Capítulo LXXVIII — Queda Livre de Calcinha

Surpresa, voltei-me para a porta que levava ao alpendre (ou, ao menos, onde ela deveria estar), tendo pouquíssimos segundos até perceber o youkai serpente que nos encarava, com uma expressão de choque que refletia a minha própria. Eu não sei se ele estava surpreso por ter encontrado Sesshoumaru e eu numa situação aparentemente tão íntima, ou se pelo fato de nos encontrar ali. Ou se pelo fato de estar ali.

Por um espaço de tempo curto demais, pude sentir uma presença muito forte se desvanecendo: Nagi.

Minha mente bêbada parecia associar as coisas mais rápido — e mais confusamente — do que o normal, então eu soube instantaneamente que o fato daquele youkai estar ali tinha muito pouco a ver com a sua própria vontade, mas com algum plano diabólico de Nagi — sempre soube que ele era a versão japonesa de Hannibal Lecter.

Eu não sabia o que aquilo poderia significar realmente ou como Nagi tinha o poder de forçar outro youkai a seguir suas vontades, mas uma coisa era muito óbvia: aquela era uma provocação à Sesshoumaru. Parece que a vida de Nagi na verdade se resume a provocar o meu marido tipo desde sempre.

Apesar de eu estar tão concentrada em pensar como na verdade nunca tinha de fato conhecido a dimensão dos poderes de Nagi, o youkai serpente estreitou os olhos enquanto olhava para mim, e então eu o reconheci quase ao mesmo tempo em que ele me reconheceu: ele era um dos youkais que tinha me arrastado até meu pai quando Hitsuyama havia pulado em cima de mim em Tóquio.

Imagino que o fato de Sesshoumaru estar comigo teria inibido qualquer um a tentar me atacar; só que ele era uma serpente e fez o que seu instinto lhe dizia para fazer: deu o bote.

Sesshoumaru levantou-se e eu caí de bunda de um jeito nada charmoso, já que o albino desgraçado não fez questão alguma de pelo menos me empurrar para o lado antes de fazer o movimento brusco. Gemi, massageando os músculos que eu tinha batido contra o chão, e apenas depois de alguns segundos percebi que ele estava em pé entre mim e o youkai serpente. E quando digo entre, quero dizer meio que literalmente, porque o moço loiro nada amigável estava mordendo o braço de Sesshoumaru.

Serpente. Mordida. Se não estivéssemos numa situação ligeiramente bizarra, eu até teria gritado um "Ahá!". Levei uma mão à manga da minha yukata e segurei a adaga que eu havia escondido.

Encarei o youkai, percebendo que os olhos dele estavam vidrados em mim, e foi quando percebi que o alvo dele era eu, e não Sesshoumaru. Aparentemente, aquela história de as serpentes estarem atrás de mim era mesmo verdade. Engraçado que eu não ouvi nenhum boato sobre eles irem atrás de Richard. Porque, claro, vamos culpar a mulher, sempre a mulher.

Sesshoumaru agarrou o pescoço do youkai e o ergueu.

— Não! — exclamei, antes que pudesse me frear, ao perceber que Sesshoumaru o mataria. Ele me encarou por um segundo e havia nesse olhar tanto desprezo pela minha atitude que quase cheguei a ficar envergonhada, se eu não soubesse que tinha um motivo para tentar impedir. — Não o mate, Sesshoumaru. Não aqui. Não nesse quarto.

Sim, eu sou uma idiota, mas naquele momento aquilo realmente parecia muito importante para mim. E era. Aquele cômodo havia se tornado meu último lar, havia se tornado uma parte de mim, uma parte das minhas lembranças mais importantes. Não quero que uma lembrança ruim interfira nas lembranças boas às quais me agarro com tanta força.

Não sei se Sesshoumaru compreendeu o sentimento que me levou a pedir que não fizesse aquilo — até porque pensar que ele pode compreender sentimentos é algo meio bizarro —, mas ele arrastou o youkai para fora, passando pelo buraco onde deveria estar a porta.

Fiquei para trás.

Lentamente, tirei a adaga da manga, e a encarei, percebendo algo que me deixou extremamente irritada: eu estava sóbria. Maldita adrenalina! Se eu quisesse ficar sóbria, não teria bebido um litro de saquê, universo!

Suspirei algumas vezes. Fechei as mãos em punho, ainda segurando a adaga e as apertei contra a testa. Eu não queria pensar sobre o que estava acontecendo. Não queria pensar. Mas era impossível. Bêbada ou sóbria, não tinha como evitar os fantasmas que tinham começado a me atormentar desde que Toutousai me entregou o arco. Para salvar Sesshoumaru e meu pai, eu tinha de perdê-los. O fato de Nagi estar ali, à nossa porta, apenas serviu para me deixar ainda mais consciente de como eu estava correndo contra o tempo, se de fato eu tinha algum.

