Capítulo LXVIII — Grande Barba

É a primeira vez em mais de vinte e quatro horas que eu tenho tempo para refletir sobre tudo o que está acontecendo — e olha que esse "tempo" que eu estou tendo é meio involuntário. Não foi exatamente uma boa ideia apenas pular no poço "en la vida loca" sem saber o que me esperava. Até alguém como eu sabe disso, mas Yong não me deixou realmente uma escolha. Ele havia sido categórico sobre eu ter que que tomar a decisão rapidamente, sem ter chances de me despedir de Sesshoumaru. Era de se imaginar que ele não me daria algum tempo para ir a alguma casa de câmbio para trocar ienes atuais pelo usados na Era Meiji.

Se bem que não fez muita diferença. Assim que saí do poço, do lado de cá, eu não precisei me esforçar muito para descobrir que ainda não se usava o iene como moeda nacional. E quando digo por "não precisei me esforçar muito para descobrir", foi no sentido de que os sacerdotes do templo estavam sendo roubados por saqueadores no momento em que subi no galpão do poço. Sim, estou falando a verdade. Esse povo simplesmente não tem medo de ira divina.

Eu até pensei seriamente em sair de fininho, mas então lembrei que o templo era da minha família e que os sacerdotes provavelmente eram alguns dos meus tataravôs, e que eu seria uma neta muito relapsa se não os ajudasse a se livrarem dos bandidos. Resultado: consegui comida de graça e um lugar para dormir. Uma pena que os sacerdotes estivessem em meio a um voto de silêncio, ou eu teria uma ótima oportunidade de conhecer sobre o passado da minha família humana. Fica para a próxima, fazer turismo não é uma das minhas prioridades no momento.

Foi aquela primeira noite que despedaçou a minha calma. Foi quando finalmente me dei conta do que estava acontecendo e o desespero veio. Eu não entendia o porquê de estar ali. Eu não sabia o que aconteceria comigo a partir daquele momento, exceto o fato de que, de alguma forma, eu tinha que interromper aquela guerra. Mas por onde eu deveria começar? Era muita coisa para se pensar, para absorver. E o mais incrível era que apenas um pensamento me consumia: Sesshoumaru jamais saberia o que tinha acontecido comigo. Eu não queria tê-lo deixado para trás. Partir sem me despedir com certeza será o maior arrependimento da minha vida.

Não, eu tinha que me concentrar no agora. Em descobrir o que fazer. Os sacerdotes, em meio ao seu voto de silêncio, não poderiam ser fonte de informação.

Os sacerdotes me deram uma vestimenta tradicional de sacerdotisa, composta pela hakama vermelha e branca, então decidi que desceria do templo até a cidade para conseguir mais informações sobre o tempo em que eu estava. Eu tive chance de fazer isso? Tive? Não, claro, porque uma das grandes leis que regem o meu destino reza é que "se Kagome Higurashi Tsubasa Taisho puder ter seus objetivos frustrados, assim será".

Lá estava eu, linda e maravilhosa, andando em uma rua, pensando em como diabos eu deveria começar a minha missão kamikaze, e então, quando eu menos esperava, aquele youkai idiota estava caindo em cima de mim. Eu fiquei tão surpresa, que nem passou pela minha cabeça que ele havia me reconhecido como uma hanyou e deixei minha barreira oscilar. Então, no tempo de um fôlego, havia um homem loiro tirando o youkai de cima de mim. Ele me encarou por alguns segundos, descendo o olhar até o pingente de pena que tinha pulado da hakama durante o percalço. Seja lá o que ele viu, foi o suficiente para dizer:

— Levem-na até o Senhor dos Tengus imediatamente.

Eu não esperava por aquilo, não mesmo. Ainda tive um vislumbre de Richard, enquanto era arrastada, mas não acreditei que realmente o tivesse visto. Aquela confusão, as lutas. As coisas foram acontecendo tão rápido que não consegui assimilar até estar ali, naquele quarto, sentada sobre meus calcanhares encarando um conjunto tradicional de chá disposto na mesa à minha frente.

Teleporte!

E aqui estamos, finalmente tendo algum tempo para pensar na vida após as últimas insanas vinte e quatro horas.

