Capítulo LXXI — You are a pirate!
Eu estava apenas seguindo o fluxo. Nada, além disso. E daí que a situação não fazia sentido algum? Isso não passa de detalhe. Apesar de que se eu pensar friamente sobre isso: o que faz sentido?
Não há muito nisso em minha vida, não. Para começar, eu me apaixonei pelo maior cretino manipulador que já existiu nesse mundinho que chamamos de Terra. E ainda há a questão dos anos em que vivi na Mansão Corvo. Sendo assim, de certa forma, sei que a situação é completamente bizarra, mas estou tão acostumada que consigo manter minha expressão de paisagem enquanto meu pai conversava com aquele mesmo homem franzino de antes, o qual havia se apresentado apenas como "o poeta".
Entender era algo do qual estava começando a desistir de fazer, talvez aqueles homens começassem a falar o propósito de terem nos trazidos até o local de acampamento — ou, ao menos, explicarem como papai conseguiu que nos trouxessem até aqui — uma casa de fazenda abandonada que, apesar de estar obviamente em decadência, ainda parecia impecavelmente organizada.
"Organização" parecia ser uma ótima palavra para definir aqueles bandidos. Era quase anormal. Assim que chegamos a tal casa, eles organizaram um mutirão para arrumar qualquer coisa que estivesse fora do lugar e até mesmo ficaram uns bons de minutos se questionando se o cavalo que papai havia os obrigado a aceitar deveria ficar junto dos outros.
Então aquele homem franzino que havia ajudado no convencimento dos saqueadores para nos trazer até aqui passou horas conversando com meu pai, até esboçar um sorriso embaraçado para mim, percebendo que eu estava em silêncio há bastante tempo enquanto ele e papai discutiam — a falta de — métrica nas rimas de haikus animadamente.
— Estranho uma sacerdotisa estar acompanhando um youkai. — ele disse me olhando de cima a baixo. — Ou não sabe que ele é um youkai?
— Até agora não encontrei alguém que não soubesse disso. — respondi com um pouco de desdém. Sinceramente, estou começando imaginar meu pai nas empresas Tsubasa com todos o chamando de "Senhor dos Tengus".
— Ele não é bom em esconder sua verdadeira natureza.
— Percebi.
— Por que está com ele?
Comecei a pensar em como respondê-lo, mas não houve tempo para qualquer conclusão, já que papai havia se aproximado de mim e colocado sua mão em minha cintura enquanto me trazia para perto de si. Na verdade, ele havia me puxado com tamanha força que precisei repousar minhas mãos em seu tórax para que meu nariz não fosse esmagado. Tal pai, tais filhos. Sinceramente a semelhança entre os três homens da minha família paterna é tamanha que chega a doer. Então, começo a me questionar: e se papai estivesse vivo quando descobri minha verdadeira paternidade, como teria sido? E quando Sesshoumaru propôs que nos casássemos?
Suspirei enquanto ouvia papai falar em tom de voz teatralmente irado - mas apenas eu notei o teatro, já que Hideo usava a mesma entonação de voz quando queria colocar para correr qualquer homem que ficasse olhando para a irmãzinha dele.
— O que você quer com a minha mulher, Buson? Disse que poderiam ter meu cavalo, não me lembro de ter dito que a minha mulher fazia parte do saque... Querida, eu disse que você fazia? — ele se voltou para mim. Realmente, estou ficando cada vez mais desconfortável com essa insistência dele de dizer que somos um casal.
O homem nos olhou desconfiadamente. Não parecia realmente acreditar naquilo, o que com certeza era algo sábio da parte dele. Virei-me para o meu pai, sussurrando um nervoso:
— Onde é que nós estamos?
— É uma fazenda abandonada. — salientou o óbvio —Foi o único lugar que eles encontraram para esperar. — Encarei-o, sem entender o que ele queria dizer.
— Esperar pelo quê?
— Pela imortalidade. — respondeu o poeta — Pela honra restaurada.
Levei uma mão à testa, massageando. Por mais que soubesse que não adiantaria, eu não conseguia deixar de tentar entender a situação em que estávamos metidos. Vamos por partes: saqueadores que não pareciam saqueadores; guarda ping pong de um cavalo sentimental; meu pai fazendo mais uma de suas manipulações inocentes e essa fazenda abandonada cheia de homens que esperavam por uma honra a ser restaurada.
Não importa como eu coloque tudo isso, ainda assim não faz sentido algum!
"A coisas que não tem sentido só precisam ser vivenciadas, como Neon Genesis Evangelion", ecoou a voz de Daiki em minha mente, parece que essa filosofia de vida havia sido herdada do nosso pai.
— Venha comigo. — ele disse — Talvez a presença de uma sacerdotisa o acalme.
Deixei que ele me levasse, até perceber que quão estranho tudo aquilo estava sendo e que eu precisava dar um basta. Parei no meio do corredor, fazendo com que meu pai fizesse o mesmo. Respirei fundo. Coloquei as mãos nos quadris e mantive no rosto a expressão mais autoritária que conseguia naquelas circunstancias.
— Hora de me explicar o que está acontecendo. Tipo agora mesmo. — disse de forma resignada. Meu pai apenas coçou a barba por fazer (sempre por fazer), e pareceu considerar o meu pedido.
— Bom… Acho que eu também não sei todas as circunstancias, então não conseguiria explicar. — afirmou com um sorriso. Parecia legítimo. Mas, se tratando dele, era apenas mais uma mentira inocente contada com um sorriso gentil.
— Não, Senhor dos Tengus, a verdade, nem que seja uma incompleta. — ele pareceu considerar mais uma vez.
