Capítulo LXXXII — Deboísmo
Eu havia sido jogada de volta a minha época de forma tão brusca que meu corpo ainda tremia com o impacto emocional. Mesmo após alguns segundos, eu ainda não tinha conseguido me mexer e minha mente parecia a ponto de colapsar em meio a tarefa de tentar absorver que eu tinha sido salva e jogada quase dois séculos no tempo no segundo seguinte.
Repirei fundo uma, duas, três vezes. Então ergui uma das mãos e a apoiei na parede do poço. Eu precisava sair dali. Eu precisava. Só não tinha juntado forças suficiente para realizar a tarefa.
Por sorte, não foi preciso que eu escalasse até o topo. Senti que alguém saltou ao meu lado e, ao erguer os olhos, dei de cara com Daiki. Minha mente estava uma bagunça, então a única coisa que pude fazer foi permitir que ele colocasse um braço em volta da minha cintura e me tirasse dali.
A primeira coisa que eu vi foi Hideo me encarando com as duas sobrancelhas praticamente unidas, de tão vincada de preocupação que estava a sua testa. Ergui uma mão para ele, a qual ele apenas segurou enquanto eu respirava fundo e tentava raciocinar.
O que tinha acabado de acontecer?
Levei minha mão livre até o meu peito, procurando algum sinal de que aquilo tudo tinha acontecido. Nada. Nenhum ferimento que provasse que tive meu corpo dilacerado por garras. Mas eu não estava louca. O meu pingente em formato de pena também não estava comigo. Olhei para o meu corpo e observei a yukata negra que eu estava usando. Tinha o cheiro do meu pai.
Aquilo tudo tinha acontecido e eu estive a beira da morte, então, como eu…
Ergui os olhos e encontrei os dele.
Sesshoumaru estava parado na entrada do galpão do poço. Se não o conhecesse, eu não teria percebido como ele me estudou e pareceu aliviado ao ter certeza de que eu estava bem.
Tinha sido ele.
Não sei por que o Sesshoumaru do passado faria algo assim, mas fora ele que me salvara. Independente dos meus desejos, ele me arrastara para a vida usando a Tenseiga. E isso... Isso era...
Dei um passo na direção dele, mas fui interrompida com a exclamação nervosa de Daiki:
— Essa foi a gota d'água! — Ele parou a minha frente, obrigando-me a encará-lo — Dessa vez ninguém sai daqui até me explicar que merda aconteceu! Porque é óbvio que o idiota e o Hideo sabiam! Até a bola felpuda do sul parecia saber o que estava acontecendo! Eu não vou ser o único a não fazer ideia de como minha irmã desapareceu e deixou todo mundo preocupado! Quero explicações! E é agora!
Olhei em volta e percebi que Shippou também estava ali. O meu amigo me encarava com uma expressão confusa, de quem não compreendia o que estava realmente acontecendo, mas sorriu para mim quando o encarei. Então ele se aproximou de nós e olhou para Daiki enquanto dizia:
— Não fique assim, pegue um gibi e vai lá no cantinho, os adultos conversarão aqui. — Shippou recebeu um olhar ameaçador do meu irmão.
— Daiki. — Segurei a manga de sua camisa. — Por favor.
— O que aconteceu? — ele me questionou ignorando o comentário da raposa velha.
— É complicado demais para ser explicado aqui.
— Não vou deixar você sair daqui até que me conte tudo o que está acontecendo. — Ele aspirou o ar lentamente arregalando os olhos. — Você está cheirando a saquê e argila... Só existe um ser que tem esse cheiro. E não tem como você ter estado com ele. — Então ele franziu as sobrancelhas — Teria?
— Bem, sim. Eu estava com ele.
— Como?
— Por isso disse que é complicado de explicar. — suspirei, mas sabia pelo olhar dele que não sairia de lá até dar uma resposta convincente.
Daiki segurou meu braço e me forçou a sentar no degrau da escadaria que levava para fora do galpão, suspirei e o observei sentar ao meu lado.
— Estava mesmo com o papai?
— Estava, mas não estava com ele nessa época.
— Esse poço do Voldemort lhe levou para alguma realidade alternativa onde papai está vivo e sambando na cara de todos enquanto dá gritos de vitória por ser o maior tengu que surgiu nesse Japão?
Ergui a sobrancelha entreabrindo os lábios, como ele havia chegado àquela conclusão?
— Chega de Marvel para você.
— Sempre terei a DC.
Rolei os olhos.
— Para que época esse troço do capiroto lhe levou? — ele questionou.
— Você ainda não existia...