Meu Deus, aquele tai-youkai havia tentado me matar, não tinha? Tenho certeza! Ou não? E Richard estava lá, não estava? Massageei a testa, tentando conter a pontada de dor atrás dos meus olhos. Tinha me esquecido de como era confuso estar do outro lado do poço, encarando gente estranha que te ataca sem motivo e tendo que driblar costumes tradicionais idiotas numa cultura obsoleta. Estou velha demais para isso. Essa coisa de se divertir criando confusão era coisa do passado. Sou uma senhora de família que prefere ficar na cama, e, de preferência, na companhia do marido.

Minha testa gelou quando ouvi o som de passos e vozes masculinas no corredor. De início, não conseguia entender o que eles falavam — na verdade, minha mente não conseguia associar muita coisa naquela altura do campeonato.

— Sem lutas na cidade! Achem aquele Executor maluco e o parem. — fiquei rígida, sem entender como apenas ouvir aquela voz provocava um instinto primitivo de obediência. — Levem quantos quiserem, mas tragam-no de volta, sem mais confrontos... Pelos deuses, vocês são ardilosos, ardilem!

Ardilem... Essa palavra não existe... Quase posso ouvir o Daiki falando isso. E pensar no meu irmão fez meu peito doer. Agora não, coração.

A porta abriu e meu coração falhou uma batida, ignorando meu protesto. O homem que entrou ainda não estava prestando atenção em mim, mas a minha estava completamente voltada para ele. Por um momento, quase agi tolamente e o chamei de Hideo, só que percebi a tempo que não se tratava dele. Era uma versão de cabelos longos presos por uma fita branca e barba por fazer. Era extremamente atraente. Seus olhos azuis se voltaram para mim com uma mistura de conforto e curiosidade. Por fim, ele fechou a porta atrás de si e sentou-se a minha frente, servindo imediatamente chá para nós dois.

— Minha vontade... — ele começou e eu prendi a respiração — é a de sair correndo por essa casa, arrancando a roupa e gritando "Pelos Deuses, uma hanyou tengu! Mas eu nunca vi esse ser em toda a minha vida!"... Só que eu ao menos tenho que fingir que sou um bom líder e que conheço todos sob as minhas asas. — Ele me encarou, com aqueles olhos azuis que seus três filhos haviam herdado. — Então, qual dos meus homens é o tengu sem moral que deu uma escapada com uma humana e te gerou?

"Você", pensei — e, por sorte, apenas pensei.

Forcei-me a respirar, sentindo que todos os meus músculos tremiam com o esforço. E então, eu estava rindo. Era… Era completamente absurdo. Eu estava sentada na frente do meu pai. O meu pai. Não há descrição no mundo que possa definir o que estou sentindo nesse momento. Todo o choque, toda a felicidade, toda a indecisão, toda a descrença. Eu não passava de uma massa gargalhante, incapaz de reagir à coisa mais sublime que poderia acontecer na minha vida: conhecer aquele homem que eu amava, mas que já não existia no tempo de onde eu vinha.

Junto com o riso, vieram as lágrimas. Eu realmente tentei contê-las, mas não havia forma de impedir que elas caíssem.

— Eu… Eu falei alguma coisa errada? — meu pai disse completamente desconcertado com o fato de eu ter começado a chorar. — Perdoe-me, eu não queria te magoar… Eu sou um idiota, não queria falar mal do seu pai nem nada parecido. Tenho certeza que ele é um tengu honrado. Então, pare de chorar, está bem? Maldição, eu não sei lidar com pessoas que choram. Aqui. — Ele se levantou e sentou ao meu lado, abraçando-me — Pronto, pronto. Agora se acalme.

Até o cheiro dele era igual ao de Hideo. Aquele abraço me deu uma estranha sensação de paz, ao mesmo tempo em que me deixava mais consciente de como era inconcebível que aquilo realmente estivesse acontecendo.

— Pronto, passou, quer assoar seu nariz? — ele disse em um tom paternal, alisando meus cabelos — Pode usar o quimono do tio Takashi.

— Eu estou bem. — falei, passando a mão nas bochechas — Olha… Eu vou falar uma coisa muito, muito estranha…

— Por favor, não me diga que ainda não sabe de onde vêm os bebês, eu não mereço passar por essa explicação de novo. Já foi difícil o suficiente fazer isso com o meu filho.

