Capítulo LXXVI — Skinship
Aconteceu rápido demais. No segundo seguinte, eu estava sendo pressionada contra o chão de madeira, a mão direita de Sesshoumaru em volta do meu pescoço. Senti que queimava onde seus dedos tocavam e as garras pressionavam minha pele. Sesshoumaru estava a ponto de me matar. E o mais engraçado foi perceber que eu não me importava.
De alguma forma muito bizarra, desde o momento que pulei naquele poço, eu vinha me preparando para o dia em que eu morreria pelas mãos dele. Não sei até que ponto posso chamar isso de doentio, mas era um alívio pensar que se ele realmente quisesse me matar, não havia nada que eu pudesse fazer para evitar: Sesshoumaru era muito mais poderoso que qualquer outro youkai que existisse, não fazia sentido em temer aquilo que não se pode combater.
Encarei Sesshoumaru resolutamente. Eu não o temia e ele precisava entender isso.
— Você terá que fazer sacrifícios para ter controle sobre tudo. — falei — É a lição mais importante que você tem que aprender. Se você não estiver disposto a se perder, então não vai encontrar coisa alguma.
Ele estava verdadeiramente furioso e senti que de fato me mataria se, por uma obra do destino, o pingente em formato de pena não tivesse escorregado sobre a minha pele ainda úmida e tocado a mão dele.
Sesshoumaru se afastou. Ele não hesitaria em me matar se realmente quisesse, independente de quão vantajoso fosse para ele que eu continuasse viva, só que aquele pingente o lembrava que estava a ponto de matar a pessoa que, no futuro, ele mesmo tomara tantas precauções para que se mantivesse viva.
Fechei os olhos por um segundo, ignorando o ardor em meu pescoço para pensar no fato de o Sesshoumaru com quem eu havia me casado ter sido tão cuidadoso com a minha segurança, sabendo que ele próprio seria o maior perigo que eu enfrentaria. Isso ou ele precisava que eu ficasse viva tempo suficiente para lhe dizer tudo o que precisaria — só que como eu o amo, prefiro acreditar naquilo que me convém.
Levantei-me um pouco, apoiando-me nos meus cotovelos, olhando para Sesshoumaru, que tinha voltado a se sentar diante da mesa e parecia estar tentando se controlar. Aquilo me fez perceber que eu mesma também deveria fazer o mesmo. Respirei profundamente e ensaiei um sorriso cínico.
— Isso tudo é muito legal e tal, mas eu preciso e gosto de dormir. — comentei, fazendo algum esforço para soar exatamente tão petulante quanto antes — Posso dormir onde eu quiser?
Ele continuou calado, mas como quem cala consente…
— Obrigada. — agradeci — Vou achar um futton e trazer para cá.
Levantei-me e só não me afastei rapidamente porque agora ele estava me encarando. Era mais fácil conseguir a atenção dele do que se supunha: ultrapasse os limites do círculo que ele desenha em volta de si mesmo como uma criança.
Argumentei, diante do olhar inquisitivo dele:
— É que eu me sinto mais segura em dormir sabendo que você está por perto. — O que com certeza era a coisa mais idiota para se achar naquele momento, mas foi impossível para mim não dizer para ele — Vamos… Se você deixar, eu te conto como usar dinheiro do jeito correto vai te transformar na criatura mais poderosa desse mundo.
Ah, como era lindo amar uma criatura tão gananciosa e egoísta.
Eu estava realmente satisfeita, mesmo que Sesshoumaru não estivesse, mais aí o azar já era dele. Ainda o convidei para que viesse se deitar comigo, mas o olhar que me lançou foi terrível, portanto, apenas dei de ombros e demorei algum tempo para conseguir adormecer, já que minha mente parecia completamente focada em me fazer lembrar as coisas que deixei no futuro.
Sonhei com Sesshoumaru. Não esse, mas aquele que eu teria. Sonhei estava na nossa casa e que a vida corria normalmente. Ele estava me passando algum sermão, e eu o beijava para fazê-lo parar; então, como ele não correspondia, eu me afastava e percebia que estava beijando uma máscara xintoísta. Acordei logo após a mascarar sorrir para mim e dizer: "domine".
Tentei controlar a respiração, percebendo que ainda estava noite, mas que havia luminosidade no quarto. Olhei para Sesshoumaru, e foi mais ou menos como ter voltado para casa e encontrá-lo estudando formas de dominar o Japão. Sorri sem perceber, sentando-me e espreguiçando-me de forma teatral.
