Capítulo LXVI — Vamos pular, vamos pular, vamos pular

Nagi havia me explicado, de forma bastante rude, que eu havia errado a tradução por causa da ordem dos kanjis e que, sem sombra de dúvidas, a tradução seria "o poço a espera".

Como estamos falando do Nagi, meu primeiro instinto foi achar que ele estava — não pela primeira vez e nem pela última, presumo — usando meu passado para fazer alguma brincadeira de mau gosto. Só que ele não sabia sobre o meu passado. Jamais poderia deduzir que uma mera relação com um poço já seria suficiente para deixar todos os meus nervos à flor da pele. Minha única saída, então, foi fingir com muita vontade que aquele bilhete não me afetava absolutamente. Mas afetava. E muito.

Depois do acontecido, eu o dispensei, alegando que dormiria na casa da minha mãe naquele dia. Não sei ao certo o que motivou esse impulso, apenas que, de repente, eu não queria ficar sozinha. Ou, ao menos, queria um tempo longe do mundo dos youkais para colocar as ideias em ordem.

Aquele bilhete e o pingente me incomodavam de uma forma inesperada. O tipo de incômodo que ficava permanentemente no fundo da sua mente, rondando, esperando uma oportunidade para se insinuar. E por mais que eu tentasse convencer a mim mesma que isso era apenas paranoia, vez ou outra a ideia se infiltrava na minha mente e eu me via pensando naquela ideia estúpida: de que eu era a sacerdotisa que morreu para acabar com a Grande Guerra.

O pingente igual ao meu que pertenceu à mulher que meu pai amava; o estranho bilhete fazendo referência a um poço; um ser imortal de nome Yong que controla o tempo… Até que ponto isso tudo seria apenas coincidência? Até que ponto eu poderia acreditar que qualquer coisa na minha vida acontece por acaso?

Exato. O meu histórico apenas contribuía para que eu não conseguisse me convence de como era uma obsessão estúpida.

Mal dormi aquela noite. Tentei dizer a mim mesma que era apenas saudades de um certo tai-youkai rabugento, mas eu estava consciente de que não se tratava apenas disso. Então, o jeito que encontrei para me distrair foi mandar mensagens para Sesshoumaru, mesmo sem saber se ele estava recebendo.

Assim que amanheceu, eu percebi que havia apenas uma forma de silenciar meus pensamentos virulentos: vesti uma calça jeans e um moletom e fui até o galpão do poço.

Era uma bobagem estar tão cedo andando em um templo que fica numa montanha, com um frio de doer os ossos. Estou tão ansiosa para frustrar meus instintos que não me importava em absoluto com a temperatura.

Desci os degraus de madeira do galpão, soprando minha respiração nas mãos para esquentá-las; aproveitei a pausa para me julgar por estar tão ansiosa. Eu passei três anos da minha vida olhando para aquele poço, esperando que em algum momento a vida que deixei do outro lado pudesse ser recuperada, só que isso jamais aconteceu. Então por que isso aconteceria agora? Sob que propósito?

Ri de mim mesma e respirei fundo. Eu me sentia muito idiota. E não do jeito normal, que eu me sinto sempre, mas do jeito idiota por ter expectativas em algo completamente absurdo. Aliás, lindo momento para que eu me lembre que expectativas nem sempre trazem bons resultados.

Ah, vamos acabar logo com isso.

Empurrei a tampa de madeira, fechando os olhos para me proteger da poeira que foi jogada. Tossi por um momento e me inclinei, olhando para dentro do poço, esperando encontrar o fundo de terra batida. Só que, para meu completo desespero, no fundo, em vez de terra… havia céu.

Meu Deus.

Arfei, dando um passo atrás.

— O quê? — deixei escapar, chocada, embora ainda não acreditasse realmente no que tinha visto. Fui inundada pela sensação de raiva, descrença, surpresa, e, lá no fundo, uma parte de mim estava vitoriosa por ter interpretado corretamente os sinais; só que era uma parcela realmente muito pequena.

— É realmente o grande Irônico, esse fio vermelho que vocês chamam de destino, não crê? — soou uma voz masculina desconhecida atrás de mim. Girei o corpo, assustada, vendo o homem de longos cabelos negros parado na entrada do galpão.

Tentei controlar a respiração, numa tentativa desesperada de clarear minha mente, mas as circunstâncias dificultavam muito que eu tivesse algum momento para pensar. Encarei o desconhecido, percebendo que se tratava de um indivíduo forte e alto, que, se soubesse lutar, daria muito trabalho para ser vencido. Na verdade, nem sei por que meu primeiro instinto foi analisá-lo como inimigo, senão pelo fato de ele ser um completo desconhecido que invadia o templo às seis da manhã e se achava no direito de me assustar enquanto eu tinha acabado de descobrir que aquele poço estúpido tinha voltado a funcionar praticamente sem motivo algum. Ou seja: eu tinha, sim, muitos motivos para estar desconfiada.

