Capítulo LXXII — Exorcismo de Saquê

Poucas vezes eu senti culpa na vida. Culpa de verdade, daquela que corroe, que consome, que tira o sono. Como médica, nunca tinha passado por isso; era a primeira vez. Eu não compreendia o conceito de honra que meu pai, Hayate ou aqueles samurais compreendiam. Era um conceito abstrato que importava muito pouco para mim, para a época em que eu vivia. Por isso, eu não me sentia confortável com o que eu tinha feito.

Todos eles estavam mortos, agora. Inclusive o homem que eu salvara.

Para cometer seppuku, um samurai não poderia receber ajuda. Recebê-la ou falhar no processo o condenaria à desonra. E um homem doente tem pouca ou nenhuma chance de conseguir tal proeza sem desmaiar. Por isso todos aqueles homens haviam se arriscado: roubaram caravanas por remédios, esperaram por um milagre que salvasse o seu senhor da morte natural para que ele pudesse alcançá-la com as próprias mãos. Fora essa possibilidade que eu lhe dera.

Como médica, não era meu dever decidir aqueles que deviam ou não serem salvos. Só não podia ignorar o que tinha acontecido, ignorar que eu havia tido participação no que acontecera.

"É para eternizar a honra desses homens que eu estive aqui", havia dito o poeta, quando o deixamos para trás e seguimos para longe dos cadáveres dos shinshi ryus. Honra.

Cada passo que eu dava fazia aquela palavra reverberar na minha mente. Olhei para o meu pai, que ergueu uma sobrancelha e reclamou:

— Esse tai-youkai é mais pesado do que aparenta. — Ajeitou Ryuuji em suas costas. — Nós não podemos simplesmente ignorar He Gian e seguirmos reto até o Monte Kurama?

— Você que inventou tudo isso. — Hayate resmungou, enquanto segurava as rédeas dos três cavalos que guiava — Você e sua sacerdotisa já tinham salvado o homem, não precisava aceitar o pedido de entregar os cavalos para o mercador como pagamento das cargas roubadas.

— Os olhos deles brilharam enquanto pediam o favor... Como resistir a tal brilho?

— Dizendo não.

— Você é tão sem coração. — Meu pai se aproximou de mim. — Ficarei aqui, ao lado de quem tem um.

— Relações rompidas?

— Até o primeiro gole de álcool.

Os dois riram. Sinceramente, não estou com humor para dar atenção a esses dois velhos que apenas falam asneiras. Olhei para o meu pai, com expressão desgostosa. Ele percebeu e tive a impressão que teria, como sempre, acariciado o alto da minha cabeça se já não estivesse muito ocupado tentando manter Muralha sobre as costas.

— Não fique assim, menina, você fez um favor para aqueles homens. — disse suavemente.

— Poderia ter feito o favor de me dizer as reais intenções deles desde o inicio.

Ele me encarou, possivelmente havia uma resposta pronta ali, mas não foi dita. Fiquei ainda mais irritada, ainda por cima esse velho tem a pachorra de achar que não vou dar ouvidos aos seus argumentos.

Pensando bem, talvez ele esteja certo.

Não quero ouvir seus argumentos.

— Está certo. — disse apenas suspirando — No fundo eu sabia que você não iria cooperar se soubesse a verdade.

— E se eu não pudesse diagnosticar o problema?

— Era minha única aposta àquela altura. Eu sentia que você era uma excelente médica.

Encarei-o com irritação mais uma vez, indignada que ele resolvesse massagear meu ego para tentar me acalmar.

— Da época em que eu venho, eu diria que sou apenas inexperiente, principalmente se comparada a médicos como Nagi. — revelei irritada.

Isso pareceu prender completamente a atenção dos dois, principalmente de Hayate.

— O que você disse? — ele perguntou. Olhei para o meu pai, confusa com aquela reação. — O que você disse que Nagi se tornará?

— Médico? — repeti amuada. Ele arregalou os olhos, como se a notícia o pegasse de surpresa. Eu estava tão acostumada com a imagem mental de Nagi usando um jaleco que achava estranho que alguém não soubesse de algo tão importante. Então lembrei em que tempo estávamos e suspirei. — Um odiosamente bom, para ser honesta. Ele é muito respeitado na comunidade acadêmica.

— Você está me dizendo… — ele disse pausadamente — que Nagi, o meu Nagi, vai se tornar médico?!

— Bom, eu não sei se é o seu Nagi… Alto, olhos verdes, expressão irônica, assassino em potencial? Corresponde?

— Principalmente a parte do assassino em potencial. — afirmou meu pai, recebendo um olhar angustiado de Hayate.

O Executor de meu pai parecia realmente muito abalado com o que eu tinha lhe dito. Ambos se encararam por alguns segundos, em meio a uma conversação silenciosa.

— Por que vocês parecem tão surpresos?

Hayate desviou os olhos desconfortável.

— A única coisa que meu filho sabe é o caminho da destruição. — disse Hayate, para que dessa vez eu me surpreendesse — Eu, como pai, jamais poderia virar as costas para ele, independente do que ele se tornasse… Não é natural para um tengu virar as costas para os seus. Mas saber que ele vai optar por salvar em vez de destruir... Enche meu coração de um sentimento indescritível de gratidão.

Arregalei os olhos gradativamente.

— Você é pai do Nagi?! — exclamei. Meu pai deu risada diante da minha incredulidade, deixando-me sem jeito. — Desculpe, é que Hiroko jamais tocou no seu nome… Parece que há certo tabu em falar sobre pais no clã, então também nunca perguntei…

— Você conhece Hiroko? — Hayate perguntou, abrindo um sorriso de pai orgulhoso inconfundível. Então o sorriso morreu — Espera, quer dizer que a minha menininha vai crescer?

Com isso, acabo de descobrir que Hiroko é muito mais velha do que alega e que ela teria muita coisa para explicar se um dia eu voltasse a vê-la. Encarei Hayate, pensando se deveria destruir de vez todos os seus sonhos ou deveria omitir o que seria da filha dele — que de menininha certamente não tem nada.

— Essas crianças tem o péssimo costume de crescer. — Essa era a frase que Hideo costumava repetir quando eu fazia algo correto no estágio da Empreendimentos Tsubasa. — Como o senhor se sentiria com a possibilidade de ter um neto?

— Eu tenho um neto?! — exclamou, empalidecendo.

Dei risada, mas neguei com um gesto de cabeça.

— Estou apenas brincando. — resolvi dizer. Querendo ou não, eu sabia muito bem como os homens da minha família podiam ser ciumentos e eu não iria colocar a vida do meu irmão em risco antes mesmo de ele sonhar que nasceria. — Hiroko é uma guerreira. Uma das mulheres mais fortes que eu já conheci.

Meu pai fingiu um arrepio.

— Eu sinto até calafrios com a ideia de colocar uma menina linda no mundo para outro homem possuir. Não é algo natural. — comentou, fazendo careta.

Dessa vez eu realmente não sabia como reagir. "Você terá uma", tive vontade de dizer. Fui sufocada com o desejo de que ele me reconhecesse como filha e que sentisse por mim a mesma necessidade de proteger que Hayate sentia por Hiroko. Por sorte, consegui controlar essa vontade e reclamei de como aquele comentário havia soado machista, o que gerou uma bela discussão sobre o que a palavra "machista" significava e como ambos, Hayate e Takashi, já tinham uma profunda admiração por ela.

