Capítulo vinte e um: O caminho do rei

Por Kami-chan

Um mês já havia se passado desde que Jiraya viu faces novas na Akatsuki, por outro lado, fazia pelo menos dois anos que não colocava os pés em Konoha. Não pode evitar o sorriso ao visualizar os grandes portões de madeira da entrada principal da vila.

– Mestre Jiraya, quanto tempo! – Disse o ninja que fazia guarda no portão.

O eremita apenas acenou com a cabeça e seguiu seu caminho. Sentiu a brisa do vento típico da vila enquanto o cheirinho de grama recém-cortada invadia suas narinas. Como era bom voltar pra casa.

Amava Konoha, mas nunca seria plenamente feliz preso a um lugar. Viver migrando de vila em vila sem pouso nem chão e levar seus conhecimentos ao mundo, essa era a missão de Jiraya. Mesmo que seus conhecimentos fossem levados adiante de forma tão retorcida.

Aquele era um grande homem e um excelente ninja, um sábio lendário. Era o mestre dos sapos, mas sua fama parecia ser eternamente maior que seus dons. Para a maioria das pessoas ele não passava de um velho tarado, um ninja aposentado que desperdiçava seu tempo escrevendo contos sem valor.

Até mesmo ele se via apenas como um velho tarado traído por um velho coração que se manteve sempre apaixonado. Um coração eternamente renegado.

A fama de ero-sannin não incomodava o sábio eremita. Mas a forma como isso afastou de si a chance de penetrar no coração desconfiado e extremamente difícil de compreender de Tsunade o feria.

De forma lenta, a cada farpa trocada;

Bruta, a cada "não" ríspido que ouvia;

Triste, a cada noite que sonhava em como sua vida seria diferente ao lado dela;

Solitária, a cada molécula de ar que se infiltrava teimosamente em seus pulmões;

E humilhante, como nunca abria mão de tentar.

Por acreditar que talvez com o tempo e a distância a resposta dela pudesse mudar. Ver Tsunade era a única coisa que ainda o levava a Konoha periodicamente. Sempre com uma nova informação importante na manga, uma prestação de serviços para sua vila natal e uma desculpa realmente convincente para ter momentos próximos da ex-colega de time.

Todos os sentimentos preservados por um único beijo roubado e uma carícia trocada em um momento de fragilidade. Quebrado breves momentos depois e que nunca mais se repetiram...Ou se repetirão.

– Ahhh isso aqui não tem importância nenhuma Shizuneee! – A loira jogou um grosso relatório na escrivaninha com desleixo.

– Ma.. Ma.. Mas Tsunade-sama... – A assistente largou o porquinho de estimação no chão para pegar os papéis que foram abandonados pelas mãos da mestra.

– Tem muitos outros problemas mais urgentes no momento! – Jiraya a admirou de longe, já no telhado do prédio da Hokage.

Já estavam passando dos cinquenta, mas a personalidade dela era a mesma de trinta e oito anos atrás, fato esse que não o incomodava. Gostava da personalidade forte da loira.

– Os anos nunca parecem passar para ela. – Comentou para o vazio ao seu redor, admirando o corpo que também havia se conservado o mesmo.

– Tsunade-sama, já pensou em avisar Suna dos eventos?

– Avisar o que? Que duas ninjas foram mortas? Que temos suspeitas de que Akatsuki planeja alguma coisa? Essa suspeita sempre existiu, não posso atordoar o Kazekage com rumores. Suna tem seus próprios problemas.

– Hoje ela está diferente, está com um olhar preocupado. Profundamente preocupado, mas até mesmo com o peso da preocupação o mel de sua íris perde a beleza regida pelo brilho âmbar, ham. – Tornou a argumentar em seu diálogo consigo mesmo.

Uma coruja piou ao seu lado, fazendo o velho tirar os olhos da cena que observava atentamente tal qual estivesse assistindo a um filme. A ave voo incomodada e Jiraya achou por bem que era hora de se mostrar.

– Talvez eu possa ajudar. – Disse finalmente surgindo pela janela.

– Jiraya... – A loira sempre o recebia com surpresa.

Levantou-se para abraçá-lo, admirava muito o colega embora ele nunca compreendesse essa admiração de maneira correta. Parte desse erro era por culpa dela e do deslize que fez o colega nunca perder as esperanças de ter, seja lá o que sentisse, correspondido por ela.

– Sentiu minha falta? – Perguntou quando a loira o abraçou, aproveitando-se do momento para renovar a lembrança do cheiro de amêndoas que a pele da loira exalava.