— Eu poderia voltar a dormir facilmente se não fossem essas velas. — reclamei fingidamente, cocei os olhos e bocejei.
Ele não me respondeu de imediato.
— Você dormiu. — foi a resposta simples que ele me deu.
Por que eu amo esse cretino mesmo? Hum, certo posso listar alguns motivos mais tarde, naquele momento me resignei em suspirar e cumprir o combinado antes que me chutasse para fora do quarto.
— Ah, claro, tenho que lhe explicar porque dinheiro vai fazer o mundo girar à sua volta (sei que você acha que já gira, mas... não) só que existem muitas coisas para explicar antes, então imagine que você tem um saldo positivo para obter informações. Quando chegar a hora, eu lhe direi, e não cobrarei nada, o que acha?
Ele não gostou. Isso não era exatamente uma novidade. Tentei disfarçar um sorriso insolente.
— Deixe-me pensar… Hum… O que pode ser realmente importante para você… Ah, sim! Isso é bem importante… Tão importante que vai ser necessário um pedido dos bons para compensar! Aliás, até sei o que vou querer. — Apontei para o peito dele tranquilamente — Seu quimono. Por um dia. Vinte e quatro horas inteiras.
Ele me encarou — esperava, como sempre, que eu simplesmente lesse sua mente. Isso me fez imaginar Sesshoumaru em uma batalha de inexpressividade com Kanna, que resultaria no planeta explodindo ao final. Até que dava um bom meme vagabundo para alguma página do facebook sobre zoeira feudais que me faria rir por décadas.
Dei de ombros para Sesshoumaru, quase em forma de desafio.
— Se você acha que a informação não vale à pena, então pode se recusar a entregar o quimono. — Fiz a oferta, e, sem esperar a devida concordância, comecei — Hu me disse que vocês estavam em guerra a três séculos, o que significa que mesmo agora vocês já são inimigos. Ah, você sabe, os yaoguais. Não adianta me encarar com essa expressão de quem não se importa, porque eu sei que você odeia o Grande Rei Touro.
Uma sutil contração no maxilar de Sesshoumaru foi o indício de que eu estava seguindo no caminho certo. Sorrindo tranquilamente, eu disse:
— Você me entrega o seu quimono e eu conto como irá matá-lo. — Bingo.
Imagino como deve ter sido difícil para o youkai esquentadinho — descobri que ele se chama Hitsuyama, porque ele se anunciou antes de abrir a porta — entrar naquele quarto e se deparar com Sesshoumaru apenas de calças, enquanto eu, para variar, usava apenas a parte de cima do quimono dele, que por acaso era grande o suficiente para me cobrir respeitosamente.
Sorri para ele, o que era uma péssima ideia, levando em consideração que tinha lhe dado uma surra no dia anterior. Então baixei a cabeça e fingi estar muito concentrada em desenhar coisas que não se pareciam com coisas de verdade, já que o nanquim manchava o papel, tornando praticamente tudo o que eu tentava fazer em uma daquelas imagens que serviam para testes psiquiátricos.
Não prestei atenção ao que Hitsuyama dizia, embora minha mente registrasse vagamente algumas palavras soltas: "Edo", "Urushida", "Leste", "Serpentes". Nesse momento, ergui os olhos instintivamente. Por motivos óbvios, eu não gostava do clã hebi e o fato de eles serem aliados dos tengus de certa forma me causava calafrios.
Forcei-me mais uma vez a ignorar o relatório do youkai, mas era impossível forçar a minha mente a não questionar o assunto. Estaria o fato de as serpentes estarem me caçando agora interligado com a tentativa de sequestro/assassinato que eles cometeriam contra mim no futuro? Se sim, até que ponto isso seria um "efeito colateral" da minha vinda para esse tempo?
Era isso que não se encaixava na minha mente. Yong havia me mandado para esse tempo como forma de consertar efeitos da minha vinda anterior, mas estar aqui agora também resultaria em modificações no futuro, a maior prova disso era que eu estava contando para Sesshoumaru tudo o que aconteceria. Sendo assim, havia certa arbitrariedade no que Yong queria ou não que fosse modificado.