Eu tinha que me despedir enquanto ainda podia e, com alguma sorte, morrer sabendo que se não pude dizer tudo o que eu sentia para o Sesshoumaru que deixei, eu teria dito para este.

Permaneci parada, encarando o vão aberto na parede, forçando a mim mesma a se acalmar. Deixei a adaga de lado. Engoli em seco. E esperei.

Pensei no youkai serpente por um momento, e percebi que não me importava com o que aconteceria com ele. No fundo, no fundo, eu sou uma grande hipócrita. Não me importo de verdade com as pessoas, apenas com aqueles que coloco dentro do meu sistema pessoal de proteção. Tudo o que eu tinha feito na minha vida tinha sido motivado pelo sentimento de culpa ou de obrigação. Pelo menos agora, enquanto estou tão perto do fim, eu queria me deixar guiar por outros sentimentos, como a saudade que parecia corroer minha sanidade de pouco em pouco. Minha vida inteira parece se resumir a sentir saudades, na verdade. Provavelmente eu morreria ainda com esse sentimento.

Eu poderia estar com Sesshoumaru, afinal, mas ainda inexistia tudo aquilo que teríamos juntos e eu me via perguntando a mim mesma se ele, nas mesmas condições em que estava, se sentiria da mesma forma. Se seria possível que, nos próximos cem anos, em algum momento, ele sentiria que uma parte dele estaria faltando.

Metade de mim esperava que não. Mas a outra metade, uma bem egoísta, queria que Sesshoumaru sentisse minha falta.

Percebi que ele se aproximava calmamente, com aquele andar lento e calculado que era típico dele e tentei sorrir. A presença de Nagi tinha se tornado mais e mais fraca, quase como se ele estivesse se afastando, e me esforcei para deixar esse assunto de lado. Concentrei-me em Sesshoumaru.

Era estranho tê-lo ali, na minha frente, e não saber como agir. Ele parou ainda no jardim e me encarou, inexpressivo, enquanto eu fazia uma careta e abraçava a minha própria cintura.

Depois de vários segundos, nada mudou. Ri para mim mesma, com um pouco de desdém.

— É uma pena que o youkai tenha destruído a parede. — comentei, enquanto observava o estrago como se não o tivesse visto até aquele momento — Gosto muito dessa casa, sabia? — comentei suavemente — Gosto muito, na verdade. Acho que aprendi a gostar porque é aqui que você está na maior parte do tempo. — baixei os olhos, tentando não demonstrar como me sentia tola — Esse quarto terá um jardim privativo no futuro. É aconchegante, rodeado por muros, com espreguiçadeiras, videiras e uma lareira portátil. É com certeza a parte da casa que mais amo.

Ele subiu no alpendre e entrou no quarto, decidido a me ignorar. Ele era realmente o mesmo Sesshoumaru de sempre com fobia a aproximações emocionais.

— Obrigada. — agradeci por ele não ter matado youkai em nosso quarto, mas sem ter coragem de encará-lo. Sesshoumaru parou ao meu lado e olhou para mim. Engoli em seco mais uma vez, sorri e girei lentamente. — Eu disse que te contaria tudo, não é? Acho que isso inclui meus sentimentos.

Atrevi-me a encará-lo, mesmo sabendo que ele não reagiria a qualquer coisa que eu dissesse. Isso soava na minha mente quase como um desafio. Supreenda-me, tire-me da inércia. Cada parte de mim desejava que ele reagisse. Que fizesse algo, que me odiasse, que me amasse. Qualquer maldita coisa.

Quem sabe dançar macarena nua para esse maldito? Balancei a cabeça assustada com idiotice que havia pensado. Talvez não estivesse tão sóbria quanto tinha imaginado.

Ri baixinho e respirei fundo.

— Você sempre esteve lá. — eu disse corajosamente, tentando impedir que minha voz soasse embargada — Você sempre esteve lá e eu nunca pude agradecer. Por ter salvado a minha mãe quando eu nasci; por ter doado fundos ao Hokkaido por tantos anos; por salvar Kayanno; por confiar em mim quando eu lhe pedi que o fizesse; por ter me protegido… Tantas coisas e eu nunca pude agradecer de verdade. Eu nunca pude lhe dizer como cada mínima coisa que você fez alimentou pouco a pouco o amor que eu sentia, ao ponto de eu preferir morrer a perdê-lo.