A discussão só terminou quando paramos na frente da casa de comércio de He Gian, e eu me preparei mentalmente para mais uma conversa constrangedora envolvendo enguias e modos inadequados de interagir com elas.


Eu não sabia o que esperar, por isso, decidi que não teria qualquer expectativa acerca do local de morada da minha família. Dos tengus que restavam no meu tempo, apenas Hideo e Nagi (e talvez Hiroko, embora ela sempre tenha negado) haviam vivido no Monte Kurama. Todos os outros eram jovens demais e não conheciam aquele que, de acordo com Hideo, era o local que havia moldado o clã como um todo.

Eu nunca realmente encontrei sentido nisso. Um lugar por si só não era capaz de moldar o caráter de alguém. Só que eu estava errada e entendi isso no momento em que chegamos ao arco de entrada de templos, na base de uma longa escadaria. Eu morava em um templo, mas jamais havia vivenciado algo como aquilo.

O silêncio.

Creio que nunca "ouvi" um silêncio como aquele; tão cheio de nada e de tudo. Tão pleno de energia. Como se estivéssemos entregues a nós e somente a nós, com a responsabilidade pelos trilhos que seguimos, pelas paragens que façamos, pela introspecção que suscitarmos. Um silêncio que fazia com que eu me sentisse sobre comando do meu próprio destino.

Era paz.

Iniciamos a subida das escadarias, que se estendia por um caminho vinte vezes mais longo daquele que era necessário para chegar ao templo da minha família, mas eu não me importava. A única coisa que eu sabia do Monte Kurama era que havia lendas sobre esse lugar ter sido a gênese da humanidade, orientada pela Divindade Suprema, Sonten. Esse não era o tipo de coisa que eu consideraria acreditar ou desacreditar, apenas não levava realmente a sério. Mas aquela sensação… Aquilo fazia todas as lendas parecerem possíveis.

— Sei como você se sente… — disse meu pai, em tom solene, o que parecia engraçado quando ele carregava um tai-youkai adolescente nas costas — Alguns humanos costumam procurar esse lugar para meditar e não é difícil entender o porquê.

— Por isso nós temos leis. — Hayate informou. Concentrei-me nele, esperando ansiosamente que ele começasse a recitar algo como "A primeira regra do Clube da Luta é: você não fala sobre o Clube da Luta". — Humanos comuns não podem descobrir sobre a nossa natureza; não se interrompe a meditação de alguém; em caso de incêndios, crianças e saquês têm prioridade de resgate.

— Incêndios? — questionei, deixando de lado a parte do saquê, desconfiando seriamente que Hayate era alguma espécie de youkai alcoólatra.

— São muito comuns por aqui. — papai informou — Os monges vivem colocando a culpa em nós.

— E a culpa é de vocês?

Papai e Hayate deram de ombros ao mesmo tempo, o que, para mim, era um claro sinal de que sim, a culpa era deles.

Agora me veio a seguinte cena em minha mente: meu pai e Hayate sentados sem fazer nada, então um olha para o outro e diz "Estou morrendo de tédio, vamos queimar umas casas?" e outro responde com um sorriso "Estou fazendo nada mesmo". O pior é sentir que algo assim seria até que bem possível.

Subimos a escadaria em silêncio. Porque o silêncio cobrava respeito. Seguimos por dentro do Monte Kurama, por caminhos de pedra que exigiam cuidado, por estarem cobertos de raízes das árvores da floresta. O tempo passou e as trilhas pareciam nunca acabar. O lugar era gigante e a grande distância entre as construções parecia ter sido planejada para que as pessoas tivessem tempo para introspecção.

Os templos de arquitetura tradicional com seus muitos telhados sobrepostos e cores vivas eram simplesmente encantadores. Vez ou outra, passávamos por casinhas de pedra empilhadas à beira da trilha ou por alguma casa tradicional, que eu poderia dar como desabitadas se não houvesse fumaça escapando de chaminés.

Andamos mais. E mais. E então não havia mais caminho de pedra. Andamos pelo que parecia ser o conceito gráfico de infinito.

Eu só soube que havíamos chegado quando, ao pararmos na frente de mais uma das muitas casas, uma menininha saiu correndo na nossa direção, jogando-se nos braços de Hayate aos risos. Eu só fui reconhecê-la quando ela me encarou com aqueles olhos verdes incríveis. Era Hiroko.


Muito bem, agora eu estava muito sem graça.

Essa mania que meu pai desenvolveu de dizer que sou a mulher dele realmente estava me incomodando demais. Contudo, ele não havia em momento algo dito isso a algum dos três tengus que apareceram em nosso caminho até a sua casa, que era razoavelmente (para os padrões daquele lugar) perto da casa de Hayate. Confesso que queria ficar e apertar Hiroko até aqueles olhos verdes saltarem, mas meu pai repousou a mão em minha cintura e me conduziu por todo o caminho, quando encontramos os tengus e eles apenas sorriram marotamente. Esse safado por acaso tem hábito de sempre trazer mulheres e por isso todos estão tão acostumados que nem o questionam mais?

Na verdade, o motivo de meu constrangimento em si era estar deitada no mesmo futton que ele. Sim. Isso mesmo. Ele simplesmente havia decidido que estávamos muito cansados, empurrou nos meus braços um quimono feminino e uma bacia, saiu e voltou depois vestindo outro quimono limpo. Até aí tudo bem, mas então o velho (estranho chamá-lo assim) me puxou para deitar junto com ele no futton, dizendo que não havia outro, uma vez que Hideo havia queimado o dele pouco antes de viajar por motivos ignorados.

E agora o maldito estava dormindo calmamente ao meu lado.

Eu juro que tentei me levantar, mas, nas duas vezes em que fiz isso, ele segurou o meu braço e apertou — ou seja, ele está dormindo, mas isso não o impede de saber o que está acontecendo ao seu redor.

Será que ele não entendeu que sou uma mulher casada?! Eu estava congelada, até respirar doía. O que era patético, afinal, não estava acontecendo nada demais, estava apenas deitada no mesmo futton que o meu pai. O youkai que fecundou minha mãe... Fecundou. Ai, imagens tenebrosas saiam de minha mente! Droga, por quais motivos tenho que ficar pensando em um esperma fecundando um ovócito logo agora.

Ah, medicina maldita. Deixe-me ser apenas uma mulher cansada e me permita dormir sem ficar com esse tipo de cena em mente!

Droga. Kagome, analise tudo em estado clínico.

Ele é seu pai.

Você é filha dele.

Pai e filha podem compartilhar o mesmo futton. Afinal, o amor familiar prevalece.

Só que não há esse tipo de amor entre nós, ao menos, esse amor é bem unilateral no presado momento. Suspirei e bati a mão em minha testa; preciso beber, beber até cair.

Olhei de esguelha para o meu pai, sentindo que, se eu bebesse até cair, acordaria com a sandália dele tatuada no meu traseiro.

— Menina. — ele começou com voz rouca. — Durma logo, não é como se estivéssemos fazendo algo de errado.