– Claro, faz dois anos que não arremesso ninguém a mais de duzentos metros. – disse em tom de brincadeira, embora fosse verdade, arremesso de Jiraya tinha se tornado um esporte já de tão comum que isso tinha se tornado.

– Tenho alguma informação para você. – Disse quando ela o soltou e estava se dirigindo novamente para sua cadeira.

O momento oportuno para que ele pudesse registrar em sua mente as curvas e o desenho do conjunto de pernas que caminhavam de maneira sinuosa dentro da corsária negra. O som do salto de seus tamancos se chocando contra a madeira do assoalho e o som do tecido preto de sua legging enquanto as coxas se roçavam uma contra a outra.

– Por favor, me diga que encontrou um Akatsuki pelo caminho. – Ela parecia bem interessada enquanto lhe lançava um sorriso leve, apenas educado, formando leves covinhas em seu rosto.

Nessa hora Jiraya pode perceber que até mesmo a bela princesa das lesmas tinha envelhecido um pouco. E até mesmo as entradinhas na pele formadas pelo sorriso, inexistentes na jovem colega de time, caiam extremamente bem no rosto que costumava ser tão severo.

– Não. Encontrei três. – Os olhos de Tsunade se abriram mais enquanto ela repetia o número dito por ele. – Não pude ver seus rostos, pois estavam cobertos e eu não poderia me expor demais, mas eram duas kunoichis e um ninja com sharingan.

– Uchiha Itachi? – Shizune parecia alertada.

– Foi o que eu pensei no começo. Mas se fosse ele por que então estaria com o rosto coberto? – O ninja sorriu para a morena e logo em seguida para a Hokage.

– Não precisa ser necessariamente um Uchiha, Kakash...

– Era um par de Mangekyou Sharingan. – Cortou a Godaime.

– Mas dos dois Uchihas vivos apenas...

– Itachi eu sei, mas não era ele. – Ele a cortou novamente, talvez tivesse dado a informação depressa demais, Tsunade parecia completamente absorvida pelo o que ouvia.

– Não entendo. E as duas kunoichis? Nos nossos registros consta que há apenas uma mulher na Akatsuki, a sua pequena Konan.

Jiraya já previa que ela iria dizer algo do tipo. A forma como ela se jogou pra trás na cadeira e cruzou as pernas, fez com que ele não desse valor ao tom de acusação que ela usou na última sentença.

– Eu sei, mas ouvi claramente uma voz feminina chamar a outra de Ino.

Não discutiria com Tsunade sobre Konan, ou nenhum dos seus discípulos da chuva. No fundo não conseguia acreditar que as crianças que ele conheceu e treinou poderiam mesmo ser tão más quanto se dizia por aí.

– INO? – Dessa vez a Hokage se espantou ainda mais. – Shizune, me traga Kakashi aqui, agora. Traga Shikamaru junto! – Deu a ordem desafazendo a posição em que estava, jogando os dois braços sobre a mesa.

A nova informação parecia a preocupar. O nome Ino não dizia muita coisa para ele, mas ela parecia conhecer essa mulher.

– Ha...Hai – Disse a morena sumindo da sala com o mesmo olhar de espanto de sua mestra.

Ele pode perceber que a morena sabia o que afligia Tsunade, então perguntou com curiosidade:

– O que há?

– Há algum tempo, Sakura-chan e Yamanaka Ino sumiram misteriosamente da vila, algumas pessoas viram Akatsuki no caminho delas e depois apareceram corpos carbonizados que acreditamos ser delas, mas nunca houve uma confirmação. Eu nunca quis acreditar, mas quando o corpo do ex-membro da Raiz, o substituto de Sasuke no time sete, Sai, voltou morto de uma missão que envolveu membros da Akatsuki, Kakashi apareceu com uma teoria que você parece confirmar agora.

– Acha que elas... – Não teve a ousadia de terminar a frase.

Sakura. Ele sabia o quanto à rosada era importante para a amada e agora que ela falou, ele pareceu se lembrar de que a médica também estava treinando a filha do líder do clã Yamanaka.

– Elas teriam motivos pra fugir e se tornarem criminosas? – Resolveu perguntar por fim.

– Quem vai entender?

– Há mais... – Disse buscando palavras. – Há um senhor de posses pagando muito pela cabeça do líder Pain, você se lembra deles. Bom houve um atentado à sede deles, ninguém parecia saber onde era, mas depois da explosão a identificação ficou clara. Todos os Akatsukis estão fora, se espalhando por aí e esses três pareciam não ter nenhum problema em se expor, era quase como se estivessem desfilando para que todos os vissem.

