Capítulo LXXIV — Segura o tchan
— Sesshoumaru. — sussurrei. A única reação dele foi estreitar os olhos, fazendo-me ter certeza de que aquilo não era simplesmente fruto da minha imaginação, mas que ele realmente estava ali.
Ele era capaz de deixar qualquer criatura intimidada, mas essa regra não se aplicava a mim. Nunca havia se aplicado, até agora. Ele já me deixou irritada, já me deixou confusa, já me deixou desanimada, apaixonada… mas não constrangida daquela forma por perceber que eu estava nua na frente desse Sesshoumaru, com quem eu jamais havia estado.
Lutei contra a vontade de me cobrir. Não havia sentido em me sentir culpada, como se de alguma forma eu estivesse traindo Sesshoumaru. Ele ainda era o mesmo Sesshoumaru com quem eu me casaria, só não sabia disso ainda. E sabia está no tempo verbal correto, já que o olhar dele estava preso no pingente em forma de pena que pendia do meu pescoço — era a única coisa sobre o meu corpo no momento.
Sabia o que ele estava vendo: as presenças no pingente. Eu nem conseguia imaginar o que estaria se passando pela cabeça dele naquele momento. Uma parte de mim tinha medo de que ele ignorasse completamente o fato de eu ter um símbolo de proteção que pertencia a ninguém menos que ele próprio.
De repente percebi que ele sempre soube. Toda aquela insistência para que eu lhe entregasse o pingente, a ordem para que eu não o tirasse em hipótese alguma… Ele sabia. Sabia que isso aconteceria, que eu não iria voltar.
Queria parecer calma, mas por dentro eu me sentia como se tivesse engolido pedaços de vidro. Empurrei essa descoberta para o fundo da minha mente, resoluta a deixar para analisar quando eu não tivesse que me preocupar com as minhas reações — o melhor a fazer, nesse momento, era simplesmente não pensar.
O fato é que o Sesshoumaru de agora e aquele que eu amava eram bastante parecidos no ponto de acreditarem que é minha obrigação adivinhar o que eles estão pensando: depois de me encarar, a única coisa que ele fez foi virar as costas e se afastar lentamente, como se esperasse que eu simplesmente o seguisse. O pior é saber que, conhecendo Sesshoumaru como eu conheço, essa era a exata intenção dele.
Abri um sorriso desdenhoso e senti o ar frio combater o calor do meu corpo enquanto eu vestia a yukata lentamente. Eu realmente não sei o que fazer agora. Sentar e conversar jamais era uma opção para Sesshoumaru.
Virei-me para observá-lo, parado, como se esperasse pacientemente que eu me aproximasse. De repente, fui tomada por aquele pensamento de que o rosto dele pedia para ser beijado. Os olhos, as bochechas, o nariz. Menos a boca, pois por algum motivo desconhecido, eu queria mordê-la. Sorri para mim mesma, diante desses desejos nada convenientes para o momento. No fundo, eu sabia que deveria ir com ele, mas hesitava. Então, como se o destino tivesse resolvido tomar a decisão das minhãs mãos, vi Sesshoumaru olhar na direção do Monte Kurama e eu soube que não teria tempo para decidir o que seria o melhor a se fazer.
Ah, não.
Meu pai se colocou na minha frente em sua forma mediana, youkai/humana, e acredito que meus olhos haviam saltado em órbitas. Esse maldito! Eu não disse para ele que estava aqui para evitar que eles se gladiassem e se matassem? Então por que estava aqui?
Tudo bem que ele havia me acompanhado e tudo mais e que Sesshoumaru estava invadindo seu território... ou mais ou menos isso tendo em vista que o Monte Kurama é dentro do território do Sesshoumaru o que... Hã... Por que eu perdi o foco?
O saquê deve ter intoxicado meu corpo por osmose.
Meu pai estava na minha frente e os olhos do meu marido se tornaram vermelhos.
Pronto, vão se matar.
Que lindo Kagome, sua inútil. Faça algo!
