Capítulo LXV — Nem queria um título mesmo

Acho que acordar nunca foi uma experiência tão boa. Cobertores macios, minhas costas contra o peito de Sesshoumaru, um dos braços dele em volta da minha cintura. Era tão perfeito que chegava a ser preocupante. Como se esse fosse o ponto mais alto de felicidade que eu pudesse alcançar, e que logo à frente eu tivesse que enfrentar uma queda livre.

Esse é lado ruim de quando as coisas vão bem, acho. Quando tudo parece se encaixar. Parece tão errado estar feliz, tão fora dos padrões, que você começa a se preocupar sobre ter que colocar os pés de volta no chão e encarar uma realidade que pode ser muito dura depois de se viver em plena felicidade.

Eu sabia que essa preocupação viria desde o momento em que percebi que Sesshoumaru correspondia ao que eu sentia. Por isso evitei pensar no porquê de ele corresponder. Quando começou; por que começou; como começou. Recusei-me a pensar em tudo isso. Porque é muito mais fácil simplesmente aproveitar o presente dado.

Afinal, eu precisava mesmo colocar defeitos em algo incrível? Precisava me sentir culpada por amar o irmão de Inuyasha? Por que deveria me preocupar com o fato de — logo quem — Sesshoumaru gostar de mim?

Arfei quando senti que Sesshoumaru me puxava contra ele. Isso me fez perceber que eu estava a ponto de ter um ataque de pânico por uma bobagem. Porque essa sou eu: idiota em um momento e cheia de dramas no seguinte. Girei preguiçosamente entre os braços dele e me aconcheguei contra o seu peito.

— Está acordado? — perguntei.

— Estou.

— Vai sentir minha falta? — Ele não respondeu. Eu não esperava realmente uma resposta, fiz a pergunta apenas para constatar o fato. Ergui o rosto para encará-lo. — Sua mulher vai passar duas semanas inteiras em Tóquio e você não vai sentir saudades?!

— Por que você está gritando?

— Você é um idiota. — resmunguei, saindo da cama e vestindo a primeira coisa que encontrei, que por acaso foi a camisa dele — Não vou te ligar e também não vou mandar mensagens, se quiser atenção, vai ter que procurar por ela.

— Ou por outra.

— O que você disse? — perguntei, colocando as mãos nos quadris e tentando soar ameaçadora — Ouse arranjar alguém para me substituir e você vai ver com quantos golpes se escreve Kagome¹.

— E quantos são?

— Ah… — desenhei o kanji no ar, mas perdi a conta e suspirei — Eu te conto se você me trair.

Fui surpreendida quando ele me puxou de volta para a cama, fazendo-me cair pesadamente contra o colchão. Soltei uma exclamação surpresa, que foi calada quando ele me beijou. Senti as mãos dele se insinuarem por baixo da camiseta e quebrei o contato de nossos lábios.

— Não tenho tempo, meu voo deve sair logo. — disse a contragosto. Era muito tentador, mas eu não podia atrasar minha chegada, já que minha reunião com o Professor Harada estava marcada para o final daquela mesma manhã. — Você não me disse que tipo de apartamento prefere. Se você não disser, eu simplesmente vou comprar algum que eu goste e você não vai poder opinar depois.

Ele segurou meu pulso e impediu que eu me afastasse.

— Não tire isso. — ele instruiu, tirando a corrente que estava debaixo da camisa e segurando na palma da mão o pingente em forma de pena com uma meia-lua gravada — Em hipótese alguma.

— Dmitri e Nagi vão estar comigo. Não precisa se preocupar.

Ele me encarou, muito sério.

— Se você deixar que algo aconteça com você, vou ficar muito irritado. — ele disse, estreitando os olhos.

— Você tem um jeito todo gentil e romântico de demonstrar preocupação. — ironizei — Já disse isso? — Segurei-o pela nuca e o beijei. — Eu volto em duas semanas.

O olhar dele dizia que eu estava mentindo.


— Você não precisava vir me trazer no aeroporto, Sesshoumaru. — comentei, enquanto observava Dmitri tirar a bagagem do carro. — Não estou reclamando, nem nada parecido, apenas estou achando estranho.

