Olá! Estou de volta com capitulo novo! Fiquei feliz com a recepção dessa nova história, eu gostei muito de escrever esse capitulo e eu espero q vcs também o apreciem.

Bjs para as leitoras e boa leitura.


Passaram-se alguns dias desde a nossa estranha visita a casa Levievre. Mas esse tempo não foi o suficiente para eu tirar Erik da minha cabeça. Aquele olhar desesperado havia me ligado àquela criança. Naqueles poucos momentos que eu estive sozinha como ele foram suficientes para me afeiçoar a ele e esse carinho era mais forte do que a minha adoração normal por crianças. Eu sabia que Julien não iria gostar de saber que eu estive me intrometendo na vida dos nossos vizinhos e por eu decidi esperar por uma oportunidade adequada para reencontra-los como qualquer pessoa normal e civilizada.

"Uma máscara! Por que diabos uma criança usaria uma máscara?"

Julien ergueu os olhos do livro que ele estava lendo e me observou caminhar de um lado para outro torcendo uma de minhas luvas nas mãos. Eu sabia que ele estava irritado com a minha insistência na estranheza da família Levievre. Todos os meus instintos gritavam que havia lago de muito errado acontecendo dentro daquelas paredes.

Com um suspiro audível, Julien fechou o livro. E olhou para mim por alguns momentos.

"Sente-se." Ordenou ele com sua voz profunda de barítono. Eu obedeci. Sentei-me no sofá de frente para a poltrona onde ele estava.

"Padre Mansart me explicou o motivo da máscara." Disse ele. "Bem, isso não é um segredo para ninguém nesse vilarejo, por isso não faz mal você saber."

Eu fiquei um pouco surpresa por ele ceder ao assunto com tanta facilidade. Eu havia mantido silêncio por tanto tempo por não querer deixar transparecer a minha terrível curiosidade. Mas não pude deixar de olhar para Julien em expectativa. Eu esperei ansiosamente por essa informação. Julien se mexeu um pouco parecendo desconfortável. O que quer que seja não era algo muito bom.

"Bem, parece que a criança nasceu com uma espécie de deformidade grave no rosto." Disse ele. "Eu perguntei se Madeleine me permitiria examinar a criança, mas ela foi totalmente contra. Eu fiz algumas perguntas e pelo visto a criança não tem problemas de saúde ou algum retardo mental."

"Muito pelo contrário." Eu murmurei com um sorriso no rosto ao me lembrar dos meus breves momentos com Erik.

"Desculpe?" Disse Julien.

"Oh! Você precisava ter visto. Eu nunca conheci criança mais genial. Ele é uma criança muito inteligente para a idade dele e ele toca melhor do qualquer pianista que já tenha ouvido. Ele pode ser qualquer coisa, menos retardado." Eu disse em um folego só.

Julien riu do meu jeito apaixonado ao falar de Erik.

"Se ele não fosse um menino de oito anos, eu teria ficado com ciúmes."

Eu também ri. Julien conhecia o meu jeito estranho de ser. E ele sabia que eu não descansaria até saber tudo o que fosse necessário sobre aquela viúva e seu filho.

Eu passei uma semana inteira pensando naquele dia em que eu conheci o pequeno Erik. Eu estava ansiosa para arranjar uma desculpa para voltar até lá e ver Erik novamente. Julien me contou que Madeleine mantinha a criança em isolamento total. Desde que nasceu Erik nunca saiu de dentro das paredes daquela casa. Isso teria sido o suficiente para me fazer querer correr até aquela casa e tirar a criança de lá, mas Julien fora taxativo e me impediu de sair de casa. Eu não estava disposta a brigar com ele e então eu aceitei relutantemente o seu pedido de não me intrometer.

Julien também me disse que a criança tinha um comportamento instável e muitas vezes agressivo. Isso não fez o menor sentido para mim. Erik agiu como um coelho tímido na minha frente, assustado, mas inofensivo. A imagem que ele me passou não combinava com o pequeno monstro perigoso que Julien descreveu.

No Domingo eu arranquei Julien da cama e o arrastei para a igreja para assistir a missa junto comigo. Ele protestou um pouco, mas o meu olhar de cão abandonado foi o suficiente para fazê-lo ceder. Não ficaria bem para nós não aparecer na missa. Já tínhamos deixado de ir às outras por causa de nossa mudança e das necessidades de nossa nova casa. E também, essa era a oportunidade perfeita para me encontrar com Madeleine. Eu não sabia exatamente o que perguntar para ela, mas eu tinha que arranjar um jeito de me aproximar dessa mulher estranha para descobrir em que condições Erik estava vivendo.