Senti a presença dos dois, quando eles começaram a liberá-la, como uma espécie de desafio silencioso de macho alfa que merecia uns tapas na fuça, ao mesmo tempo que algo os prendia em seus devidos lugares impedindo que cedessem a tal provocação.
Eu já havia sentido a assinatura da presença do meu marido antes, e, em algum canto em minhas memorias antigas da Era Feudal, eu já sabia de sua magnitude, mas talvez eu não me recordasse tão bem assim, já que eu sentia meu corpo tremer de pavor. Se não bastasse, a presença do meu pai era quase tão sufocante, o que dobrava a frequência dos calafrios.
Havia um confronto ali. Silencioso e palpável. E eu estava no meio dele.
Eu não estava apenas sentindo a tensão por toda a extremidade dos meus membros. Havia uma certeza em mim que, se estendesse a mão, eu poderia tocá-la. Sentia vontade de me esconder, voltar para casa e me encolher em posição fetal, mas não poderia ser tão covarde, pois precisava encarar os dois e impedir que fossem além de medir qual deles tinham o brinquedo maior — isso soou ligeiramente estranho, anyway — mas a minha humilde pessoa sabia que seria pulverizada se decidisse ficar ente eles.
Só que convenhamos, atitudes espertas nunca foram meu forte, então vamos de uma vez às estupidas e ficar entre os dois.
Preparei-me para ficar na frente do meu pai. Eu não sabia bem o que faria, exceto uma ligeira impressão de que provavelmente acabaria morrendo, mas fui interrompida pela sombra que cortou o chão. Que seja um avião; que seja um avião.
— Hayate, cuide dela.
Que droga! Podia ser um avião!
E pronto, a guerra fria acabou e os dois foram de encontro ao outro enquanto Hayate repousava a mão em meu ombro em sua forma tengu. Olhei para ele por um momento, registrando os olhos verdes-luciferina me encararem de volta.
— Eles não podem lutar. — disse, meio sem fôlego, mas ele apenas deu de ombros e observou Sesshoumaru e meu pai.
Voltei a olhar para eles, mas não conseguia acompanhar a porcaria da velocidade desses malditos. Definitivamente, o confronto nos Estados Unidos não se comparava àquela luta. Não que os yaoguais fossem mais fracos ou algo parecido, apenas era o fato de ambos não estarem preocupados com a proporção que seus ataques poderiam ter naquela região; afinal ainda não existia imprensa para acabar com a brincadeira.
O aperto em meu ombro ficou mais tenso. Voltei minha atenção ao me recordar de que Hayate estava ao meu lado, mas ele não estava olhando para mim, mas sim para algo mais a frente com uma expressão preocupada. Voltei a minha atenção para aquele local, notando que meu pai tinha assumido sua forma youkai e estava planando no ar, enquanto Sesshoumaru estava sobre uma rocha, com a mão no cabo da Bakusaiga.
— Hiroko. — sussurrou Hayate ao meu lado, senti meu coração falhar uma batida ao mesmo tempo que o aperto em meu ombro desapareceu.
Precisei dar um passo para trás para manter o equilíbrio após o impulso dado pelas asas de Hayate; o vento havia sido tão forte que quase voltei para dentro da água com yukata e tudo. Ele se embrenhou na floresta e meu pai continuou parado onde estava, em um claro sinal de que estava protegendo aquele local. Vi Sesshoumaru arrumar seu quimono, então ele voltou sua atenção para mim por um segundo, como se quisesse ter certeza de que que eu ainda estava ali. Em seguida, saltou na direção de meu pai, atacando com suas garras. Quando papai desviou, Sesshoumaru agarrou uma de suas asas e o impulsionou para o chão, fazendo com que a única coisa perceptível do acontecimento fosse o barulho angustiante de impacto e detritos subirem do local que meu pai havia atingido.
Saí correndo.