Porque esse é o nível de romantismo de Sesshoumaru: acompanhar a mulher até o aeroporto sem dizer uma palavra sequer. Realmente, um amor de pessoa. Só que, vindo dele, fico feliz com esse tipo de coisa. E ele nem adiantava usar a desculpa que iria para algum outro lugar depois, já que, pela primeira vez na minha vida, eu o via usando roupas casuais fora de casa. Aliás, ele fica lindo assim. O ruim é que eu não sou a única que acha isso e estou me surpreendendo em perceber que me incomoda um pouco que outras mulheres olhem para ele.

Sesshoumaru não deu explicações, mas também não foi embora, seguindo-me até a porta da sala de embarque. Ele não tinha gostado muito da minha decisão de usar um voo comercial, mas pelo menos não me obrigou a simplesmente obedecer à vontade dele.

— Senhora Kagome, já está na hora. — avisou Dmitri.

— Está certo. — virei-me para Sesshoumaru. — Realmente não vai sentir minha falta?

Arregalei os olhos quando, em vez de apenas me responder (ou me ignorar, por que, né?), ele segurou meu rosto e me beijou. Não foi nada sensual, só que parecia ter muito significado por trás disso. Quando ele se afastou, eu baixei o rosto instintivamente, envergonhada com o fato de ele ter me beijado na frente de tantas pessoas. Tudo bem que eu fiz isso com ele no dia em que ele recebeu o prêmio de Personalidade do Ano, mas daquela vez foi involuntário.

Sorri para ele, dividida entre felicidade estúpida e a vergonha.

— Você está me assustando um pouco com tudo isso, sabia? — comentei. Olhei para Dmitri, percebendo que ele ainda me esperava. — Eu tenho que ir. E, ah, mesmo você sendo um insuportável… Eu vou sentir muita falta de você.

Sorri mais uma vez e fui embora. E o mais estranho é que essa despedida doeu muito mais do que eu esperava.


— Nós precisamos conversar seriamente sobre algumas mudanças de postura. — Nagi ralhou ao meu lado, enquanto descíamos pelo elevador — Essa coisa de honestidade pode ser uma qualidade do mundinho de onde você veio, mas vamos pensar duas vezes antes de usar isso da próxima vez?

— Deu tudo certo. — resmunguei — Realmente não sei por que você ainda está brigando comigo.

— "Deu certo" porque se tratava do Doutor Harada e eu estava lá. Com qualquer outro, esse tipo de abordagem não iria funcionar muito bem. — então ele suspirou — Você não precisava dizer que ainda não havia investimentos. Você é mulher de Sesshoumaru e irmã de Hideo, isso por si só já pode ser considerado investimento massivo.

— Mas isso seria uma meia-verdade!

— Uma meia-verdade não é uma mentira. — O elevador chegou ao térreo e saímos dele — Você é muito inteligente e absorve as coisas complicadas com rapidez louvável, mas tem um sério problema para ver as coisas óbvias. Então vamos trabalhar isso, certo? Isso e essa sua completa falta de malícia social.

— Eu tenho um lado sacerdotisa muito forte, sabia?

— Está querendo me irritar, Kagome?

— Preciso mesmo me esforçar? — Dmitri estava esperando na porta, com o carro. Nagi entrou do lado do passageiro e eu atrás — Dmitri, você conhece o Yamashi?

— O restaurante?

— Sim, vamos almoçar lá.

— Estou convidado? — Nagi questionou, de olhos fixos no celular.

— Sim. A gente vai se encontrar com uma pessoa. — expliquei.

— Não estou com saco para ser sociável. — Nagi comentou.

— Você nunca está, então faça um esforço. É muito importante. — pedi — Você sabe que precisamos de um porta-voz humano, não é? E você mesmo disse que o Professor Harada era alguém de peso para as licitações, mas que não poderia se envolver integralmente no projeto.

— Desde quando você presta atenção ao que eu digo?

— Então… — ignorei — Eu tenho alguém em mente para cumprir essa função, mas queria que você aprovasse antes. Você pode fazer isso?

Acho que ele foi pego de surpresa com a minha repentina dependência da avaliação dele e ficou calado por todo o caminho até o restaurante. Na porta, Dmitri me perguntou quanto tempo eu pretendia ficar no local, informando que aproveitaria para ir até a mansão de Sesshoumaru em Tóquio observar se as criadas estavam embalando minhas coisas devidamente. Achei que todo esse cuidado era um pouco exagerado, mas afirmei que ele poderia gastar o tempo que quisesse desde que se alimentasse.