— Bom… Deixe-me ver… Apenas as mercadorias de He Gian estavam sendo roubadas, mesmo com tantas outras caravanas passando por essa região. Não fazia sentido, até eu perceber que, além de excentricidades caras, He Gian trazia de além-mar uma coisa que nenhum outro mercador tem.
— Enguias? — questionei ironicamente.
Papai deixou escapar uma risadinha, enquanto negava lentamente com a cabeça.
— Não, menina… Remédios. He Gian traz remédios. — Então se inclinou na minha direção e segurou a minha mão. — Acho que você vai entender melhor vendo por você mesma.
Dignidade e honra são coisas que os homens do meu país entendem muito bem. Era indispensável para alguns deles. Então, quando entrei naquele quarto em decadência e vi um homem deitado sobre futtons gastos, eu percebi que, pelo menos ali, dignidade era algo que havia sido perdido. Mais tarde eu descobriria que todos os homens dali havia sacrificado sua dignidade para alcançar honra. Mas, naquele momento, eu apenas vi um homem moribundo à beira da morte, rodeado de homens preocupados que não sabiam como evitar aquilo que, aparentemente, não poderia ser evitado.
Aproximei-me com o meu pai, imitando-o quando ele sentou sobre os calcanhares ao lado do homem. Observei a expressão cansada, marcada pelo tempo e pela doença, e a médica dentro de mim absorveu o fato de que a morte chegaria para ele, assim como chegaria para todos, mesmo aqueles que pareciam ser perenes.
— Honorável Kakamoto. — cumprimentou meu pai, inclinando-se em respeito. Os olhos do homem tremeram sob as pálpebras, mas não se abriram. — Eu sou Takashi Tsubasa, médico do Monte Kurama.
— Então… — soou o homem, com voz exausta — Me ajude.
E percebi pela expressão benevolente que meu pai tinha no rosto que era o que ele mais queria no momento.
Eu permaneci calada, sentada ao lado do meu pai e acompanhando o seu silêncio. Observei a expressão séria dele e percebi que ele não sabe como ajudar aquelas pessoas. Por mais que ele seja médico e tenha séculos de conhecimento, aquele mal em questão ainda não tinha cura. Ou, ao menos, não para ele, não nessa época.
Sinto arrependimento de não ter ficado para acompanhar o exame. Pareceria errado para eles que eu ficasse ali para ver, sendo mulher, e eu não tive a coragem necessária para revelar que também era médica — não com todos aqueles ouvidos curiosos preparados para ouvir. Queria poder ajudar, mas acabei deixando passar uma oportunidade preciosa para fazê-lo, então apenas ergui minha mão e segurei a dele, abrindo um sorriso quando ele virou o rosto para me olhar.
— Está tudo bem? — perguntei, embora eu soubesse que não estava. Era apenas uma forma desesperada de tentar iniciar uma conversa. Ele tentou sorrir, mas foi apenas um esgar triste. Entrelacei meus dedos com os dele instintivamente. — Você e seus filhos são iguais. — comentei. Estou falando de Hideo, de Daiki e, principalmente, de mim mesma, mas ainda não vejo como revelar esse detalhe em particular para ele. — Colocam quaisquer criaturas em seu perímetro de proteção e não conseguem se manter indiferente a dor deles.
— É a sina de um tengu. — afirmou — E por mais que seja uma sina dolorosa, fico feliz de saber que minhas sementes serão parecidas comigo nesse aspecto — Ele abriu um sorriso — Filhos… No plural… Se me lembro bem, você disse que eu terei dois além de Hideo...
— Sim. — disse — Três crianças perturbadas como você para enlouquecer a humanidade.
Ele me encarou e pela primeira vez consegui ver o que ele estava pensando. Ele não confiava realmente em mim e estava dividido entre a curiosidade e a necessidade de se resguardar. Ele queria saber, mas não tinha certeza se eu falaria a verdade. Isso me deixava ligeiramente magoada, mesmo sabendo que é irracional. Ao mesmo tempo em que percebi que, pelo menos por ora, não adiantaria dizer para ele que eu era sua filha; era mais sábio guardar o segredo.
Acontece que eu sou uma pessoa não muito sensata e incrivelmente impulsiva às vezes (tá, mais que às vezes) e estava no momento usando toda minha racionalidade para não sair sapateando verdades na face do meu pai que possivelmente me embalaria e me jogaria em algum poço, e não necessariamente o que me levaria de volta para casa. Respirei fundo e tomei a decisão de tentar falar apenas o necessário, sem ter certeza de que conseguiria tal proeza.
Vamos lá Kagome, você é esposa do Sesshoumaru, teve tempo de aprender a manter cara de paisagem falando coisas importantes como se fossem nada.
— Hideo vai se tornar médico. — informei, sem me importar com a desconfiança dele — E economista. E advogado. Administrador. Ele é, com toda certeza, a pessoa mais multifuncional que conheço.
— Hideo? — ele questionou de forma desdenhosa — Hideo-não-quero-fazer-nada-além-de-arranjar-problemas?
Deixei escapar uma sonora risada.
— Hideo se tornará Senhor do Norte. — revelei — Você se tornará Senhor do Norte e ele também, depois de você. E será um ótimo Senhor. É gentil, inteligente, habilidoso, sádico e manipulador. O poder dele vai superar os dos Senhores do Sul e do Leste e vai chegar perto do poder de Sesshoumaru. Se você soubesse o youkai que ele vai se tornar… — Deixei que um sorriso orgulhoso se abrisse em meu rosto — Eu o amo, sabe? Eu me sinto, todos os dias, agradecida de tê-lo em minha vida. Ele me tornou a pessoa que sou hoje.