Acho que nunca cheguei tão rápido em algum lugar. Meu pai havia feito uma pequena cratera com sua queda. Sesshoumaru já havia se aproximado quando cheguei e veio em minha direção.
Eu não sabia o que fazer. Não parecia muito sábio sair correndo e gritando "salvem-se os bons", então apenas fiquei parada, sem reação.
Notei meu pai se levantar rapidamente, apertando o ombro por um segundo, antes de tentar chegar perto de mim. Só que Sesshoumaru estava apenas um passo de distancia e Hayate tinha vindo nessa direção atrás de Hiroko, o que significa que ninguém poderia arriscar uma luta nessas condições.
Meu marido desceu o olhar até a pena com meia lua que eu usava. Por um segundo, acreditei que ele a tocaria; talvez o Sesshoumaru com quem me casei a tocasse, mas esse não era ele ainda. Sendo assim, apenas voltou me encarar.
Ele começou a andar, tão tranquilamente que nem parecia que havia acabado de sair de um confronto. Notei que meu pai deu um passo em minha direção, ergui a mão fazendo um sinal para ele não se aproximar. Doeu muito fazer isso. Nesse segundo, um questionamento se passou pela minha mente: em uma escala de 0 a 10, qual o nível de coisa errada a se fazer seria ir com Sesshoumaru e deixar meu pai para traz? Acho que nem quero saber a resposta.
Não pense em coisa alguma, recitei o mantra. Ter um ataque histérico agora não vai ajudar, então a melhor saída é simplesmente não tentar analisar o que estava acontecendo.
Engoli em seco e tentei sorrir. Não deu muito certo. Eu queria muito ficar com o meu pai, agora que eu finalmente tinha começado a conhecê-lo.
— Irei com ele. — anunciei lentamente.
— Não, minha criança.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupe. — sorri — Nos veremos em breve.
Voltei-me para Sesshoumaru e o segui, com a frase "Até logo, pai" entalada na minha garganta.
— Maldição, ela irá precisar de um banho contra pulgas quando voltar. — pude ouvir meu pai dizer ao fundo e Sesshoumaru parou de andar por um momento, mas logo voltou, como se decidisse que não valia a pena perder tempo apenas por causa dessa frase.
Foi impossível segurar o sorriso. É claro que meu pai iria sair voando por cima da carne seca. Hideo tem a quem puxar.
Não havia como eu começar uma discussão com Sesshoumaru sobre qualquer assunto que temos na minha era, portanto, me sinto completamente desnorteada, sem saber o que fazer.
Senti vontade de dizer "como está fresco hoje", mas lembrei a piada de Hideo que sempre dizia que tempo assim era meio "Daiki". E ouvir na minha mente a voz do meu irmão mais velho dizendo "o tempo está meio Daiki hoje" quase me fez explodir em uma risada, mas conseguir levar a mão à boca a tempo de impedir. Embora isso se tornasse impossível ao lembrar da resposta usual do meu irmão mais novo: quente e gostoso?
Não consegui controlar a crise de riso.
Recebi um olhar de rabo de olho de Sesshoumaru, então me endireitei segurando a risada. Sinto em meu âmago que ele pensa que estou rindo dele. Desculpa, amor, mas o mundo não gira ao seu redor. E não adianta olhar feio para mim, isso não faz mudar essa verdade.
Neguei a vontade de querer provocá-lo e mandar um beijinho.
Controle-se mulher.
No entanto, controle nunca foi meu forte, mas estou realmente orgulhosa de mim mesma nesse momento. A ideia de "não pensar em coisa alguma" na verdade estava sendo mais fácil do que eu imaginava, e o resultado era que eu não estou sendo uma pessoa normal. Nunca sou, mas nesse momento da minha vida eu estou me superando.
O jeito é fazer essa caminhada em silêncio. Suspirei. Já estou com saudade do meu pai, acho que vou dizer ao Sesshoumaru que mudei de ideia. Seria muita ousadia sugerir uma devolução?
Kagome, foco.