Nada.

Desviei o olhar por alguns segundos, sentindo a respiração tremer, incapaz de continuar vendo como os meus sentimentos pareciam ser incapazes alcançá-lo. Mas não adiantava. Não importava quanto eu revelasse, ele não me veria como alguma coisa além de uma hanyou descartável.

Tire-me da inércia.

Por mais que eu quisesse implorar, eu só pude continuar a observá-lo. Com os longos cabelos caindo pelos ombros, os olhos dourados estreitos e desconfiados me observando, e as marcas youkais a vista, aquele era o Sesshoumaru que eu conhecia, mas não o homem por quem me apaixonei. Porém minha cabeça tinha uma incrível dificuldade em separá-los, especialmente quando ele agia como ele mesmo — distante e inexpressivo.

Antes que eu pudesse pensar no que estava fazendo, estendi a mão e toquei os fios prateados.

Maldito.

Eram ainda mais macios que no futuro, ou talvez fosse apenas minha saudade confundindo o meu tato. Houve uma pequena mudança em seu olhar. Algo ruim, que dizia que eu deveria manter distância. Eu não queria compreender o que ele demonstrava. O desafio continuava me seduzindo. E Sesshoumaru. Até esse preciso momento eu não tinha percebido como de fato sentia falta dele. Que era algo que não abrangia apenas a minha mente, mas também o meu corpo, e como havia certa vergonha em constatar isso.

Com o Sesshoumaru que eu amava, ter vergonha sobre o desejo que eu sentia por ele parecia tolo, inútil. Eu não queria ficar constrangida por sentir algo que deveria ser natural.

Ignorando o olhar de "afaste-se" com que ele me encarava — Deus sabe que me tornei proeficiente nisso — levantei meu olhar, fazendo com que o pingente pendurado em meu pescoço ficasse mais evidente, desafiando-o a me machucar. Eu já havia ultrapassado qualquer contorno de limite que ele pudesse ter desenhado em volta de si mesmo. Havia perdido o medo, ou o juízo; era difícil definir qual dos dois.

Percebi que essa atitude tinha irritado Sesshoumaru quando ele fechou as mãos em punho, provavelmente imaginando que uma delas estava em volta de minha garganta. Ele se controlou. E eu tive uma estranha vontade de sorrir. Aproveitei o momento em que Sesshoumaru debatia consigo mesmo sobre o quanto o seu eu do futuro ia se preocupar comigo para estudá-lo. Desde a meia-lua na testa até os pés descalços, meu marido era um homem lindo — cretino, mas lindo.

Com isso em mente, continuei acariciando os fios macios, completamente hipnotizada.

— É tão injusto — comentei puxando uma mecha levemente — Seu cabelo nunca embaraça e nunca parece fora do lugar, não importa o que você faça.

Aproximei a mecha de meu rosto, num gesto impulsivo, e fiz com que tocasse os meus lábios, fazendo formigamento gostoso nascesse onde os fios passavam. O gesto fez com que eu imaginasse qual seria a sensação de tê-lo sobre mim, com o cabelo longo tocando minha pele nua. Arregalei ligeiramente os olhos, surpresa com o rumo que meus pensamentos estavam tomando. Meu rosto se contorceu em uma careta e eu deixei que os fios escorregassem por meus dedos.

Sesshoumaru ainda me encarava, de olhos estreitos e desconfiados, como se a qualquer momento eu fosse tirar um garfo de dentro da manga do quimono e espetá-lo em seu olho. Mas eu estava muito ocupada absorta em meus próprios pensamentos e desejos. Sendo o homem com quem eu me casei ou não, aquele ainda era Sesshoumaru. O meu Sesshoumaru. E eu o queria tanto que chegava a doer.

Um parte pequena — e portanto, facilmente ignorada — do meu cérebro sabia que eu estava ultrapassando os limites, e que esse Sesshoumaru a minha frente não era tão tolerante ou tão disposto a seguir com as minhas vontades. Mas a outra parte — a estúpida, impulsiva e predominante parte do meu cérebro — estava decidida a seguir em frente. E meu corpo claramente concordava.

Já dizia o ditado: "Se não pode com eles, junte-se a eles". E foi o que fiz.

Desligando a cautela, insegurança e provavelmente o bom senso, segurei o pulso direito de Sesshoumaru com uma das mãos, afastando a manga do quimono e fazendo com que as marcas cor de magenta ficassem a vista.