— Dá para ver que você realmente o ama. — meu pai comentou melancolicamente — Eu suspeitava, vendo a presença assustadora dele em seu amuleto. Na verdade, fico ansioso para ver esse Hideo que faz seus olhos brilharem dessa forma. Quero ver o meu filho se tornar esse youkai incrível.
— Você verá. — afirmei — E sentirá orgulho também.
— E meus outros filhos? — perguntou incapaz de resistir à curiosidade.
— Hum… Um deles é o Daiki. — Fiz uma pausa respirando fundo. — Ele é o tipo de criatura que consegue lhe levar do extremo do amor eterno ao ódio mortal em questão de segundos. Suas atitudes são bem estranhas e sem nenhum tipo de pudor, ele não obedece o senso comum. Alguém capaz de ter atitudes realmente impensadas apenas por ser forte o suficiente para lidar com elas. — Soltei um suspiro. — Contudo, ele morreria por qualquer um que ama, se sacrificaria sem pensar. Ele tem uma estranha habilidade de mesmo sendo insuportável, fazer com que você necessite tê-lo por perto. De preferência bem a vista, para ter certeza de que ele não está aprontando alguma coisa.
Ele sorriu de forma cúmplice, parecendo perversamente orgulhoso de saber que teria um filho assim. Deixo escapar uma risadinha condescendente.
— E o terceiro? — ele perguntou.
Dessa vez fiquei sem palavras. O que eu poderia responder? Engoli em seco.
— Tem o nome de Kagome. — falei, tentando não dizer qual o gênero do terceiro filho dele — Também estudou medicina. Tem menos poder, menos inteligência, e só não digo que tem menos sabedoria porque é difícil vencer Hideo ou Daiki nesse aspecto. Uma pessoa com a incrível habilidade de tomar decisões estúpidas. Eu gosto de pensar em Kagome como uma pessoa incrível que merece o nome Tsubasa, apesar de tudo. Isso sem falar que é, de longe, muito mais normal que os seus outros dois filhos… Contei que é uma pessoa realmente linda?
— Fala de Kagome de forma mais dura que dos outros, não tem tanta intimidade?
— Na verdade, acho que amo Kagome menos do que amo Hideo ou Daiki. — expliquei vagamente. Ele pareceu considerar, até questionar:
— E onde Sesshoumaru entra nessa história? Como você se tornou amante dele?
Ruborizei imediatamente. Era terrível que ele usasse a palavra "amante". Não que seja uma mentira ou que eu tenha vergonha disso… É só que parecia muito errado que meu próprio pai falasse da minha vida sexual com tanta naturalidade.
Suspirei nervosamente.
— Eu não sou apenas "amante" dele… Eu sou mulher dele. — ele me encarou, sem compreender — Nós somos casados.
Pausa dramática e então meu pai explodiu em uma gargalhada. Eu realmente não sabia se ficava ofendida por mim, por Sesshoumaru ou simplesmente me resignava com o fato de que ele tinha realmente muitos motivos para reagir assim, devido os fatos postos. Esperei que ele terminasse.
— Isso sim foi muito engraçado. — comentou, enxugando uma lágrima imaginária — Nunca passaria pela minha cabeça que você seria mais uma dessas mocinhas que se iludem.
— Pode ficar rindo… — resmunguei magoada — mas eu tenho uma certidão de casamento que diz o contrário.
Ele ergueu as sobrancelhas, em surpresa divertida.
— O quê? Está falando sério?
— Claro que estou. — afirmei — Ele tentou fazer parecer que estava casando comigo para manipular o Hideo, mas nós somos um casal como qualquer outro...
— Está querendo dizer que ele não casou com você apenas para manipular alguém? — perguntou descrente.
Abri a boca para negar prontamente, mas não o fiz. Tive que responder de forma azeda:
— Talvez um pouco. — Ele riu de novo, o que me fez fechar a cara ainda mais. Dessa vez, no entanto, eu não consegui me irritar realmente com a reação do meu pai. Afinal, ele estava certo: por que Sesshoumaru gostaria de mim, não é mesmo?
— Desculpe-me. — ele pediu, tentando recuperar o fôlego — Prometo não rir mais.
— Também não vou contar mais nada.
— Sinto muito, de verdade. — ele tentou me convencer — Então você o ama?
Esperei alguns segundos antes de acenar afirmativamente com a cabeça. Meu pai me encarou, com expressão curiosa.
— E vocês são felizes juntos?
Sorri, acenando afirmativamente mais uma vez.
— Só para desencargo de consciência: você não é uma dessas pessoas que gostam de sofrer, certo?
— Não. — respondi rapidamente — Sesshoumaru é frio, egoísta, desumano, vaidoso e manipulador… Mas ele sempre esteve lá por mim. Sempre. E se por um lado ele tem tantos desvios de caráter, por outro ele os usa para me proteger o que temos juntos. Se ele for condenado pelo que é, então terei que ser condenada com ele.
Isso pareceu extinguir qualquer sombra de riso. Meu pai acenou devagar, absorvendo o que eu tinha lhe dito.
— Você é muita corajosa, menina. — disse suavemente, acariciando meu cabelo.
Baixei os olhos, sem jeito. Ele voltou a recostar-se contra a parede, ficando em silêncio. Eu podia sentir a luta interna que ele travava, tornando-me novamente consciente de como era frágil a confiança que ele tinha no que eu dizia.