Nagi e eu entramos no restaurante e o guiei até a mesa onde Kenjiro esperava. Sozinho. Não vou mentir que isso doeu para caramba. Ele e eu tínhamos combinado que ele tentaria levar Ruri para o almoço, e o fato de ela não estar ali explicava muito sobre o fato de ela jamais ter respondido minhas mensagens ou aceitado minhas ligações. A rejeição dela ainda doía bastante. Mas aquele não era momento para demonstrar isso, então sorri e cumprimentei o meu amigo.

Expliquei para Nagi que Kenjiro havia iniciado recentemente o curso de biomedicina e também salientei o currículo invejável do meu amigo, composto, basicamente, de competições científicas de nível superior. Depois disso, a conversa se tornou informal, girando basicamente em volta do assunto da profissão que nós três compartilhávamos.

— Acho que é mais fácil para as mulheres falarem dos problemas íntimos que enfrentam para médicos homens e gays. Imagine só que a amiga da minha irmã veio me dizer que tinha problemas de fertilidade, como se apenas o fato de eu ser médico fosse um cartão de convite para ter que ouvir esse tipo de coisa. — Kenjiro comentava, com um meio sorriso — Expliquei para ela que se o pH da vagina dela mata os espermatozoides do marido, é porque eles não são alma-gêmeas. Acho que ela não gostou muito do meu comentário profissional.

Nagi deixou escapar uma risada, simplesmente amando o senso de humor sádico de Kenjiro. Disfarcei o sorriso vitorioso, sabendo que, pelo menos dessa vez, Nagi concordaria comigo. Eu estava pensando no meu amigo há muito tempo para fazer o trabalho de porta-voz do instituto de pesquisa.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem para o ranzinza:

"Já almoçou? Se eu voltar para casa e descobrir que você passou todos esses dias sem comer, já sabe que vou tomar providências, não é? As mulheres não inventaram greve de sexo à toa."

Levei o celular até a mesa com um sorriso de canto que se tornou um abrir de boca, afinal, o treco tocou, informando o recebimento de uma nova mensagem. Peguei-o de volta. Não podia ser o meu marido.

"Atreva-se."

Era ele.

Deixei escapar uma risada alta, incapaz de controlar o impulso. Meu Deus, eu amo esse idiota. Kenjiro e Nagi apenas me encaravam, calados, e eu sorri timidamente.

— Desculpa. — pedi — Apenas algo engraçado no celular.

Só que eu não resisti à tentação de continuar mandando mensagens provocadoras para Sesshoumaru.


— Então, Kenjiro, — falei, na porta do restaurante, enquanto saíamos — eu te ligo em breve, viu? E vê se me manda notícias.

— É você que some, minha senhora. — ele brincou — Casa com um gostoso e esquece que tem amigos. Não estou te julgando nem nada parecido, mas é que eu tenho uma habilidade especial para reclamar dos outros.

— Está certo. — respondi sorrindo — Até mais.

Afastei-me com Nagi em direção ao carro e assim que bati os olhos em Dmitri, eu soube que tinha algo errado.

— O que aconteceu?

Ele coçou a nuca, nervoso, o que me deixou ainda mais preocupada sobre o motivo de ele mantar aquela cara apreensiva.

— Senhora Kagome, — ele começou — é sobre a caixa com arte em relevo que a senhora me pediu para separar… Ela não estava em casa.

Arregalei os olhos, percebendo que ele falava da caixa de pertences do meu pai, que eu havia deixado na casa de Tóquio e que pretendia levar de volta para Kyoto quando voltasse em duas semanas.

— Tem certeza?

— Tenho. — ele afirmou — Acho que seu irmão a levou para a casa de sua mãe. Parece que ele foi à mansão há alguns dias e pegou os seus livros de medicina, provavelmente acabou levando a caixa por engano.

Massageei o peito, enquanto tentava pensar. Sim, de fato, eu havia deixado a caixa na estante de livros que ficava no meu quarto (aquele que eu nunca usava, mas que estava abarrotado das minhas coisas). E Souta realmente havia me pedido alguns livros emprestados quando eu estava em Naha, e eu disse que ele podia pegar tudo o que tinha na estante. Só que será mesmo que aquela anta levou uma caixa de madeira achando que era um livro?!

Na dúvida…

— Vamos até a casa da minha mãe.

E fomos.