Não tinha pressa, percebi que enquanto ele permitisse, eu ficaria ali, analisando. Tocando. Queria conhecê-lo, cada pedaço deste Sesshoumaru. Cada detalhe. Descobrir cada diferença, cada mudança existente entre o homem que eu conheci antes, agora e depois. Queria Sesshoumaru por inteiro.

O pensamento quase me fez rir. Quando foi que me tornei tão possessiva, tão obcecada?

Lentamente, tracei uma das marcas de seu pulso com as pontas dos dedos, numa carícia leve. Mal notei o momento em que meus pensamentos se tornaram palavras que escapavam de meus lábios e confessavam a Sesshoumaru detalhes que eu nem sabia, até aquele momento, que prendiam tanto a minha atenção.

— As marcas... — comentei sem levantar os olhos, ainda traçando os contornos das linhas em seu pulso — Acho estranho quando você as esconde. — continuei deixando que um pequeno sorriso escapasse de meus lábios lembrando de quando ele as revelou para mim na primeira vez em que dormimos juntos.

Deixei que meus dedos passeassem pela pele alva de seu pulso, seguindo a linha azul que indicava o nervo mediano até a palma de sua mão e desenhando cada um dos dedos. Tinha algo incrivelmente especial em tocá-lo dessa forma, em explorar partes relativamente inocentes com uma reverência quase que erótica.

Sesshoumaru permanecia silencioso e imóvel, fitando-me por olhos estreitos. O brilho nos orbes dourados era o que indicava que ele não era uma estátua, uma mistura de indignação, confusão e curiosidade que fazia com que minha pele formigasse de antecipação. Pois Sesshoumaru era muitas coisas, mas passividade dificilmente era uma característica que se aplicava a sua personalidade. Era só uma questão de tempo até que ele perdesse a paciência e eu queria aproveitar o máximo que podia daquela inércia.

Levei a mão que segurava até a altura de meu rosto e rocei os dentes na ponta de um dos dígitos, mordendo de leve, arrancando um rosnado baixo de aviso do youkai a minha frente.

Ri. Nada como uma mordida para provocar uma reação em um cachorro.

Mordi o lábio inferior, pensando até onde ele me deixaria levar minha pequena exploração.

Desenhei toda a linha de seus braços, da palma da mão aos ombros, dos ombros ao pescoço, parando sobre a "gola" do tecido e delineando a costura suave da imagem em vermelho enquanto o tecido macio do quimono fazia cócegas sob a pele de meus dedos.

Fiz uma careta. Nenhum homem deveria ficar tão bonito usando uma roupa de seda com estampa de flores.

Perpassei o dedo indicador sobre a pele onde se localizava a incisura jugular e perdi o foco da minha exploração por um momento. Sempre tenho uma quase-que-incontrolável vontade de enfiar o dedo naquele buraquinho que liga a clavícula ao pescoço das pessoas, porque geralmente o ato faz com que elas engasguem por um momento e a ação tem o efeito colateral de fazer com que as pessoas te olhem como se você tivesse perdido a cabeça. Porém, antes que pudesse agir sob os meus impulsos, a mão de Sesshoumaru se fechou em meu pulso, fazendo com que eu o encarasse devido ao susto.

Ele não se afastou do meu toque, apenas segurando minha mão no lugar e lançando-me um olhar quase que divertido, triscando as garras na minha pele. Flexionei meus dedos contra a pele de sua garganta, ato que levou com que ele exercesse um pouco mais de pressão contra o meu braço.

Segundos antes eu tinha prendido a respiração devido ao susto e levou um tempo para que eu percebesse que aquilo era um aviso. E no momento em que eu entendi o que ele estava fazendo, não consegui conter o riso.

Sesshoumaru imaginou que eu iria esganá-lo, as unhas eram um aviso para que eu pensasse duas vezes.

Ri um pouco mais alto, incapaz de conter o meu divertimento. Não posso negar, tive vontade de asfixiá-lo mais de uma vez, principalmente quando ele confiscou minha coleção de videogames ou quando ele agia como um cretino, o que se traduz como noventa e cinco por cento do tempo, mas, neste momento, matar Sesshoumaru era algo que estava bem longe da minha lista de prioridades.

Os olhos dourados se estreitaram novamente — simplesmente não sei como ele não desenvolveu pés de galinha com o tanto de vezes que ele fazia isso — e o aperto de sua mão se intensificou. Meu marido não aceitava muito bem ser o alvo de diversão dos outros.

Ainda rindo, segurei o tecido sob os meus dedos e o puxei, até que seu rosto estivesse à altura do meu. A surpresa foi tanta, que ele nem mesmo teve tempo de escondê-la e a expressão confusa estava estampada em seu rosto.