Puxe assunto com ele. Apesar de tudo, ainda é o Sesshoumaru — um Sesshoumaru de quase duzentos anos antes de você nascer que não se importa com absolutamente nada que não seja ele mesmo. Hum. Bate nele com a sandália e corre.
Droga, maldito saquê. Maldita influência do meu pai.
Maldita crise de riso.
— Cale-se — ele me encarou novamente, estreitando os olhos. — ou eu mato você, hanyou.
— Assim como matou o Jaken? — dei de ombros. — Ameaçava e nunca matava, lembro disso. — suspirei.
Observei as costas de Sesshoumaru, enquanto ele seguia na minha frente. Não vou mentir que tudo o que tinha acabado de acontecer havia me induzido a entrar numa espécie de transe hiperativo/histérico — eu sei que isso não faz muito sentido, mas eu realmente não consigo descrever de outra forma. Eu me sentia meio anestesiada. A vida é bela! Tragam os elefantes! Aquele tipo de sensação que se tem de despreocupação extrema, de relaxamento, de "aconteça o que acontecer, tudo vai ficar bem".
De repente, percebi que tenho me controlado demais nos últimos dias. E não digo apenas na forma como tenho agido ou falado, mas até mesmo nos meus pensamentos. Dentro da minha cabeça, eu tenho evitado ser eu mesma. E isso era realmente, realmente, cansativo. Voltar a ser eu mesma deixou-me aliviada.
Isso não significa que eu esteja feliz de me afastar do meu pai. Apenas que havia uma espécie de satisfação inominável em simplesmente não me importar com coisa alguma. Mesmo o estranhíssimo fato de estar seguindo Sesshoumaru de alguma forma fazia algum sentido pleno na minha mente.
Isso ou eu realmente fiquei bêbada com o exorcismo.
Respirei algumas vezes, tentando pensar no assunto — o que era um trabalho bem difícil com uma mente que insistia em não ajudar no processo. Uma coisa é óbvia, eu não vou conseguir reunir o pouco autocontrole que eu tenho para continuar editando informações. Fazer isso com o meu próprio pai gastou toda a minha força de vontade. Fazer isso de novo, sem chance.
Eu só fico curiosa para saber como Sesshoumaru vai reagir quando eu decidir contar algumas verdades.
Uma coisa é certa: eu não faço ideia do motivo de Sesshoumaru ter ido atrás de mim. Não sei o que ele quer, o que ele sabe, o que ele pretende. E para dizer a verdade eu não estou me importando muito. Percebo que, em se tratando dele, eu vou descobrir quando, onde e como ele desejar. Por isso nem esquento a cabeça com o assunto. Afinal, eu sou casada com o traste, conheço bem a raça dele.
Deixei escapar uma risada nervosa ao perceber qual era o destino da nossa longa caminhada. Eu me sentia mais ou menos como a Elizabeth Bennett quando se depara com Pemberley, o riso nervoso de pensar que poderia ter sido senhora daquela casa se tivesse aceitado o pedido de casamento do Sr. Darcy. Só que, no meu caso, eu sabia que me tornaria senhora da casa, ao contrário dela; e, é claro, não era Pemberley, mas sim a casa de Sesshoumaru em Kyoto.
Isso de alguma forma me tirou do torpor. Fez com que a minha tentativa de enganar a minha mente e agir como se tudo estivesse ocorrendo normalmente caísse por terra. Não sei bem o motivo. Talvez fosse o fato de ter sido naquela casa que eu havia encontrado felicidade plena e isso fizesse com que eu percebesse como doía ter deixado tudo para trás. Por mais que eu soubesse que faria tudo de novo e me sentisse agradecida por ter conhecido o meu pai, não havia como impedir o sentimento de perda.