Tentei não sorrir, mas foi impossível. Tenho certeza absoluta que não era normal falar dessa forma na época em que estamos, mas eu não me surpreenderia se meu pai fosse uma dessas raras pessoas muito à frente do seu tempo.

— Não era isso.

— Graças. — ele suspirou, realmente aliviado.

— Eu… — então parei. Como é que se dizia isso? Como é que você revela para alguém que é sua filha, que vem do futuro e que veio impedir que ele fosse morto pelo homem que, por volta de duzentos anos depois, se tornaria seu marido?

Se ele não me jogasse em algum manicômio — se eles existem nesse tempo —, seria muita sorte da minha parte. Levei uma mão ao pingente, que repousava por cima da minha hakama de sacerdotisa. A forma mais fácil de impedir que o pior acontecesse seria contar para o meu pai a verdade; mas ele acreditaria? Se eu escolhesse não dizer, em contrapartida, então teria que inventar alguma história muito bem bolada sobre a minha origem.

— Menina, o que é isso que você está segurando? — meu pai perguntou, repentinamente sério. Baixei os olhos, encarando o pingente, e percebendo do que ele falava.

— Isso… — prendi o ar quando a mão dele foi até meu pescoço, segurando o pingente. Ele franziu o semblante, olhou para mim e depois para o pingente algumas vezes. Ele parecia genuinamente desconcertado.

— Estou confuso, poderia facilmente acreditar que Hideo aprendeu de onde vêm os bebês… Mas ele não tem todo esse poder. — Ele me encarou, analisando-me. — Jamais haveria um amuleto com a presença do meu filho e do Senhor do Oeste, com a intenção de proteger uma mesma pessoa… Então… Quem é você?

Olhei para o pingente, compreendendo que, de alguma forma, meu pai podia ver através daquele pedaço de metal escurecido e perceber a assinatura de Hideo e de Sesshoumaru. Isso era um pouco surpreendente, na verdade, já que ninguém havia me falado a respeito disso antes.

— Eu… Eu sou… — então, antes que eu aproveitasse os últimos resquícios de coragem que me restavam, a porta do cômodo se abriu. Por ela entrou um youkai magro, de cabelos loiros e olhos avermelhados, vestindo um quimono negro. Não importava que os trajes dele fossem formais, ele parecia um adolescente obrigado a se vestir de adulto.

— O Senhor do Oeste mandou o seu Executor. — o moleque disse — Mesmo que Reiji quisesse, ele não poderia impedir uma luta na cidade. Estou indo resolver a situação.

Meu pai encarou o homem e depois a mim, colocando disfarçadamente dentro da minha hakama o pingente em forma de pena. Ainda assim, tive a impressão que o youkai desconhecido fora capaz de perceber algo.

— Compreendo, Sakamoto, irei com você. — meu pai disse levantando-se. Antes que eu percebesse, havia prendido a respiração mais uma vez. Meu pai havia chamado aquele youkai de Sakamoto? Aquele Sakamoto? O Senhor do Leste, que tentaria me matar, que seria morto por Hideo?

— Quem é ela? — questionou Sakamoto, encarando-me. Imediatamente engoli em seco. Ele não parecia ser a criatura cruel que idealizei como o youkai que havia ordenado que Kai me matasse, mas isso não significava que eu estivesse inclinada a confiar nele.

— Ela é uma das minhas hanyous. — meu pai respondeu com uma expressão tranquilizadora.

— Ela está usando uma proteção do seu filho. — Sakamoto disse, estreitando os olhos e ironizando em seguida — Desde quando Hideo tem poder para proteger alguém?

— Ele esconde muito bem seus dotes. É um garoto modesto. — Ele me encarou, sorrindo gentilmente — Eu tenho que ir. Tome um banho, descanse um pouco… Continuaremos nossa conversa.

E se foi com o Senhor do Leste. Era realmente muito irônico que meu pai me deixasse para trás para proteger o filho do youkai que um dia tentaria me matar. Só que a história é assim, pelo jeito: quando não se repete, desenrola-se como ironia.