— Então não foi uma boa época. — ele abanou a mão em um gesto de descaso.
— Direi que foi a melhor. — respondeu Hideo rolando os olhos. — Deveria ter dito ao nosso pai que ele estaria muito bem servido de apenas um filho e uma filha.
Encarei Hideo, estreitando os olhos.
— Você não está muito tranquilo? — perguntei. Acho que tinha esperado uma reação diferente dele, levando em consideração como ele e papai pareciam se dar tão bem. Com certeza era chocante para Hideo saber que eu estive com o nosso pai.
Ele me encarou com um sorriso nervoso.
— Quando eu a encontrei em Kyoto há alguns meses… eu reconheci o seu cheiro. — ele me explicou, enquanto suspirava — Nós nos encontramos naquela época, não foi? Na casa de Akibadai?
Apenas sorri, lembrando de como tinha sido engraçado observar a discussão dele com papai na casa das gueixas. Eu queria dizer para ele como me orgulhava de quem ele tinha se tornado, mas só observei enquanto ele coçava a nuca.
— Papai podia ter me contado…
Daiki olhou para nós dois por algum tempo.
— É assim? — ele reclamou. — Sou o irmão rejeitado? — Daiki se levantou e começou a subir os degraus. — Está certo. Fiquem aí se amando, eu vou atrás de um irmão de verdade... SOUTA!
O observei se afastar balançando a cabeça e sorrindo; aquela era a forma dele de dizer que me daria um tempo para conversamos depois.
Voltei minha atenção para Shippou quando ele parou ao lado do poço, encarando-o com uma expressão séria. Nós dois realmente precisávamos conversar. Ele, mais do que meus irmãos, precisava saber o que tinha acontecido. Só que havia outra pessoa com quem eu queria conversar antes de qualquer outro.
Voltei minha atenção para a porta… e Sesshoumaru já não estava mais lá.
Preferi não contar para Daiki e Hideo que eu tinha quase morrido. O resultado foi que Daiki me alugou pelo resto do dia e eu tive que me esforçar muito para não demonstrar como estava exausta. Eles não precisavam que eu os preocupasse mais.
Só consegui fugir do meu irmão sob a alegação de que precisava conversar com Shippou. Por isso, pedi para que Dmitri desse uma carona à raposa pervertida até o apartamento dele, mas, quando tentei iniciar a conversa, o meu amigo achou que seria melhor deixá-la para outra hora.
A única coisa que ele fez foi me abraçar.
Eu não sei o que aconteceu comigo naquele momento. Antes que eu percebesse, estava chorando abraçada a Shippou e nem sabia o porquê. A única coisa que eu era capaz de compreender era que havia uma pressão enorme no meu peito que não iria ceder, a menos que eu chorasse ao ponto de extinguir a minha força.
Eu deixei meu pai para trás.
Mais uma vez, fui jogada para essa Era apenas para encarar uma realidade onde uma pessoa amada estava morta.
Então eu chorei por outra despedida que me foi negada.
Dmitri e eu esperamos que Shippou entrasse no prédio onde ficava o apartamento dele. Depois, o meu guarda-costas avisou que estaríamos indo e fiquei feliz em estar calma o suficiente para responder sem ter alguma alteração no tom da minha voz.
Respirei fundo e segui com Dmitri até o carro, ele realmente é uma ótima companhia quando você quer silêncio e pôr a cabeça em ordem, mas não quer fazer isso encolhida em posição fetal sofrendo de autopiedade.
— Aonde estamos indo? — questionei finalmente, notando que não fazia a mínima ideia de onde estávamos. Como ele não respondeu, esmurrei seu ombro, apenas para receber um olhar de advertência. — Você é alguma espécie de maníaco? Eu tenho spray de pimenta.
Ele sorriu e ignorou os meus comentários.
Recostei-me contra o banco do carro e fiquei observando as lojas passarem.
— Alguma novidade sobre os yaoguais? — perguntei sem desviar o olhar da janela — Como as coisas estão?
— A senhora poderá agir em breve. — ele olhou para mim pelo retrovisor — Estamos negociando por um local neutro para que você possa se reunir com Hu. Eles não querem interferência dos Senhores, então nós teremos que ir sozinhos.
— Hideo e Shippou aceitaram isso tranquilamente? — questionei.
— Eles não sabem ainda. — Então ele deu uma risada e eu fui obrigada a observá-lo surpresa — Espero que o senhor Kazuki deixe-me dar a notícia ao Senhor do Sul.
Balancei a cabeça e decidi não interferir na rivalidade desses dois. Era mais divertido olhar de camarote, de qualquer forma. A única coisa que eu desejava era que eu pudesse encontrar Yong para dar umas bifas naquele desgraçado. A possibilidade já me deixava com um humor bem melhor.