Julien sempre me disse que a minha curiosidade seria a minha ruína. E por Deus, ele estava certo.

A minha ansiedade nos fez chegar um pouco cedo à igreja. Boa parte dos bancos estava vazia e por consequência o meu plano de cercar Madeleine foi por água a baixo. Eu permaneci inquieta enquanto esperava a missa começar, eu não queria nem olhar para o estado do meu livro de orações. Julien esboçou um pequeno sorriso ao ver a minha ansiedade.

"Querida, se acalme." Disse ele docemente enquanto puxava o livro de orações das minhas mãos substituindo-o com as suas próprias mãos.

Eu corei levemente. Julien fazia eu me sentir como se eu ainda fosse a menina tola que se encantou pelo belo rapaz loiro de olhos da cor do céu mesmo depois de dois anos casados. Os pensamentos sobre os Levievre foram varridos momentaneamente da minha cabeça.

Cerca de meia hora depois, os fiéis começaram a lotar a pequena abadia do vilarejo. Padre Mansart começou a missa, mas eu estava só prestando parte da atenção. Eu olhei em volta e não vi nem sinal de Madeleine. Eu não esperava ver Erik já que Julien me informou sobre a situação de total isolamento em que a pobre criança vivia. Eu continuei inquieta durante todo o sermão. Agora que o principal motivo de eu ter vindo à igreja não compareceu, eu estava ansiosa pelo fim da missa.

"Ite, missa est".

Eu fui obrigada a controlar um suspiro de alívio ao ouvir o padre pronunciar essas três palavras. Eu me levantei e arrastei Julien para fora da igreja fingindo não ter reparado no sorriso de escárnio que brincava em seus lábios. Meu plano brilhante tinha falhado, eu já estava cogitando a possibilidade de simplesmente aparecer na casa Levievre como uma boa vizinha intrometida. Eu não estava acostumada a isso, em Paris eu nunca precisei correr atrás de informações elas normalmente vinham até mim. Eu nunca tive fama de ser bisbilhoteira, mas eu era cercada de pessoas assim e por isso eu sempre estava por dentro dos boatos mais recentes da sociedade parisiense.

Oh! Isso não quer dizer que Boscherville não tenha os seus boatos, muito pelo contrário. O problema é que muito do que me foi dito sobre Erik e Madeleine estava tão manchado pela tolice superstição da população em geral que não acrescentou nada a minha pequena gama de informações. O povo foi bem rápido em me alertar sobre os perigos de conviver com o "Filho do Demônio". Eu vi naquele momento que Erik nunca iria florescer estando cercado por esse medo irracional e tolo. Meu coração apertou ao imaginar aquela criança frágil tendo que crescer presa dentro daquelas quatro paredes tendo apenas uma mãe de sanidade duvidosa como companhia.

"Agora, parando para pensar, Madeleine não me procurou para retirar os pontos do ferimento dela." Disse Julien de repente.

Eu parei de andar e me virei para ele.

"Do que você está falando?"

Ele sorriu levemente.

"Eu imagino que depois de tanto tempo, o corte que ela tinha já deve ter cicatrizado o suficiente para eu poder retirar os pontos. Foi estranho ela não me procurar."

Eu tive vontade de bater nele. Era óbvio que ele tinha se lembrado antes. O que ele não queria era que eu insistisse todos os dias para ele ir até a casa verificar isso. Maldito!

"Oh! Será que ela está bem?" Eu disse fingindo preocupação. "Você deveria ter ido até lá!"

Julien rolou os olhos. Eu coloquei as mãos na cintura e o olhei como uma mãe que reprende um filho travesso.

"Tudo bem, mulher. Eu quero voltar a ter paz, vamos acabar logo com isso." Disse Julien me levando até a casa vizinha.

Eu ergui uma sobrancelha ao ver que a casa estava com todas as pesadas cortinas fechadas. Não havia nenhuma luz vinda de dentro, mas com o tecido pesado que cobria as janelas não dava para se ter certeza.

Julien bateu na porta da frente. Não houve resposta.

"Eu acho que não há ninguém em casa." Disse Julien.