Eu havia me esquecido como fazia falta um banheiro e uma cama. Na verdade, o banho não foi assim tão terrível, afinal, meu pai havia dado instruções para que providenciassem um banho em um aposento ao lado do dele. Se bem que desse último apenas tomei conhecimento quando desisti de descansar e abri a porta do lado por curiosidade — tenho que parar com essa mania de sair explorando lugares desconhecidos; a curiosidade e o tédio ainda irão me matar.

A verdade era que não estava com sono, mas eu não poderia ficar andando por ai, então decidi ser sensata e fiquei no quarto tentando encontrar a melhor forma de contar ao meu pai tudo que precisava. Só que eu também preciso de um pouco de ar fresco, motivo pelo qual joguei pelos ares a decisão racional de me manter naquele aposento. Se eu estivesse com um relógio, perceberia que minha decisão de ficar quieta não resistira a uma hora de ócio.

Com um suspiro, segui até a porta e, e como sempre, minha vida me prega uma peça e eu bato o nariz contra o peito de alguém. Ergui a cabeça apenas para encontrar aquele sorriso sacana que Daiki havia herdado.

— Acredito que pensaram que você é minha amante.

— Por que pensariam isso? — questionei um pouco sem graça. — Histórico?

— Não, imagina. — ele riu e caminhou pelo quarto, retirando a sua katana da obi e a colocando em um suporte na parede. — Descansou?

— Não consegui.

— Nem conseguirá por ora. — Ele soltou um suspiro e se serviu de saquê. — Até lhe ofereceria álcool se você não fosse uma criança.

— Já sou maior de idade.

— Sou o seu Senhor, se digo que é uma criança, você é uma criança. — ele me lançou um olhar de repreensão. — Saquês são para tengus lindos como... — ele fez uma pausa teatral. — eu.

— Muito modesto.

Como ele obviamente não me serviria, fui até a mesa e me servi de saquê, apenas para receber um olhar muito severo. Coloquei o copo intocado na mesa e me sentei na frente dele com uma boa menina obediente.

— Estou com sede. — tentei me explicar, envergonhada. Então ele se levantou e foi até a porta, abrindo-a e gritando no corredor:

— Alguém traga chá para essa criança! — Arregalei os olhos, surpresa. — Chá! Preciso ir à cozinha fazer?

Não demorou muito para que uma criada entrasse no quarto, completamente nervosa, deixando uma bandeja de chá ao meu lado. Ele apenas se sentou e voltou a beber seu saquê e analisar os mapas sobre a mesa. Servi chá para mim mesma enquanto ele afastava algumas folhas com uma expressão intrigada. Observei por alguns par de minutos, até ele sorrir e voltar a me olhar, fazendo com que eu desviasse o rosto, constrangida por ter sido pega observando-o.

— Sabe, estou aqui me esforçando para não lhe pressionar. — ele disse gentilmente, comodamente sentando à minha frente e apoiando os cotovelos sobre os mapas — Mas estou realmente intrigado com o amuleto de proteção que você carrega.

— É uma historia complicada.

— Ótimo, sou complicado. Combina comigo. — Sorriu — Esse pingente é do meu filho, disso não tenho dúvidas. Mas a dimensão do poder dele não é compatível com a realidade. É um poder tamanho, que se iguala ou supera o meu. Hideo precisaria de mil anos para conseguir uma façanha como essa. — Pensei em dizer para ele que foi menos de duzentos anos, mas me mantive calada. — E ainda tem a presença do Senhor do Oeste. A ideia de ter os dois protegendo uma mesma pessoa é inconcebível. Ao menos… agora. O que me leva a acreditar que você não é daqui.

Engoli em seco, surpresa que ele estivesse insinuando algo que chegava absurdamente perto da verdade.

— Isso me faz imaginar muitas coisas. Sou um youkai com muita imaginação. Sakamoto me disse uma vez que há um templo em Edo construído em volta de um poço com propriedades… interessantes. Existem histórias sobre viagem no tempo, absorção de ossos, e youkais que vão parar em dimensões que não seguem as leis do nosso mundo. Uma bela história para crianças… A menos que não seja apenas uma história, claro. — Então ele bebeu mais um pouco de saquê — Bem, isso não passa de imaginação minha… Mas não posso deixar de ignorar as… evidências…

— Evidências? — perguntei, tentando soar calma.