— Apenas...

— Não me diga que é casada, mas não está acostumada a ter um homem com você durante a noite.

— Não é isso. — suspirei.

— Então apenas durma, criança. — então ele beijou minha testa e voltou à posição de antes, os braços cruzados abaixo da cabeça. Fiquei observando-o, o quarto estava escuro, mas não o suficiente para não vê-lo.

Engoli em seco tentando com isso fazer com que a necessidade de chamá-lo de pai descesse goela abaixo. Essa necessidade estava começando a me sufocar e estou sinceramente assustada, pois sou a rainha das atitudes impensadas e o chamar de pai nesse momento poderia colocar tudo a perder. Eu simplesmente tenho muito medo de contar a verdade para ele e nem sei direito o porquê.

Virei-me, ficando de costas para ele. Tentei manter minha concentração em outras coisas, como recitar para mim mesma os nomes de ossos existentes no corpo humano.

— Está resmungando, criança.

— Desculpe.

— A viagem deveria ter lhe cansado o suficiente para deitar e dormir. — Senti tensão no lençol, denunciando que ele estava se movendo, foi quando a mão dele repousou em minha testa, virei-me o encarando. — Feche os olhos.

Obedeci, senti calor onde a mão dele estava e a última coisa que percebi foi seus dedos deslizarem suavemente pelo meu rosto e por fim se afastarem.


— Café da manhã. — ouvi a voz masculina ao longe. Quando senti um leve aperto em meu ombro, abri os olhos, tendo a visão de meu pai com os cabelos soltos e barba um pouco mais cheia. — Eu sei, sempre é bom me ver logo pela manhã, agora se levante, minha criança, precisa se alimentar.

Ele se afastou, sentei e me espreguicei, sentindo-me incrivelmente preguiçosa, mas tomei toda a coragem que tinha para usar a água na jarra para lavar o rosto e ir até meu pai que estendeu a mim um pouco de sopa.

— Espero que goste, não tenho mulher para ficar me preparando comida, então aprendi da pior forma possível. Afinal, havia um garotinho nessa casa que precisava de mais que saquê.

Sorri. Todos sempre me falaram que o Senhor do Norte Takashi era um incrível cozinheiro, que havia feito cursos de gastronomia em quatro países apenas por ser um apaixonado pela comida. Ao provar a sopa, soube que não houve exageros do pessoal quanto a isso.

— Está delicioso, obrigada.

— Sou um tengu muito prendado. — ele sorriu. — Se eu fosse uma tengu, casaria comigo e passaria a eternidade fazendo filhotes.

Dei risada.

— Não há nenhuma mulher nessa casa?

— Desde que Hideo completou seis meses de vida, não.

— Ou seja, antes havia. — Ele tomou um pouco da própria sopa e coçou a barba. — Desculpe, não queria me intrometer.

— Não o fez. — Então sorriu. — Ryoko é um pouco... complicada. Ela e as irmãs dela, na verdade. Estávamos indo bem, mas então ela ficou grávida e... Bem... No começo acreditei que tudo continuaria como estava. — Ele tomou mais um pouco de sopa. — Mas ela precisou se afastar para o bem de nosso filho e, principalmente, para o bem de si mesma.

— Como?

— Bem, acho que todos possuem sua forma de aceitar a vida. E ela apenas consegue aceitar a dela se for em liberdade e não há nada que prenda mais que um filho. — Seu sorriso oscilou por um momento. — Mas nós estamos aqui e ela sabe que nosso bebê esta sendo bem cuidado, quando achar que está pronta para voltar, estarei aqui para ser o corpo cálido que esquenta suas noites frias.

Pensei em Hideo e Daiki, que praticamente nunca falavam na mãe deles e senti pena dos meus irmãos. Não que eles parecessem guardar mágoa, mas também não pareciam se importar com o assunto. O fato de eles sentirem tamanha indiferença repentinamente fazia eu me sentir triste por eles. E pelo meu pai que teve que cuidar sozinho dos dois.

— Não é meio egoísta da parte dela? — sussurrei.

— Não seria egoísmo da minha parte obrigá-la a ficar?

— Você tem um ponto. — Ele sorriu. — Esse quimono pertence a ela?

— Sim. Mas fique tranquila, ela não se importará de você usar.

— Como pode saber?

— Como sabe que Sesshoumaru a ama?

Pisquei e quase me engasguei com a sopa, ele esfregou a mão em minhas costas enquanto me recompunha. Aquela pergunta me pegou desprevenida por dois motivos: Sesshoumaru e o fato de não fazer sentido algum no contexto.

— Que mudança brusca de assunto.

— Apenas me diga. — estreitei os olhos, pensativa. Ele realmente queria saber?

— O missoshiru está delicioso. — comentei, tentando mudar de assunto, mas apenas consegui que ele esboçasse aquela costumeira careta de "fala sério" que Hideo sempre fazia quando eu tentava desviar os assuntos que ele queria conversar comigo. Suspirei. — Pelas atitudes dele. — Fiz uma pausa mordendo o hashi, pensando. — Ele não é do tipo que demonstra abertamente o que sente e nem fala, jamais fala. Possui um jeito muito peculiar de demonstrar o que está sentindo, muitas vezes como se eu tivesse a obrigação de ler seus pensamentos. — Mordi o hashi novamente e sorri. — Contudo, quando ele me protege ou... — corei.

— Quando estão sozinhos. — meu pai disse em um incentivo para que eu continuasse.

— Sim. — disse corando ainda mais e pegando um pouco de arroz.

— É assim que sei que Ryoko me ama. — ele respondeu fazendo que eu voltasse a olhá-lo. — Parece que somos parecidos nesse ponto. — ele sorriu. — Sinto por não ter peixe, preciso ir buscar mais na casa de Hayate.

— Hayate?

— Antes ele ir pescar do que eu. — afirmou, enquanto voltava a comer.

Havia tantas coisas que queria saber dele, tantas perguntas. Minha mente estava trabalhando rápido demais e isso me deixava meio tonta. Pela primeira vez desde que saímos de Tóquio a atmosfera estava calma o suficiente para que eu aproveitasse e o conhecesse melhor. Droga, quanto mais penso, mais perdida me sinto. Não posso deixar essa oportunidade passar, não posso morrer sem conhecer melhor o meu próprio pai.

Confesso que ainda estou bem transtornada por causa dos saqueadores/samurais. Mas, assim como muita coisa, eu tenho empurrado esse assunto para o fundo da minha mente, resoluta a não pensar no assunto. Talvez um dia eu pudesse compreender melhor o conceito de honra que eles pareciam prezar.

Mas que coisa, por que tenho que pensar sobre esse assunto logo agora que tenho a oportunidade perfeita para conversar calmamente com meu pai?

— Sempre pensa demais?

— Geralmente não. — respondi sinceramente.

Ele me analisou, fazendo com que eu me sentisse realmente desconfortável.

— Na verdade. — continuei. — Penso pouco e ajo muito por impulso. — sorri. — Mas às vezes acontece de ficar alguns pensamentos encrostados em minha mente.

— Apenas suspire e siga o curso. Afinal, quando não se pode fazer nada, só nos resta fazer nada; contudo, se podemos fazer algo, é nosso dever fazer.