Eu mordi o lábio em dúvida. Julien me disse que Madeleine nunca deixava Erik sair de casa. Ela não tinha comparecido a missa durante a manhã. Isso era um pouco estranho, mas eu não poderia ter certeza já que não a conhecia bem.

"Vamos." Disse ele pegando a minha mão.

Eu tive que segurar um gemido de frustração. Eu me senti uma traidora. Aquela promessa silenciosa que eu fiz para Erik nunca seria cumprida. Eu iria decepciona-lo. Minha ultima chance havia falhado e eu sabia que Julien não iria permitir que eu simplesmente aparecesse para uma visita. Essa curiosidade era algo que Julien sempre tentou tirar de mim, nós não costumávamos discutir, mas o seu olhar de reprovação era algo que normalmente me fazia corar de vergonha. Julien De Lavigne era a imagem da civilidade e do cavalheirismo e os seus modos me faziam parecer uma selvagem de rua em comparação.

Eu sabia que no momento em que ele me conduzia para longe da bela casa coberta de hera, eu teria que me esquecer daquele intrigante menino. Eu deveria ocupar a minha cabeça com outros assuntos correspondentes aos de uma boa esposa. Eu queria ser uma boa esposa para Julien. Ele havia me aceitado apesar de minhas falhas. Um homem como ele poderia ter a mulher que quisesse, mas ele escolheu a mim. Eu era muito bonita, bem criada e educada, mas o meu defeito me impedia de ser a esposa ideal. Com esse pensamento na cabeça, eu me deixei ser levada para longe da casa.

O som alto de um cachorro latindo chamou a minha atenção e eu me virei. Era um Cocker Spaniel amarelo que tinha saído dos fundos do quintal. O cachorro fazia uma algazarra terrível. Além de crianças eu tinha um fraco para cães, eu nunca pude ter um por causa da alergia de Julien. Eu sorri para o cachorro barulhento e por um segundo eu olhei em direção a casa.

Uma cortina do ultimo andar estava entreaberta e lá eu tive um vislumbre de um rosto mascarado. Era Erik, no momento em que ele me viu a cortina se fechou rapidamente. Eu soltei a mão de Julien e marchei direto para a casa.

"Sophie!" Exclamou Julien me seguindo.

Eu parei em frente à porta e bati novamente. Sem resposta.

"Madame Levievre, sou eu, Sophie De Lavigne. Meu marido ficou preocupado depois do que aconteceu semana passada."

Nada. Eu já estava rilhando os dentes de raiva. Por que eles me ignorariam assim na minha cara? Minhas suspeitas só estavam aumentando.

Quando Julien chegou até a mim para provavelmente me arrastar de volta para a casa, a porta frente se entreabriu um pouco.

"Madame De Lavigne?" Sussurrou uma voz que vinha de dentro da casa que imediatamente reconheci.

"Sim, Erik. Sou eu Sophie. Sua mãe está bem?"

A porta se abriu um pouco mais eu pude ver o seu rosto mascarado atrás da fresta.

"Maman não está em casa. Ela foi para Paris resolver um problema. Ela disse que estaria de volta em uma semana quando saiu." Disse Erik tranquilamente. "Eu imagino que ela estará em casa na terça."

Eu engasguei pelo choque. Minha reação ao saber que aquela mulher deixou seu único filho, uma criança de oito anos, em casa sozinha por uma semana sem nenhuma vigilância foi lenta. Minha mente não podia processar tamanha irresponsabilidade. Eu fiquei surpresa ao ver a casa de pé e não reduzida a uma pilha de cinzas. Que espécie de mãe faz algo assim?

"Você está sozinho há cinco dias?" Perguntou Julien. Eu fiquei feliz ao notar o tom horrorizado na voz dele.

Erik olhou para Julien com certa cautela desconfiada. Quando os olhos dele procuraram os meus em busca de afirmação eu sorri para tranquiliza-lo.

"Bem, não se deve deixar uma criança como você sozinha por tanto tempo. Quando foi a ultima vez que você comeu?"

Erik não respondeu. Ele encarou os sapatos por algum tempo antes que eu me abaixasse na altura dele.

"Eu e Julien estávamos indo para casa agora. Você gostaria de almoçar conosco, deve ser um pouco solitário ficar aqui."

Os olhos de Erik encontraram os meus e eu pude ver certo brilho de esperança passar pelos seus orbes cor de ouro. Meu sorriso se alargou um pouco.