— Você tem o cheiro do Senhor do Oeste. — ele respondeu — É óbvio que o relacionamento de vocês está além de mera proteção. Não consigo imaginar aquele cão velho se misturando com uma hanyou tengu. Não mesmo. Com certeza, não. Absolutamente: não.

Tentei esconder como estava ruborizada, mas acho que não fez muita diferença, já que ele deixou escapar uma risada.

— Não se preocupe, apenas eu notei isso. — afirmou — Sorte sua que as serpentes são incapazes de sentir cheiros. Se você precisar de alguém para sentir presenças, eles com certeza são a escolha certa… Mas no que diz respeito a cheiro… Eles são capazes de comer sopa de feijão estragado e jamais desconfiarem.

Toquei o pingente instintivamente, pensando se eles haviam percebido a assinatura de Sesshoumaru presente nele, e meu pai lançou um sorriso tranquilizador para mim.

— Então, juntando toda essas informações, cheguei à conclusão de que ou você veio do futuro ou de um plano paralelo ou de outro planeta. — concluiu em tom vitorioso, e eu apenas o fiquei encarando, muito chocada — Acene afirmativamente se eu estiver certo. Agradecido.

Eu realmente queria contar tudo a ele, mas, como eu faria isso? Não havia forma fácil de contar, mesmo com meu pai tirando todas as conclusões corretas. Havia coisas que simplesmente não poderia dizer de supetão, como um "eu sou sua filha". Esse era o tipo de coisa que podia estragar tudo. Não funciona nem na ficção. Star Wars está aí para provar.

Só que eu também não queria mentir para ele, e também não conseguia encontrar uma desculpa plausível para fazer algo assim, exceto o fato de que eu sou uma covarde.

Acenei de forma afirmativa para o meu pai, a contragosto.

— Eu vim do futuro. — falei lentamente, tentando não desviar os olhos dele.

Ele abriu um sorriso gigante, vitorioso. Mas então a expressão foi morrendo aos poucos, até ele parecer bastante pensativo. Colocou uma mão no queixo.

— Como vou acreditar em você? — questionou, fazendo um gesto amplo com a mão, indicando como a situação era estranha — Agora não sei se você está sendo honesta ou se está apenas afirmando algo que eu quero ouvir. Quer dizer, eu praticamente induzi você a dizer que veio do futuro… Esse tipo de coisa não existe, obviamente. É muita bobagem achar que essas coisas como viagem no tempo possam de fato acontecer.

Mas o quê? Não foi ele que me pressionou com essa história?! Como ele pode mudar de posicionamento assim tão rápido?

— Existem as lendas…! — argumentei, percebendo que, para alguém que não queria contar a verdade para ele, eu parecia bastante indignada com o fato de ele ter mudado de opinião.

— Mas é isso que elas são: lendas. — afirmou — Nunca fiquei sabendo de alguém que tenha viajado no tempo… E olha que eu tenho seiscentos anos. Não é estranho que você seja a primeira?

— Se existem histórias, é porque alguém antes de mim fez isso. — afirmei. Tudo bem que esse "alguém" podia ser eu também, mas ele não precisava saber.

— Não acredito em você. — ele afirmou — Conte-me alguma coisa que só alguém que vem do futuro saberia.

Abri e fechei a boca várias vezes, procurando alguma resposta plausível para dar.

Meu pai é louco. Simples assim. E quando digo louco, é mais louco que Hideo e Daiki juntos. Os filhos dele realmente têm a quem puxar! O pior era que ele se mostrava uma junção dos meus irmãos que eu não podia prever. Hideo com certeza estaria me manipulando, Daiki com certeza estaria apenas se divertindo. Com o meu pai eu não consigo saber qual das duas coisas ele estaria fazendo.

Cruzei os braços, resignada.

— Eu poderia mentir. — comentei de forma arrogante — Você não saberia a verdade.

— Então diga uma mentira convincente, menina. Tenho que ensinar tudo para os jovens de hoje em dia?

— Eu... Certo... — cocei o queixo — No futuro há caixas que cozinham qualquer alimento sem chama ou fonte de calor direta usando tecnologia de microondas.

Ele ficou me encarando, levemente fascinado, mas então fechou a cara. Não, eu não tinha conseguido dessa vez.