— E quando não sabemos se o que fizemos foi certo?

— Simples, se no final há sentimento de gratidão, você fez a coisa certa.

Isso me fez pensar. Suspirei balançando a cabeça; filosofar a essa hora da manhã não era legal.

— Então, Hideo sempre será um pervertido? — ele perguntou. Pisquei.

— Ele é pervertido?

— Menina, não faz ideia, acredito que logo terei um pequeno tengu correndo por aqui.

— Ele não tem filhos.

— Que ele saiba. — meu pai brincou.

Isso me deixou realmente sem jeito. Acho que meu pai tinha tanto a me dizer sobre quem meu irmão era quanto eu tinha para dizer sobre quem ele se tornaria. Enquanto me perdia em pensamentos, arrumei meu cabelo em uma trança mecanicamente. Percebi que precisava lavá-lo o quanto antes e que viajar de um lado para o outro não ajudava a me manter limpa.

— Há algum lugar por aqui onde uma garota possa conseguir um banho? — questionei ao meu pai, que me olhou, de boca cheia. Pareceu considerar a minha pergunta, enquanto mastigava e engolia a comida.

— Há águas termais abaixo no Monte. — respondeu — Mas hoje não é exatamente um bom dia para ir, já que é quando os monges costumam usá-las. Posso confirmar mais tarde. — Então bateu uma mão na outra para se livrar das migalhas — Vamos almoçar na casa do Hayate.

— Mas nós estamos comendo agora.

— Ah. — Sorriu e ergueu uma mão para mim — Então vou ensiná-la a cortar lenha. Uma mulher direita tem que saber cortar lenha para não depender de homens imorais em noites frias.

Acho que essa era a versão feudal de independência feminina. Sorri e não recusei a oferta.


Eu não estava ouvindo mais meu pai e Hayate. Impossível conseguir prestar atenção neles quando a imagem ao fundo é a de Hiroko sentada sob seus calcanhares, cutucando a bochecha do Ryuuji com o dedo indicador. Sinceramente, estou aqui com uma imensa vontade de voltar a minha época e colocar os dois frente a frente e dizer "kiss, now!".

O pensamento me fez pensar se eu não estaria de certa forma traindo o meu irmão. Tudo bem que ela está grávida do Daiki e que a quero como cunhada, mas ela pode ser minha cunhada sem ficar com o inútil do meu irmão, afinal, o sentimento está no coração, meu amor, aqui existe e nunca será abalado. Ryuuji é um grosseiro idiota, mas, em um contexto geral, não tenho nada contra ele. E sim, sou esse tipo de pessoa que recebe xingamentos o dia todo, mas não fica magoada. Brava e com vontade de arrancar as tripas dele talvez, mas magoada... não.

Eu devo ser muito perturbada por ficar pensando que aquela menininha linda deveria criar meu sobrinho/minha sobrinha com aquela cria de youkai canino. Mas convenhamos, eu vi o relacionamento deles já adultos, notei a forma que Ryuuji a olha.

Sai dos meus pensamentos quando Hiroko se aproximou do pai e puxou seu quimono, fazendo com que ele lhe olhasse.

— Papai, ele não acorda.

— Ele está bem.

— Mas por que não acorda? Ele está doente? Posso ajudar?

— Querida. — Hayate se ajoelhou e deslizou a mão sobre o cabelo da filha sorrindo. — Ele apenas está muito cansado e precisa dormir.

— Quando ele acorda?

— Que tal ir lá fora brincar?

— Não, obrigada. — E dizendo isso ela voltou para o lado de Ryuuji. Será que o Hayate vai ficar incomodado se eu morder a filha dele?

— Vejamos, vou começar o almoço. — disse meu pai, indo para onde acredito ser a cozinha. Hayate me analisou por um instante.

— Não tenho peixe, melhor ir buscar. — Hayate disse em um tom de voz mais alto.

— Que espécie de casa é essa que não tem peixe? — meu pai reclamou se aproximando.

— Vá pescar.

— Fadiga.

— As crianças comerão apenas arroz?

— Busque você.

— Para ficar o resto da semana me enchendo por que não escolhi o mais fresco? — Hayate fez um gesto displicente com a mão. — Você é o cozinheiro, vá e pesque.

Meu pai fez uma careta, sabia que ele estava prestes a se negar e esquecer o peixe. Conhecia bem aquela expressão preguiçosa.

— Hiroko, tio Takashi vai preparar peixe no almoço. — anunciou Hayate, foi quando Hiroko se levantou e correu até meu pai abraçando suas pernas.

— Obrigada. — ela disse agarrada em seu quimono. Papai suspirou, revirando os olhos.

— Seu sujo. — Fez carinho na cabeça de Hiroko. — O tio Takashi vai buscar o peixe, fique aqui e faça companhia para a moça.

— Sim.

Então ela correu para onde estava antes, mas olhou para mim, notando que estava tudo bem, olhou para Ryuuji e, percebendo a manobra que precisava fazer para ficar observando os dois, ela mudou de lado. Precisei me controlar para não rir.

Hayate me serviu chá em silêncio. Essa paz que todo esse lugar traz fazia qualquer inação parecer correta. Inércia era a regra. Ele se serviu também, sentando-se a minha frente, enquanto eu me concentrava em observar Hiroko fechar os olhos sonolentamente. Controlei-me para não rir cada vez que ela se agitava, logo após cochilar por um ou dois segundos. Hayate, assim como eu, ficou observando a filha lutar contra o sono, até que não suportou e caiu no peito de Ryuuji, dormindo.

Abri um sorriso.

— Ela é encantadora. — comentei baixinho, para não acordá-la — A Hiroko que eu conheço é linda, impetuosa, forte. Saber que ela foi esse tipo de criança faz com que eu admire ainda mais.

— Um pai sempre se orgulha de saber que sua menina vai saber cuidar de si mesma. — E então me encarou. — Sabe... Não encare isso como desconfiança, mas Takashi às vezes precisa que os outros cuidem dele. Que ele é poderoso e inteligente, não há dúvidas, mas ele pode ser muito ingênuo. Geralmente ele não deixa que as pessoas se aproximem exatamente por se conhecer, por saber dessa habilidade de sentir empatia. Mas com você, parece que ele retirou todas as defesas. Não sei até que ponto é sábio da minha parte dizer isso, mas, como alguém que ama o Takashi, eu preciso ter alguma segurança a seu respeito.

Engoli em seco, sem saber como lidar com o que Hayate me dizia.

— Que... Que tipo de segurança? — perguntei hesitante. Da mesma forma, eu também não sabia até que ponto podia revelar a verdade para ele.

— Você está na minha casa... Não precisa esconder sua presença. Até onde sei você não passa de uma humana... — Ele me analisou um pouco mais — O que você está escondendo?

— Eu não posso. — afirmei rapidamente. Mesmo que meu pai estivesse longe, eu não poderia correr o risco naquele momento. Minha presença tinha um alcance muito longo para que eu pensasse na possibilidade.

Ele estreitou os olhos desconfiadamente.

— Por que não?