— Por que você viajou para esse tempo? — veio, finalmente, a pergunta. Respirei fundo instintivamente. Isso de ficar editando minhas respostas estava sabotando completamente a minha calma, então, ao menos dessa vez, resolvi contar a verdade sem omissões:
— Eu vim para terminar essa guerra. — olhei para ele, estudando a reação que ele teria diante do que eu lhe contava — Vim para impedir que você e Sesshoumaru se enfrentem.
— E por quê? — questionou ceticamente.
— Não faça perguntas que terão respostas para as quais você ainda não está preparado. — sorri, percebendo que Sesshoumaru já havia me dito algo semelhante, uma vez — Estou soando como o meu marido agora.
— Isso explica porque fiquei tão assustado! — revelou, respirando ruidosamente — Está bem, não vou perguntar mais. Existe alguma coisa que você queira me contar?
— Muitas. — respondi.
— Mas acha que eu ainda não estou preparado para saber?
— Isso.
— Está certo. — ele coçou a barba e se levantou — Então também não vou lhe contar como foi que eu descobri que você é médica.
Arregalei os olhos, observando enquanto ele se afastava. Levantei-me rapidamente e o segui, deixando escapar um surpreso:
— Espera um pouco! O quê?!
— Direitos iguais, minha querida. — e deu uma piscadela muito malandra. Suspirei enquanto o seguia. Eu realmente queria entender esse poder supremo de dedução que meu pai tem.
Acompanhei meu pai até o quarto do doente, observando em silêncio enquanto ele perguntava para um dos saqueadores como o homem estava. A resposta desanimada deixou muito claro que o quadro só piorava, e então meu pai lançou um olhar para mim; aquele tipo de olhar eloquente, de quem está obviamente manipulando você e que espera que você aceite isso de bom grado.
Então aceitei.
Aproximei-me do homem prostrado no futton, sentando-me sobre meus calcanhares ao lado dele. Observei a respiração pesada, os lábios ressecados. Sem dizer uma palavra sequer, inclinei-me e coloquei os dedos em seu pescoço para sentir sua pulsação. Mentalmente, já fazia cálculos para determinar aproximadamente sua pressão sanguínea. Observei seus olhos. Não havia muita coisa que eu pudesse identificar naquelas condições. Havia febre, mas não era alta. Meu pai sentou ao meu lado, lavando as mãos com a água que alguém trouxe e abrindo o quimono do homem para que eu observasse o ferimento em seu peito, coberto por um curativo improvisado, mas limpo. Assim que o curativo foi removido, o sangue brotou do ferimento, como se tivesse acabado de ser aberto.
Não me atrevi a tocar, mas, aparentemente, não era um ferimento profundo o suficiente para debilitá-lo daquela forma e também não parecia estar infeccionado. Que tipo de patologia faria um ferimento não coagular? Havia respostas bastante óbvias, a maioria das quais eu era incapaz de tratar com o que eu tinha à disposição nessa era. Uma em especial era tão rara na época que eu vinha, que parecia quase idiota considerar. Entreabri os lábios do homem, e arregalei levemente os olhos ao perceber quão inflamadas suas gengivas estavam.
Bingo. You are a pirate!, como diria Daiki, cantando aquele bordão irritante.
Voltei-me para o meu pai, observando a naturalidade com que ele limpava o ferimento e sentindo em meu peito um calor diferente do que eu normalmente sentia por Sesshoumaru. Uma espécie de amor satisfeito, brando demais para ser devidamente reconhecido. Foi nesse momento que percebi quão feliz eu estava por descobrir que meu pai era alguém de quem eu podia me orgulhar. Alguém que me inspirava a ser uma pessoa melhor.
— É melhor fecharmos o ferimento com pontos. — comentei gentilmente, fazendo-o me olhar.
— Não é um ferimento profundo, mas acredito que realmente seja o melhor a fazer. — foi a resposta em tom profissional — Vou pedir os materiais.
Acenei afirmativamente, ficando para auxiliá-lo. Pedi água fervente para esterilizar as agulhas de costura, o que fiz enquanto meu pai e eu conversávamos sobre métodos de higienização. Ele pareceu surpreso quando informei que bebidas alcoólicas normalmente poderiam ser usadas para esse fim.
Acredito que logo me faria mais perguntas sobre a medicina que tínhamos no futuro. É estranho pensar que estamos construindo laços por conta de algo que temos muito em comum, a curiosidade. Bom, ficar pensando em laços enquanto eu o ajudava a costurar o ferimento, era, no mínimo, muito mórbido… Só que não deixava de ser uma verdade.
Terminamos e observei nossas mãos sujas de sangue. Ele apontou para a porta do quarto com um gesto, indicando que deveríamos sair para lavá-las. Andamos lado a lado pelo corredor, em silêncio, e o "poeta" abriu a porta da frente para que saíssemos. Paramos ao lado de um contêiner de madeira cheio de água ao lado do poço e começamos a lavar as mãos. Aquele momento foi de uma estranheza sem igual — não o tipo de estranheza desconfortável, mas daquele tipo que faz você parar e notar como o mundo pode ser irônico; imagine só que eu estava ao lado do meu pai não como amiga ou como filha, mas como médica. Igual.
Só percebi que o estava encarando quando ele segurou minhas mãos e começou a esfregá-las, como se eu fosse uma menina de três anos que não soubesse fazer aquilo da forma correta. Tentei não sorrir. Tentei. Quando percebi, ele estava correspondendo ao meu sorriso, baixando os olhos para as minhas mãos e esfregando-as com um pouco mais de força.
— E é assim que se lavam as mãos, criança.