A porta da frente abriu-se silenciosamente com a aproximação de Sesshoumaru. Com medo de que os criados invisíveis me deixassem do lado de fora, aproximei-me do meu marido e entrei junto com ele. Olhei para os lados, percebendo as duas humanas que se inclinavam respeitosamente para Sesshoumaru antes de fechar os portões. Com isso, percebi que já nessa época o clã Tai estava estabelecido e organizado. Era comum que os Senhores tivessem um clã humano que os servissem, mesmo no futuro. O único que se recusava à tradição era Shippou, alegando que ele mesmo não descendia de nenhum grande clã kitsune e que deixaria os costumes provincianos para os outros.
Restou para mim seguir Sesshoumaru pelo lugar — que de uma forma muito estranha, era e não era a minha casa. Eu sentia basicamente o mesmo sentimento de ter encontrado o Hideo dessa época e vislumbrado a criatura magnífica que ele seria um dia. Pelo pouco que pude ver, ainda não havia os jardins incríveis, nem a área de treinamento, e duvidava muito mesmo da existência da piscina interna, da minha sala de cinema ou do meu jardim privativo — e chamo de meus mesmo porque Sesshoumaru não era do tipo que usufruiria de qualquer um desses lugares.
Deixei escapar um ofego ao perceber que exatamente por não ser do feitio de Sesshoumaru que eu deveria ter desconfiado da existência desses locais na casa. Em que mundo paralelo Sesshoumaru teria um jardim privativo para o seu próprio proveito? Ele era famoso exatamente por não gostar dessas coisas.
Então... Era para mim.
Não sei até que ponto é arrogância acreditar nisso — e não me importa muito saber. Eu sentia meu rosto queimar com prazer e vergonha, e então lembro da resposta que Sesshoumaru havia me dado, logo após a nossa primeira vez: "sempre só houve você". Eu sou tão idiota que mereço alguma espécie de prêmio. As peças vão se encaixando e a figura que vai surgindo é, ao mesmo tempo, assustadora e apaixonante. Como se tudo, absolutamente tudo, fizesse parte de um plano milimetricamente arquitetado.
Saber que Sesshoumaru se daria ao trabalho de fazer tanto, mexia com a minha vaidade de uma forma nada saudável, fazendo-me ter certeza de que a última coisa que eu deveria fazer seria editar as informações, como eu tinha feito com o meu pai. Esse Sesshoumaru egocêntrico, arrogante, que olhava para mim como se eu fosse um verme — o qual não esmagava pura e simplesmente por causa do pingente -, merecia uma pequena lição, a qual se resumia, basicamente, em ter que me suportar em todo o meu esplendor retardado. Conviva com isso, cretino dos infernos.
Não sei o que Sesshoumaru esperava de mim no momento. Quase parecia que ele tinha esquecido que eu o estava seguindo, levando em consideração a forma apática como parou e olhou para baixo, erguendo a mão para tocar o quimono na altura do ombro.
Girei lentamente em volta dele, com cenho franzido, tentando ver o que faria o ó-impassível-Sesshoumaru agir daquela forma, e percebi uma mancha avermelhada no quimono.
Sangue.
Ele estava ferido. Em algum momento, durante a curta luta que havia acontecido, meu pai havia conseguido feri-lo. No fundo da mente, percebi que se Sesshoumaru estava ferido, meu pai provavelmente estaria pior, e que eu o havia deixado sem saber a dimensão do dano. Só que isso estava apenas no fundo da minha mente, em primeiro plano estava a preocupação quase inútil com a integridade física de Sesshoumaru.
Não lembrei de olhar qual expressão ele tinha no rosto — embora eu aposte um rim que não mudara em nada —, quando me aproximei de supetão e tentei abrir o quimono. Ele tentou me afastar com o braço, mas parou quando eu o encarei furiosamente.
— Você se feriu! — exclamei o óbvio, como se isso de alguma forma fosse culpa dele — Você é um idiota troglodita! Tira o quimono!
Sequer passou pela minha cabeça que esse tipo de reação seria estranha até para o Sesshoumaru com quem eu havia me casado, só que eu tinha reagido antes de pensar. Eu me lembrei da luta contra os yaoguais em Washington e do desespero de pensar que ele poderia ter se ferido, nem cogitei que um ferimento leve não era motivo para preocupação.