Percebi que o quarto tinha voltado a ficar em silêncio, então ergui os olhos, percebendo que Hitsuyama já tinha se retirado e que Sesshoumaru encarava o pergaminho em que eu tinha escrito o nome do Yong, sem perceber. Segurei o papel e suspirei, fazendo uma careta de frustração enquanto mostrava para ele rapidamente e explicava o que queria dizer aquele nome:
— Esse é o chefe dos yaoguais ou coisa parecida. Só que acho que ele é bem mais poderoso que qualquer yaoguai, na verdade. Ele que criou o poço que eu uso para viajar no tempo. — observei Sesshoumaru, enquanto completava — Foi ele que me mandou aqui. Imagino que eu não vou descobrir o motivo por trás de tudo isso, então, se você tiver a oportunidade, me faça o favor de perguntar a ele.
Cocei a nuca por um instante, desconfortável por tocar no assunto — existia uma diferença enorme entre manter na minha mente e monologar em voz alta sobre coisas que eu não compreendia.
— Certo, eu falava dos yaoguais, não é? — pigarrei ligeiramente — Eles irão criar uma espécie de composto capaz de matar um youkai. Eu não imagino como eles podem ter desenvolvido algo do tipo, mas Nagi, um amigo meu, tem algumas teorias sobre o assunto. Enfim, nada que realmente vá interessar você, acho. Nós pretendemos descobrir com detalhes, mas...
— Humanidade. — ele disse friamente. Parei de falar para encará-lo, sem entender. Ele me encarou com certo ar de desprezo — Você tem o cheiro do veneno do Senhor do Tempo.
Continuei encarando-o por algum tempo, perplexa:
— O quê?
Mas ele não me respondeu, e demorei vários minutos até perceber que não o faria em momento algum. Deixei escapar um suspiro e ignorei o assunto.
— Como eu dizia... Nós estávamos criando um instituto para estudar o tal composto, mas eu meio que tive que pular no poço antes de fazer qualquer coisa concreta. — Olhei para Sesshoumaru — Um dia, eu vou viajar para Tóquio para resolver questões sobre esse mesmo instituto e simplesmente não vou voltar... Acho que não vou poder explicar para você o que aconteceu então... eu espero que você lembre que eu pedi desculpas. — Engoli em seco — A última coisa que eu queria era deixá-lo.
Fui presenteada com um silêncio constrangedor depois de dizer isso — acrescentei o constrangedor apenas para ser mais ilustrativa, já que a parte do silêncio é meio que uma constante quando estamos falando dessa praga que atende por Sesshoumaru.
Meu estômago roncou e eu ruborizei, mesmo sabendo que, se estou morrendo de fome, a culpa é do meu anfitrião que por acaso é péssimo em ser receptivo.
— Fome. — resmunguei roucamente, numa tentativa de amolecer aquele coração de pedra e forçá-lo a atender as necessidades básicas de uma garota que necessariamente não precisa comer para sobreviver, mas que mesmo assim adora fingir que precisa.
Sesshoumaru encarou o nada por alguns segundos, e quase pude imaginar que ele estivesse revirando os olhos mentalmente. Levantou-se e saiu do quarto. Ele me odeia. E eu adoro saber que tenho o poder de suborná-lo.
Enquanto Sesshoumaru estava fora, eu aproveitei para fazer algo que eu simplesmente não tinha coragem de fazer na frente dele, por medo de que notasse: segurei a gola do quimono e apertei o tecido contra o meu rosto, aspirando lentamente.
Eu me sentia meio idiota por ter arriscado a minha vida apenas porque queria sentir o cheiro dele. Era só que havia certo prazer idiota em deixar que o quimono dele ficasse com o meu cheiro por alguns dias, mesmo que ele odiasse isso absurdamente.
O quimono dele ainda guarda seu cheiro, Richard havia dito quando nos encontramos pela primeira vez. E eu finalmente entendia.
Apertei meu rosto contra o quimono com mais força, sentindo as lágrimas queimando no fundo dos meus olhos. Eu o amava tanto que doía e cada mísero segundo fingindo ser apenas uma hanyou petulante era acompanhado do meu medo de que ele decidisse repentinamente que eu não era mais útil.
Eu ainda não estava pronta para perdê-lo. E até que eu finalmente estivesse, eu tinha que me manter ao lado dele de alguma forma.
Uma criada entrou no quarto, trazendo comida, mas parou repentinamente ao me ver chorando.