— O senhor é muito engraçado, sério, merecia um prêmio.
— Como um presente?
— Como um certificado de comediante.
— Certificado de comediante?
Tenho que me lembrar que alguns termos podem ser estranhos ao meu pai, então pensei em uma forma de explicar enquanto encarava aqueles olhos azuis cheios de curiosidade.
— Título de alguém realmente muito engraçado. — disse esperando que ele entendesse a referência agora.
— Ah, entendo. — ele riu. — No futuro se pode viver disso?
Sorri com a pergunta.
— Sim, existem shows totalmente voltados para comédia e pessoas que colocam a comida na mesa com esse trabalho.
— Hum, acho que vou começar a prestar mais atenção nas artes humanas, quem sabe não me saio bem e vivo dessa ocupação? — ele estalou os dedos. — De fato, vou treinar mais minhas piadas infames.
— Seu filho Daiki com certeza sabe todas elas decoradas. Recita algumas toda vez que está bêbado e Hideo ameaça tirar o salário de quem ousar não rir delas. Parece que existe um artigo de um Código Tengu que fala sobre ter de pagar um taxa por reproduzir as suas piadas.
— Ganhar dinheiro rindo. Como poderia ser melhor?
— Receber por dormir e comer?
— Menina esperta... Eu até lhe daria um doce, mas não tenho um aqui. — ri. Era estranho me divertir tanto com ele e pensar que, no futuro, ele já não existia. Pensar isso fez toda a felicidade escapar do meu alcance. Ele notou a minha mudança de humor, por isso tirou uma das sandálias e a usou para acertar um tapa em minha bunda, arregalei os olhos e abri a boca para protestar, mas meu pai já havia se afastado um pouco.
— Que dia lindo. — papai disse se espreguiçando. Ergui uma sobrancelha.
— Está de noite.
— Ah, desculpa senhora corretora das expressões. — ele fez um gesto displicente com a mão. — Oh... Pelos deuses, que noite mais linda. — Voltou-se para mim com um sorriso ingênuo. — Melhor?
— O senhor é tão infantil.
— Se ficar reclamando, puxo o seu cabelo. — Dei risada dessa vez e, então, aconteceu mais rápido do que minha capacidade cognitiva foi capaz de acompanhar: os olhos de meu pai se tornaram inteiramente negros, inclusive as escleras; irradiações douradas se desenharam em seu rosto, concentrando-se em volta dos lábios e abaixo da linha das bochechas. Percebi, meio fascinada, que essa era a forma youkai mediata do meu pai. Eu jamais tinha visto qualquer tengu usar essa forma, e eu não podia deixar de pensar em como meus irmãos ficariam incríveis assim. Só que meu pai tinha mudado para essa forma por um motivo e eu só fui perceber um segundo depois o que era. A presença de um youkai se aproximava.
Meu pai olhou para mim, com o sorriso ainda nos lábios.
— Acho melhor você entrar, menina.
E eu obedeci.
Imagino que meu pai pensou que eu tivesse corrido para me proteger — se eu tivesse algum resquício de bom senso, realmente teria fugido para as colinas; só que, sendo eu, era óbvio que eu iria escolher a possibilidade mais arriscada —, então também imagino que ele deve ter ficado muito surpreso quando alguns minutos depois eu apareci em uma entrada triunfal digna de power ranger (infelizmente sem as explosões ao fundo para que eu pudesse fazer uma bela pose), retesando no arco a flecha que um segundo depois acertaria o tai-youkai parado em posição de ataque e que, uma vez que tinha absorvido meu poder, o selaria.
Sim, é isso mesmo que você leu. Eu selei o youkai babaca que havia aparecido do nada. Eu sei que isso foi súbito e chocante — acredite, seria mais chocante se a grama explodisse atrás de mim, mas eu estava despreparada no momento —, mas eu tinha meus motivos: o tai-youkai que eu tinha acabado de selar era nada mais nada menos que a versão de quinze anos do ogro intragável de belo traseiro que atormentava a minha vida, Ryuuji. E sorte dele que eu havia reconhecido sua presença ou agora meu pai estaria brincando de caçar filhote de cão.
Meu pai virou o corpo para mim, parecendo estar se divertindo com o fato de eu ter selado Ryuuji. Pensei que durante o tempo em que estive dentro da casa procurando o arco eles já teriam destruído o que houvesse para destruir, mas tudo estava em seu devido lugar: os cavalos amarrados olhavam para o tai-youkai caído com naturalidade, mas essa parecia ser toda a perturbação que havia ocorrido.
Aproximei-me do meu pai, segurando o arco na frente do corpo. Ele ainda sorria para mim, quando parei ao seu lado.
— Você não precisava me proteger. — disse, enquanto olhava para o meu arco — O único que poderia, assim, começar a me preocupar seria Sesshoumaru, mas nada que umas sandalhadas no traseiro dele não resolvessem.
— Eu não estava protegendo você. — afirmei, aproximando-me de um Ryuuji inconsciente e pensando que a versão mais nova dele parecia quase fofa — Se o seu poder é de fato equivalente ao de Hideo, então é ele que eu estou protegendo.
— O tai-youkai?
— Médicos valorizam a vida. — recitei — Mesmo a vida de brutamontes ignorantes que só servem para lhe ofender. Ah, que eu daria um braço para poder esfregar na cara desse maldito que já salvei o traseiro dele.
— Conhece o irmão do executor. — Não foi uma pergunta, mas, mesmo assim, acenei afirmativamente. Ele esperou alguns segundos, antes de pedir com mais um sorriso — Me dê um motivo para não matá-lo.