Para o meu eterno desagrado ele se recuperou rápido, voltando a exibir a fisionomia de 'não-ligo-pra-nada'.

Mas foda-se. Fiz com que meu marido deixasse que suas emoções transparecessem, mesmo que isso tenha durado dois segundos. Uma pequena vitória ainda é considerada uma vitória.

Kagome 1; Sesshoumaru 0.

Aproveitei ainda para explorá-lo um pouco mais, traçando os contornos de sua face. Em qualquer outra pessoa, as marcas cor de magenta, sobrancelhas bem definidas ou formato da boca pareceriam estranhos, talvez até femininos. Mas em Sesshoumaru, ficava apenas... certo. Todas as partes, os detalhes de seu corpo, se assentavam de forma perfeitamente simétrica. E isso seria muitíssimo irritante, se ele não fosse meu marido e eu não tivesse o direito de — por lei divina — ficar encarando sua beleza sem medo de ter meus olhos arrancados.

Mordi o lábio inferior novamente quando senti sua respiração se misturar com a minha. Inalei audivelmente, apreciando o aroma único que era Sesshoumaru, e notando que a única diferença entre sua essência agora e no futuro, era a falta de estar mesclada a minha. Por mais estranho que pareça, esse pensamento me desagradou de uma forma tão profunda, que minha vontade era simplesmente esfregar minha cara na dele e torcer pra que meu cheiro ficasse preso a sua pele.

Hum. Talvez eu estivesse passando tempo demais com youkais cães. Se continuasse assim daqui a pouco estaria marcando meu território com xixi. Fiz uma careta espantando o pensamento absurdo e tentando não imaginar a cara do Daiki achando essa ideia fenomenal.

Aproximei-me ainda mais, tocando a ponta do meu nariz a sua bochecha e tracejando desde o início da linha que a marcava até que meu nariz ficasse alinhado ao dele. Mal percebi o momento em que fechei os olhos, deixando que minha mente se recordasse dele apenas pelo olfato. Não queria ter que encarar os olhos confusos, impassíveis ou qualquer outra emoção que não fosse aquela que o homem que eu amava costumava me encarar. Não queria lembrar que este Sesshoumaru na verdade não me amava de forma alguma.

— Eu sinto sua falta — murmurei contra seus lábios.

Senti o exato segundo em que ele prendeu a respiração, mas não me permiti abrir os olhos para encarar seu rosto. Puxei o ar mais uma vez apreciando o cheiro dele, incapaz de impedir o sorriso que se formou em meu rosto.

Sentia tanta falta de ficar próxima a ele que doía. Cada célula do meu corpo gritava para que eu me aproximasse mais, para que eu ignorasse que esse Sesshoumaru não era a mesma pessoa, para que eu o tivesse contra mim, contra todas as partes do meu corpo.

Acariciei seu lábio inferior com o polegar, debatendo comigo mesma o quão longe eu estava disposta a levar esse momento, o quão disposta eu estava a seguir com o que meu corpo parecia desejar tanto.

— Quando você me beija… parece que eu perco uma parte de mim mesma. — sussurrei.

Um arrepio percorreu meu corpo, quando subitamente minha mente foi invadida pelas palavras de Yong e o pensamento de que talvez eu não voltasse. Talvez eu não visse Sesshoumaru de novo.

Apenas imaginar essa possibilidade fez com que meu corpo tomasse a decisão por mim e eu o beijei. Eu não iria perdê-lo sem tê-lo uma última vez, mesmo que essa única vez fosse realmente a última coisa que eu fizesse com vida. Passei os braços em volta dos ombros de Sesshoumaru, emaranhando meus dedos nos fios prateados e suspirei contra os seus lábios, apertando-o contra mim, como se eu precisasse ter certeza de que aquele momento estava realmente acontecendo, que era ele.

Então alguma coisa aconteceu. Não comigo, mas com ele. Algo mudou, algo se quebrou, modificou-se, e eu senti quando ele finalmente correspondeu. Ele saíra da inércia. E mesmo em meio ao meu desespero, não pude conter um sorriso.

Kagome 2; Sesshoumaru 0.

Desci uma de minhas mãos pelas suas costas por dentro do quimono, sentindo seus músculos retesarem por baixo da pele. Sua boca se movia conta a minha com a mesma violência que eu oferecia, seus braços agora envoltos em minha cintura me puxando contra si. Estávamos tão próximos quanto era possível naquele momento, e, como na primeira vez, tudo o que ocupava meus pensamentos era relacionado a Sesshoumaru. Seu cheiro, seu corpo, sua presença. Tudo aquilo que formava o homem pelo qual eu havia me apaixonado. Mas ainda assim não era o suficiente. Eu queria mais, precisava de mais. Precisava de tudo aquilo que me fizesse sentir que Sesshoumaru estava ali, de que era parte de mim e principalmente, de que não deixaria nunca de sê-lo.

