Capítulo seis: O primeiro mês de Sakura
Por Kami-chan
– Itachi...Vem... – Sussurrou a voz adocicada.
O moreno andou pelo vale encoberto por um nevoeiro, seguindo o som da voz que chamava quase como se fosse apenas o sussurro de um eco. Não podia ver o rosto dela, pois ela caminha em direção à sombra em passos largos, apenas sentia um anseio incontrolável de alcançá-la.
Precisava tocar na pele da mão e braço que o hipnotizavam enquanto a voz doce não se cansava de chamar por seu nome. Precisava agarrá-la, segurar de forma firme para ela não mais se afastar de si.
Dentre a névoa, tudo o que conseguia ver era nuvem rósea que cercava a região de sua cabeça. Rosa claro, fonte do nome de flor que carregava. A voz do chamado assumiu um tom manhoso imediatamente após a identidade dela ser reconhecida.
O vale e o nevoeiro sumiram totalmente, havia apenas as sombras e o corpo dela sobre os lençóis negros de sua cama. A capa negra da organização aberta caindo pelos ombros e os braços escorados no colchão, suas pernas estavam entreabertas convidando-o, chamando na mesma voz cheia de manha.
Não pensou duas vezes antes de ceder ao pedido dela. Colocou-se entre suas pernas, queria tanto tocá-la e assim o fez. Uma mão em sua cintura e outra em seu pescoço como uma forte garra, seus lábios seguiram o mesmo caminho por instinto, queria tanto poder ver a beleza daquela pele tão macia ao seu toque.
Queria sentir como pele e músculos responderiam ao aperto de seus dedos e ver a expressão em seu rosto que permanecia na sombra. Mas seu desejo ficaria apenas naquele mundo nublado de visões irracionais, impedindo o moreno de fazer as suas descobertas ao ser acordado pelo som alto e apressado de batidas em sua porta.
– Kuso. – Praguejou baixinho ainda sonolento.
Havia alguns dias que tinha seus sonhos invadidos pela medi-nin de cabelos cor de rosa. Nunca foi capaz de ver seu rosto, mas sabia que era ela, pois sempre sentia seu cheiro e reconhecia a textura em sua pele. Não precisava vê-la para senti-la.
Tudo aquilo era muito confuso. A presença diária e contínua daquela menina em sua vida estava o atordoando, Sakura ainda estava no processo de exames consigo. Este processo exigia muito toque e muitas explicações sobre cada procedimento.
A menina assumia um posto fisicamente muito perto de si, e isto o fazia sentir e ler claramente a forte energia que vinha dela. Mesmo que apreciasse demais o silêncio, ouvir as explicações técnicas sobre o que ela fazia era agradável.
A forma como ela explicava estas coisas o mantinha interessado por três motivos:
Primeiro, era um assunto interessante e estava diretamente relacionado com seus interesses;
Segundo, a cada dia se surpreendia mais com a profundidade dos conhecimentos dela. Sakura era uma pessoa inteligente;
Terceiro, ela sabia se comunicar bem de uma forma que era impossível para ele.
Itachi percebeu que ela usava de técnicas de diferentes tons de voz para explicar cada coisa. Palavras fáceis eram usadas para assuntos difíceis e associações eram feitas para explicar as coisas de forma que qualquer pessoa seria capaz de entender.
Nos primeiros dias ela foi surpreendente na visão do Uchiha, então passou a ser interessante. E sem que fosse percebido com antecedência, a medi-nin já havia se tornado uma presença envolvente.
Ainda assim era estranho e uma reação não apreciada sonhar com a garota à noite. O Uchiha sabia e acreditava na teoria de que em sonhos o nosso inconsciente faz aquilo que o consciente tem o desejo, mas não a coragem para fazer.
Amor, ele não sabia mais o que era. Um dia amou sua família, mas abriu mão dela por algo maior. Com certeza amava seu irmão, ainda levava consigo algumas fotos dos dois juntos, mas ele também teve que abrir mão de Sasuke.
O irmãozinho com certeza era a pessoa que mais amava. Ainda assim teve que fazer com que esta pessoa, a única pessoa que não conseguiu ser frio o suficiente para matar, o odiasse acima de tudo.
Uma vez teve o amor que veio em forma de amizade, mas este assim como todos os outros teve que morrer, tudo isso por um amor que tinha por pessoas que ele nem conhecia e por um lugar que o odiaria pelo resto de sua vida. Mas ele nunca amou uma mulher.