– Mandou me chamar? – O jovem mascarado apareceu na soleira da janela ao mesmo tempo em que o jounin entrava na sala.

– Tsunade-sama. – Disse Shikamaru apagando o cigarro, enquanto fechava a porta arás de si.

– Você pode ir atrás de sua teoria Kakashi, a respeito da Akatsuki e a morte misteriosa de Ino, Sakura e Sai. Jiraya encontrou três membros pelo caminho, um Uchiha que não parece ser Itachi e muito menos Sasuke e duas kunoichis, uma delas atendeu pelo nome de Ino. Siga as coordenadas de Jiraya e encontre-os.

Tsunade trocou um olhar cheio de cumplicidade pelo prodígio do clã Hatake, uma cumplicidade tão íntima que foi difícil até mesmo para o grande eremita decifrar. Depois encarou séria o garoto moreno, Shikamaru não foi capaz de conter a expressão de surpresa ao ouvir a informação que a líder da vila havia passado para Kakashi.

– Shikamaru, você vai formar dois esquadrões. Vai seguir coordenadas do Jiraya também, mas vocês irão até onde se descobriu ser o esconderijo da Akatsuki, de lá dividam-se para encontrar os outros membros, leve Hyuugas para facilitar – Ordenou por fim. – E é claro que Naruto não deve saber de absolutamente nada disso.

– Vou até minha casa me preparar, passo aqui para pegar as coordenas de onde foram vistos por você Jiraya-sama – Kakashi falou logo e desapareceu depois de uma breve reverência aos dois sábios.

Os dois lendários ficaram olhando para o corpo imóvel de Shikamaru no meio da sala até que Tsunade pôs-se às suas costas.

– É tarde para pensar em Ino, ou pelo menos para pensar na Ino que você conheceu. Portanto se esqueça dela e mantenha o foco na sua missão que é ir atrás dos outros, se for mesmo ela, Kakashi irá com certeza trazê-las de volta. Não perca tempo e forme seus esquadrões.

– Hai. – Disse com dificuldade e saiu, ser um ninja da mais alta elite significava acima de tudo saber seguir até mesmo as mais duras normas.

– Jiraya você tem certeza disso tudo? – Ela perguntou permitindo que a pose de grande mestre sumisse diante de seu grande amigo, enquanto mirava os pés do mestre dos sapos como se fosse a coisa mais interessante do mundo.

– Sinto muito, achei que viria até aqui lhe trazer informações para lhe dar noção dos passos da Akatsuki diante de Naruto e o que te trago é mais uma bomba.

– Não. É um alívio de certa forma saber que elas podem não estar mortas. Você viu apenas o sharingan? Não viu nenhuma delas usando jutsus?

– Iie.. Por quê?

– Sai morreu de uma maneira misteriosa durante uma missão que envolveu dois casais de Akatsukis, muito tempo depois fomos capazes de identificar Konan, Pain e o ninja que atacou Suna ano passado, mas nada sobre o quarto membro. No estudo do corpo dele detectamos um veneno mortal, extremamente poderoso que destruiu cada fibra muscular do corpo dele por onde passou, ministrado com uma precisão assustadora...tal como se...

– Como se tivesse sido ministrado por um médico?

– Hai – Ela voltou a o encarar com olhos tristes. – Obrigada pelas informações.

Jiraya deixou as coordenadas sobre a mesa de Tsunade que nem dava mais bola para a presença dele ali. Ela estava sentada em sua cadeira com um cotovelo escorado na mesa, mordendo a unha do dedão, era visível que ela estava com seus pensamentos muito longe, talvez em suas queridas discípulas.

Nada a deixaria mais triste do que saber que tudo que havia as ensinado seria usado de maneira destrutiva. Esse pensamento por frações de segundos a levou até o falecido Orochimaru. Se ambas tivessem mesmo na organização de criminosos a bela loira ficaria extremamente magoada e envergonhada.

Então ele decidiu que não era um bom dia para suas cantadas baratas seguidas de tentativas sérias para fazer a Godaime aceitar seu amor e saiu pela janela. Passaria alguns dias em Konoha, pelo menos até Kakashi voltar com notícias, até lá poderia estender sempre sua mão a Tsunade.

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– Teria sido muito mais fácil se eles tivessem concordado com nossa proposta de cara. – Sakura caminhava mais à frente deles.