— Eu pensei que tinha dinheiro na caixa! — revelou Souta, nem um pouco intimidado com a minha terrível expressão — Sério, para que guardar aquelas bobagens?

— E você, para quê não guardar sua opinião? — questionei, irritada, enquanto o seguia até o quarto dele, local onde ele havia deixado minha caixa até ter coragem de voltar na Mansão para devolver. Porque avisar que estava com ele não era opção.

— Apenas achei melhor trazer ela aqui, até minha curiosidade me vencer e eu abrir.

— Que diabos, custava me ligar para perguntar?

— Quis evitar a fadiga.

— Vou fadigar o seu nariz. — respondi pegando a caixa que estava dentro do armário dele. Suspirei, aliviada. Agora que estava em minhas mãos, o medo de ter perdido uma coisa tão importante finalmente foi afugentado.

— Himura agradece muito pelos seus livros, disse que estão com anotações que salvam a pele dela em todas as provas. — ele disse, tentando amolecer meu coração. Ok, ele conseguiu. Himura era a namorada dele, que fazia medicina, e se as minhas anotações, que foram feitas a literalmente suor e sangue, a ajudaram, eu posso perdoá-lo por ter trazido minha caixa por engano.

Suspirei, tentando fingir que ainda estava irritada.

— Ela gostou mesmo?

— Sim. — garantiu Souta, sem cair na minha atuação. — O cachorro dela chegou a urinar em cima de um deles e ela quase teve um enfarte. Disse para ela que você não ia matá-la por isso.

— Diga que pode ficar com eles, então... Se quiser, ainda tenho meus cadernos de exercícios, devem estar em alguma caixa na Mansão Corvo.

— Deixa o que posso pegar em cima da sua cama na Mansão Corvo que eu levo para ela depois. — ele se sentou na cama dele, sorrindo — E ai, como anda a vida?

— Você deveria ir com ela e mamãe em Kyoto conhecer minha casa. — comentei.

— Implante a ideia na mamãe.

— Vou lá implantar. — disse saindo do quarto do meu irmão com a minha caixa embaixo do braço. Não consegui encontrá-la, mas descobri no caminho que Nagi estava conversando com o meu avô sobre "métodos ortodoxos medicinais" e que Dmitri tinha feito o favor de ficar do lado de fora, como se estivesse defendendo a pátria da invasão Vicking… segurando uma vassoura.

— Está vigiando o quê? — perguntei para Dmitri, olhando curiosa para a vassoura que ele segurava.

— Ele está me ajudando a varrer as folhas. — disse minha mãe, atrás de mim — Muito bonito que minha filha volte para casa e vá primeiro ver o irmão em vez da mãe.

Virei-me para ela, sorrindo.

— É que gosto de deixar o mais importante por último. — gracejei.

— Não vou cair nessa. Pegue uma vassoura e venha me ajudar. — ela mandou, apontando para outras duas vassouras que estavam esperando encostadas em um dos altares.

— Na verdade, mãe… — comentei, coçando a nuca — Eu não posso ajudar, porque…

— Você está grávida?! — minha mãe exclamou. Espera, o quê?! Arregalei os olhos, sem entender como ela havia chegado a essa conclusão. Na verdade eu apenas iria dizer que precisava ir em casa, mas acho que ela entendeu algo completamente diferente. Aliás, ela tem o péssimo hábito de sempre achar que estou grávida, sem motivo algum aparente.

— Não! — exclamei.

Então ela parou, pensativa, encostando um braço na vassoura e apoiando o queixo na mão de forma teatral.

— Já não está na hora? Quer dizer, faz algum tempo que você está casada, não?

Existem momentos na vida em que simplesmente as palavras fogem de você. Esse é um momento assim. O que eu poderia falar? "Olha, mãe, não é por falta de tentativas e tal, mas é que existe uma coisa chamada genética que impede que eu possa gerar filhos de Sesshoumaru. Então assim, se quiser netos, vai ter que incentivar Souta à fornicar com a namorada dele, por motivos de: a minha fábrica tá fechada."

— Kagome. — disse Nagi, aproximando-se de mim, segurando uma sacola — Você podia ter me tido que seu avô tinha tantos apetrechos de exorcismo. Comprei uma tonelada. Vou usar lá em casa. Daiki vai ficar lindo se eu pregar alguns nele.