— A senhora está bem? — ela perguntou, surpresa. Então pareceu recordar do protocolo de silêncio e engoliu em seco, baixando os olhos — Espero que a comida seja do seu agrado, senhora.
Eu não pude deixar de sorrir.
— Qual o seu nome? — perguntei. Ela acenou negativamente com a cabeça, recusando-se a dizê-lo, não sei se por medo de que eu pudesse delatá-la ou simplesmente porque havia alguma regra a respeito. — Está bem, você não precisa me dizer. Que tal apenas... comer comigo? Eu me sinto muito sozinha tendo que aguentar Sesshoumaru sendo insuportável todo o tempo.
Ela ergueu o rosto por alguns segundos, chocada, mas voltou a baixá-lo e a negar mais uma vez. Deixou a comida na mesa a minha frente e foi embora. Depois disso, ela não voltou a dizer uma palavra sequer comigo, mas vinha com bastante frequência para me trazer comida. Acho que era o jeito dela de me dar apoio moral.
Depois de passar algumas horas tentando entreter a mim mesma — e isso incluía rolar pelo chão várias vezes numa tentativa de sujar o quimono dele como forma de vingança — eu estava tão entediada que resolvi dar uma volta pela casa. Sim, só com a parte de cima do quimono dele. E sim, eu sei que isso significa que eu não tenho vergonha na cara, mas isso não é exatamente uma novidade.
Achei uns cômodos desconhecidos na minha busca, incluindo uma sala de armas, de onde furtei uma adaga. Agora perguntem: por que, Kagome, você precisa de uma adaga? E para que mais seria? Para talhar nas paredes de madeira marcações como "Uma Varanda Aqui", "Piscina Interna", "Sala de Cinema", "Porta Para o MEU Jardim". Porque Sesshoumaru precisava saber onde tudo ficaria no futuro e era de meu interesse que ele não esquecesse de alguns lugares em especial.
Eu estava no meio da frase "Quarto do Marido #2" em uma das portas quando um movimento no final do corredor chamou minha atenção. Imagino que um tai-youkai não reagiria muito bem de encontrar uma hanyou tengu armada no meio da sede do clã tai, mas eu não tinha medo de me deparar com algum outro esquentadinho — afinal, eu ainda era uma hanyou tengu devidamente armanda; usando apenas a parte de cima do quimono de Sesshoumaru, mas eu não me importava com o fato de alguém chegar a ver minha calcinha, desde que eu estivesse dando uma surra na pessoa em questão.
Então parei ao finalmente avistar quem era o dono do vulto que eu tinha visto e estanquei assombrada, perdendo alguns segundos preciosos antes de correr na direção dele para alcançá-lo — aquele velho era incrivelmente rápido, mesmo carregando aquele martelo grande, estúpido e pesado para caramba.
Parei alguns segundos, ao perceber que o tinha perdido de vista, mas então pude ouvir o som de sua voz, que era tão peculiar quanto sua personalidade, o tipo de características que só se veria uma vez durante toda uma vida, e isso com bastante sorte. Abri uma das portas de correr, e então apenas estagnei mais uma vez ao ver Toutousai parar na frente de um Sesshoumaru apenas de calças.
— Nunca imaginei que você um dia tiraria o seu quimono. — disse Toutousai, segurando uma espada em uma mão e o martelo na outra enquanto inclinava o tronco ligeiramente para observar Sesshoumaru — Inutaisho fez com que as Aranhas o tecessem para o pequeno Senhor que ele havia dado ao mundo, ou para quem havia dado o mundo, nunca consigo lembrar... É muito ruim ser velho e não lembrar corretamente das coisas. Faz anos que tento recordar onde pedi para que Ushi me esperasse. Ela deve estar se sentindo muito sozinha. Não existem muitas vacas de três olhos por aí…
Sesshoumaru olhou para mim por sobre a cabeça de Toutousai e o velho girou para observar o que havia atraído a curiosidade de Sesshoumaru. Dei alguns passos adiante, sorrindo, mas parei novamente ao vê-lo se voltando para o meu (futuro) marido sem dar muita atenção a mim.
Aquele velho idiota não havia me reconhecido! Não que fosse algo inédito, já que trezentos anos atrás ele tinha problemas de memória com muita frequência.