— Não é uma mentira convincente. — ele admitiu, embora não fosse uma mentira em absoluto — Você está certa, não tem como saber se você está falando a verdade. Tente mais uma vez, e dessa vez quero que se esforce para me surpreender. Conte-me algo que me deixaria sem palavras. Algo que, mesmo sendo mentira, deixe-me com vontade de acreditar em você. Seduza minha curiosidade. Aumente as expectativas. Qualquer coisa, menina!

Se eu estivesse com o meu celular, poderia esfregar o aparelho dançando lambada na fuça dele, mas nem isso eu tinha trazido comigo. Abri a boca novamente, pronta para responder algo que com certeza o deixaria pensativo, mas ele ergueu uma mão, fazendo com que eu me calasse. Em seguida, alguém bateu na porta do quarto.

— Estou ocupado. — meu pai anunciou impacientemente.

— É importante. — disse a voz do outro lado. — Senhor Sakamoto partiu mais uma vez.

Meu pai soltou um suspiro e seguiu até a katana pendurada no suporte. Voltou-se para mim sorrindo, enquanto a colocava amarrada na faixa do quimono.

— Nossas conversas insistem em ser interrompidas. — Seguiu até mim, repousando a mão sobre minha cabeça. — O jardim fica seguindo reto pelo corredor. Sinta-se em casa e aproveite a hospitalidade luxuosa do Senhor do Leste. Se houver perguntas, diga que é uma das minhas hanyous.

Sorri para ele.

— Direi.

— E fique longe do meu saquê. — ele avisou, seguindo até a porta e parando. Observei, curiosa com o fato de ele ficar parado, na frente da porta. Ele voltou-se para mim devagar, dizendo — Você ainda não disse algo que me surpreenderia. — Então cruzou os braços e esperou a minha resposta.

Não havia coisa alguma que eu pudesse lhe dizer que o fizesse acreditar em mim, exceto uma verdade tão cruel, que, caso fosse uma mentira, seria imperdoável. Eu não tinha coragem de dizer em voz alta. Algo que, muito tempo atrás, Hideo havia me dito que meu pai já sabia: os tengus nunca foram sensitivos, então nunca levei a sério a certeza dele de que logo morreria.

Então percebei que meu pai sabia porque fui eu que lhe contei.

Sempre a mesma decisão, havia dito Yong. E isso me faz compreender o que ele queria dizer com todo aquele discurso confuso: tudo o que eu farei agora, já foi feito. O futuro é o resultado dos meus atos, um loop infinito no tempo, necessário para que a linha temporal corra conforme o destino.

Livre-arbítrio existe, mas as pessoas são o que são, e sempre irão tomar a mesma decisão, quando nas mesmas condições. Sim. Eu já havia estado aqui. Já tinha estado frente-a-frente com o meu pai, sofrido com a ciência de que o perderia. Tudo isso já havia acontecido. E eu tinha lhe contado.

— No futuro… — falei, sentindo meu peito apertar, percebendo como doeria dizer cada uma das minhas palavras seguintes — Mais ou menos cento e cinquenta anos a partir de agora… Você estará morto e deixará três filhos que viverão sentindo sua falta.

E eu vi pela expressão dele que, independente de ele acreditar ou não em mim, aquela mentira convincente fora o suficiente para deixá-lo sem palavras.


EXIJO QUE O TAKASHI REVIVA. MILBJS

ASS: EU

CONCORDO!

ASS: ELA

Ladie: E QUEM DIABOS SÃO VOCÊS?!


Ladie

Esse diálogo ai em cima estava no docs em que a gente escreve, então resolvi deixar para que vocês vejam o tipo de pressão que a gente sofre. Ai ai ai.

ENFIM: EU LHES APRESENTO O TAKASHI

PODEM DEIXAR DE SEGURAR AS CALCINHAS AGORA PARA BATER PALMAS, GRATA!

Beijos da Ladie

Fkake

Cara... que saudades do Dolphymalus...

Bom, espero que gostem do Grande Barba, ele é sedução e estamos em uma busca incansável pelas esferas do dragão e assim possamos ressucita-lo.

Beijos na bunda e até segunda (sexta na verdade, mas queria rimar)