Certo, psicopata, não é porque eu te aceito do jeito que você é que minha mãe vai achar o mesmo! Então freia o discurso doentio, ao menos aqui.

— Você é o Nagi, não? — perguntou minha mãe com um sorriso. Nagi apenas ficou encarando-a, tentando entender o que ela queria. — Sabe aquelas duas vassouras ali? Pode trazê-las para mim?

Ainda tentei impedir que ele fizesse tal besteira, mas ele havia sido provocado pela curiosidade, e o resultado foi que Dmitri, Nagi e eu ajudamos minha mãe a varrer o pátio externo do templo pelo resto da tarde.

Dmitri havia conseguido escapar em algum momento da faxina no templo, mas Nagi e eu não tivemos a mesma sorte. Agora estávamos sentados no alpendre, esperando enquanto mamãe ia à cozinha providenciar lanches; e repare bem como minha vida está deprimente, para que eu fique feliz apenas com isso.

— Entendi porque você é tão teimosa. — comentou Nagi — É a junção dos genes perturbados de Takashi e da sua mãe.

— Não a deixe ouvir você falando assim dela, ou eu não vou poder proteger você. — comentei, rindo. — Acho que estou feliz… É como voltar a ter 13 anos de idade e me sentir útil ao ajudar na limpeza do templo. Só que depois que conheci a pessoa para quem esse templo era dedicado, eu acabei perdendo o respeito por todo o processo de honorabilidade.

Percebi que tinha falado demais quando Nagi me encarou. Então sorri. Depois da experiência de ter que limpar todo o pátio por ser curioso, ele resolveu que não iria arriscar mais uma vez.

— Isso era do Senhor do Norte Takashi, não? — Nagi perguntou, apontando com um gesto de cabeça para a caixa que estava ao meu lado — Emana a presença dele.

— Era. — respondi, colocando a caixa no meu colo e passando os dedos no relevo — Ele parece mais real quando tenho isso em mãos. Ele deixa de ser o Senhor do Norte e se torna meu pai, de certa forma.

Abri a caixa, por puro reflexo. Todas as coisas estavam ali, todas aquelas lembranças com as quais eu já estava intimamente familiarizada. O pouco do meu pai que me pertence, com o qual Hideo me presenteou. Havia, naquele simples momento, muito amor envolvido. E eu era grata por isso.

Só que aí toda aquela atmosfera melodramática que eu aproveitava se desfez quando percebi um pequeno envelope branco alienígena grudado à tampa da caixa. Eu vou matar o Souta! Tudo bem que ele tenha furtado minhas coisas por erro de objeto, mas daí a profanar as lembranças do meu pai por desleixo era motivo para uma surra digna de uma lutadora de MMA.

Peguei o envelope, tirando um cartão de dentro. Só espero que não seja uma declaração de amor do meu irmão para a namorada, ou eu juro que vou esganá-lo de verdade. Mas era isso que havia:

戈薇,好期待。

龍。

— "Kagome, assim como a espera. Yong." — li, sem acreditar. Como aquilo havia ido parar ali? Até onde eu me lembre, havia deixo esse bilhete em Kyoto, e só Deus sabe onde. — Como… Como é que…

Nagi tirou o bilhete da minha mão.

— Hum… Mandarim clássico. Letra bonita. — Nagi elogiou — Desde quando você sabe chinês?

Massageei a nuca, ainda meio confusa. O melhor era não ligar muito para isso. Talvez tenha trazido na bolsa sem querer, tenha caído na casa e Souta tenha colocado dentro da caixa achando que era dali.

Sim, isso fazia mais sentido.

Suspirei e deixei Nagi elogiando um bilhete de poucas palavras como se estivesse lendo a Carta Magna da Inglaterra. Peguei o pingente quebrado dentro da caixa e suspirei, lembrando que a última vez que o tinha segurado assim fora para pedir forças em razão do meu casamento com Sesshoumaru. Agora o fazia para agradecer por ter tido coragem de casar com ele.

Alisei o pingente, sentindo o metal gasto contra os dedos, o relevo do arco branco que cortava a pena quebrada. E então, alguma coisa me provocou. Algo na minha mente mandou que eu parasse e analisasse o pingente com mais cuidado, que notasse algo óbvio que até aquele momento passara despercebido: que aquele estranho arco branco que havia no pingente na verdade era uma meia-lua. E que o pingente que eu carregava no pescoço era igual àquele que eu segurava.