Encarei-o hesitante. Eu não o conhecia realmente. A única coisa a favor dele que eu sabia era que seus filhos eram bons e que amava o meu pai. Seria suficiente?

— Eu... Minha presença... — disse — Ele pode perceber.

— Ele? — perguntou — Takashi?

Acenei afirmativamente.

— Entendo. — Ele fechou os olhos por um segundo e, então, eu senti. Uma presença forte, esmagadora, com um gosto sombrio que me lembrou Nagi. Era a presença de Hayate. — Você a sente porque está dentro da minha barreira de proteção. Mostre-me, pequena.

Eu não queria ter de decidir se devia ou não confiar nele. Então não decidi. Desfiz a barreira que protegia minha presença. Depois de tantos dias usando grande parte da minha mente para mantê-la, era desconfortável desfazer a trama das salvaguardas. Observei Hayate, curiosa para ver sua reação. Minha assinatura era muito parecida com as dos meus irmãos, por isso não seria difícil deduzir o óbvio:

— Você... é filha dele... — sussurrou chocado.

Eu sorri. Talvez agora ele desconfiasse menos de mim.


Não sei como, em algum momento enquanto eu contava a Hayate sobre quem eu era, nossa conversa se direcionou para a mãe de Hiroko e Nagi. Hayate me contou, nada confortável, que ela havia desaparecido há meses. Atendera ao chamado de uma mãe que procurava o filho e desceu do Monte Kurama. Depois disso, nunca mais dera notícia. Era palpável que ele sofria com o assunto e que não gostava de falar nele, mas que estava me contando como uma espécie de resposta ao meu voto de confiança. Ele tinha medo de que talvez a tivesse perdido para sempre.

A dor cria laços difíceis de explicar, mesmo entre duas pessoas que mal se conheciam, mas que resolvem compartilhá-la. Isso me deu coragem para contar alguns detalhes sórdidos da situação.

— Então você e o Senhor do Oeste… são casados? — ele questionou surpreso.

— Pode rir se quiser. — resmunguei.

— Por que deveria?

Abri e fechei a boca, sem saber o que responder, então apenas dei de ombros. Hayate cruzou os braços, mordendo o lábio inferior, pensativo.

— Tem algo muito estranho em tudo isso... — sentenciou.

— Você quer dizer, além do fato de eu vir do futuro? — disse, incapaz de conter a ironia.

— Sim. — foi a resposta dele, parecendo meio alheio ao fato de ter sido uma pergunta retórica — Você me disse que o Executor do Senhor do Oeste estava atrás de você em Edo?

— Foi o que papai disse. — respondi confusa — Não tenho certeza se é verdade.

— Takashi dificilmente erra. — Hayate me encarou — Existe alguma forma de o Senhor do Oeste saber?

— Acho que não. Não sei. — suspirei — Quer dizer, em se falando de Sesshoumaru, eu não duvidaria realmente...

— Você realmente não pensou nisso?

— Não. — dei de ombros mais uma vez — Não sou do tipo que fica remoendo as coisas. Para dizer a verdade, estou evitando pensar em Sesshoumaru desde que cheguei. Não vai ajudar.

— Pois deveria. — Franziu o cenho — Também imagino que você não confie nesse tal de Yong.

Neguei com um gesto de cabeça.

— É sábio. De fato, eu creio que Takashi chegou a comentar sobre uma divindade chamada Long, a quem imortais como nós recorriam para morrer. Ele é o Senhor do nascimento, da juventude e da morte... Ou coisa parecida. Não é como se muitos de nós acreditassem nisso, embora possamos sentir a existência de energias sustentadoras. Se ele é uma dessas energias, não consigo achar sentido que ele se importe em consertar alguns pequenos equívocos no lapso temporal.

Sem sentido é algo que define tudo isso, na verdade. — resmunguei exausta — Prefiro simplesmente não gastar energia tentando compreender. Não muda o fato de que eu estou aqui para impedir que um dos dois morra. — Massageei a testa — Só peço que eu não morra antes de contar a verdade ou de ver Sesshoumaru uma última vez.

— Se você deseja isso, então basta fazer.

— Você acha que eu devo? Quer dizer... contar? — perguntei, erguendo o rosto para encará-lo.

— Por que você não contou até agora?

Refleti sobre a pergunta.

— Acho que eu não me sinto preparada.

— Então conte quando achar que for a hora certa. — Depois disso, ficamos em silêncio por algum tempo, até que ele me pediu para que contasse detalhes da vida que o filho dele levava. Então atendi ao pedido; não estava mais em condições de ficar omitindo qualquer coisa para ele.

Contei sobre como Nagi era superprotetor com Hiroko, como era a pessoa mais sádica que eu conhecia, mas que jamais se recusava a ajudar alguém que pedisse a ajuda dele. Hayate sorriu durante todo o tempo em que falei.

— Algum youkai imoral vai passar dos limites com a minha filha? — questionou em determinado momento, quando comentei que Nagi surtava quando qualquer homem se aproximava de Hiroko.

Olhei para ela, dormindo apoiada no peito de Ryuuji e senti vontade de rir. Por pouco não disse "aquele tai-youkai ali é um dos que mais suspiram por ela", só que a imagem mental de Ryuuji suspirando foi engraçada demais para impedir a risada, então apenas neguei com um gesto de cabeça.

— Talvez seja melhor retirar o selo de Ryuuji. — comentei, ainda sorrindo. Hayate olhou por sobre o ombro para ele, deitado no tatami, com uma flecha fincada em um dos braços e pareceu refletir.

— Creio que saiba que se fizer isso e o deixarmos ir, o Senhor do Oeste vai saber que estamos aqui. — comentou. Eu estava surpresa de que ele aparentemente tivesse concordado com o que eu tinha dito.

Sorri para ele.

— Ele saberia de qualquer forma... Estamos falando de Sesshoumaru...

Hayate me encarou e concordou em silêncio.

Ryuuji não chegou a me ver, apesar disso. Logo depois de eu romper o selo, antes mesmo de Ryuuji ficar consciente, Hayate colocou Hiroko nos meus braços e disse:

— Leve-a para a casa de Takashi. Deixe que eu me vire com esse aqui.

Então fiz o que ele mandou, passando o resto da manhã brincando com Hiroko e me perguntando o que teria resultado de tudo aquilo: se Hayate teria deixado Ryuuji ir embora ou se o meu velho amigo seria tão intragável quando adolescente como era aos quase duzentos anos de idade, a ponto de desafiar alguém obviamente superior como Hayate. Da forma como todo aquele lugar era imenso, era totalmente possível que o mundo fosse dividido ao meio e eu descobrisse já tarde demais para fazer uma última oração.

Ouvi passos na entrada da casa e em seguida a voz de meu pai, cantarolando baixinho mais umas de suas canções de marujo. Então ele entrou, sorrindo vitorioso enquanto mostrava vários peixes. Fez um sinal para que o seguíssemos até a cozinha. Hiroko me acompanhou correndo, em seguida indo até as pernas de meu pai e agarrando seu quimono, sorridente.

— Muitos peixes. — papai disse a fazendo rir. — Que tal ajudar o tio Takashi pegando uma bacia para que eu possa tratá-los?