– Mas com certeza foi muito mais divertido assim. Fala sério demos um show nessa missão, aquela vila vai ser nossa até o dia em que o último membro da organização viver. – Disse Ino com humor.

– Ou seus filhos. – Completou Sakura feliz pelo sucesso na missão, pensando no filho de Konan que nasceria dali alguns meses.

Madara andava calado entre as duas, enquanto elas conversavam, ele prestava atenção no ambiente. Parecia que o momento que havia planejado estava finalmente se encaminhando, um chakra muito conhecido e que há tempos ele esperava encontrar estava pelo local e essa com certeza era a hora certa para agir. Distanciou-se cada vez mais e mais do tempo e do espaço que dividia ali com as duas.

– Uchiha? Aquele clã amaldiçoado de Konoha no Sato? – Ouviu-se uma voz falando alto ao longe que fez Madara voltar.

– É! Esse mesmo, dizem que apenas dois sobreviveram ao massacre. – Dois camponeses pareciam discutir na frente de uma menina que prestava atenção no que diziam com tédio.

– Não! Apenas um sobreviveu, o outro que está vivo foi o que matou todo mundo.

– Ouvi dizer que eles conquistaram o poder pelo inferno e por isso foram consumidos por ele. Mas por que você está procurando por um Uchiha minha querida? – Um dos homens parecia finalmente se lembrar da presença dela ali.

A pergunta fez Madara parar para assistir a cena. Ao perceberem que ele havia parado, Sakura e Ino foram se juntar a ele.

– Não estou procurando nada. – A menina disfarçou na defensiva – É que o boato de que havia um Uchiha andando por essas regiões correu por todo mundo shinobi...

– Ueh, aquela não é a ...

– Nós vamos sair da trilha – Sakura foi cortada pelo tom autoritário de Madara.

– Mas...

– Sem "mas". O caminho a tomar fica por minha conta lembra.

– Hai, mas...

– É hora de cumprir suas promessas Sakura-san. – Disse baixo a encarando de forma tão profunda que Sakura sentiu uma descarga elétrica descer por sua espinha e uma onda fria embrulhar seu estomago.

– Vamos sair da trilha. – Decretou entre dentes, confiando no escuro apenas para cumprir as promessas que sua curiosidade a haviam feito jurar.

Tentando ao mesmo tempo decifrar, mais uma vez inutilmente, os planos que se passavam pela cabeça dele. Ino olhou desconfiada para a cumplicidade dos dois, mas obedeceu ao que decidiu a líder da missão.

– Algumas pessoas confiam nos companheiros de equipe e sabe de uma coisa, quando isso acontece as pessoas se sentem bem mais dispostas a ajudar a cumprir as promessas que lhe são dispostas. Uma ajuda se torna muito mais útil quando se sabe o que se deve fazer. – A rosada cuspiu cada palavra ao moreno para somente então, desviar o olhar que trocavam e logo saiu da trilha na mesma direção de Ino.

– Você não me ajudaria. – Ele disse muito baixo para Sakura não ouvir, deu uma última olhada na face da menina que falava com os camponeses a fim de memorizar suas feições, tinha certeza que a encontraria novamente.

Com a pequena pausa de Madara, Ino e Sakura se adiantaram pelo caminho.

– De segredinhos com Madara? O que Itachi vai achar disso? – Perguntou a loira.

– Não importa, não haverá mais segredos. – Sakura respondeu irritada com as atitudes de Madara e consigo mesma por segui-lo sem nem ao menos saber o que o velho queria de verdade. – Assim que estivermos no curso novamente nós vamos o fazer abrir a boca nem que seja a força. – Por correrem para sair da trilha, ambas estavam com as mãos expostas e Sakura socava a palma de sua própria mão ameaçadoramente.

– Nós vamos? Quer dizer, você e sua inner do mal?

– Não se faça de besta Ino! – A rosada a olhou advertindo-a.

– Não me leve a mal, mas é que eu quero continuar viva. Lutar com aquele cara é suicídio. – A loira parou de correr enquanto falava com as duas mãos pra cima.. – Itai – Reclamou quando a amiga lhe puxou a mão onde repousava o anel.

– Eu já tinha me esquecido deles. – Confessou Sakura olhando com uma careta duvidosa para o ornamento da outra.

– É. Eu já tinha visto, mas nem falei nada porque é obvio que essa porcaria passou tanto tempo na mão do Orochimaru que pirou de vez. – Disse a loira compreendendo a expressão no rosto da rosada – O seu também está quebrado? – Ino terminou de falar e sentiu a amiga soltando sua mão para segurar a dela própria enquanto analisava seu próprio anel.