"Eu não deveria abrir a porta para ninguém. Maman vai ficar zangada comigo." Disse Erik tristemente. "Eu não posso sair de casa."

Meus sentimentos pela mãe de Erik estavam piorando a cada segundo que se passava. Com um estalo de língua, eu me levantei e ajeitei as minhas saias.

"Não se preocupe com isso. Qualquer problema eu mesma irei falar com ela. Vamos?"

Erik hesitou um pouco, mas para o meu alivio imediato ele segurou a minha mão. Eu franzi a testa um pouco, suas mãos eram estranhamente gélidas.

Foi só depois de tudo isso que eu me virei para enfrentar Julien. Mas para a minha surpresa ele estava observando a cena com um leve sorriso no rosto. Eu nunca vou entender totalmente o meu marido e isso é um fato. Ele sorriu delicadamente para Erik começou a andar ao meu lado. Erik segurava a minha mão com força e eu pude ver certa apreensão vinda dele. A criança provavelmente estava apavorada.

"Eu só imagino que tenhamos que deixar um aviso para a sua mãe." Disse Julien.

É claro, com a minha ânsia de rever Erik eu poderia ser presa por sequestro. Agradeci em silêncio a mente calculista de Julien. Eu e meu marido seguimos Erik até a sala de estar da casa. Eu não tinha reparado muito na decoração do cômodo na primeira vez que estive aqui. A decoração era de bom gosto e parecia ser cara, mas a falta de luz solar combinada com a total impecabilidade da sala causava uma atmosfera estranha, como se o lugar não fosse realmente habitado, muito menos que uma criança morava ali.

Expulsando esses pensamentos da minha cabeça, eu pedi para Erik me conseguir um papel e uma caneta. Molhando rapidamente a ponta da caneta no tinteiro eu escrevi um bilhete simples e o deixei bem visível em cima da mesa da sala de jantar.

A pequena caminhada até a minha casa foi rápida. Eu vi Erik olhar com admiração para o meu jardim recém-florido, eu fui incapaz de não sentir uma pontada de orgulho com isso. Eu trabalhei duro em cima dessas flores e estava muito contente com o resultado. Eu o conduzi pelo gramado até a porta de casa.

No momento em entramos na casa eu ouvi o arfar de choque de Erik ao se deparar com o enorme piano de cauda que tinha na sala da frente. O piano viera junto com a casa, Julien sabia tocar muito bem, mas ele não tinha muita afinidade com a música e por isso o belíssimo instrumento jazia abandonado durante a maior parte do tempo.

"Sophie me disse que você sabe tocar." Disse Julien para Erik.

Erik concordou e continuou a observar o piano.

"Bem, mostre-me o que sabe fazer." Disse Julien se sentando na banqueta e indicando pra Erik o lugar ao lado dele.

Erik olhou para mim em duvida por um momento. Eu simplesmente sorri e dei de ombros.

"Vou deixar os garotos se divertirem." Eu disse indo para a cozinha preparar o almoço.

Durante todo o tempo que fiquei na cozinha eu não pude deixar de sorrir. Fazia tempo que eu não me sentia tão aquecida por dentro. Os sons das vozes vindas da sala faziam meu coração inchar. Julien tinha deixado Erik se exibir por um bom tempo e agora os dois improvisavam um dueto. O som era lindo. Erik tinha conseguido fazer Julien sair do seu casulo muito mais rápido do que eu fui capaz. Os dois eram muito inteligentes eu pude ver a doce afinidade crescendo entre os dois.

Além da perseguição dos admiradores, outro motivo também cooperou para a nossa rápida saída de Paris. Eu e Julien estávamos casados há mais de dois anos e não tínhamos filhos, isso atraia muitas perguntas embaraçosas. Apenas Julien sabia do meu segredo e o fato de ele ter me aceitado como sua esposa apesar disso me tornava eternamente grata. Que homem na posição dele casaria com uma mulher incapaz de ter filhos?

O cheiro das batatas assadas me tirou dessa onda de pensamentos depressivos. O som do piano tinha cessado. Julien tinha levado Erik para conhecer a sua biblioteca e eu não podia mais ouvir nada do que eles diziam.

"Isso está cheirando bem." Disse Julien aparecendo do nada na porta da cozinha.

Eu sorri para ele e me virei para tirar uma toalha de mesa de dentro de uma gaveta. Julien pegou uma pequena pilha de pratos e entregou para Erik que eu não tinha percebido que estava nos observando do batente da porta.