— Sim. — ela respondeu não se cabendo em si de felicidade e saindo saltitante até onde, presumo, seria o local onde havia bacias e panelas. Imagino que mundo deprimente deve ser esse onde uma criança fica feliz com peixes em vez de doces.

— Aproveitei minha saída e fui até as termas, os monges estavam lá. — Ergui as sobrancelhas, sentindo que lá vinha algo realmente perturbador. — Disse a eles que aquilo era um mau presságio e que poderia acontecer de algumas cabanas pegarem fogo amanhã caso eles voltassem às termas. — ele sorriu pegando a bacia de Hiroko quando ela entrou afobadamente. — Portanto, amanha será um bom dia para seu banho.

— Por que acha que eles vão acreditar em seu mau pressaágio?

— Ah... Porque eu sou como um profeta para eles.

— Oh, o grande profeta.

— Sim, eles me chamam de Sobojo e tudo. Aliás, esse nome combina com um quimono novo. — ele piscou e começou a limpar o peixe. Tentei ajudar, mas fui expulsa junto com Hiroko, a diferença é que eu levei umas palmadas na bunda.

Tentei protestar, realmente queria ser mais útil, mas Hayate voltou me empurrando de volta para o outro cômodo enquanto dizia que havia dado um jeito no moleque, quando meu pai perguntou do que ele estava falando, a resposta foi simplesmente:

— O chutei para fora daqui... E daqui a cem anos ou mais meu pé ainda estará marcado no traseiro dele.

Como não seria educado chegar falando "ei, Ryuuji, deixa eu ver se o pé do Hayate ainda esta aí no seu traseiro?", acredito que nunca saberei a intensidade da verdade naquela fala.


Hayate havia saído com Hiroko no colo alegando que ela precisava estudar sobre plantas medicinais. Pela carinha que ela havia feito, noto que desde sempre ela não tem muito interesse pela medicina. Ao terminar de lavar tudo que havia sido usado no almoço voltei para sala de jantar, encontrando meu pai deitado com as pernas abaixo da mesa, sorri involuntariamente e desviei o olhar quando ele voltou sua atenção para mim. Certo, pare de ficar sem graça. É seu pai, Kagome.

— Deseja um chá? — questionei.

— Que menina mais gentil, mas há um erro em sua pergunta... — ele disse enquanto se sentava. O observei curiosa. — O correto, seria: Poderoso Tengu, meu senhor, ser divino que sirvo, desejas, porventura, se assim não lhe ofender, um pouco, quem sabe muito, de saquê?

— Bla bla bla... quer saquê?

— Menina, faça direito!

— Me obrigue.

Por que diabos eu falei aquilo?! Agora tem um tengu de quase dois metros de altura correndo atrás de mim pela casa com uma faixa na mão dizendo que vai me punir pela afronta.

— Poderoso Tengu... — gritei quando ele por fim caiu sobre mim me derrubando contra o tatame.

— Continue, estamos indo bem. — ele me puxou pelos pés e sentou-se em meu estômago.

— Não me lembro do resto.

Ele fez uma careta de quem estava pensando seriamente sobre o assunto, então se levantou e me ergueu em seguida.

— Para sua sorte eu também não. Agora nos sirva um pouco de saquê, quem sabe consigo tirar mais informações com você alcoolizada.

— Só sou criança quando lhe convém. — reclamei, indo até a cozinha enquanto o ouvia rir. Ao voltar para sala de jantar ele bateu ao seu lado indicando que eu devia me sentar ali, sorri e obedeci nos servindo em seguida.

— Um brinde aos nossos corações tomados por safados egoístas. — ele ergueu o masu¹ em brinde, fiz o mesmo. — E eu não estou falando da Ryoko, no meu caso, mas sim do safado que mora logo ali.

— Hayate, seu verdadeiro amor. — Fiz uma careta. — Certo, ter um amigo como o Kenjiro nos faz ter imaginação demais.

— Kenjiro?

— Um amigo da faculdade de medicina. — Bebi o saquê e enchi novamente meu masu, aproveitando para servi-lo, o que ele aceitou erguendo o seu copo com as duas mãos. Ficamos por um tempo em silêncio enquanto bebíamos, foi meu pai que o quebrou.

— Hideo não tem filhos?

— Não.

— E Daiki?

— Mais ou menos.

— E como ele é mais ou menos pai?

— A criança ainda não nasceu.

— Mas está a caminho. — confirmei com a cabeça. Espera, quantas doses já foram? — Interessante. Quem é a mãe?

— Morro com o segredo.

— Por quê?

— Prezo vidas... Principalmente desse pequeno youkai que está para vir.

— Argumento justo. — Ele se levantou indo para cozinha, encarei a garrafa de saquê que estava na mesa. Já havia acabado? Como?

Respirei fundo, sentindo meus olhos pesarem. Não posso ficar bêbada, afinal, tenho a tendência de fazer muita besteira quando fico nesse estado, como a de mandar mensagens para Sesshoumaru dizendo que sinto falta dele e mensagens ao Hideo reclamando da mesma coisa.

— Mas Hideo tem quem o ama e a quem corresponder? — meu pai questionou, calando o meu pensamento de como queria um telefone para ligar para o meu ranzinza nem que fosse apenas para ouvir um "alô" cheio de desdém.

— Ele tem sim. — sorri. — Ela é incrível, capaz de controlar muito bem aquele gênio esquentado dele... bom... nem sempre como ela queria, mas geralmente dá certo.

— Também não vai me dizer o nome dela?

— Acho melhor não.

— Quantos segredos, estamos em tengus aqui.

— Está realmente me embebendo para me tirar mais detalhes?

— Claro. Minhas intenções sempre foram claras aqui. — Ele levou a mão até o peito. — Sou um tengu muito honesto.

Suspirei, tentei recusar outra rodada de saquê, mas ele virou o masu em minha boca, disse que iríamos competir e quem perdesse teria que correr nu pelo Monte Kurama ao amanhecer. Não sei se era verdade, mas decidi que meu pai não era alguém que poderia ser testado.


Em algum momento da noite jantamos e em algum momento da noite dormimos. Quando acordei no dia seguinte, eu estava atravessada no futton com as pernas passadas sobre a barriga de meu pai que estava relaxadamente com os braços sob a cabeça em sono tranquilo.

Eu havia sido bem cautelosa, não bebi o quanto ele realmente queria, lembro de tudo que aconteceu na noite passada e tudo que havia dito. Bom, ao menos eu espero lembrar de tudo. Recordo quando viemos dormir e meu pai ficou afagando meus cabelos enquanto cantava uma canção de marujo, foi a ultima coisa que ouvi antes de cair no sono, acredito que minha atual posição tenha sido consequência do álcool ingerido.

Sentei, ajeitando-me sobre o futton, e observei meu pai por um instante. Até pareceu que ele havia notado que estava sendo observando, pois abriu os olhos de forma preguiçosa e sorriu.

— Bom dia, criança.

— Voltei a ser criança?

Ele riu se sentando e estralando o pescoço em seguida.

— Vou preparar o café da manhã.

— Eu ajudo.

— Adulto cozinha, criança espera.

— Por que não se recordou que eu era uma criança enquanto me fazia beber tanto ontem?

— Porque era do meu interesse que você fosse adulta ontem.