— Ele está selado.
— Não é um motivo convincente.
Encarei meu pai, percebendo que, apesar do sorriso, ele falava muito sério.
— O senhor executaria sumariamente alguém mais fraco? — apontei para Ryuuji, para exemplificar. Por mais que ele se tornasse estupidamente grande em alguns anos, agora ele tinha uma aparência consideravelmente frágil — Ele é só uma criança.
— Ele veio atrás de nós, menina. Eu não estava procurando por batalha, mas o tai-youkai estava. Portanto, desfaça o selo para que eu possa lhe dar uma morte rápida.
— Então para que me deu o arco? — questionei nervosamente — Se era para matar todos, então realmente não havia necessidade...
— Estava sendo gentil.
— Por favor.
— Sesshoumaru não pouparia um tengu em situação semelhante.
— E o senhor é ele?
Meu pai estreitou os olhos; senti gotas geladas de suor que escorriam pela minha testa. Não acredito que estou passando por essa situação para manter Ryuuji vivo. Se fosse o contrário, ele pagaria dez mangos para que eu fosse executada, tenho certeza. Prendi o ar quando meu pai estralou o pescoço, voltando a respirar somente quando ele voltou-se para mim em sua aparência completamente humana.
— Exato. — ele disse em tom paternal — Não sou Sesshoumaru. — Sorriu. — Encontrou um bom argumento, então tenho que lhe dar parabéns. — Encarei-o, sem realmente acreditar. Incrédula, só pude observar quando ele pegou um galho no chão e aproximou-se de nós, cutucando Ryuuji com a ponta — Esse fedelho sequer consegue esconder a própria presença e veio atrás de mim? Minha reputação está tão ruim?
— O senhor estava me testando? — perguntei, surpresa com a rapidez com a qual ele havia mudado de comportamento e incapaz de prestar atenção às brincadeiras dele. Papai apenas se acocorou ao meu lado, sujou os dedos com terra, sorriu para mim e começou a desenhar um bigode no rosto de Ryuuji. Não iria me responder, mas eu apostaria um braço que sim, ele estava me testando.
— Então, já que não vamos matá-lo, como vamos fazer para impedir que ele vá dizer ao dono dele onde estou? — questionou, ainda entretido nos desenhos escuros que fazia no rosto do Muralha (que, no momento, não merecia esse apelido). — Podemos ficar com ele? Levo para passear, prometo.
— Muito engraçado. — resmunguei, revirando os olhos — Ele é muito jovem. Não acredito que Sesshoumaru o tenha mandado atrás de você. — Então encarei meu pai — Mas você não acha que Sesshoumaru mandou, não é?
— Ele deve ter sentido meu cheiro na estrada. — disse — É só um filhote curioso. Corvos adoram filhotes curiosos que se perdem na floresta.
Preferi não comentar como aquela última frase tinha soado doentia.
— Bom, não seria a primeira pessoa do clã de Sesshoumaru que sabe do seu paradeiro que você deixaria ir embora, não é? Ou você se esqueceu daquela hanyou da casa de gueixas?
— Ah… Aquela hanyou é diferente.
Estreitei os olhos, observando-o mais uma vez. Era realmente muito difícil tentar entender o meu pai. Não havia padrão que eu encontrasse, então era simplesmente mais fácil desistir e simplesmente conviver com o fato. Para dizer a verdade, nesses momentos quase podia ouvir a voz do Hideo ecoando pela minha mente: "Nosso pai nunca foi para ser entendido, ele foi feito para ser amado". Finalmente entendo essa frase.
— Vamos deixá-lo selado. — falei — Quando formos embora, eu desfaço o selo.
— Você não acha que os humanos vão estranhar de ter um adolescente adormecido por dias no meio do quintal?
— Tem alguma ideia melhor?!
— Podemos nos desfazer do corpo.
— Sim, vamos jogá-lo no rio e rezar para que alguma sacerdotisa o encontre e retire o selo.
— Está falando minha língua, menina. — ele segurou o braço de Ryuuji, arregalei os olhos e agarrei o braço de meu pai. — O que houve?
— Era sarcasmo.
— Sarcasmo? — ele suspirou decepcionado. — Então?
Soltei seu braço e suspirei. Droga, monte de músculos idiota, precisava mesmo aparecer aqui? Com mais um suspiro dei dois tapinhas no ombro de meu pai e me levantei.
— Vamos levá-lo para um quarto, se perguntarem diremos que ele está com os mesmo sintomas que o líder, assim podemos comparar e quem sabe chegar a um diagnóstico.
— Mentir para os humanos. — ele balançou a cabeça. — Tudo bem, sorte sua que sou cavalheiro o bastante para não lhe fazer carregar seu filhote sozinha.
— Obrigada. — agradeci enquanto ele se levantava colocando Ryuuji sobre o ombro.
— Por que eu sempre apareço quando você precisa de ajuda para esconder um corpo? — soou uma voz masculina atrás de nós. Virei-me, surpresa, para me deparar com um homem alto de olhos verdes e cabelos negros que deveriam ser compridos até o ombro, mas que estavam amarrados por uma fita.
— Hayate! — gritou meu pai, levantando os braços e jogando Ryuuji no chão sem cerimônia (por sorte consegui segurá-lo antes do choque).
— Takashi! — gritou o homem.
Ambos se abraçaram.
De repente percebi que pareciam Daiki e Richard e implorei com todas as minhas forças para que meu pai e o desconhecido não começassem a se apalpar na minha frente, que eu não teria estômago para isso. Essa cena com o papai não, por favor... Não com o papai.