Madara havia o levado em casas de mulheres fáceis desde muito cedo. Segundo ele, aquela era uma forma eficaz de esquecer o estresse do sujo mundo shinobi. Mas nunca alguém que despertasse nele a vontade simples e egoísta de se manter por perto havia aparecido em sua vida.
Mas ela era diferente. Ele não sabia o que sentia por ela, apenas gostava de tê-la perto de si. Dentre as perguntas que ela fazia por interesse em seu tratamento acabaram surgindo dúvidas sobre assuntos que nada tinham haver com aquele assunto e isto acabou os jogando em conversas amigáveis sem interesse nenhum interesse médico.
Mas vê-la invadir até mesmo os seus sonhos o assustava. E já o tinha feito se questionar se Sakura representaria a face do amor que faltava para ele. Não queria que fosse, pois tinha medo de amar. Amor estava ligado à perdas, o amor doía nas lembranças de Itachi.
– Itachi-san está acordado? – A voz de Sakura o fez voltar à realidade, o fazendo se lembrar que havia sido acordado por alguém que batia em sua porta.
– Agora estou. O que quer? – Sua voz ainda estava embriagada pelo sono interrompido.
– Gomen. Eu sei que é cedo ainda, mas acho que consegui. Quero examiná-lo mais uma vez para ter certeza. – A voz dela carregava um timbre humorado de empolgação.
Desde o dia em que chegara ali, a rotina de Sakura se resumia em examinar Itachi e pesquisar, aí examinava de novo e pesquisava um pouco mais. Ela queria estar bem segura do que faria, falhar estava fora de cogitação. Fora isso, nenhum tipo de evento marcante aconteceu consigo desde que chegara ali.
Apenas um incidente logo quando conheceu Hidan, ele estava se preparando para mais um de seus rituais macabros. Ele abordou Sakura e ficou tentando convencê-la a se converter, achando que ela se alegraria em saber que o sangue dela seria perfeito para um sacrifício em oferenda para seu Deus.
Mas foi salva por Tobi, que a tirou daquela situação. Por falar em Tobi, talvez o momento mais interessante que tivera ali até agora tenha sido com ele. Foi em um dia em que todos almoçavam juntos, Tobi estava ao lado de Sakura e reparou a maneira como ela ficava olhando o outro Uchiha.
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MEMÓRIAS PASSADAS
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– Sorte sua que ele não pode ver a forma como olha pra ele. – O mascarado comentou com humor.
– Nani? Dou iu koto da? – Fez-se de desentendida.
Sakura já tinha percebido, era obrigada a passar muito tempo com Itachi devido ao acordo, mas com o passar dos dias, a presença do moreno não era mais apenas uma obrigação. Ter fragmentos de quem era Uchiha Itachi contados em primeira pessoa atiçou a curiosidade nata da "cdf" da turma. Não era mentira que ele era um gênio, conversar com Itachi logo se tornou interessante e prazeroso apesar dele falar muito menos do que ela.
Se tinha algo pelo qual gostava de se gabar era sua inteligência, sabia que estava gostando demais de estar ao lado daquele homem que em nenhum momento pareceu ser se quer a sombra do demônio em que o pintavam. Estar mais uma vez encantada com um Uchiha não lhe agradava em nada, mas não fazia parte de si ir contra sentimentos. Afinal era muito mais divertido desvendá-los do que tentar evitar algo que se quer está sob seu controle racional.
Gostavam da companhia um do outro, se davam bem. E o prazer por estar ao lado dele logo virou necessidade e desejo de andar ao lado dele. Era um sentimento perigoso e a Haruno sabia muito bem qual sentimento era aquele, apenas era difícil assumi-los.
Apesar de ter havido homens na vida dela, depois de Sasuke ela aprendeu que o amor dói e deveria ser evitado o máximo possível. Sakura sempre deu a devida atenção a cada um de seus afetos, mas nunca mais havia amado ou se apaixonado novamente.
Ela não amava mais o Uchiha vingador, mas também estava fechada para esse sentimento, era sua defesa para não sofrer novamente. No entanto, estava caminhando na beira da linha perigosa entre o afeto e a paixão, quase caindo no abismo sem se importar. Mais uma vez pelas graças de um Uchiha.