"Você pode levar isso para a mesa?" Pediu Julien gentilmente.

Erik concordou e saiu da cozinha em direção à sala de jantar.

"Vocês se deram bem." Eu disse alegremente para Julien.

"Sim, ele é um garoto brilhante." Respondeu ele.

Eu fiquei feliz em ouvir isso. Julien apanhou alguns talheres e levou para a mesa.

O almoço foi um pouco silencioso. Erik devorou toda a comida que eu coloquei na frente dele. Eu me perguntei quando foi a ultima vez que ele recebeu uma refeição de verdade. Eu e Julien lhe fizemos algumas perguntas, e isso só me serviu para aumentar a minha preocupação. Erik falava da mãe como se ela fosse uma estranha. Ele não era tão frio quanto Madeleine, mas também não parecia ter o apego que meninos pequenos têm por suas mães.

"Sua mãe viaja muitas vezes?" Eu perguntei enquanto Erik me ajudava a tirar os pratos.

"Ela vai algumas vezes para Rouen, mas é a primeira vez que ela vai para Paris." Respondeu ele.

"E você fica sozinho durante esse tempo?" Eu perguntei tentando esconder a minha expressão horrorizada.

"Atualmente sim, Mademoiselle Perrault ficava comigo quando maman viajava, mas agora ela tem outros afazeres."

Eu franzi a testa um pouco. Eu conheci Marie Perrault brevemente durante uma das visitas das mulheres do vilarejo. Ela era uma mulher tranquila e extremamente tímida, seu jeito simplista e tolo não me atraiu muito. Talvez eu reconsidere a minha opinião sobre a jovem moça.

"Você deve se sentir solitário sem a sua mãe." Eu disse distraidamente.

Erik colocou os pratos sobre a bancada com mais força do que o necessário. Eu ergui uma sobrancelha.

"Eu não me sinto solitário." Disse Erik sem olhar para mim. "Maman não gosta de falar comigo, por isso não faz diferença."

Eu senti verdadeira pena do garoto ao meu lado. Ele parecia se importar muito com isso, ao contrário de suas palavras. Depois de tudo que eu vi era bem provável que a relação de Erik com a sua mãe estava bem longe do considerado bom. Meu coração se apertava cada vez mais ao saber disso.

"Você pode me visitar caso se sinta solitário." Eu disse olhando ternamente para ele.

Erik parecia positivamente chocado com a minha oferta

"Você quer que eu venha até aqui mais vezes?" Perguntou ele em um tom de total surpresa descrente.

"Claro! Ainda mais se você der alguma utilidade para aquele piano." Eu respondi com um sorriso.

Erik sorriu para mim. Foi o seu primeiro sorriso de verdade. Ele parecia realmente alegre e eu me senti culpada por não ter dito isso antes. O sorriso dele fazia o meu coração inchar, a sua alegria era contagiante.

Julien tinha escapulido para o seu escritório e o som dos seus dedos batendo furiosamente nas teclas de sua máquina de escrever ecoavam pelo corredor do segundo piso da casa. Eu tinha deixado Erik se divertir livremente na biblioteca. Ele ficou olhando admirado para os livros antes de escolher um. Nós ocupamos duas poltronas de frente para a lareira. Erik estava absorto no seu livro e eu me empenhei em acabar um dos meus bordados. A tarde passou tranquilamente.

Julien saiu do seu esconderijo quando eu estava servindo o jantar. Eu o repreendi por estar com os dedos sujos de tinta e o mandei fazer o favor de se lavar antes do jantar. Erik foi muito prestativo ao me ajudar a colocar a mesa. Eu o elogiei por tamanho cavalheirismo e como recompensa ganhei mais um de seus sorrisos.

Após eu ter lavado os pratos do jantar, Erik me arrastou para o piano e me presenteou com um lindo concerto. Após isso ele me perguntou se eu sabia tocar. Eu tinha sido apresentada à música através do violino, meus talentos no piano não foram explorados. Erik me corrigiu algumas vezes, mas ficou comprovado que ele não tinha muita paciência para ensinar. Erik era levemente arrogante eu fiquei surpresa ao descobrir um novo traço de sua personalidade.

Quando eu deixei escapar um bocejo, Erik parou de tocar e olhou para mim pensativamente.

"Está tarde." Comentou ele olhando para mim.

Eu concordei com ele quando meus olhos encontraram o relógio.