– Com certeza não está quebrado, afinal não poderia ser mais óbvio do que isso. – Disse estendendo a mão para Ino ver. – Então o teu também deve estar certo.

– Flor da cura. – Disse a loira olhando o kanji claramente desenhado no anel da outra. – Não, talvez tenha quebrado quando ele morreu. – Disse olhando mais uma vez sem entender para o seu. – Desde quando eu sou um rei? – Disse rindo como que se aquilo fosse uma piada.

– Ah, bem que você se acha! – Completou Sakura.

– O que fazem paradas aqui? – Madara apareceu sério e autoritário, mas as duas puderam o ver parar quando percebeu que estavam finalmente se lembrando dos kanjis que ele, secretamente, estava muito apreensivo para ver. – E então, quem é? – Perguntou bem mais calmo.

– Quem é o que? – A pergunta inocente de Sakura fez Madara lembrar que elas nada sabiam de como aquele pequeno objeto ia mudar a vida de todos os Akatsukis. – Madara para de enrolação. Pode ser você quem deve escolher o caminho por aonde vamos, mas ainda sou eu quem decide se andamos ou paramos e nós não vamos a lugar nenhum até você abrir a boca e dizer de uma vez o que planeja! – A forma corajosa e ofensiva como Sakura falou o fez sorrir de maneira sincera e logo o sorriso se tornou em uma larga risada – Do que você está achando graça?

O riso em timbre baixo e voz profundamente grossa chegava a ter um tom zombeteiro de tão medonho que soava. Um último sorriso, talvez nem merecido.

– Porque nem vamos precisar andar minha bela Sakura, nem vamos precisar andar.

– Nani? – A expressão de Ino soou mais alto que o pretendido quando sentiu fortes presenças ninjas os cercarem.

Ela logo se posicionou de forma defensiva. Sakura também os sentiu, eram quatro e eram fortes, muito mais fortes que os ninjas que invadiram a sede. Muito mais fortes de que os ninjas que enfrentaram na execução dessa missão.

Sabia disto, pois os conhecia. O que mais apavorou a rosada foi perceber que Madara já havia os sentido há muito tempo e ela pôde ver claramente que o motivo para saírem da trilha não era para se protegerem de nada, e sim para atraírem aquelas pessoas até eles.

Era um fato conhecido que aquele grupo procurava pelo dono do terrível Mangekyou; o temido e único dono conhecido daqueles olhos. O boato era de um Uchiha e seu par de Mangekyou sharingan desfilando por todas essas vilas, o par que era conhecido por seu único dono, ninguém sabia que havia mais um Uchiha vivo.

Era exatamente isso que Madara queria, queria que Sasuke viesse até ele pensando que encontraria Itachi. Agora seria tarde demais.

– Canalha, você nos atraiu para uma armadilha! – Ergueu o punho para a acertar o moreno, mas parou no meio do caminho ao ouvir a voz conhecida...

– Ele sempre foi o pior de todos os canalhas. – Sakura preferiu não olhar para quem falava com ela.

Ao invés disso, olhou uma última vez para o rosto de Madara em busca de qualquer resposta ou motivo. Ele mantinha os olhos fechados, ela sabia que aquilo significava que uma grande batalha estava por começar. A dúvida era contra quem ele planejava lutar, contra eles ou contra ela e Ino.

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A noite já se erguia imponente no céu azul petróleo, enquanto as lembranças traiam Jiraya roubando-lhe o sono. Ele se virou na cama de todos os jeitos, mas nenhuma posição parecia confortável, nenhuma puxada no lençol parecia levar as memórias para longe.

Até que então, depois de longas horas revivendo cada minuto daquele dia ele finalmente adormeceu. Mas nem mesmo o cansaço levaria para longe aquela lembrança que havia se tornado em seu sonho mais gostoso e sua realidade mais amarga.

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Início da lembrança sonhada de Jiraya

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– Espero que depois dessa você tenha finalmente aprendido Jiraya-chan. – Disse Saratubi-sensei quando chegou à cachoeira onde o ex-aluno, recém-promovido a jounin meditava.

Ele recém havia sido liberado da longa estadia que passara no hospital. E antes de qualquer resposta verbal, o futuro sábio dos sapos apenas riu de um jeito largo e solto.