Mordi seu lábio inferior, puxando-lhe os cabelos da nuca, tentando afrouxar ainda mais o quimono que impedia o contato de sua pele contra a minha. Acho que Sesshoumaru percebeu naquele momento que aquilo não era um teste para ver até onde eu teria coragem de ir, pois as mãos em meu quadril tentaram me afastar e ele deixou de corresponder o beijo. Mas eu me recusava a deixar que ele se afastasse agora, eu era uma mulher com uma missão a cumprir.

Fazer com que Sesshoumaru pertencesse a mim, tanto quanto eu pertencia a ele.

Pressionei-me ainda mais contra ele, de forma que ele pudesse sentir cada curva do meu corpo, arranhando levemente suas costas até o seu peitoral. O tecido já estava frouxo contra seu corpo e nó desfeito, permitindo que eu tivesse mais acesso a pele clara.

— Sesshoumaru — supliquei contra seus lábios, sentindo todo o seu corpo enrijecer e suas garras se fincarem na minha pele sem o mínimo de delicadeza, mantendo-me no lugar. Um orgulho puramente feminino preencheu meu corpo ao ver o quanto eu o afetava.

Ele respirou fundo, cerrando o maxilar e eu podia ver como seus olhos começavam a tomar uma cor avermelhada. Sabia exatamente o que havia causado aquilo, levando em consideração que o cheiro de minha excitação estava sendo notado até mesmo por mim. Sesshoumaru fechou os olhos e eu aproveitei o momento em que ele tentava controlar a si mesmo para deixar que meus dentes arranhassem seu maxilar, suspirando contra sua pele.

Sim, sabia que eu estava jogando sujo mas como disse, eu era uma mulher em missão.

Sesshoumaru abriu os olhos vermelhos, fixando o olhar em mim. No momento seguinte seus lábios desceram contra os meus e ele puxou-me ainda mais contra si, fazendo-me sentir exatamente o quanto ele me queria.

Percebendo que havia ganhado novamente — nem sei mais de quanto estava o placar — comecei a empurrá-lo em direção ao futton e não fiquei realmente surpresa quando ele se recusou a deixar que eu o deitasse ali.

Maldito homem orgulhoso que acha que tem que controlar tudo o tempo todo.

Sorri entre o beijo, sugando seu lábio inferior enquanto deixava que minhas mãos passeassem por seu corpo, arranhando suavemente a pele de seu abdômen. Acariciando o osso seu quadril com meu polegar, desci meus lábios para seu maxilar, mordendo levemente quando o aperto em minha cintura se intensificou. Beijei-lhe o pescoço e tracei com a língua a pele sobre a linha do pulso, sentindo seus ombros enrijecerem. Existia algo infinitamente sensual na forma como seus músculos se contraíam e relaxavam sob os meus dedos, como sua respiração ficava ligeiramente descompassada, os caninos se alongavam e o vermelho dos olhos escurecia.

Era quase curioso como todas as suas reações me atraíam.

De uma maneira muito interessante, percebi que quanto mais Sesshoumaru se aproximava de perder o controle, mais meu corpo pedia pelo dele.

E a essa altura do campeonato, quanto mais meu corpo pedia, mais eu o atiçava.

Meu polegar deixou de acariciar seu quadril, descendo por dentro da calça até que meus dedos se fecharam em volta Sesshoumaru, fazendo com que um rosnado baixo deixasse seus lábios e ele involuntariamente impulsionasse os quadris contra minha palma.

— Sesshoumaru, preciso de você. — murmurei contra seu pescoço, deixando que minha mão acariciasse toda sua extensão lentamente.

Controle era algo que meu marido sempre prezou e eu me orgulhava profundamente — embora jamais fosse admitir isso para ninguém — de ser capaz de fazer com que ele o abandonasse. Então imagine minha satisfação ao perceber que essa habilidade também se estendia para o seu eu do passado.

E sim, posso afirmar isso com categoria pois no momento seguinte me descobri nua, deitada no mesmo futton em que tentei empurrar Sesshoumaru mais cedo, com seu corpo sobre o meu.

— Sesshoumaru — ofeguei sentindo meu corpo estremecer, não sabendo ao certo se pela surpresa, pelo ar frio ou pelo contato da pele dele contra a minha. Embora tenha bastante certeza que tenha sido devido a última opção.