"Venha, vou coloca-lo na cama. Você deveria estar dormindo a essa hora." Eu disse me levantando e pagando Erik pela mão.

Erik não fez nenhum movimento para se mover do lugar. Eu soltei a sua mão e me virei para ele. Ele estava olhando diretamente para mim como se eu tivesse dito algo totalmente imoral, isso me fez corar levemente.

"Erik?" Eu perguntei instavelmente me perguntando o que eu tinha dito de tão grave.

"Você quer que eu durma na sua casa?" Disse ele. Pela primeira vez eu ouvi a sua voz falhar e assumir um tom de descrença infantil.

Eu simplesmente dei de ombros e tomei a sua mão novamente. Dessa vez ele aceitou se levantar, mas eu podia sentir seus olhos em cima de mim insistentemente.

"Eu não acho que seja seguro você voltar para a sua casa a essa hora da noite. Você é mais do que bem vindo para passar noite aqui, meu querido." Eu disse para tranquiliza-lo.

Erik concordou e me seguiu em silêncio até o quarto de hóspedes. A minha casa tinha três quartos no andar superior. Um Julien ocupou como seu escritório, o maior era o quarto do casal e o terceiro estava escassamente mobiliado e nem um de nós tinha uma ideia para ocupa-lo, por isso o deixamos como estava.

Eu deixei Erik no quarto e fui rapidamente até o meu para pegar uma camisa de dormir de Julien. Quando eu voltei Erik estava olhando pela janela. Ele parecia mergulhado em seus pensamentos. Eu bati no batente da porta para chamar a sua atenção. Ele se virou rapidamente e suspirou de alivio a me ver.

"Aqui, querido." Eu disse entregando a camisa de Julien. "Isso deve servir por hoje."

Erik recebeu a camisa em silêncio e ficou olhando para mim instigativamente. Eu sorri para o seu olhar confuso.

"Você não quer dormir com essas roupas, certo?" Eu disse sem tirar o sorriso do rosto. "Vou ver você daqui a pouco."

Sem mais nenhuma palavra eu sai do quarto e caminhei até o escritório de Julien. Ele estava sentado em sua cadeira lendo o seu manuscrito com uma expressão critica no rosto.

"Como você está indo?" Eu perguntei passando meus braços ao redor dos ombros dele.

"Não está convincente." Resmungou ele baixando os papéis.

"Vai ter um final feliz?"

Julien riu.

"Você e seus finais felizes..." Disse ele vagamente. "Talvez sim, depende do ponto de vista."

"Eu espero que Monsieur Deneuve encontre o assassino." Eu murmurei beijando os cabelos loiros dele.

"Deneuve é muito inteligente, eu também espero." Respondeu ele.

Eu comecei a rir. Julien falava como se ele também fosse apenas um leitor e não o único que podia decidir o rumo da vida de todas as personagens. Julien me disse uma vez que a maior diversão de escrever era sensação de Deus que isso dava. O escritor tem o poder de mudar o rumo de varias vidas mudando algumas linhas. Essa ideia me fazia rir. Oh Julien...

"Como está o menino?" Perguntou ele se levantando. "Descobriu se ele é uma pobre criança trancada com uma bruxa?"

Eu dei um tapa no seu braço.

"Julien! Você me faz parecer uma maníaca."

"Suas palavras." Resmungou ele e eu lhe dei mais um tapa.

"Você vai para a cama?" Perguntou ele caminhando para a porta.

"Sim, eu só vou ver se Erik está bem." Eu disse passando por ele.

Eu bati na porta do quarto e entrei. Erik estava usando a camisa de Julien e isso me fez rir por dentro. Erik era alto para a idade, mas a sua estranha magreza o fazia parecer minúsculo dentro da roupa de Julien.

"O que você está fazendo que ainda não está debaixo das cobertas?" Eu disse num tom falso de repreensão.

Erik não respondeu. Com um sorriso eu puxei as cobertas da cama e fiz sinal para que ele se deitasse. Ele obedeceu e eu puxei os cobertores sobre ele. Instintivamente eu passei a mão sobre os cabelos escuros dele. Eu vi Erik fechar os olhos com o meu toque, isso me fez sorrir ainda mais.

Eu continuei a acaricia-lo até que meus dedos roçaram nos laços da máscara. Eu senti Erik endurecer imediatamente com isso.

"Você não acha melhor tirar essa máscara para dormir?"