Então apenas sorri de forma resignada e me aproximei deles, pois, de qualquer maneira, minha intromissão já havia sido feita. Cruzei os braços e teria me sentado em algum lugar, se eu não estivesse tão consciente da barra do quimono de Sesshoumaru roçando em minhas coxas quando eu andava.
— Vejo que conseguiu. — Sesshoumaru comentou, olhando a espada que Toutousai segurava.
— Claro, eu sou um excelente katanakaji. Eis a Tenseiga. — resmungou, encostando o martelo contra o ombro e estendendo a espada para Sesshoumaru com as duas mãos. — Tive que usar o seu canino para consertá-la depois de desmembrá-la da Tessaiga. Vai tornar o fardo de usá-la mais leve, pois qualquer gratidão que receber será sua, e não apenas de seu pai. No entanto, duvido que mais alguém consiga manejá-la, já que agora ela também carrega a sua vaidade.
Encarei a espada com uma mistura de curiosidade e espanto. Eu já havia me perguntado como a Tessaiga e a Tenseiga haviam se separado, mas, então, havia apenas imaginado que o desmembramento das duas havia ocorrido por causa da morte de Inuyasha. Jamais teria imaginado que isso teria sido obra de Toutousai; e pior ainda, a mando de Sesshoumaru.
Encarei meu marido desconfiadamente, enquanto ele tirava a espada da bainha e testava seu peso por alguns segundos, quase como se experimentasse algum sentimento de nostalgia — o que seria até plausível, se não estivéssemos falando de Sesshoumaru. Ele testou o fio da espada com alguns movimentos rápidos e seguros que cortaram o ar em silvos agudos. Depois, apenas embainhou a espada e voltou a encarar Toutousai, que acenou afirmativamente e virou-se para se retirar. Parou, no entanto, após alguns passos, e olhou para mim.
— Você se tornou uma mulher muito bonita. — comentou com um sorriso cheio de muitas intenções e eu prendi a respiração diante do reconhecimento abrupto — Onde esteve durante esses anos?
Demorei alguns segundos para responder, já que tive que voltar a respirar.
— No meu tempo. — respondi nervosamente. Não, eu não sou mais uma menina de quinze anos, então não tenho o direito de agir como uma. Limpei a garganta. — É bom ver que você está bem.
— Ah, sim, minhas espadas nunca perdem o fio, então não posso partir sem ter certeza de que elas têm mestres que sejam dignos.
— Entendo. — Inclinei a cabeça, procurando algum sinal de pulgas, mas não encontrei coisa alguma — E o senhor Myouga?
— Ah... Não o vejo há bastante tempo. Ele vivia reclamando sobre o sangue de Inuyasha ter cada vez mais gosto de humano e então entrou para um circo. — Ouvi-lo falar o nome de Inuyasha fez com que meu estômago queimasse imediatamente, mas não pude pensar muito no assunto, ao vê-lo bater o martelo suavemente contra a testa algumas vezes, no que era um gesto bizarro de Toutousai quando ele tentava recordar alguma coisa importante — Eu quase ia esquecendo. — Abriu o quimono de tecido rígido e tirou um arco e uma aljava com flechas (como ele escondeu isso?!). Deixei o queixo cair ao perceber que se tratava das armas que papai havia conseguido para mim com o comerciante das enguias. — Isso é seu, imagino.
Aproximei-me dele lentamente, erguendo minhas duas mãos para aceitar o arco e as flechas. Ele sorriu mais uma vez para mim.
— Obrigada. — agradeci suavemente, mas com sinceridade.
— Minha milésima espada ganhará um bom mestre. É uma troca de favores. — Então ele olhou para Sesshoumaru rapidamente antes de voltar a me encarar — Fique viva.
E foi embora. Suas últimas palavras pareciam ecoar pelo meu corpo, como uma espécie de aviso. Encarei o arco e pensei em meu pai, sendo consumida pelo sentimento de amor e gratidão por saber que ele ainda insistia em cuidar de mim. Só que, ao mesmo tempo, competindo com os bons sentimentos, a angústia tomava terreno em meu coração.
Aquele arco, assim como era um acalento do meu pai, também era um lembrete. Eu não tinha tanto tempo assim para me preparar para o inevitável.