Não houve resposta e eu não podia me importar menos pois no segundo subsequente sua boca estava contra a minha novamente, fazendo com que minha mente estivesse focada apenas naquele contato. A necessidade de respirar, inclusive, parecia absurdamente supervalorizada.

Conseguia sentir suas mãos passeando pelo meu corpo, apertando minhas coxas, arranhando meus quadris, apalpando meus seios, como se ele estivesse liberando pequenas ondas de prazer em diferentes partes do meu corpo, uma de cada vez. Sua língua acariciava a minha fazendo com que eu perdesse toda e qualquer vergonha ou inibição. E a mistura da sensação de seu corpo contra o meu fazia com que eu prendesse minhas pernas em volta de seu quadril, meus dedos se embrenhassem em seus cabelos e eu arqueasse meu corpo em direção ao dele, implorando por mais.

Sesshoumaru interrompeu o beijo, permitindo que o ar entrasse novamente em meus pulmões. Eu respirava com dificuldade, e tinha a ligeira desconfiança de que tinha perdido o comando de meus membros, pois meus dedos se recusavam a largar os fios prateados do cabelo de Sesshoumaru. Com a ponta das presas aplicando uma pressão que com certeza deixaria marcas, ele delineou a pele do meu queixo, pescoço e ombro, depositando uma mordida na junção entre os dois, fazendo com que um arrepio percorresse meu corpo. O contorno da mordida ficaria marcado e se eu dissesse que me importo, estaria mentindo.

Eu sabia que para aquele Sesshoumaru, controle era uma grande parte do que o satisfazia naquele momento, a forma como eu respondia ao seu toque, o domínio que ele tinha do meu prazer. Ele estava me provocando da mesma forma que eu o fiz minutos antes: mordendo, acariciando com os dedos, com a língua, com as unhas. Como se tentando mapear e aprender todos os detalhes, todas as minhas reações a cada gesto dele — estava dando o troco, e para Sesshoumaru, vingança era um assunto levado muito a sério, especialmente quando ele se beneficiava dela.

Ele brincou comigo até que eu estivesse suada e implorando por ele, implorando para que ele permitisse o meu orgasmo. E eu estava. Podia sentir todo o meu corpo formigando, minha respiração pesada e minha pele estava tão sensível que cada toque, por mais suave que fosse, me fazia tremer. Eu queria Sesshoumaru. Precisava dele e precisava agora.

Com a mão que estava entrelaçada a seus cabelos, o puxei para cima até que seus olhos estivessem na altura dos meus e minha testa estivesse colada a dele.

— Preciso de você. — disse entredentes. Irritada, frustrada e, principalmente, excitada — Agora.

No instante que seguiu a minha frase, Sesshoumaru tinha me virado, deixando-me apoiada nas mãos e joelhos. Literalmente, de quatro. Ofeguei, esperando pelo contato que tanto desejava, mas ele não fez nenhum movimento para me dar aquilo que eu queria.

Grunhi olhando por cima do ombro, empurrando meu quadril para trás, apenas para ter o infeliz apertando minha cintura para me manter no lugar e me analisando com os olhos semicerrados. Algumas semanas atrás, eu teria ruborizado alguns muitos tons de vermelho com vergonha por estar nessa posição, tão vulnerável a ele, mas naquele momento eu estava muito além do ponto de me preocupar e, por deus do céu, o maldito ainda não tinha se livrado da porcaria da calça do quimono.

Deixei que minha cabeça pendesse e uma súplica deixasse os meus lábios.

Tive a impressão de ouvir o riso dele, mas minha mente ficou vazia pois sua língua entrou em contato com a minha pele, superaquecida devido a excitação, seguindo a minha espinha dorsal, deixando um traço molhando desde a base da minha coluna até a minha nuca.

Um soluço escapou de meus lábios devido ao contato e os músculos de minhas costas se contraíram com tanta força que chegou a doer.

— Sesshoumaru — ofeguei.

Seus dedos longos se embrenharam em meus cabelos, puxando-os até que meu pescoço estivesse arqueado em sua direção e minhas costas estivessem coladas a seu peito, conseguia senti-lo próximo a minha entrada, já liberto do tecido, mas novamente ele não fez nenhum movimento para me penetrar. Ficou imóvel, e, com uma das mãos em meu quadril, me impedia de me mover em sua direção.

Meu corpo inteiro queimava, pedia. Eu queria gritar de nervoso.

Senti seus lábios na pele de minha orelha, seguida pela voz grave fazendo com que todo o meu corpo estremecesse.

— Implore mais uma vez. — ele comandou, fazendo o traçado da minha orelha com a língua — Suplique para que eu te coma como se deve.

