Capítulo LXXXI — Inner

Eu percebi que estava ali. Só que essa descoberta ocorreu suavemente, provocada não pelo fato de eu ter sido jogada naquele lugar, mas pela presença de um estranho que me fez ter conhecimento de mim mesma.

Para dizer a verdade, eu sempre estive ali.

Só que até aquele momento em questão, eu era apenas uma massa disforme que se estendia e se retraía sem ter consciência dos meus limites. Com ele, reconhecer o fim da criatura que eu era se tornava mais fácil. Reconhecer o mundo a minha volta se tornava necessário.

Encarei a figura alta que me observava calmamente. Cabelos negros. Olhos azuis. Sorriso gentil. Uma barba magnífica.

— É hora de acordar, filha. — meu pai disse enquanto eu arregalava os olhos e estremecia diante do tratamento.

— Oi, pai. — cumprimentei sem saber como reagir. Então olhei em volta, para a escuridão. Um sentimento ruim tomou conta de mim. A sensação de já ter estado naquele lugar, de ter sofrido naquele lugar, de ter perdido algo importante naquele lugar. A sensação de ter voltado dez anos no tempo e estar presa no interior da Joia de Quatro Almas. O desespero de quase ser engolida pela escuridão, de esperar que Inuyasha me alcançasse, de destruir a Joia e ser jogada para a minha era sem uma despedida. Encarei meu pai, apavorada. — Por que estamos aqui?

— Ah. — foi o som confuso que ele deixou escapar, enquanto olhava em volta também — Eu estou aqui porque você está. Você está assustada por estar dentro da sua própria mente, menina?

— Na minha… mente?

— Sim, sua mente... Para ser sincero, lembra muito a do seu irmão, um grande vazio com pensamentos desconexos, o que gera uma carga grande de atitudes impulsivas.

Encarei-o, ainda mais chocada.

— Espera apenas um segundo… — ergui uma das mãos, fazendo com que ele me encarasse — Se esse lugar é a minha mente… O que exatamente o senhor está fazendo aqui?

— Ah. Sabe como são as coisas, não estava fazendo coisa alguma então vim aqui dar uma volta. — ele olhou despreocupado ao redor, em seguida sorriu me encarando. — Vim cuidar de você, minha criança.

— Cuidar de mim?

— Sim, impedir que você faça algo estúpido, como, por exemplo, aceitar que morreu... Isso seria realmente bem idiota, ainda mais com um tengu tão lindo quanto seu pai aqui para convencê-la do contrário.

— Vamos mais devagar... O que você quer dizer com "aceitar que morreu"?

— Tão lenta quanto seu irmão. — ele suspirou. — Aconteceram umas coisinhas e, no final, tudo saiu do controle, mas agora está tudo certo, só preciso que você volte comigo.

Então lembrei o que tinha acontecido. As garras negras se fechando, a escuridão. Fechei os olhos, lembrando da sensação vívida das garras rasgando as minhas costas e compreendendo.

— Eu… — soou a voz embargada do meu pai. Ergui os olhos e encarei a expressão de dor dele — Meu objetivo era Sesshoumaru. Não senti que você estava no local, mas quando... quando eu vi... Eu nunca vou me perdoar.

Minha primeira reação foi tentar consolá-lo, mas percebi que ele não precisava que eu fizesse isso. Não ajudaria.

Só que eu não queria que ele vivesse com o sentimento de culpa.

— Pelo menos impediu que vocês se matassem? — questionei.

Ele me encarou por alguns segundos e coçou a barba.

— Acho que eu poderia dizer que sim… Nós dois ficamos tão chocados com o que aconteceu… Eu simplesmente não conseguiria lutar depois de ver que eu tinha machucado a minha própria filha. A dor que eu senti… — Ele fechou os olhos com força e respirou profundamente — Vou precisar de mais que litros de saquê para conviver com ideia, se eu conseguir aceitar.

— Meu pai se torna um bêbado... Ótimo, que exemplo, hem?

Ele sorriu, notando que tentava consolá-lo de alguma forma.

Então deixei o queixo cair:

— Você sabe que eu sou sua filha?!

Ele ergueu as sobrancelhas e ficou me encarando com essa expressão por alguns segundos, antes de cair na gargalhada.

— O senhor está rindo? — perguntei cruzando os braços contrariada.

— Desculpa. — ele pediu ainda rindo — É que você é tão transparente, era impossível que eu não soubesse… Minha criança, a primeira lição que você precisa aprender sobre o seu maravilhoso pai é que eu sempre sei tudo.

— Sei, então o senhor-sabe-tudo pode me explicar como está dentro da minha mente? — Eu queria perguntar desde quando ele sabia, mas meu orgulho impediu que eu perguntasse.

— Os sonhos, minha criança, são o verdadeiro território dos tengus. — Foi a resposta arrogante. — Somos senhores do inconsciente. Essa é outra coisa que você precisa aprender.

— Por um momento eu fiquei cogitando se o senhor não seria fruto da minha imaginação… — admiti em um murmúrio.

— Nem eu mesmo posso garantir que não sou. Hayate tinha uma teoria sobre isso. Ficava se perguntando se não éramos todos nós frutos da imaginação de alguém. — ele coçou a barba de novo. — Se alguém me imagina, tenho que dizer que o bom gosto desse ser me agrada.

E com isso ele me fez lembrar de Hayate e foi impossível manter a expressão impassível. Baixei os olhos.

— Eu sinto muito pelo Hayate. — sussurrei.