Isso significava que a mulher que havia morrido para proteger meu pai de Sesshoumaru tinha recebido proteção de ambos, assim como eu. Aquela mesma mulher, assim como eu, tinha sido amada por um tengu e por um tai-youkai. E isso não fazia sentido.

— Os kanjis dizem respeito a uma jovem rainha que é esperada. — dizia Nagi, enquanto ainda perdia tempo elogiando aquele bilhete estúpido. Então estendeu o papel para mim, com um sorriso irônico. — Você tem que estudar mais mandarim, de qualquer forma.

— O quê? — perguntei, ainda zonza com o que tinha percebido do pingente.

— Você errou a tradução. — ele explicou, inclinando-se para ler o bilhete que eu segurava displicentemente — "Kagome, o poço a espera. Yong.". É isso que diz.

E então me veio aquele pensamento idiota, completamente sem sentido, que a mulher que morreu por meu pai tanto tempo atrás, a sacerdotisa que foi assassinada por Sesshoumaru, na verdade… era eu.


¹No caso, diz respeito à quantidade de traços usados para escrever um kanji.


Vitória

METEÇÃO (AÊEEEEE) DE MEDELHO (Ahhhhh ): A Tracy pediu pra eu fazer a meteção desse capítulo — que é o mais importante de toda essa bagaça — e eu me sinto muito honrada e etc etc e tal. Vamos ao que interessa:
1. A cena inicial matou a pau (se alguém não conhece essa expressão chula aqui da minha terra, ela significa que essa porra tá foda pra caralho). Sério. É TÃO NENÉM QUE AI, QUERO SER UM DOS LIVROS NA ESTANTE DO SESSHOUMARU PRA PODER PRESENCIAR ~toda a pegação que rola naquele quarto~.
2. NAGI, SEU DELÍCIA! Eu preciso dizer o quanto eu gosto do Nagi? Tipo, mais do que do Sesshoumaru? CARA, É O NAGI! O NAGI! Na minha cabeça, ele é amante da Kagome e eles se encontram com o Sesshoumaru nos fins de semana pra fazer ménage.
3. KENJIRO! PIADINHAS SOBRE PH DE VAGINA! OMG, QUE TUDO!
4. MENSAGENS SAFADINHAS COM O SESSHOUMARU! Sério, vou pedir pra Jinx pagar umas aulas de sexting pra Kagome. Essa fic vai atingir um nível ainda maior depois disso.
5. Esqueci de falar do Dmitri. Já falei que shippo ele com meio mundo? Pois é. DMITRI!
6. ~pausa pra imaginar o Daiki cheio de amuletos de exorcismo~ ~cospe a água na tela~ PORRA, VOCÊS! AVISEM!
7. Sobre o Souta: SEU FOFO! Sobre a mãe da Kagome colocando todo mundo pra trabalhar: YOU BETTER WORK, BITCHES! HIGURASHI-SAMA IS IN DA HOUSE!
8. ~le bilhete aparece from hell~ CARA, EU SABIA QUE ISSO ERA SUSPEITO. NUNCA CONFIE EM COISAS ESCRITAS EM MANDARIM. AINDA MAIS SE A MARY E A TRACY ESTIVEREM POR TRÁS DISSO.
9. Mano... só queria dizer que eu já sabia que isso ia acontecer. Há anos. Mas quando eu li esse final... Bem, insiram aqui todos os palavrões que vocês conhecem. Vai ser tipo eu reagindo a esse parágrafo final.
ENFIM! MANDEM REVIEWS PRA MENINAS, CAMBADA, BECAUSE SHIT JUST GOT SERIOUS!

Ladie

Tenho dois avisos para dar:

- BRACE YOURSELVES, CHAPTERS ARE COMING!

- Com esse capítulo, nós inicíamos oficialmente o arco final de Senhor do Norte. Beijos de luz.

Praticamente, sobram dois mistérios a serem resolvidos depois daqui. (Que a gente lembra, então, se lembrarem de algo que vocês ainda não descobriram, falem na review, para que a gente lembre tb de resolver). Nossa previsão é de que Senhor do Norte tenha mais 10 capítulo, no máximo. Então, cambada, nos deem amor e comecem a se despedir dessa fic. (Calma, calma, ainda tem mais uns quatro meses nos suportando).

E tenho dito.

Beijos da Ladie.