– Sabe sim, você está se apaixonando. – Ele falou de forma simples. – Mais dia menos dia, você estará completamente dependente dele.
– É sério Tobi, ele é a pessoa com quem eu mais convivo aqui, é gratificante que estejamos nos dando bem, mas nada além disso. Mesmo porque, eu não quero me apaixonar e ele não me parece do tipo que se apaixona. Não se preocupe.
– Todos nós somos capazes de amar, vocês são apenas amigos porque sofrem da mesma dor. Ambos são capazes de amar, mas têm medo de sofrer novamente. Vocês não estão abertos para confiar plenamente em alguém novamente e enquanto não forem capazes disso não amarão ninguém. Ele sente essa dor há mais tempo que você e para se proteger se tornou naquela pedra de gelo. Ele não era assim antes, sabia? Anata mo, está indo pelo mesmo caminho.
– Antes? Antes de que? – Ela se interessou muito pelo que ele falou, mas ele pareceu continuar sem dar atenção ao seu comentário.
– Escute Sakura, conheço você há pouco tempo, mas parece que você é capaz de chegar perto dele. Não do shinobi letal, mas o homem por baixo disso tudo. Eu conheço Itachi desde que ele era uma criança e você não faz ideia de quanto tempo não o vejo assim, permitindo-se aproximações.
– Desde que ele era criança? – Ela ainda parecia mais interessa no passado de Itachi do que nas coisas estranhas que o mascarado lhe dizia. Mas ele novamente não deu atenção à pergunta dela.
– Você está derretendo o gelo dele e isso pode significar que ele esteja começando a querer confiar em você, mas presta atenção, se ele confiar em alguém novamente e se ferir, pode ser a última e aí... Bom, pode ser tarde demais para ele.
Aquilo ficou tempo na cabeça dela, deixou um monte de perguntas sem respostas também, mas continuou em frente, tentando convencer a si mesmo que aquilo não passaria da amizade. Afinal o sentimento era irracional, mas a atitude dependia da razão para acontecer.
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FIM DAS MEMÓRIAS
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Sakura esperou alguns minutos até ele abrir a porta, seria a primeira vez em todo esse tempo que entraria ali, todas as outras vezes que o examinara havia sido na sala se estar ou na sala de Pain. Era realmente incômodo trabalhar com aqueles olhos em espiral e sua companheira a observando o tempo todo, por isso, como achava que finalmente poderia começar o tratamento decidiu ir direto ao quarto dele, onde não seria interrompida e nem analisada. Entrou.
– Ohayo! – Ela estava animada – Espero que esteja pronto, pois quero começar seu tratamento.
– Hm... – Foi tudo o que saiu dos lábios do moreno que apenas abriu a porta depois de livrar completamente das sensações do sonho interrompido.
Ela estava começando a entender o que ele queria dizer até quando ele não dizia nada. Mesmo porque, a maioria das respostas de Itachi se resumiam em "Hm".
– Não se preocupe, estou segura do que estou fazendo. – Disse realmente muito segura. – Por falar nisso, se quiser tomar um banho ou botar uma roupa que o deixe mais relaxado será melhor para você, vamos demorar muito aqui.
– Acho que vou fazer os dois então, se não se incomoda em esperar mais um pouco. – Apesar de frio, Itachi tinha um dogma de educação cravado em todos os seus atos.
Na verdade esta era uma coisas que ficava claro nele. Sempre muito quieto, mas também muito cortês nas atitudes. Sakura o classificava como alguém que apreciava o silêncio e guardava suas palavras para quando fossem realmente necessárias.
Ele pegou um kimono preto simples e seguiu para o banheiro. Ela se sentou na beira da cama e passou a observar o quarto em que estava. Assim como o dela, era simples, porém confortável.
Havia um futon para casal, um armário que deveria conter roupas, pois não tinha nenhum guarda-roupa ali, um bidê com duas gavetas, um cabide alto, dois almofadões que ele deveria usar para meditar, pois havia um incensário com cinzas no chão próximo a elas e...
– Um piano? – Falou incrédula, jamais imaginaria algo como aqui.
Sentiu vontade de bisbilhotar nas coisas dele para ver se ele guardava alguma lembrança de sua vida passada, mas recuou quando lembrou que aquele cara era imprevisível. Não era nada bom poderia acontecer se deixasse Itachi realmente irritado.