— Nem fica vermelho por falar uma sem-vergonhice dessas.

Ele riu e se levantou.

— Prepararei o desjejum. Aproveite para escolher um novo quimono para usar após seu banho nas termas, eles estão logo ali naqueles baús.

— Obrigada.

Escolhi um quimono e segui para sala de jantar, não demorou muito para meu pai entrar com uma bandeja, ele sorriu enquanto me servia e se sentou ao meu lado.

— Acredito que necessito matar Sesshoumaru. — Parei até mesmo de respirar. Tentei me voltar para ele, mas não conseguia mover um músculo — Como posso ser um Senhor dos Tengus honrado se permiti que uma das minhas crianças caísse nas mãos daquele ser perverso?

— Ele é um bom marido. Pode confiar.

— Em você posso confiar. Mas não naquele cachorro cheio de escleroses.

— Ele não tem isso.

Meu pai fez uma cara de aterrorizado, em seguida mordeu o hashi e resmungou algo que não compreendi. E ficou assim, mordendo o hashi e resmungando, enquanto eu me alimentava e mantinha o mais distante possível de seu ataque e ciúmes porque uma de suas "crianças" tengu teria caído nas garras do terrível Sesshoumaru.

— Ele nem é tão terrível assim.

Agora a expressão dele foi de escandalizado. Ele se levantou e foi até a cozinha, quando voltou começou a jogar saquê em mim enquanto dizia:

— Menina, você tem que se tratar! Poderoso saquê, salve essa pobre alma, tire esses pensamentos sujos de sua mente, oh, saquê abençoado vindo dos próprios deuses, trate essa criança, ela não sabe o que faz. — Ele colocou a mão sobre a minha cabeça. — Confie em mim, seu senhor sabe o que faz.

— Pare com isso, seu velho!

— Velho?! — Ele me jogou mais saquê, quando tentei sair, sentou em minhas costas. — Oh, onde foi que errei para que uma de minhas crianças fosse tão desencaminhada. Como poderei conviver com essa dor? — E dá-lhe mais saquê em meu rosto. — Saiam demônios! Essa criança é pura! Não façam dela seu antro de sobrevivência em pecados.

— Sou meio-youkai e o senhor é um youkai, notou a faltou de lógica? Preciso desenhar?

— Sua infiel. — foi o que ele disse, saindo de minhas costas. Suspirei; de fato, meus irmãos têm muito de onde herdar o jeito excêntrico.

— Tomar um banho de saquê logo pela manhã não é agradável.

— Estava rezando por sua alma perdida.

— Guarde suas rezas e seu saquê.

— Vá buscar o quimono, vamos descer as termas e tirar esse cheiro ruim de você.

— Agora eu cheiro mal?

— Cheira a um velho bêbado.

Será que vou para o inferno se enfiar os hashi nos olhos do meu próprio pai? Melhor não arriscar, peguei toda minha indignação e raiva e fui buscar o quimono, agradecendo por ao menos ele ter parado de me benzer com saquê.


Eu me sentia meio imune ao silêncio do Monte Kurama. Acho que isso deve ser efeito colateral de ter sido exorcizada. Meu pai andava ao meu lado, segurando o quimono branco com bordado floral que eu havia escolhido. Apesar de meus protestos sobre querer ir sozinha às termas, ele parecia irredutível quanto a ter certeza de que nenhum monge teria por acaso saído de sua casa prestes a ser queimada.

Ele olhou para mim, coçando a garganta e pigarreando, antes de perguntar:

— Hayate me perguntou se eu por acaso tinha sentido a presença dele quando fui pescar o almoço de ontem. — Sorriu para mim; aquele sorriso enganador de sempre. — Vocês estavam aprontando alguma coisa?

Nossa. Hayate havia sito tão sutil quanto o Godzilla.

— Anh... Nada que eu me lembre. — Então estalei os dedos, como se me lembrasse de algo — Será que ele não estava falando de quando enxotou o tai-youkai? Depois que eu desfiz o selo, Hayate pediu para que eu levasse Hiroko comigo, então não faço ideia do que aconteceu.

— Sim, imagino que "se desfazer do inimigo aprisionado sem perguntar minha opinião a respeito" possa se enquadrar em "aprontar algo". — resmungou baixinho, parecendo inconformado.

— Você realmente não sentiu a presença de Ryuuji? — questionei inocentemente.

— Está brincando? Eu tinha ido às termas; é impossível sentir qualquer coisa daqui de dentro depois de se passar pelos arcos de entrada. — reclamou.

Aquilo prendeu minha atenção e acho que meu pai percebeu a manivela do meu cérebro girando quando me olhou, já que deixou escapar uma risadinha e agitou a cabeça em negação.

— Não, não há barreira alguma. — explicou — Quer dizer, não como as que nós podemos fazer. Não se trata de uma redoma, mas de densidade. O Monte Kurama possui presença própria, uma tão forte que camufla qualquer outra. Uma entidade além da nossa capacidade de compreensão. — Ele bateu a ponta do dedo indicador algumas vezes contra a minha testa — Mesmo a presença de uma hanyou sacerdotisa passaria despercebida.

Massageei o ponto dolorido na minha testa, perguntando:

— Como o senhor pode ter certeza?

— Eu conheci outros dois hanyous como você, esqueceu? — ele abriu os braços, como se tentasse abranger todo o ambiente a sua volta — Onde acha que eles se esconderam?

Ainda com a palma da mão contra a testa, arregalei os olhos.

— Por quê?

— Estamos falando de um milênio atrás, minha criança. — foi a resposta condescendente — Nós somos tengus: seguimos nossa própria moral. E nela, família está acima de tudo. Se um humano pede a nossa ajuda, nós iremos. Se um humano se fere, nós curamos. Se não somos capazes de abandonar aqueles que nem mesmo são da nossa raça, como poderíamos abandonar os nossos?

— Vocês os protegeram. — compreendi comovida.

— Não... O Monte Kurama os protegeu. — disse dessa vez sorrindo com honestidade — Fizemos nossa morada aqui para que qualquer uma de nossas crianças pudesse viver em paz.

— E conseguiram?

— Infelizmente, há aqueles que, assim como você, não conseguem resistir ao clamor do espírito. — Ele ergueu uma mão para acariciar o alto da minha cabeça — As outras duas crianças que nasceram como você foram eternizadas pelos contos compilados no Konjaku Monogatari²... Espero que você não tenha abalado o mundo da mesma forma que eles.

Foi minha vez de sorrir.

— Ainda não. — disse. Era a única resposta que eu podia dar.


Termas são uma coisa que dificilmente mudam com o passar dos séculos. Termas são termas. Você fica nu, fica com vergonha, fica com calor e fica satisfeito. Porque banhos termais foram um presente divino para os mortais.

Muitas de minhas experiências em lugares como esse, sem as paredes de um hotel ou banheiro público que limitasse o acesso, terminavam em alguma situação inesperada que acabava com minha paz de espírito. Certo, lembrei que Shippou estava em muitos desses banhos comigo e, mesmo que ele fosse apenas uma pequena raposinha na época, de repente me sinto envergonhada de perceber que ele já me viu nua.