– Aprendi. – Disse debochado e triunfante. – Aprendi um número: cento e três. foi isso que eu aprendi com isso tudo! – Disse fazendo gestos com as mãos como se estivesse contornando o próprio tórax em um molde sinuoso.

– Espero que tenha valido a longa estadia no hospital. – Falou o sensei em um tom divertido.

– Cada centímetro! – O jovem que já não meditava mais sob a água da cachoeira abriu um dos olhos para encarar o mestre que ria do comentário.

– Saratubi-sensei quanto tempo que não o via mais. – A voz aguda e feminina invadiu o momento entre mestre e aluno.

Tsunade apareceu sorrindo por entre os lírios que cresciam livres ali. Não esperava encontrar o mestre no esconderijo do sapo.

– Só tem mais tempo pro Orochimaru-kun – Ela forçou um beicinho birrento, fazendo o mestre rir.

– É que você parece ser a mais madura dos meus discípulos. – Disse admirando Jiraya que aparentemente pretendia fingir que ainda estava meditando.

– Baka! – Ela disse olhando e se referindo à Jiraya. – Então você já soube?

– Bom, como Hokage é um pouco difícil esconder alguma coisa de mim, principalmente a estadia tão longa de um dos meus ex-alunos no hospital.

– Gomen nasai. – Ela enroscou os dois braços atrás do corpo e olhou para ponta do pé que batia no chão. – Foi mais forte do que eu... e ele mereceu!

– Eu não duvido! – Disse dando uma tragada no charuto – Eu vou indo, tenho muitas coisas a fazer. E Tsunade... – Disse já de costas – Por favor, não o mate. Ele tem esse espírito indomável, mas tem o coração bom e puro. – E sumiu.

Tsunade sentou-se à beira do lago formado pela queda da cachoeira. Esperou que ele terminasse seu exercício de meditação, sem perceber que o menino na verdade fingia.

Admirou cada detalhe do corpo exposto. Sim se ele tinha o direito de lhe espiar tomando banho, ela podia se cobrar admirando cada centímetro exposto do tórax largo, e tinha que admitir, por mais idiota que Jiraya fosse, não diminuía a gentileza de suas proporções antropométricas.

Jiraya era lindo e tinha músculos desenhados com perfeição, parou por um longo tempo os olhos no abdome ainda enfaixado. Com certeza ainda carregavam os hematomas provocados por ela.

– Yare veio aqui terminar o serviço? – Debochou o garoto.

– Deveria. – Respondeu se levantando. – No entanto vim me desculpar por... bem você sabe... quase ter matado você. Eu fiz muito barulho por pouca coisa. – Concluiu se aproximando de ele estava.

– O engraçado é que era eu quem deveria estar pedindo desculpa. Já faz tempo que venho tentando ver seu banho, nunca pensei que você seria descuidada em algum momento. – Admitiu na maior cara de pau, mas de maneira tão espontânea e inocente que ela até sorriu.

– Ainda assim, seria motivo para surtar, fazer um escândalo, lhe dar um belo tapa na cara ou até mesmo um soco no estômago. Mas não com toda aquela quantidade de chakra, você poderia estar morto agora e eu não saberia viver com isso hun. – Disse já sobre a mesma pedra que ele, sendo também molhada pela cachoeira, levando às mãos a faixa em seu abdome para removê-la.

– Hei hei hei o que está fazendo? – Disse pondo sua mão sobre as dela.

– Quero dar uma olhada nisso.

– Já está quase bom, não dê importância a isto.

A loira das lesmas parecia se sentir verdadeiramente mal com a repercussão daquilo tudo. Ele não queria a preocupar mais permitindo que visse as dimensões do seu ferimento.

– Eu que fiz, eu que devo cuidar Jiraya. Tire as mãos. – Mandou e ao terminar de falar olhou para cima a procura dos olhos dele.

Inesperadamente encontrou-o a encarando de forma mais penetrante do que esperava. Do que era capaz de esperar. As palavras lhe sumiram admirando a face acidentalmente tão perto da sua.

Os olhos dele lhe transpassavam tanto sentimento como nunca vira ali. Talvez nunca o tivesse visto porque sempre temeu encontrar. Foi mais impulsivo que seu controle extremamente fugaz podia reagir, foi preciso apenas que ela inclinasse um pouco mais a cabeça para que seus lábios se tocassem com delicadeza, então os braços dele a trouxeram para mais próximo de si, aprofundando o resultado da insensatez dela aplicada ao desejo de amor eterno dele.