— Tira logo! — quase rosnei quando as mãos dele se fecharam em meu pulso. Encarei as marcas roxas no braço dele as longas unhas e por algum motivo isso me deixou ainda mais nervosa. — Para de se fazer de difícil, Sesshoumaru! No futuro você não parece achar nada ruim quando mando você tirar a roupa!
Os dedos dele apertaram mais os meus pulsos, fazendo com que eu percebesse que aquela tinha sido a coisa errada para se falar. Suspirei audivelmente, encarando-o. Eu estava muito perto dele. Perto o suficiente para ver que aquele olhar de desprezo era verdadeiro, não como o olhar de falso desgosto que Sesshoumaru usava para me repreender. Ser tratada daquela forma por ele me machucava e parecia errado em muitos níveis. Por mais irracional que fosse, eu não me sentia emocionalmente capaz de controlar a frustração.
Forcei contra o aperto da mão dele, já não ligando muito se ele me machucaria. Eu estava furiosa por ele me tratar daquela forma, e ele furioso por eu ser uma hanyou insolente. Isso criava um ciclo onde ele parecia a ponto de esquecer o pingente com a proteção dele e eu, que amava esse imbecil sequelado.
Seu idiota, você que foi atrás de mim para começo de conversa! Lutou com o meu pai e deixou — da sua maneira — bastante óbvio que queria que eu o acompanhasse, para agora dar uma de fresco, não aceitar minha preocupação e me olhar com essa indignação? Vê se te orienta seu cão demoníaco ressurgido do inferno!
Alguma coisa sólida e furiosa se chocou contra mim. Quando percebi, estava sendo presa contra o chão por um tai-youkai irado, rosnando e apertando meu pescoço com mais força do que seria considerável uma intervenção amigável. Reconheci o tal agressor precipitado como o mesmo tai-youkai que havia me atacado em Tóquio, na ocasião em que as Serpentes me levaram até o meu pai.
— Qual o seu problema?! — exclamei, tentando empurrá-lo, mas isso só serviu para deixá-lo ainda mais furioso. Debati-me, tentei tirá-lo de cima de mim, tentei mandar que ele se afastasse, mas aquele tai-youkai não era muito diferente de qualquer animal irracional tomado por instintos.
Fiquei inerte por um segundo; a calmaria antes da tempestade. Se ele tivesse me dado uma chance, eu teria avisado para o moço que aquele era um dia muito ruim para qualquer um resolver testar minha paciência. Ele não me deu chances, então resolvi que ele teria que me ouvir do jeito difícil, e isso incluía ter que aguentar toda a raiva que eu tinha de Sesshoumaru naquele momento.
Acertei um golpe com o antebraço no peito dele. Não era forte o suficiente para tirá-lo de cima de mim, mas doeu. Ah, doeu muito. E nele. Acertei joelhos e ombros, desnorteando-o a cada golpe, a ponto de extinguir a raiva dele e deixar apenas a confusão. Ele não entendia o que estava acontecendo e eu estava irritada demais para parar e explicar.
Aquilo era resultado de algo que Ryuuji e eu vínhamos testando a algum tempo. Chegava a ser engraçado que eu usaria a técnica que ele havia ajudado a desenvolver contra um tai-youkai. Depois da luta contra os yaoguais, Ryuuji ficou muito interessado (daquele jeito grosseiro e nada amistoso dele) nos meus poderes sagrados. Ele queria saber como funcionava o controle de energia sagrada que eu fazia através da flecha, criando a teoria de que da mesma forma que a flecha era um caminho pra o meu poder, o meu corpo também poderia ser.
Isso significava que eu poderia lutar com mão vazias e me tornava muito forte a curta distância. A julgar pelas caretas de dor do tai-youkai, aquilo estava funcionando muitíssimo bem, embora eu estivesse fazendo algum esforço para controlar a intensidade do poder.
