. Sorri inocentemente.

— Péssimo investimento. — ele respondeu. — Kazuki, corte o orçamento.

— Sim, senhor Seshoumaru.

Arregalei os olhos. Mordi os labios.

— Vamos conversar sobre isso depois, está certo? — sugeri — Kazuki, pode deixar essa decisão em suspenso por enquanto?

— Claro, senhora Kagome. — ele respondeu com um sorriso malicioso.

Tentei não sorrir de volta, principalmente por que o marido #2 acertou em cheio nas minhas intenções. Recostei-me contra o peito de Sesshoumaru, ouvindo Shippou falar sobre como iriam lidar com a retirada das limitações comerciais de empresas de yaoguais no mercado japonês. Esse tipo de conversa realmente me dá muito sono, só que havia algo de reconfortante em ver os três agindo civilizadamente. Se bem que acho que essa não é bem a palavra correta. Creio que se trata mais da falta de formalidade, da ausência de hostilidade gratuita. Se eu comparar essa conversa que estou vendo agora com a atmosfera que presenciei na Convenção de Senhores de sete anos atrás, a mudança era tão significativa que chegava a ser cômica. Seria muita vaidade da minha parte achar que fui eu a causadora de tamanha transformação no relacionamento deles?

— Tenho que repetir — Hideo se pronunciou — o protocolo dita que as decisões devem ser tomadas por Convenção.

— Claro. Então podemos ficar por aqui. — disse Shippou — O que acha, Senhor do Oeste?

Sesshoumaru apenas afirmou com um gesto de cabeça. Virei meu rosto para ele, ainda apoiada em seu peito.

— Vamos dormir? — perguntei baixinho. A resposta dele foi segurar minha cintura e impulsionar-me levemente para cima, para que eu me levantasse. Então simplesmente obedeci sua vontade e esperei que ele se levantasse também.

Não me lembro de ter dado boa-noite para o pessoal e tenho plena certeza que Sesshoumaru não o fez. Simplesmente saímos juntos, em direção ao quarto, com o inocente intuito de dormir.

Começamos a nos beijar no corredor e, por muito pouco, quase não chegamos ao quarto.


Ladie

É isso cambada! Terminamos esse capítulo ontem. E sei que demoramos mas, deem uma collher de chá: o capítulo tem 30 páginas. É CAPÍTULO PARA CARALHO. Mary e eu terminamos o capítulo ontem com ela vendo estrelas de dor de cabeça e comigo passando mal. Por incrível que pareça conseguimos a proeza de ficarmos doente ao mesmo tempo. MAS ISSO NÃO NOS IMPEDE, POR QUE O SURTO DOMINA NOSSO SER.

Enfim, por enquanto é isso pessoal!

Beijos da Ladie.

Fkake

Nunca comam sushi de uma churrascaria, apenas digo isso.

Enfim, cá esta o capitulo charmoso e formoso do meu coração, pronto para divar e fazer divancias com toda essa divancidade herdade de sua mãe Tracy.

Espero que gostem.

Beijos!