O beijo foi breve e cessou deixando uma forte sensação de formigamento em ambos os lábios. Ela abriu os olhos lentamente, como se o gosto da boca dele possuísse algum tipo de néctar viciante e que depois de provado a prenderia ali para sempre.

– Tsunade – Ouviu seu nome ser clamado ao mesmo tempo em que os lábios do garoto maior se moviam de maneira tão hipnotizante que ela não era capaz de deixar de acompanhar, deixando de enxergar todo resto e roubando toda sua atenção.

O ato foi inesperado até mesmo para ele que sonhava com aquele momento desde o dia em que a conheceu. Nada daquilo havia sido arquitetado, nem planejado ao vê-la ali tão próxima de si.

Tudo aquilo apenas aconteceu e fora por causa dela, por vontade dela. Afinal, foi Tsunade quem ergueu mais a cabeça, gerando o contato que dera início àquele beijo tão sonhado.

Ele não quis esperar até ela recobrar a consciência e expulsá-lo dali. Ou ainda que lhe desse mais uma surra como a que ainda estava se recuperando. Sem deixar de abraçá-la, ergueu com um dedo o queixo da loira ainda extasiada e iniciou um novo beijo, este mais voluptuoso e que fora prontamente correspondido pela garota que acabara de cercar seu pescoço com um forte abraço.

Ele sabia que não poderiam ser vistos. Caso contrario nem mesmo a inconsciência dela seria suficiente para que seu sonho durasse.

Então o braço que cercava a cintura de Tsunade a ergueu ao mesmo tempo em que ele se levantava. O jovem eremita andou com ela pendida em seu forte abraço na direção da cachoeira, até o paredão da montanha que ela lavava.

Depositou a amiga ali, encostada na parede úmida e cheia de limo a salvo da força da água enquanto em suas costas a cachoeira ainda batia feroz. Era como se a natureza soubesse o que estavam prestes a fazer e a gravidade de seus atos, reprimindo-o, mas ele nada faria para ir contra. Não ouviria sua consciência, nem a natureza nem mesmo ela se recobrasse a autonomia, estava diante do sonho de sua vida.

Permitiu que a mão deslizasse leve pelo corpo dela até sentir como ela reagiria a isso e sua alegria se ampliou, dando vastidão à esperança que aflige todos os apaixonados, de que ele teria uma chance de ser o homem da vida dela quando em resposta às carícias, Tsunade aprofundou o beijo que trocavam. A roupa molhada realçava nela os atributos que ele tanto admirava.

Nesse momento o experiente Jiraya acordou sobre a cama bagunçada, ainda era noite e ele não entendia porque estava se lembrando daquelas coisas tolas. Levantou e se debruçou na janela para admirar o vasto céu que cobria vila.

As casas silenciosas onde as pessoas descansavam em paz, pois sabiam que havia uma Hokage que mantinha a vila segura para cada aldeão. Ao longe uma coruja piou seu canto qualquer e ele, uma vez que não conseguiria tirar aquela lembrança da cabeça, retornou a lembrar.

Em sua mente ainda era vívida a memória de como suas mãos percorreram decorando todo o caminho que percorreu inúmeras vezes em pensamento, sentindo o corpo dela se aquecer entre seu abraço. Diferente do que ele imaginava, Tsunade parecia extremamente inexperiente quanto ao que faziam.

Então, da mesma forma como havia erguido o queixo dela para beijá-la, ergueu-o dessa vez para dar lhe acesso ao pescoço, surpreendendo-se com o cheiro de amêndoas que ela exalava. Cobriu o local de beijos, parando somente quando ouviu o prazeroso som da voz dela arfar o seu nome; o seu nome e de ninguém mais.

Jiraya parou o que fazia e a olhou, o castanho mel escurecido pela pouca claridade de onde estavam o olhava com um misto de sentimentos que ele temia decifrar. Tomou logo a mão pequena entrelaçando-a com a sua e levou os lábios até seu ouvido para chamar por seu nome.

Só então levou a mão pequena e delicada, que cabia sem nenhuma dificuldade dentro da sua, até os lábios para começar a beijá-la. Não cansava de repetir o nome dela entre os beijos que subiram da mão pelo braço, do braço ao ombro e do ombro até a orelha onde ele não deixou de repetir mais uma vez o nome amado.

Sem dar a ela chance de dizer nada que não fosse os monossílabos excitados ao ver-se tocada pela maneira tão carinhosa e apaixonada com que ele a tratava até chegarem ao estado de necessidade em que ela se viu não apenas permitindo, mas também desejando a forma como ele afastava as laterais de sua blusa para tomar-lhe os seios com a boca. Gostando de sentir o contato dos lábios quentes que descobriam caminhos pelas curvas e os pontos mais sensíveis da extremidade.