— Quem é a sacerdotisa? — perguntou o desconhecido, olhando para mim com curiosidade.
— Ela é uma hanyou tengu! — revelou meu pai com expressão animada — E veio do futuro! De uma época em que eu vou estar morto e Hideo vai ser o Senhor do Norte! E vou ter mais dois filhos!
— Pare de beber aquele negócio humano.
— Saquê?
— Sim, pare. Só pare.
— Não, dessa vez é de verdade. — Como assim dessa vez? — Parece que em breve eu vou me tornar o Senhor do Norte, e depois, quando eu morrer, Hideo vai assumir essa função.
— Mas nós nem moramos no norte! — argumentou Hayate.
— Eu sei! — meu pai exclamou erguendo as mãos — E dá para acreditar? Hideo se tornando Senhor do Norte?
— O seu Hideo? — perguntou descrente — Não qualquer outro, mas o seu?
— Sim. Você não vai acreditar no quão estupidamente poderoso ele vai ficar em menos de duzentos anos. Você nunca mais vai poder se gabar de ter um filho prodígio, porque eu também tenho um, então é bom ir se acostumando com a humilhação eterna.
Hayate lançou um olhar avaliativo para mim. Eu não tinha coisa alguma a dizer, então me limitei a ajustar Ryuuji contra as minhas costas, para que se tornasse mais fácil segurá-lo. O tal Hayate colocou a mão no queixo e meu pai o imitou, ficando os dois me analisando, como se fossem a imitação asiática de Sherlock Holmes e Watson.
— O que foi? — perguntei.
— Ela não parece me conhecer. — sentenciou Hayate olhando para o meu pai.
— Você o conhece? — meu pai perguntou, o que eu neguei com um gesto de cabeça. Eles se entreolharam mais uma vez. — Acho que você vai estar morto quando ela nascer, então. A boa notícia é que eu também!
— Morreremos juntos como dois amantes?
— Está bom para mim.
— Na verdade... — tentei dizer, mas Hayate ergueu a mão, indicando que eu deveria me calar.
— Nós dois morreremos como amantes, nada que você diga agora vai mudar esse fato, estamos entendidos, pequena?
— Sim... — Maluco não se contraria, então apenas dei a resposta que aparentemente eles queriam.
— Espera, se eu vou morrer, você vai morrer, Hideo se torna Senhor de alguma coisa… Quem vai ser o Executor do clã? — Hayate indagou para mim. Percebi que meu pai também ficou curioso com a resposta, então suspirei.
— Daiki, segundo filho do Senhor do Norte Takashi, executor do seu clã. — recitei da mesma forma que meu irmão fazia quando se apresentava formalmente.
— Filho dele? — Hayate perguntou apontando para meu pai com o polegar — Tem certeza?
— Sim.
Eles se entreolharam pela terceira vez e meu pai deu de ombros, enquanto Hayate comentava com incredulidade:
— Eu não consigo imaginar Ryoko parindo mais um filho seu.
— Você sabe como eu sou: incapaz de negar se ela quer um pouco de Takashi. — Meu pai sorriu de forma sacana — Sou um homem fácil.
— Desculpa atrapalhar a conversa… — falei, movendo Ryuuji nas minhas costas, procurando uma posição confortável — mas o moço aqui é meio pesado.
— Ah, sim, vamos levá-lo para dentro! — meu pai se pronunciou, aproximando-se de mim e me ajudando com o corpo inconsciente de Ryuuji — Hayate, me ajuda aqui; menina, abra a porta da frente.
— Você pode levá-lo sozinho. — o tengu demandou — O Senhor do Oeste está realmente muito irritado para mandar um filhote fazer o trabalho sujo do clã.
— Você já foi mais esperto, mas vamos, não desanime, coloque a cabeça para funcionar.
— Está dizendo que estou pensando erroneamente?
— Não. Estou afirmando. — Meu pai suspirou, enquanto Hayate estreitava os olhos. — Obvio que o cãozinho não veio atrás de mim… — abri a porta da frente, e, para a minha surpresa, demos de cara com cinco dos bandidos nos esperando, segurando espadas — Mas sim atrás deles.
Não houve muita conversa depois que deixamos Ryuuji em um dos quartos; como se houvesse uma espécie de acordo silencioso entre nós três sobre esperar que ouvidos humanos estivessem longe parar falarmos sobre qualquer assunto. Por isso, só fui descobrir que Hayate também era médico quando meu pai pediu sua opinião sobre o quadro clínico do humano... Então, nesse momento, finalmente recordei de algo muito importante, que eu tinha empurrado para o fundo da minha mente por causa da visita inesperada de Ryuuji e do tengu desconhecido — agora não tão mais desconhecido; você acaba descobrindo muito sobre a personalidade de uma pessoa quando a solução dela para uma doença grave é "empacota o sujeito e queima".
Levantei-me de onde estava, atraindo o olhar dos dois. Era madrugada agora e provavelmente eu estava fazendo algo idiota — e quando não estou? —, mas precisava fazer uma coisa que não podia esperar mais. Como se soubesse exatamente o que eu pretendia, meu pai se levantou e me acompanhou até o lado de fora.
— Então, o que as duas moças estão fazendo? — Hayate perguntou, parando perto de nós e observando ironicamente nossa tarefa de colher repolhos sob a luz da lua.
— Não sei. — meu pai afirmou — Só estou dando apoio moral para a menina. Quer ajudar?