— Não se esforce. — ele disse, erguendo uma mão e sorrindo gentilmente para mim; um sorriso que alcançava seus olhos prateados de uma forma encantadora — Eu sei como você vai reagir. Sei qual decisão vai tomar. Então podemos pular toda a parte de questionamento, não acha?

— Quem é você?!

— Hum… Está certo. Todas as vezes eu digo para que pulemos essa parte, e toda vez você insiste em perguntar quem sou. Esse é o grande problema de ser onipresente. — Ele sentou-se no degrau de madeira mais próximo da porta, colocando uma mão no queixo e me encarando calmamente — Eu sou Yong. Alguns me chamam de o Grande Imortal, outros de o Dragão, Senhor do Tempo, Velho Intrometido. — ele suspirou. — O último nome recebo do seu pai. Grande barba.

— Meu pai usava barba? — perguntei, confusa. Então balancei a cabeça. Não, Kagome, não era isso que você tinha que perguntar. Prioridades. — Você é o Yong? O Yong do bilhete?

— Esse nome é novo. Yong do Bilhete. Tem alguma poesia. — E sorriu de forma divertida. — Sim.

Levei uma mão à testa, confusa. Eu estava naquele estágio desesperador em que nada faz sentido, e que, por mais que você se esforce para pensar, alguma coisa na sua mente te obriga a se prender em coisas completamente aleatórias, como:

— Você conheceu meu pai? — questionei.

— De muito tempo atrás. E de agora. E do futuro. Porque não existe nada para mim além do presente e do conhecimento ilimitado. — Ele ergueu uma mão, impedindo que eu falasse — Não precisa comentar que soei confuso. Você já disse isso antes. E irá dizer.

— Isso realmente soou muito confuso.

— É, não importa o quanto eu tente mudar o que acontece, é impossível. Por mais que eu tente, por mais que eu me esforce, o que aconteceu irá acontecer novamente. É predestinado. — Ele apontou para o poço atrás de mim — Poço-Come-Ossos… Os humanos sempre me surpreendem com a forma como dão nomes às coisas. Nomes comuns, óbvios, tomam proporções mágicas. A linguagem é realmente a Grande Criação. Se existe algo mais velho do que eu, é isso. Embora eu já existisse antes da linguagem, eu não poderia ter conhecimento de mim mesmo sem ela.

— Não compreendo…

— Desculpe, eu fugi do assunto. — ele sorriu mais uma vez — Em algum momento, no longo lapso temporal em que existo, estou criando esse poço.

Olhei por sobre o ombro para o Poço-Come-Ossos, vislumbrando a iluminação matinal que irradiava do fundo e me lembrando que, atrás de mim, ainda havia um grande mistério a ser solucionado. Voltei a encarar Yong e seu sorriso que parecia ser eterno.

— Você está dizendo… que foi você quem criou esse poço?

— Bom… Pelo menos as propriedades dele. É único no mundo. Uma das coisas que mais me orgulho de fazer. Seu pai também achava. — ele deixou escapar uma risada — Como eu disse, magnífica barba.

Apertei a borda do poço, sem saber ao certo o que fazer com aquela informação. Yong estava me dizendo, sem rodeios, que aquele poço existia por causa dele? Então...

— Ele é criado especialmente para você, na verdade. — Yong admitiu, forçando-me a encará-lo mais uma vez — Para que, um dia, você pudesse resolver assuntos inacabados. Você realmente não faz ideia de como é especial.

— Assuntos inacabados? — questionei.

— Eu sou o Guardião do Tempo. O Imortal dos imortais. É meu dever garantir que as coisas aconteçam como devem acontecer. Até porque, não importa como eu tente, não posso mudar o que acontece. Livre-arbítrio existe, mas as pessoas são o que são, e sempre irão fazer as mesmas escolhas, quando nas mesmas condições. — Ele apontou para mim — Você, grande sacerdotisa, escolheu usurpar um objeto de poder em outra vida. Trouxe consigo, para esse tempo, uma joia que não deveria mais pertencer a esse mundo. Então crio esse poço para que você pudesse devolver a Joia de Quatro Almas ao seu devido tempo. Mas, como eu digo, esse poço é feito para a sua linhagem. Para os descendentes dos ascendentes de Kaede.

— O que você que dizer? — questionei, nervosa, sem compreender.

— Quando seu assunto inacabado é resolvido, eu a jogo de volta para a sua devida era. Você não pertencia àquele tempo. — ele fez uma pausa, analisando minha expressão — Sei a dor que lhe causo, mas também sei a felicidade que lhe permito. Você tinha resolvido aquilo que deixara incompleto. E, agora, você tem outro assunto inacabado para resolver.