Um longo silêncio se estendeu, enquanto papai parecia me observar mais uma vez.

— Eu também sinto. — soou a voz dele perto de mim. Quando voltei a olhar para ele, percebi que estava acocorado exatamente a minha frente e que me esperava com um sorriso. — Mas não culpe Sesshoumaru pelo que aconteceu. Por mais que uma parte de mim esteja sangrando por ter perdido o meu amigo, outra parte está agradecida por Sesshoumaru tê-lo impedido.

— O que o senhor quer dizer?

Ele acariciou o alto da minha cabeça.

— Você vai entender quando for mãe.

Eu só pude ficar calada diante desse comentário doloroso.

Eu tentei negar de tantas formas os meus desejos. Usei tantos argumentos para calá-los. E agora eu sabia que essa era uma das coisas que mais doía deixar para trás. Aquela pequena probabilidade de poder ter uma criança, uma parte que fosse minha e de Sesshoumaru, uma criatura para quem eu pudesse transferir todo o amor que eu sentia por ele.

Engoli em seco. Pensar nisso agora não iria ajudar. Mesmo que eu estivesse viva, seria improvável ter um filho de Sesshoumaru, então era inútil fantasiar com isso.

Meu pai encarou as minhas mãos e eu fiz o mesmo, percebendo que, na verdade, eu não podia enxergá-las.

— Não, Kagome. — Meu pai soou desesperado — Por mim, não aceite.

— O quê?

— Não se atreva a desistir. — ele ameaçou, como se de alguma forma fosse me castigar por fazer algo que ele tinha proibido.

— Eu não estou desistindo. — afirmei — Eu sempre soube que seria assim…

Ele me encarou.

— Tem que haver algo que prenda você. — Ele segurou minhas mãos e eu percebi que não me recordava como elas se pareciam. Por mais que eu tentasse, eu começava a me esquecer de como seria ter um corpo como o dele. Eu me sentia como um corvo. — Você disse que amava Hideo…

— Hideo. — repeti o nome. — Sim, eu o amo. Amo Hideo e Daiki.

— Então tente ficar por eles. — pediu.

Eu só conseguia me concentrar em como seria voar. De repente, eu realmente queria ter asas e a voz de papai impedia que eu as alcançasse.

— Hideo tem a Aika. Daiki vai ser pai. — expliquei — Eles vão ficar melhor sem mim. Desde o começo, eu arranjei problemas para os dois.

— Então fique por Sesshoumaru. — ele implorou. Mas ele já soava longe demais. A voz dele estava escapando da minha percepção consciente.

— Eu não posso voltar. — sussurrei, sentindo que eu já não podia me prender a ilusões e a única coisa que eu poderia dizer eram verdades, mesmo que fossem as mais obscuras — Ele vai me amar porque morri por ele. Se eu voltar, vou perdê-lo.

Sim. Eu não queria que ele fosse feliz depois que eu morresse. Eu era egoísta e queria que ele sofresse e que sentisse minha falta, pois essa era a única prova dos sentimentos dele que poderiam existir. Eu não era altruísta. Quando me sacrifiquei, eu o fiz com o pensamento de que os dois me amariam por fazê-lo.

Eu mereço ser um corvo.

— Se ele a amar, vai odiá-la por desistir.

Encarei meu pai. Ergui as pontas das minhas asas e segurei seu rosto entre elas. Encarei os olhos azuis que eu havia herdado. Eu o amava. Precisava que ele soubesse disso.

— Então esse vai ser o nosso segredo… — pedi.

Eu era um corvo e, depois de me esperar por dez anos, a escuridão finalmente me teve.


Kagome.

Yong. O reconhecimento foi imediato. Um corvo não camufla os sentidos. As coisas são o que são.

Estou lhe dando mais algum tempo.

Por quê?

Porque preciso que você viva.

Por quê?

Porque todos vieram a esse mundo para aprender a ser humanos. Inclusive eu.

Isso não faz sentido.

Claro que faz. Só uma mulher é capaz de controlar um tirano, lembra?

Está falando de Sesshoumaru?

Não… Estou falando de mim mesmo. Kagome?

Sim?

Respire.


Abri os olhos e enchi os meus pulmões de ar.

Eu estava viva. Cada músculo que queimava com o movimento repentino afirmava esse fato. Eu estava viva!

Olhei em volta, percebendo que estava na casa do meu pai no Monte Kurama.

Eu vi meu pai. Eu vi Sesshoumaru segurando a Tenseiga. Eu vi uma mulher de cabelos prateados me encarando com expressão emocionada.

Então minha visão escureceu. Senti a sensação já conhecida de ser jogada no tempo de volta para a minha era. De não poder me despedir. De deixar todos para trás.

Encolhida, no fundo do poço, a única coisa em que eu conseguia pensar era: de novo não.


Ladie

Sim, adiantei o capítulo divamente, porque se a Fkake pode ser vida louca, eu também posso!

MUAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Isso significa que eu adiante o apocalipse em um dia. Tsc.

Anyway, quem aí tá querendo matar a gente?

Então vou dar mais um motivo: faltam três capítulos.

E no próximo, é a última vez que Sesshoumaru e Kagome têm algum tipo de interação direta na história.

Então, comecem a se despedir.

Eu sei eu sei a gente tá chorando pra caralho tb.

MARY, VEM PARA A MINHA CAMA, SAVAGABUNDA!

Beijos lascivos e cheios de segundas intenções da Ladie