— A colher repolhos sem motivo aparente no meio da madrugada? Não, desculpa, não gosto de bater palmas para louco dançar. — Apesar do que tinha dito, ele passou a limpar a terra dos repolhos já colhidos. — Você está grávida? Desejo noturno repentino por repolhos?
— Não.
— Sabia que Sesshoumaru não dava conta… — meu pai resmungou, e eu tive que parar minha tarefa para lançar um olhar torto para ele — O quê?
— Hanyous tengus e tai-youkais não podem gerar filhos. — expliquei à meia-voz — Não é algo que eu ou ele possamos controlar.
Dessa vez ele não tinha piadas prontas para retrucar e olhou para mim com empatia generosa. Parecia ver claramente a frustração que o assunto fazia nascer em mim. Apenas neguei com a cabeça, recusando sua pena. Eu me negava a fazer drama por causa de algo decidido pela natureza.
— Então, o que é isso, fetiche? — Hayate questionou coçando o queixo.
— Não, cura. — sentenciei, lançando mais um olhar para o meu pai — Isso vai curar o seu doente, Senhor dos Tengus. O que ele tem é uma doença chamada escorbuto. É muito raro na época em que eu venho, mas matou centenas de pessoas antes que a causa fosse descoberta. Os marinheiros costumavam morrer por deficiência de vitamina C, sendo que algo tão simples poderia salvá-los.
— Um repolho? — meu pai questionou ceticamente, encarando a hortaliça.
— Nunca subestime a importância de uma boa alimentação. — concluiu Hayate. — Saquê no café da manhã, nunca mais... Espera sou tengu... Continuo com o saquê. — Ele encarou meu pai por um tempo — Ainda não sei porque você está perdendo tempo com isso... Qual a graça de ajudar um bando de shinshi ryus¹ a se matarem?
De repente, Hayate conseguiu prender minha atenção. O que ele havia dito?
— Eles já estão mortos… Só estou tentando lhes dar a chance de alcançar a honra que desejam.
— Conseguiram meu afeto, vou ajudar com os repolhos.
— Espera… — pedi, erguendo a mão e fazendo-os me olhar — O que você quer dizer com isso?
— Você não tinha percebido? — questionou meu pai, vendo minha expressão confusa — Você achava mesmo que um bando de saqueadores iria montar acampamento em uma fazenda abandonada e esperar que fossem pegos? Ou que um poeta de renome como Yosa Buson iria acompanhar alguns bandidos por diversão?
— Eu… Eu realmente não estou entendendo…
— Eles são desertores, inimigos do xogum. — meu pai explicou indulgentemente — Fugiram para cá com a finalidade de terminar suas missões com honra, a qual não pode ser alcançada se algum deles necessitar de ajuda. É por isso que vamos curá-lo.
Eu ainda não compreendia e isso estava claro em minha expressão.
— Todos eles vão praticar seppuku². — Hayate explicou sem delongas, expondo a verdade crua: a de que eu estava salvando um homem para que ele pudesse se matar.
¹Shinshi Ryu - termo usado para designar aqueles que se opuseram ao xogunato Tokugawa, sendo, normalmente, os clãs monarquistas.
²Seppuku - refere-se ao ritual suicida japonês reservado à classe guerreira onde ocorre o suicídio por esventramento. Surgiu no Japão em meados do século XII generalizando-se até 1868, quando a prática foi oficialmente proibida.
O método apropriado de execução consistia num corte (kiru) horizontal na zona do abdómen, abaixo do umbigo (hara), efectuado com um tantō, wakizashi ou um simples punhal, partindo do lado esquerdo e cortando-o até ao lado direito, deixando assim as vísceras expostas como forma de mostrar pureza de carácter. Finalmente, se as forças assim o permitissem, era realizado outro corte puxando a lâmina para cima, prolongando o primeiro corte ou iniciando um novo ao meio desse. Terminado o corte, o kaishakunin realizava a sua principal função no ritual, a decapitação.
Tratando-se de um processo extremamente lento e doloroso de suicídio, o seppuku foi utilizado como método de demonstrar a coragem, o auto-controle e a forte determinação característicos de um samurai. Como parte do código de honra do bushido, o seppuku era uma prática comum entre os samurais que consideravam a sua vida como uma entrega à honra de morrer gloriosamente, rejeitando cair nas mãos dos seus inimigos, ou como forma de pena de morte frente à desonra por um crime, delito ou por outro motivo que os ignominiassem.
Fkake
E ai galera, espero que nos perdoei por essa demora, mas como podem ver, recompensados pelo tamanho estupido dese capítulo.
Peço que entendam que atualmente estamos sem capítulos prontos, por isso, estamos produzindo e postando, sendo que a rotina estupida as vezes, sempre, atrapalha pracaraio.
Digam o que gostaram e deixaram de gostar do capítulo, muito importante saber que vocês estão achando desse ultimo arco e também comentem o que vocês faram depois de SN, eu sinceramente penso em ser gerente do Bob's, pq assim, é foda... pior que isso só se eu for a funcionaria do mês.
Bom é isso, beijos e até a proxima, feliz natal, caso não haja capítulos antes dele... o que acredito que não havera... fui
Ladie
Ok, chegamos! Perdoem-nos por passar duas semanas sem postar, mas é que... nossa... capítulo grande cara.
ESTAMOS APENAS AMANDO O TAKASHI! E O HAYATE AGORA! PORQUE ELES SÃO O NOSSO CASAL SLASH DA VIDA AGORA! QUE AMOR!
Enfim... Preparem os corações, que nosso amado Sesshoumaru molhador de calcinhas está chegando muito em breve. Hora de movimentar essa bagaça como se deve.
Beijos da Ladie