— O quê? — questionei, obviamente atordoada — Qual?

— A Grande Guerra. — ele explicou — Ela foi iniciada por Inuyasha, por pensar que Hideo fora o culpado pelo seu desaparecimento. Se você não tivesse voltado para devolver a Joia de Quatro Almas ao seu devido tempo, a Grande Guerra jamais aconteceria. Vê? Que grande problema temos em mãos. A menos que a guerra seja impedida, algum deles irá morrer, e o destino estará perdido.

— Quem irá morrer?

Ele respondeu lentamente:

— Takashi ou Sesshoumaru. Se aquele morre, você não nascerá; se este morre, você jamais conhecerá a felicidade. Um grande dilema. — ele levantou-se, tirando a poeira da calça social que usava — Sei que a machuco quando não permito que você se despeça daqueles que ama, quando a trago de volta para esse templo, alguns ciclos atrás... Só que tenho, mais uma vez, que infringir a você esse sofrimento. Para que as coisas aconteçam como devem, você não pode se despedir. Você precisa tomar sua decisão agora. Depois disso, eu selarei o poço mais uma vez.

— Você… Você está me dizendo para pular nesse poço? Para voltar no tempo, sabe-se lá para onde, e resolver um assunto inacabado? — perguntei exasperadamente, quase sem voz. Yong acenou de forma afirmativa. — Por quê?

— Para garantir que eles sobrevivam. — Yong disse de forma solene — Para que você tenha a chance de salvar duas pessoas que você ama.

Meu pai ou o meu marido, percebi, apavorada.

Não passou pela minha cabeça questionar o que ele dizia — o que era, obviamente, uma tolice. As palavras dele reverberavam em cada vértice do meu corpo. O peso de uma decisão que deveria ser tomada e que mudaria tudo na minha vida. Eu não queria pular naquele poço, mesmo que tenha feito isso centenas de vezes no passado. Antes, eu o atravessava para alcançar Inuyasha, para alcançar aquilo que eu achava ser amor. Agora, pular naquele poço seria me afastar da única felicidade plena que alcancei em toda a minha vida. Seria deixar o Sesshoumaru que me encontrou, que me protegeu, que permitiu que eu o amasse.

E era por isso que eu não poderia perdê-lo. Para que, um dia, mesmo que brevemente, eu soubesse o que era aquele sentimento. Que eu pudesse viver, finalmente.

— Sou eu? — questionei lentamente para Yong — Aquela que impediu a Guerra? A sacerdotisa que meu pai amou?

— Pode ser você. — ele deu de ombros. — É sua decisão.

Engoli em seco. E o encarei, vendo-o esboçar um meio sorriso. Yong sabia qual decisão eu tomaria. E eu também.

— Eu vou morrer? — perguntei, mas dessa vez não queria realmente que ele me respondesse. Recusei-me a pensar que estava deixando o amor da minha vida. Recusei-me a pensar que, de acordo com a história, eu provavelmente encontraria a morte além daquele poço. Independente de qual fosse minha escolha, algum sacrifício seria feito. Eu apenas tinha que escolher qual deles eu poderia suportar.

Toquei o pingente em formato de pena no meu pescoço.

— Sempre a mesma decisão. — Yong disse, virando as costas e saindo do galpão. — Lembre-se: você tem pouco tempo.


Ladie

Ai, cara, eu sempre passo mal de rir quando leio o título desse capítulo. É incontrolável.

Well, hoje só tem eu para vir aqui dizer oi! e beijunda!, porque a Mary está viajando e tals. O capítulo é curto, eu sei, mas, bem... é bem tenso.

Com isso, OFICIALMENTE, INICIAMOS O ÚLTIMO ARCO DE SENHOR DO NORTE.

Agora vocês já sabem o que é que tá pegando, e vão nos xingar, e vão nos amar, vai ser uma beleza só. Mas olha... Antes que comecem a dizer que nos odeiam, deixo o aviso: Takashi está vindo e NÓS DEIXAMOS O MELHOR PARA O FINAL. Tá rolando tapa aqui nas internas sobre quem vai ser a mãe da Kagome, vocês não tão sacando o tamanho da divância (e da sofrência).

Enfim, é isso por hoje.

Ah, gente, infelizmente, em razão dos horários de trabalho meio pesados que temos, a gente não pode responder as reviews. Mas saibam que a gente lê todas e surtamos e é aquela perfeição toda. Na verdade, queria apenas dizer que Mary e eu sempre estamos disponíveis no face para conversar e tirar quaisquer dúvidas, viu? E tem o grupo no face, também, é bastante divertido (nos fez perceber como tem gente louca que lê essa história, mas ok) e sempre que tem alguma novidade o povo de lá fica sabendo primeiro.

Aos interessados: face book / groups / oporao

Juntem tudo e divirtam-se.

Beijos da Ladie.