Depois da saída de Toutousai, restou para mim seguir Sesshoumaru. Ele ignorou meu arco, eu ignorei que ele segurava uma espada capaz de salvar cem vidas com um único golpe. Era mais que óbvio o fato de que ele pretendia alguma coisa e que seu histórico de planos maquiavélicos não lhe garantiam um histórico que inspirasse confiança cega.
Depois que entramos em seu quarto, coloquei o arco e as flechas ao lado do meu futton e segui na direção de Sesshoumaru para devolver-lhe a adaga que eu tinha retirado da sala de armas. Ele não faz questão de segurá-la e quase cedi à forte tentação de deixá-la cair com a ponta para baixo em cima do pé dele, mas me controlei.
Sou maravilhosa demais para me deixar levar por impulsos infantis e porque eu sabia que Sesshoumaru não iria exatamente dar risada e levar na esportiva; ele iria arrancar minhas tripas e fazer cordas de violão. Desisti de entregar-lhe a arma. Vou ficar com ela. Na falta de spray de pimenta, uma boa lâmina afiada serviria muito bem. A gente nunca sabe quando algum albino safado vai resolver nos atacar — e não estou sendo maliciosa nem estou falando de Sesshoumaru, o que é uma pena.
Suspirei e abri uma das portas de correr que levaria ao alpendre. Não era o meu jardim privativo ainda, mas a noite que surgia já servia de alguma coisa. Fiquei parada sob o vão da porta e tomei uma decisão. Uma decisão estúpida, como sempre, e que me deixaria em maus lençóis.
Voltei-me um pouco para encarar Sesshoumaru e abracei a minha cintura, como se isso de alguma forma fosse o suficiente para me sustentar. Então lancei minha última proposta:
— Eu lhe contarei tudo. — fiz uma pausa dramática, enquanto esperava que ele me desse atenção — Você será Senhor de todo o mundo e eu poderei lhe dizer como você se tornará tão poderoso e influente. Tudo o que precisar saber, em troca de um único pedido. — Ele me encarou de volta, parecia esperar que eu lhe dissesse qual seria o desejo egoísta da vez. Ele não estava errado. — Eu quero tocá-lo, Sesshoumaru.
Esperei alguns segundos para observar como ele iria receber essas palavras, e fui presenteada com mais indiferença.
— Não apenas uma vez, mas quando, onde e como eu quiser. Sempre que eu quiser. — Dessa vez ele estreitou os olhos. Mais uma vez, estou ultrapassando os limites e ele avaliava se o prazer de acabar de uma vez comigo seria maior do que o de ter o mundo todo sob seus pés. Já sabemos qual iria vencer, então terminei com uma única frase de consolo para nós dois — Não se preocupe, não será por tanto tempo assim. Ao final de tudo isso, eu estarei morta e o privilégio de me matar será seu.
Para mim, não foi consolo em absoluto.
Ladie
Oi, gente!
Desculpa a demora, a culpa foi minha, ultimamente está muito tenso gerenciar meu tempo livre.
A boa notícia é que o próximo capítulo já está bem encaminhado e MUITO AMOR! SÉRIO! ACHO QUE NOS PRÓXIMOS DOIS CAPÍTULOS A GENTE MORRE ESCREVENDO, DE TANTO SURTAR!
Dito isto, fiquem com essa capítulo lindo e com a promessa de... enfim...
Antes que eu me esqueça, vamos falar sobre entrelinhas: Sesshoumaru vai manter a promessa de deixar que ela o toque sempre que quiser... inclusive no futuro. Ele vai manter a promessa quando encontrá-la de novo, mesmo que ela não faça ideia de que eles fizeram um acordo do tipo.
OK, AGORA VOU. MAMÃE AMA VOCÊS.
Beijos da Ladie
P.s.1: CARA OBRIGADA PELAS REVIEWS DO CAPITULO ANTERIOR, ALGUMAS NOS FIZERAM TER UM ATAQUE DE CORAÇÃO DE TANTA EMOÇÃO
P.s.2: indicação da última hora da tia Ladie "Quando o tiro sai pela culatra!", fanfic Naraku&Kagome da Sapphier que é simplesmente JUSDHJ,DAHJAHDJBACGDCJABHD de tão perfeita! Eu nunca ri tanto, gente, sério, vão ler a atazanar a moça para que ela continue escrevendo, senão eu vou morrer de abstinência.
P.s.3: nada não, é que o número 3 é lindo.
P.s.4: Fkake, te amo.