Pensei em perguntar a Dmitri sobre Sesshoumaru, mas reneguei a ação em pensamento de forma abrupta, sentindo meu estômago queimar de nervosismo instantaneamente. Eu estava evitando pensar nele. Na verdade, estava evitando pensar sobre qualquer coisa. Acho que tenho medo de tentar entender o que significava o fato de Sesshoumaru ter ido embora logo depois de eu ter voltado.
Talvez ele…
Talvez nada, Kagome. Maldição, ninguém pode de fato querer que eu vá enfrentar alguma questão existencial depois de reviver e ser jogada um século e uns centavos no tempo. Eu não precisava disso agora.
— Na cobertura. — disse Dmitri, tirando-me do meu torpor. Olhei para o espelho retrovisor e encarei os olhos azuis dele, perguntando silenciosamente o que ele queria dizer. A única resposta que eu tive foi o aceno vago indicando o lado de fora do carro, então encarei as portas do edifício de luxo na frente do qual estávamos parados.
Certo. Cobertura. Entendi.
Geralmente o motorista abriria a porta, mas Dmitri já estava em outro nível... Para ser mais específica, no nível: levante a sua bunda daí e saia do carro antes que eu tenha que lhe arrastar para fora.
Mensagem compreendida. Então, saí do carro e segui em direção ao edifício.
Espera... Esse é um prédio residencial... E ele disse cobertura...
— Boa noite, senhora Taisho.
O porteiro me cumprimentou.
Sesshoumaru não fez isso.
Ao sair do elevador e me deparar com Kazuki na porta com um sorriso calmo, eu percebi que meu marido realmente havia comprado um apartamento... sem me consultar!
Nem preciso dizer que entrei bufando e comecei a caçar aquele cão por toda parte. E isso incluía uma sala bem decorada, uma cozinha cromada, uma sala de jantar ridiculamente pomposa e uma biblioteca de mídia que me deixou de queixo caído.
Eu só fui encontrá-lo no quarto que tomava todo o andar de cima. Não me prendi nos detalhes do ambiente naquele momento, apenas no homem trajando terno e seu costumeiro olhar de indiferença.
— Como você pode comprar um apartamento sem me perguntar?!
— Não sabia que você era corretora de imóveis. — declarou cinicamente.
— Sesshoumaru... — estreitei os olhos para ele, muito nervosa — Era importante para mim escolher com você.
E era verdade. Eu tinha criado todo um plano em volta da compra do apartamento, que envolvia a tentativa de negociar uma lua de mel decente e finalmente dar algum uso a um monte de lingeries sensuais que eu tinha escondido no closet.
— Pois bem. Vou pôr à venda. — anunciou, andando até uma janela gigantesca e parando na frente dela.
Respirei fundo. Como você briga com alguém que simplesmente resolve chutar o pau da barraca?
Maldito.
Meu desconcerto foi tanto que finalmente pude me acalmar e olhar ao redor... Duplamente maldito! O quarto é lindo! Totalmente diferente do estilo espartano costumeiro, com direito, além da cama, a uma decoração aconchegante, estofados, papeis de parede em dourado fosco, abajures em tons pasteis, uma estante de livros que tomava toda uma parede e uma mesa de trabalho.
Segui até a porta de vidro que separava o quarto da varanda e a abri, deparando-me com um jardim e uma piscina de horizonte infinito que parecia se misturar à incrível vista das luzes de Tóquio contra a noite amarronzada. Era realmente magnífico.
Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha quando o vento gelado atingiu meu rosto, fazendo minhas bochechas pinicarem. E eu amei o frio naquele momento, porque me lembrou que eu estava viva e ali.
— Kazuki, fale com o corretor e cancele a compra. — ouvi Sesshoumaru dizer atrás de mim. Virei-me para ele, com olhos arregalados. Ele não se atreveria!
Tomei rapidamente o celular de meu marido. Ele ergueu uma sobrancelha, enquanto eu falava rapidamente para Kazuki:
— Não será preciso. Apenas ignore o Sesshoumaru. — então desliguei e coloquei o celular de Sesshoumaru em cima de uma das espreguiçadeiras que estavam na varanda.
— Você muda de opinião muito rápido.
— Esqueça. — suspirei. — É lindo. Meu marido Kazuki tem bom gosto.
Ele ficou em silêncio, irritado com o meu comentário. Então olhei para Sesshoumaru — mas não como eu fiz tantas outras vezes, dessa vez eu realmente estava olhando para ele.