A ausência das paredes realmente me deixava muito nervosa, então demorei algum tempo até realmente relaxar. Isso e o fato de meu pai estar por perto, apesar de eu tê-lo feito jurar que ficaria a uma distância considerável. Se eu estou assim estando praticamente sozinha, imagino como eu iria reagir se por acaso tivesse que entrar em uma daqueles banhos mistos. Em pensar que Daiki tentou me implantar a ideia certa vez; aquele safado disse que fecharia o local para os três irmãos se banharem, pois era um crime não termos feito isso quando criança e agora haveria de ser feito mesmo adultos... O pior foi que o Hideo não se manifestou, o que deixou claro que ele não era contra a ideia, pois se fosse, teria dito e se não disse, estava apenas tentando manter sua pose de bom moço. Acho que no fundo o meu irmão mais velho é isso: um adulto perturbado que tenta ser um bom garoto; ao contrário de Daiki, que nem mesmo tenta.

Pensar nisso me fez rir e perceber que estou morrendo de saudades deles.

Aceitar isso é meio perigoso da forma como as coisas estão. Eu tenho inteligência emocional suficiente para saber que eu não preciso de mais essa carga no momento. Porque saudades realmente podem deixar em frangalhos o pouco de força que uma pessoa consegue reunir. Só que por mais que eu jogue o assunto para o fundo da minha mente, não tem como mentir para mim mesma. Eu sinto saudades de todos. De Shippou. De Daiki. De Hideo.

De Sesshoumaru.

Sentir saudades dele de repente me jogou em um ciclo perfeito, no qual eu sofria por sentir falta dele, recordava os momentos que tivemos juntos e voltava a sentir saudades. Havia um prazer doentio nisso. De fantasiar, só por um momento, que tudo estava bem e que ele estava ao alcance das minhas mãos. Que, se eu realmente quisesse, poderia tocá-lo, tê-lo entre meus braços e que eu jamais ficaria sem ele novamente. Mas então a fantasia frágil se desfazia e eu era jogada de volta à realidade, de volta ao ciclo. E por mais que eu sinta que conhecer meu pai tenha sido um presente, eu não consigo deixar de sentir tristeza pela forma prematura que me separei de Sesshoumaru.

Queria ter me despedido dele.

Não, não era o momento de pensar nisso.

Então, em um momento eu estava ali, banhando, tentando não pensar em coisas complicadas e, no outro momento, ele estava ali. Demorou algum tempo para que eu me surpreendesse. De alguma forma, parecia extremamente natural que Sesshoumaru de repente estivesse parado ao lado das termas, como se estivesse presente desde o começo. Como se fizesse parte do lugar e fosse certo estar ali.

Como se meus pensamentos o tivessem chamado.

De uma forma bastante obscura... realmente o tinham chamado. Só que eu não podia dizer para esse Sesshoumaru como cada parte de mim estava a ponto de explodir de felicidade por encontrá-lo. Não poderia dizer que o amava, quando a expressão dele parecia dizer que eu devia correr pela minha vida.


¹Masu é o copo raso próprio para beber saquê, feito de madeira e que costuma mudar o sabor da bebida.

²Konjaku Monogatari é um compilado de contos de 31 volumes escritos no Período Heian (794-1185 d.C). Os contos relatam o desenvolvimento do budismo na China, na Índia e no Japão. Usando a técnica de antropomorfização de animais, os contos exploram uma grande gama de assuntos morais: em sua maioria retratam o encontro entre seres humanos e o sobrenatural. Os personagens típicos são retirados da sociedade japonesa da época - a nobreza, guerreiros, monges, estudiosos, médicos, agricultores, pescadores, comerciantes, prostitutas, bandidos, mendigos. Suas contrapartes sobrenaturais são os onis e os tengus.

Estes tengus eram demônios inimigos do budismo, que buscavam a todo custo confundir e desencaminhar as pessoas para longe dos ensinamentos de Buddha. Para atingir seus fins eles se valem de uma série de poderes, como a capacidade de mudar de forma, de tamanho, teletransporte e o poder de entrar nos sonhos de quem dorme. Eles sequestravam discípulos e os largavam em lugares remotos, queimavam e vandalizavam templos.

Alguns contos relatam sobre tengus em forma humana que se disfarçavam como sacerdotes e sacerdotisas, escondendo sua natureza demoníaca.

[Fontes: Konjaku Monogatarishû — Kyoto University; Morte Súbita — Tengu, o Demônio Japonês]


Fkake

Feliz Ano novo e que... sei lá, tudo que me desejarem, eu desejo em dobro, esse é meu lema.
Espero que tenha gostado do capítulo, agora entra na parte mais tensa do negocio, caso não tenham notado, estou aqui informando, pois sou dessas que ajuda as pessoas.
Ah, a gente lê todos os comentários sim e responde por aqui mts vezes as perguntas que foram feitas.
Sesshy na parada e de despeçam por enquanto do tio Takashi.
Bjsssss, adios.

Ladie

Esse é o último capítulo do ano! T-T E, mais uma vez, é um capítulo gigante. 30 páginas dessa vez. Espero que todos tenham gostado. Com isso acho que amarramos a primeira ponta solta dessa história: o fato de Kagome ser uma hanyou e uma sacerdotisa ao mesmo tempo.

Antes de mais nada, FELIZ ANIVERSÁRIO MOTOKO LI! DOIS DIAS ATRASADO, MAS SAIBA QUE MEU DESEJO POR SEU CORPO É ETERNO, ENTÃO, SE QUISER PRESENTE, ME TERÁ SEMPRE.

Feliz natal atrasado e feliz ano novo adiantado! Obrigada por acompanharem Senhor do Norte e terem dado suporte por todo esse tempo! (caramba, caminhando rumo a três anos de SN). Principalmente, obrigada a cada uma das pessoas do Porão. Vocês não sabem como me fazem feliz falando bobagem e sendo pessoas perturbadas. Cada um lá é especial. Principalmente os que escrevem hentai. Esses são especiais para danar. hehe

Por isso, obrigada Gih-chii, HChannah378, Ritamons, Stra. Dark Nat, NayIchimaru, Thays, Jhully-Chan, Little Thati, Chokolata Kid-chan, Adrimke, (a venerada) Motoko Li, Takashima Kanon, Dih, Neko Sombria, carol-bombom e Ana Clara Martins Tenório por fazerem do Porão algo tão incrível e terem me dado a oportunidade de conhecer pessoas tão incríveis. Isso se refere também a outras dezenas de pessoas do Porão, mas coloquei apenas os nomes de quem informou o nick, por achar indelicado comentar o nome verdadeiro de vocês [menos da Ana Paixão, porque ela é descarada e coloca o nome dela no nick]. Everyone: saibam que amo vocês.

Ai preciso falar de quem lê a história e comenta. (SIM, A GENTE LÊ TODOS OS COMENTÁRIOS, E QUEM COMENTA LOGADO, DÁ UMA OLHADA NO INBOX) Minha vontade é a de abraçar todos vocês e oferecer um grammy, seus lindos.

Viram como estou uma pessoa dada (ui) hoje? Pois é, cês causam essa reação em mim. Vou sentir muita falta de vocês quando SN acabar.

Beijos da Ladie