– No que é que estou pensando? – Disse rindo de seu próprio pensamento burro.
Depois de alguns minutos ouviu o barulho do chuveiro desligando. Instantes depois, Itachi apareceu na porta.
Lindo naquele kimono, com os cabelos molhados e soltos. Tão cheiroso que o aroma invadiu o quarto, fazendo por segundos, a respiração dela até parar. Muita sorte dela ele estar cego agora, pois somente assim ficaria impune de julgamentos sobre a reação apresentada sem seu corpo diante daquela visão. Deixou de lado o abalo pela entrada do Uchiha no quarto e continuou normalmente.
– Nunca poderia imaginar que você tocasse piano. – Disse meio que debochando.
– Só porque matei algumas pessoas? – Ele respondeu calmamente como se aquilo não o afetasse – Esqueceu que também sou um prodígio? Toco desde os oito, é como uma criança que é treinada como um cão farejador e retalhador pelos soldados de sua vila costumava relaxar. – Tentou esconder como aquilo o marcava.
Foi a primeira vez que Itachi dividia com ela alguma coisa sobre a vida dele antes dele ser "ele". Ela já tinha contado muitos fatos da sua vida passada pra ele, coisas como missões, time sete, a amizade que tinha com Naruto, o amor que teve por Sasuke, como era treinada por Tsunade-Hime, mas ele sempre só ouvia.
Dentre todas as conversas, nunca nada sobre o passado de Itachi. Sempre surgiam comentários com fragmentos de coisas interessantes que aconteceram em alguma missão, sem citar qual ou por quem.
Mas o comentário a fez pensar nas palavras estranhas de Tobi. Sentiu pena da criança que ele foi, mas não demonstraria. Não há ofensa maior do que pena para um shinobi. Mas o breve comentário a fez tentar enxergar o lado da história que nunca havia sido contada, o nome Itachi estava fortemente ligado com um rio de sangue, mas ele também tinha uma história. Não parecia ser agradável.
– Gomen nasai. – Ela não arriscou dizer mais nada – Podemos começar? Quero te examinar uma última vez.
– Hai – Sentou-se sobre seus joelhos em uma das almofadas no chão.
Sakura pôs-se em sua frente na mesma posição e começou a examiná-lo, mas estava achando dificuldade em se concentrar. Tinha que aproveitar a brecha que ele lhe dera minutos antes.
– Sabe Itachi, se quer saber, não julgo você pelos crimes que cometeu. No começo, quando seu irmão deixou a vila para se vingar de você, eu realmente senti muita raiva por você estar tirando ele de perto de mim. Eu era tão nova e tola, depois percebi que não há certo ou errado nessa vida. – Parou para desvendar a expressão dele, parou de examiná-lo. – Já fiz coisas poderiam ser consideradas erradas, acabei me tornando traidora da vila também, mas muito antes disso já tinha chegado à conclusão de que não importa nenhum motivo superficial que possa justificar, ou não nossas ações, porque o único motivo verdadeiro que nos leva a tomar qualquer decisão é sempre o mesmo.
– Qual é a resposta para esta polêmica questão, Haruno?
– Escolhemos o próximo passo sempre baseados no julgamento momento e da situação. Às vezes o passo mais racionalmente apropriado só é compreendido no momento em que é dado. Por mais incompreensível que possa ser a escolha que você fez Itachi, depois que conheci você e não o legado que você deixou para trás, tenho certeza de que fez o que fez porque foi o que julgou como o correto para você naquele momento. Não cabe a mim julgar você pelo o que desconheço. – Finalizou o discurso e continuou o exame, bem mais tranquila depois de falar aquilo tudo.
Passados alguns minutos de exame, Itachi já estava recomposto depois daquele desabafo compreensivo da médica e bem mais relaxado. Jamais colocaria em palavras o quanto tudo o que ela disse se encaixava pedra sobre pedra em suas mais tortuosas lembranças.
– E então, poderei finalmente ver seu rosto? – Perguntou com certa expectativa por recuperar sua visão.
– Ainda não terá o privilégio. – Gracejou a medi-nin. – Mas começaremos com o tratamento, até o final da manhã poderá até ver algum borrão, se isso acontecer é um sinal de que até o fim da semana suas férias terminarão.