Cretino. Sádico. Gostoso.

Eu queria poder dizer que meu orgulho me impediu, que eu levantei e saí do quarto, deixando Sesshoumaru excitado e nervoso. Queria dizer que saí e resolvi o problema com minhas próprias mãos. Mas a quem eu quero enganar? Só a voz dele fez com que meus joelhos se transformassem em gelatina e meu corpo esquentasse.

— Por favor. — pedi com a voz rouca — Por favor, Sesshoumaru.

E ele aquiesceu meu pedido. Logo ele estava dentro de mim, fazendo com que fosse impossível que eu contivesse um gemido. Dois. Três. Incontáveis.

Não havia nenhuma delicadeza na forma como ele se movia contra mim, uma de suas mãos no meu quadril me trazendo contra ele, mantendo o ritmo que ele tinha designado, enquanto sua outra mão passeava pelo meu corpo, acariciando, apalpando, lançando choques de prazer em cada centímetro de pele que tocava. E eu não tinha como reclamar, minha mente, como todas as vezes em que Sesshoumaru me tocava, estava completamente focada nele. Nele e no prazer que ele me proporcionava.

Todas as células do meu corpo queimavam. Naquele momento eu só era capaz de enfiar as unhas no travesseiro, rasgando o tecido fino e pedir por mais, repetindo o nome de Sesshoumaru como um maldito mantra.

Percebi naquela hora que toda e qualquer parte de mim pertencia a ele, passado presente ou futuro e Deus como eu o amava. E mesmo que nesse momento ele não soubesse disso ou correspondesse, não importava. Mesmo que fosse a última vez, ele me tinha, e eu a ele.

Meu corpo tremia, minha pele se arrepiava e todos meus músculos se contraíam, eu estava tão tão perto. Até que as presas de Sesshoumaru se fecharam em meu pescoço, e os meus nervos finalmente entraram em frenesi. Era como se alguém tivesse jogado um saco de balinhas de gelatina em um balde com cloreto de potássio aquecido.

Senti o clímax de Sesshoumaru pouco depois do meu e sua língua acariciando lentamente o local em que seus dentes haviam estado. Todos os meus músculos relaxaram e eu deixei que meu corpo cansado caísse contra o futton macio.

Sesshoumaru pressionou sua boca contra a minha uma última vez, mordendo meu lábio inferior. Suspirei, fechando os olhos e com um sorriso satisfeito permiti que minha mente se desligasse, caindo numa agradável inconsciência.


Uma presença fez com que eu acordasse, apesar de estar dormindo tão profundamente. Hideo. Sesshoumaru. A presença que eu sentia era deles, mas não conseguia senti-las separadamente, mas unidas, e isso por algum motivo me deixou apavorada.

Sentei-me no futton. Nua, tremendo — e não de frio. Meu corpo inteiro estava dolorido e a pontada de desconforto que senti ao tentar olhar em volta me indicou que a mordida que eu tinha recebido de Sesshoumaru ainda não tinha se curado.

Ele não estava no quarto. Nesse momento em específico percebo, com desconcerto, que sinto uma necessidade visceral da presença de Sesshoumaru, como se isso de alguma forma desse para mim algum espaço para respirar e pensar no que estava acontecendo com relativa segurança.

Mas ele não estava lá. E o Sesshoumaru que poderia estar comigo, naquele momento, sequer tinha intenção real de me proteger. Eu estava sozinha, munida apenas dos meus sentimentos, e eles teriam que ser suficientes por ora. Sem saída, levantei-me, vestindo-me apenas com uma yukata, percebendo que era mais sábio procurar por Sesshoumaru se eu quisesse descobrir o que estava acontecendo.

Saí do quarto e, no corredor, encontrei Inuyasha.


METEÇÃO DE BEDELHO (pq aparentemente não teve meteção o suficiente durante o capitulo) DA NYADC: Eu queria agradecer a Academia, a mamãe por ter me feito assim tão linda, a soulmate que se rebela contra si mesmA, as manas e toda aquela pornografia que eu leio e que me permitiu estar aqui neste momento. Escrevi praticamente sem ser mandada/ameaçada/chantageada (a palavra chave é praticamente, né Mary?), sério galera estou evoluindo como ser humano hahaha. Apreciem o capitulo que nós trabalhamos duro pra pensar nele . Bjs de luz Ps: dps mando o número da minha conta pra vcs me agradecerem como mereço - sim, com dinheiro. Ps2: DE NADA

LADIE

EU NÃO CONSIGO DEIXAR DE SURTAR

TE AMO NYARA