O tai-youkai pareceu recobrar um pouco de espírito e tentou revidar. Eu era menor e mais rápida, e pelo pouco que se via ali, ele só teria alguma real chance de me vencer se por acaso se transformasse. Eu não daria essa oportunidade. Alguém nesse universo tem que apanhar além de mim mesma, e o destino tinha escolhido que fosse ele.
Após um longo tempo, meu corpo inteiro suava, mas fazia dias que eu não me sentia tão viva. O tai-youkai estava preso abaixo de mim, tremendo de exaustão, completamente vencido. O olhar vidrado dele pertencia a alguém que não acreditava no que havia acontecido e que não entendia como tinha sido derrotado.
Eu estava satisfeita. Ficar feliz por surrar alguém daquela forma fazia eu me sentir ligeiramente culpada, mas o sentimento se perdia em meio aos outros.
Levantei-me, soltando o youkai. Observei o suspiro de alívio e o tremor, e percebi que, de alguma forma, eu também o havia deixado apavorado. Olhei para Sesshoumaru, apenas agora lembrando que ele estivera vendo tudo, imóvel, sem parecer inclinado a reparar que tínhamos arrebentado o cômodo inteiro durante a luta.
Reparei que a mancha de sangue em seu quimono havia sumido misteriosamente e deixei que minha expressão se suavizasse um pouco. Ouvi o farfalhar de tecido atrás de mim e soube que o tai-youkai estava se levantando. Bom, pelo jeito ele não estava tão apavorado a ponto de continuar no chão.
Sesshoumaru continuava nos encarando indiferentemente. Após alguns segundos, virou de costas e andou na direção da saída.
— Um segundo, senhor Sesshoumaru! — exclamou o youkai — Eu vou com o senhor.
Sesshoumaru parou de andar. Olhou por sobre o ombro, no que parecia ser a perfeita imagem do desdém.
— Você fica.
Então ele me encarou. Ergui as sobrancelhas, deixando escapar um teatral "oh", e andei lentamente em sua direção, compreendendo que ele queria que eu o seguisse.
— Mas o senhor Urushida me deu ordens de ajudá-lo!
Antes de ir, Sesshoumaru fez o favor de lhe dar uma resposta:
— Pelo que vi aqui, ela será mais útil.
E não me sinto no direito de ficar feliz por isso.
Fkake aqui para alegria geral da galera.
Enfim, a demora é pq o arco está realmente difícil requisitando muita concentração e tempo, coisas que atualmente estão raras por aqui.
Sentimos muito pela demora, mas pensem, não queremos apressar as coisas e deixar a qualidade de Senhor do Norte cair drasticamente por causa de prazo de postagem, vamos fazer sempre visando a qualidade e não o tempo que demora para ficar pronto.
Assim como não vamos entregar capítulos sem nexos.
Sei que parece que as vezes as MS são esses capítulos sem nexos, mas se você reler, vai entender que elas tem seu nexo sim, mesmo sendo tão curtas.
Sendo que na verdade, elas meio que são um bônus.
Sádico, mas ainda sim um bônus xD
Tracy está doente e fez a revisão com febre, por favor, amem ela e deixem recados de melhora.
Amém o Igor Ramos, pois ele ajudou na cena de luta... falando no traste, ele tem uma fic muito boa, mas boa pra caramba mesmo!
Se chama "Uma estória de uma história"- Rasemifrag. Está na categoria de jogos (Shaiya) nesse site. RE-CO-MEN-DO.
Outra fic que recomendo pra caraio, é uma Sesshoume que a Tracy está ganhando de aniversário (sei que to devendo presente amor, mas relaxa, que vou te dar um), é da nossa amada Satanas... digo...digo... Sasnatsa, nome da fic é "Paletós para Sesshoumaru".
E por ultimo, mas não menos importante: PARABÉNS!
Sim, felicidades a Valéria e ao Sanderson... mais um aniversário acompanhando SN em, que força.
Beijos e até a próxima.