–E irei treinar você. – Disse num suspiro, como se fosse uma tarefa muito árdua, mas num tom de brincadeira.
– Ganbatte kudasai! – Disparou em mesmo tom.
– Te digo o mesmo. – Respondeu o moreno em um sorriso.
É claro que foi um sorriso do tipo Uchiha, mesmo assim era lindo, combinava perfeitamente com o rosto dele. Aquilo foi desmontante pra Sakura, mas ela conseguiu contornar e começar o tratamento dele.
Passaram a manhã toda naquele jutsu de cura até que ela parou por falta de chakra, não precisava se esforçar tanto mas desse modo talvez pudesse acelerar o processo. No fim todo esforço dela foi bem recompensado, pois Itachi estava enxergando bem mais do que um borrão.
– Sakura, estou enxergando melhor do que quando foi buscar você! – Disse sem conseguir esconder o contentamento.
–Certo, isso é muito bom. Agora me ajuda a levantar, não tenho força pra mais nada hoje. – Disse sonolenta, realmente quase desmaiando.
Ele estendeu a mão e levantou-a, passou um braço por sua cintura para mantê-la em pé. Tentou com muito esforço ver as fisionomias dela, mas ainda não dava pra tanto, sem falar que quase teve que praticamente carregar a kunoichi no colo até sua cama para que ela pudesse descansar.
Aquela aproximação toda fez um frio passar pela espinha da rosada, estava cansada demais para fingir que a presença dele não a afetava de uma forma mais intensa. Mas ela riu ao perceber que ele forçava os olhos para tentar ver seu rosto e isso meio que a relaxou, então ela se permitiu abraçar o moreno e se deixar ser levada por ele.
– Deite e descanse, eu vou arrumar algo para você comer. – Disse o Uchiha a deixando para trás em seu quarto.
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–Tem um lugar que costumo ir para meditar, fica meio perto daqui. Quer ir lá? – Sugeriu mais tarde quando a menina já tinha alguma força.
– Desde que não seja muito longe, não estou em condições.
– Não se preocupe, eu levo você. – Disse de forma que não pareceu perceber como estava praticamente pedindo por mais companhia dela.
A Haruno ainda se sentiu tonta quando mudou sua posição de deitada para sentada antes de tentar levantar, mas Itachi estendeu a mão para ela e ele os fez desaparecer, deixando uma chuva de penas de corvos para trás.
No momento seguinte já estavam em uma linda clareira no topo de uma montanha não muito longe da sede. Sem o suporte da cama, Sakura não hesitou em buscar apoio no moreno.
– Itachi-san, é perfeito. – Disse abobalhada com a vista do lugar. – Como descobriu esse lugar? – Perguntou enquanto acompanhava os movimentos de Itachi que já estava a fazendo sentar sobre o solo.
– Você está na organização há um mês apenas, mas mais cedo ou mais tarde você vai perceber que é um pouco difícil de encontrar silêncio lá dentro. Um dia eu percebi que se não saísse daquele lugar, iria matar Deidara, então saí para caminhar e acabei chegando aqui. Desde então subo aqui pra pensar, meditar, montar estratégias ou simplesmente para ficar sozinho.
– Por que me trouxe aqui? – Quis saber.
Itachi estava muito diferente hoje. Estava falando, conversando quase como uma pessoa normal. Talvez fosse felicidade por seus olhos estarem claramente progredindo, mas hoje ele estava estranhamente acessível.
– Vou ensiná-la a meditar. Vai ajudar você a se recuperar daquele jutsu pesado que usou comigo.
– Claro... – Uma parte dela queria que ele apenas desejasse dividir algo tão seu com ela, mas outra parte estava feliz, pois ele se preocupava com seu bem estar afinal.
Ele percebeu uma pequena ponta de decepção dela, mas não entendeu e nem falou mais nada também. Os sonhos que andava tendo com ela, a felicidade dela quando bateu em sua porta para dizer que seria curado, a dedicação dela em curá-lo, aquela declaração. Ele sabia que não estava em seu estado mais são.
Tinha vontade de se abrir por completo para ela, deixar que ela soubesse seus motivos, mostrar que ele talvez não fosse o monstro que permitiu que fizessem de si. Apesar disso não diminuir o peso de seus erros queria deixar que a curiosidade dela vagasse por sua alma e respondesse a todas suas perguntas.