Erik rapidamente se afastou de mim e se sentou na cama, as suas mãos segurando a máscara defensivamente.

"Eu não posso." Murmurou ele.

"Bobagem, você não precisa se preocupar."

Erik tirou as mãos da máscara.

"Você sabe?" Perguntou ele timidamente. "Meu rosto..."

"Sim, querido." Eu respondi imediatamente. Não era realmente uma mentira, Julien me falou sobre a deformidade e segundo os boatos maldosos dos habitantes, era uma deformidade muito grave.

Erik colocou as mãos na parte de trás da cabeça e desatou o nó que prendia a máscara. Eu me preparei mentalmente para suportar a visão sem demonstrar nenhuma reação, o medo nos olhos de Erik fazia meu coração doer.

Nada, absolutamente nada nesse mundo havia me preparado para a visão do rosto de Erik. Sua pele era pálida e esticada sobre o crânio, não parecia haver nada além de pele e ossos. Suas bochechas eram ocas e afundadas e seus lábios eram finos e malformados. Seus olhos eram profundos e enterrados nas órbitas, eu mal podia vê-los. Eu descobri tempo depois que seus olhos eram mais visíveis na escuridão, a sombra que a máscara fazia sobre seus olhos os tornavam visíveis. Mas nada no seu rosto causava mais impacto e estranheza do que a total falta de um nariz, no lugar havia apenas um enorme buraco.

Meu coração morreu no peito ao ver a minha maior pergunta respondida. Meu coração sangrou ao imaginar essa pobre criança trancada com uma mulher provavelmente desgostosa com o filho que Deus lhe presenteou e tendo que conviver com o ódio e repulsa da comunidade onde vive. Meus olhos arderam por lágrimas não derramadas. Pobre Erik!

Erik tomou o meu silêncio como repulsa e rapidamente tomou a máscara e a levou até o rosto.

"Desculpe-me." Disse ele tremulamente enquanto amarrava os laços em volta de sua cabeça.

Eu segurei os seus pulsos delicadamente e os forcei para baixo, a máscara caiu entre nós.

"Por que você está se desculpando?" Eu perguntei amavelmente afagando o seu cabelo.

Erik olhou para mim em descrença. Eu pude ver lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

"E-eu não devia tirar a máscara. Você não deveria ter visto. As pessoas me odeiam por causa do meu rosto. Desculpe-me."

Sem dizer nenhuma palavra eu puxei Erik para os meus braços. Ele afundou o rosto no meu peito e começou a chorar desesperadamente. Seu choro se intensificou quando eu dei um pequeno beijo na sua testa. Eu pude sentir todo o desespero e carência vinda daquela pobre criança. Minhas lágrimas finalmente começaram a cair. Eu chorei de tristeza, raiva e pena pela triste injustiça que a vida cometeu contra essa pobre criança.

"Erik, não chore." Eu disse acariciando as suas costas. "Eu gosto muito de você. Você é o menino mais amável, doce e brilhante que eu já conheci e você não deve acreditar em alguém que não pense assim."

Eu o abracei com mais força e o deixei chorar em cima de mim. Ele agarrou a frente do meu vestido com força como se sua vida dependesse disso. Essa criança incrível que fora castigada com um estigma desses. Eu pedi aos Céus que me dessem forças para poder protegê-lo. Ali, naquele momento eu selei a promessa que eu fiz na primeira vez que o vi. Eu iria lutar por Erik, eu não iria permitir que enfrentasse esse mundo cruel sozinho. Enquanto ele vivesse, eu estaria ao seu lado.

Logo depois de um fazer a minha decisão eu senti o aperto de Erik em minhas roupas afrouxar. A respiração dele começou a se estabilizar e pouco tempo depois a se aprofundar. Ele caíra no sono, exausto de tanto chorar. Delicadamente para não acorda-lo eu pousei a sua forma adormecida contra os travesseiros e o cobri. Eu fiquei mais alguns minutos ali sentada observando-o dormir.

Eu me inclinei e lhe dei um beijo na testa.

"Bons sonhos, meu doce." Eu sussurrei para ele.

Depois que eu fechei a porta do quarto eu senti as lágrimas caírem novamente. Eu não sabia o motivo, mas meu coração estava extremamente alegre. A mera presença de Erik havia feito isso comigo. Em tão pouco tempo aquela criança ocupou o seu lugar no meu coração.

E eu nunca me senti mais completa.