Naquele momento, eu não entendia como pude aceitar que o perderia.
Não, mais que aceitar, eu tinha me convencido de que o perderia. De tal forma que mesmo depois de ter sido jogada de volta ao meu tempo, eu estava esperando que alguma coisa acontecesse. Estava tão apavorada que me recusava a acreditar que tudo estava bem.
Uma parte de mim ainda não era capaz de confiar nos meus sentidos, mas não era algo que mudaria de uma hora para a outra, precisaria de incentivo e tempo para me acostumar com o fato de que eu ainda tinha uma vida toda pela frente. Uma vida ao lado dele.
Acho que era isso que aquele apartamento significava. Era o nosso recomeço, só que dessa vez com todas as cartas na mesa. Agora que eu sabia sobre tudo, eu percebia como, de uma forma muito doente, Sesshoumaru havia me preparado para amá-lo. E que eu talvez tivesse feito a mesma coisa com ele.
Engoli em seco e tentei dizer para ele o que eu sentia. Eu nem sabia por onde começar. Por que você me salvou? Você sempre soube. Eu tenho tantas perguntas. Eu te amo. Eu estava tão apavorada que tentei dizer a mim mesma que eu seria capaz de me sacrificar por você, mas a verdade era que eu preferia morrer a perdê-lo. Eu sou covarde e egoísta, mas quero ficar com você até quando me for permitido, e eu tenho medo de que você não queira.
No entanto, o único som que eu consegui produzir foi um gemido frustrado. O frio aumentava conforme o silêncio se prolongava, quase como se me lembrasse daquilo que eu não podia esquecer: que estava ali. E, se era assim, era porque Sesshoumaru fizera ser possível. Ele quisera que eu estivesse exatamente onde eu estava.
Então todo o medo se desintegrou.
Eu sabia a verdade, e não precisava que Sesshoumaru me dissesse. Porque, para ele, não existia meio-termo. Ou ele não se importava... ou se importava.
Senti os braços dele me envolvendo e fiquei rígida sem perceber, surpresa com o contato. Demorei alguns segundos para absorver o que ele tinha feito e respirei fundo, encostando meu rosto contra o peito de Sesshoumaru e ouvindo o som do seu coração. Um lembrete de que ele tinha um. Então eu o abracei também, fechando as mãos em punho no tecido da camisa dele e percebendo que o cheiro estava finalmente certo: o dele mesclado com o meu.
O frio foi finalmente afastado, mas eu já não precisava dele, pois tinha Sesshoumaru para me lembrar que estava viva.
Sorri devagar.
Qualquer pergunta poderia esperar. Por ora, eu só queria saborear aquela estranha sensação de que cada coisa na minha vida havia se encaixado para que aquele momento acontecesse.
Esse era o primeiro dia do resto da minha vida. Afinal, depois de cada fim, existe um início. Este, em especial, envolve uma hanyou com a incrível habilidade de fazer escolhas idiotas, um youkai cretino e esse Grande Irônico chamado destino que fez com que os dois se apaixonassem.
Fkake
A primeira regra do clube da luta, é não falar sobre o clube da luta.
Enfim, e aí galera, ultima cena do Sesshoumaru e Kagome juntos, lidem com isso... pois eu não estou sabendo lidar e quero apoio emocional do povo, pois olha... ta difícil essa situação de termino de uma fic, nem para terminar namoro eu sofri tanto, serio. E olha que minha ficha nem caiu completamente ainda, quero só ver quando samerda despencar.
Foram três anos e foram apenas dois capítulos para concluir completamente tudo e sei que vai ficar com aquela coisa de segunda tempora e tal, mas, vey, não podemos fazer isso, por mais que quissemos, uma segunda tempora poderia estragar todo o plot bem trabalhando desamerda, sinceramente, tenho muito a agradecer a Ladie, afinal, ela que é encarregada de fazer tudo se encaixar perfeitamente, meldels, como pode ser tão gênio assim?
Sério, essa fic nunca teria chegado a onde está se eu realmente fosse a escrever sozinha como a Ladie queria, felizmente saputa aceitou fazer a fic comigo e ainda há essas lindas vagabas em minha vida que ajudaram em boa parte da fic com cenas e opiniões.
Quando digo que meu circulo de amizade é melhor, não estou mentindo.
Agradeço muito o apoio de todos que estão conosco nesses três anos e aos que vieram depois e estão ai, firmes e fortes, você realmente nós deram aquela vontade a mais de escrever e terminar, pois sempre queríamos ver a reação de todos aquela determinada cena feita.
Beijos da tia e comentem seusputos!