Mas não podia se permitir expor pontos de sua controversa personalidade. Se todas aquelas coisas que sentia significavam que ela pintaria com amor alguma área de sua vida novamente, isto poderia ser perigoso. E ele era uma pessoa prudente e prevenida, não faria doer de novo, não queria saber de nenhum tipo de amor.
A rosada fechou os olhos para meditar, mas a única coisa que fez foi repassar tudo que ouvira naquele dia em sua cabeça. O pequeno desabafo dele, a sua própria declaração, aquele sorriso, o convite, os diálogos. Se ele estava aberto para si hoje, ela iria entrar.
Havia finalmente cruzado a linha da paixão, caiu na armadilha daquilo que tentou evitar por tanto tempo. Um maldito Uchiha novamente. Sabia que poderia doer, que poderia perder, mas não iria voltar atrás.
– Você estava certo, só de estar aqui já me sinto bem melhor. – Disse no tom normal, mas com uma ponta de simpatia.
–Hm. – Ele apenas mostrou que estava a ouvindo, mas havia se fechado de novo.
– Estava imaginando como você toca piano. – Tentou puxar algum assunto.
– Geralmente eu sento na frente e uso os dedos. – Respondeu, tecnicamente, era isso mesmo.
Mas aquilo bastou para irritar a rosada. Aquilo era confuso, Itachi tinha mudado de humor de um segundo para outro.
– Grosserias eu ainda não tinha ouvido de você. – Respondeu sem esconder a ofensa. – O que você tem hem? – Reclamou, mas ele não respondeu, e o silêncio irrita quando a irritação deseja bater boca – Fale comigo! – Pediu em tom autoritário e impositivo.
– Trouxe você aqui para meditar e não gritar. – Foi tudo o que ele se limitou a responder.
– Você estava conversando normalmente comigo até pouco tempo, porque está agindo assim agora?
Silêncio novamente. A falta de resposta dele a irritou tanto que ela se esqueceu de sua frágil situação. De forma inconsciente Sakura acumulou todo o chacra que tinha recuperado até aquele momento em seu punho e socou e socou uma rocha próxima de si que desmoronou, assim como a kunoichi.
Havia ficado sem chakra algum. Sentiu algo quente em sua mão, sabia que era sangue, pois estava sem luvas.
– Itachi... – Conseguiu chamar antes de apagar.
Com destreza e velocidade, Itachi amparou a kunoichi antes de a mesma cair no chão rochoso. Tinha se esquecido que o temperamento da menina nada condizia com a delicadeza de seu nome.
– Gomen Sakura-chan, mas você não precisa saber certas coisas. – Disse para o corpo desmaiado em seus braços.
A levou de volta para sede, preferiu usar a trilha ao jutsu. Iria direto para o seu quarto, pois temia encontrar Ino no quarto que as duas dividiam. A loira certamente iria fazer um "auê" desnecessário ao ver a amiga desacordada nos braços do Konoha que foi frio o bastante para matar seu clã inteiro. No cominho acabou por encontrar seu sensei.
– O que você fez? – Perguntou preocupado.
– Nada. – Disse sem vontade de parar e prolongar a conversa, mas Tobi o seguiu. – Escuta, hoje não é um bom dia, então me deixe. Eu cuido dela.
– Da pra ver de longe que você não está bem e faz dias que não está agindo como de costume. O que há com você Itachi? – Perguntou ao invadir o quarto de Itachi junto com o mesmo.
– Pare de agir como se fosse meu pai, Madara. – Falou calmamente em tom de aviso enquanto depositava a ninja desacordada em sua cama.
– Ainda bem que não sou, ou estaria morto agora. Ou será que se seu pai tivesse agido como eu agi com você, ele não estaria vivo agora? Quem cuidou de você quando saiu da vila?
– Não comece com isso agora. – Respondeu começando a limpar o ferimento na mão dela.
– Então apenas me diga o que está acontecendo.
– Você me conhece melhor do que ninguém. – Sentou na beira da cama ao lado do corpo adormecido. – Sabe o que está acontecendo.
– E é por isso que Sakura está desmaiada em sua cama?
– Não, ela está assim porque tem um temperamento pior do que o meu. Ou quase. Não consigo fazer isto, quero ela perto de mim, mas também não quero. – Soltou a mão já limpa para então puxar e acomodar o corpo de um jeito mais confortável pela cama. – Mesmo porque não tenho mais tempo para isso, a hora de encontrar meu irmão já passou. É tarde demais pra querer mudar de plano.
– Eu penso exatamente o contrário. – Disse se sentando ao lado do mais novo – Estou velho demais, se seu irmão está mesmo forte como ouvimos falar e forte o suficiente para matar você, eu odeio admitir, mas não sei se tenho como me defender da ira dele quando eu o contar a verdade. Mesmo porque, seu plano não saiu como esperava, Sasuke te odeia, quer te matar e daí despertaremos nele meu poder e você acha que quando ele souber a verdade vai fazer o que você queria, mas ele não vai.
– Não começa. –Itachi o interrompeu.
– Fizemos planos nos baseando em um menino que cresceu e ficou muito diferente do irmãozinho que você deixou para trás, aceite. Ele está completamente cego e corrompido pelo ódio, uma vez que a vingança dele seja efetiva ele vai procurar outra coisa para nutrir seu ódio, e essa coisa será Konoha quando ele souber a verdade.
– Não Madara, eu me recuso a acr...
– A acreditar que seu irmãozinho se tornou um típico Uchiha? Tente se lembrar de quem ele é filho. Sinto muito, mas se ainda tem amor naquela vila, ou por essa ninja adormecida em sua cama, acho melhor repassar seus planos com Sasuke. Como as coisas estão agora, permitir-se ser morto por Sasuke e dar a ele a verdade é basicamente o mesmo que dar início a mais uma guerra shinobi. E se não estou ficando gaga com a idade, impedir isto o motivo por ter sujado suas mãos com o seu próprio sangue, não foi?
Itachi apenas ficou em silêncio. Não podia negar que Madara estava certo em parte, Sasuke estava muito além do que tinha planejado. Mas também não via um futuro menos ruim fosse qual parte do plano resolvesse mudar.
– Aproveite o que ela trouxe para sua vida novamente, faça com que seja diferente dessa vez. Vocês são ainda tão jovens, escute a voz de quem já viveu demais Itachi-chan. Ahh, eu fico feliz por ver que ainda tem um coração que bate aí, temia que ele já estivesse completamente congelado – Concluiu e saiu do quarto sem esperar por uma resposta do ex-aluno. Itachi saberia chegar à resposta certa sozinho.
Itachi também se levantou e foi tomar outro banho, aquele tinha sido um dia cheio. Debaixo da água quente ele podia esquecer, mesmo que por poucos minutos tudo que era e relaxar, mas hoje não.
Hoje a água quente do chuveiro se misturou lentamente com finas lágrimas, as diluindo em silêncio. Queria concordar cem por cento com Madara, mas toda vez que fechava os olhos imagens nostálgicas vieram em sua mente.
Em uma delas, ele passeava pelo centro de Konoha com Sasuke em suas costas, então a imagem se dissolveu e outra apareceu, ele estava na varanda de casa mostrando ao irmão o modo correto de afiar kunais. A imagem mudou novamente e estava lendo para o Uchiha menor alguns pergaminhos que falavam sobre os ninjutsus usados pelos Uchihas.
Em outra, ele cuidava das queimaduras nas mãos e na face do irmão que ainda não tinha controle total sobre os jutsus do elemento katon, a cena mudou novamente e ele escondia do irmão emburrado o presente de aniversário que o maior fingia ter esquecido. Uma nova cena e Sasuke pulava de felicidade na frente do espelho admirando seus olhos e o novo tom rubro que eles adquiriam e perguntava todas as coisas sobre o sharingan para o irmão mais velho.
Abriu os olhos, sabia quais as lembranças que viriam depois daquela e não queria pensar nelas, não hoje. Hoje queria apenas a ilusão do tempo bom, do tempo em que conseguia omitir do irmão todas as coisas erradas e mostra-lhe apenas as certas.
Sakura ainda parecia desacordada quando ele voltou ao quarto, mas não ligou. Ela tinha muito que recuperar de energia, deitou-se na cama ao lado dela e dormiu desejando o dia em que poderia finalmente admirar o rosto dela com todos os detalhes.
NOTAS:
"Nani? Dou iu koto da?" significa: O que? Do q você está falando?
"Anata mo" significa: Você também
"Ganbatte kudasai" significa: É uma expressão bem enérgica para deseja boa sorte.