Tsunade rendeu-se por completo ao que seu corpo pedia, buscando mais uma vez o beijo viciante. Submetendo-se a uma permissão subliminar para que ele continuasse no momento em que permitiu que seus dedos finos e gélidos percorressem os músculos que havia admirado momentos antes e removendo de vez a faixa que cobria-lhe o abdome que ela mesma havia ferido.

O garoto mesmo quase sem nenhuma experiência compreendeu o que aquele ato significava e não demorou a guiar suas mãos para os tecidos que escondiam o corpo curvilíneo e deixa-la completamente nua. Em seguida terminou de despir-se, regido pela euforia de jovem e enamorado.

Jiraya resolveu andar, ficar se lembrando daquele dia, não mudaria seu futuro. Foi apenas ele que nunca deixou de amar. Tsunade teve Dan e mesmo após a morte do mesmo, nunca mais lhe dera se quer esperanças.

Olhou para o prédio imponente onde ela deveria estar tentando dormir. Cada passo o guiava inconscientemente para lá, a luz estava acesa.

Os recentes acontecimentos certamente não estavam permitindo que o sono chegasse até ela. A cada passo só ela em sua mente, e mesmo em movimento os acontecimentos daquele dia não saiam de sua cabeça. O som dos amantes se descobrindo ecoava naquele canto úmido onde se amaram. Onde ele a amou e esperou ser por alguns minutos, amado também.

A cada passo mais perto da mulher que era dona de sua vida, os gemidos de prazer se intensificavam em sua lembrança. Ele estava agora já no telhado do prédio e em sua mente era clara a visão do momento em que o seu gozo preenchera o corpo da loira ao mesmo tempo em que o prazer tomara conta de seu corpo todo, nunca havia sentido nada tão intenso em sua curta experiência.

Mas o sonho acabou quando após o último grito de prazer dela ele ouviu o que temia ouvir desde o primeiro toque entre seus lábios:

– O que fizemos? Isso não.. não poderia ter acontecido. Isso foi um erro. – Ela disse tentando cobrir o corpo enquanto catava suas roupas molhadas pelo chão.

– Não foi um erro você sabe que eu te amo. Nunca escondi isso de ninguém. É só você ficar comigo Tsunade.

– Não! Não é, isso foi um erro. Eu nunca vou te amar do jeito que você quer. Você sabe que eu... o Dan... – Os olhos tão belos se encheram de lágrimas. – Eu tenho que ir, foi um erro. Amanhã irei partir com Dan para missão de batalha em uma pequena vila em guerra com a Pedra, na volta iremos nos casar.

Aquela foi a única vez. E na missão para a qual ela partiu no dia seguinte, seu precioso namorado, Dan, morreu. Ele no fim se sentiu culpado pela morte dele, pois no fundo desejava que aquele homem não existisse para que não houvesse outro para ela.

Assim como ela também viveria o resto de sua vida carregando a culpa pela morte de seu homem. Ele estava cada vez mais perto da janela pela qual sempre invadia a sala dela, o brilho da luz era cada vez mais evidente e em seus ouvidos ainda ecoavam o canto de prazer dos dois... cada vez mais alto... cada vez mais perto...

Até que ele pôde perceber que os gemidos não estavam mais em sua mente e sim em seus ouvidos de verdade. Ele parou como uma estátua sem vida e sem reação, em pé diante á janela vendo a mulher de sua vida, pela qual ele nutria o sonho de sentir sobre si novamente, nos braços de seu atual amante.

Constatou pelo suor dos corpos sobre a mesa da hokage e a afinidade com que se moviam um contra o outro que aquele romance não era algo casual como foi o que tiveram anos atrás. Havia muito mais do que paixão nas palavras e meias palavras trocadas nos momentos mais prazerosos daquilo que seria uma despedida.

O homem que desfrutava da mulher com quem sonhava era muito mais novo que ele; era discípulo do seu discípulo. Ele a tocava de maneira tão intensa e carinhosa, não deixando de cobri-la com beijos e carinhos nem mesmo a medida com que a velocidade com que investia seu corpo contra o dela aumentava.

Ao ouvir o último sopro de gozo do casal, ele se apressou em sair dali. Ainda assim, pode ouvir as recomendações dadas por ela antes que ela e seu amante se vestissem.

– Siga as coordenas, faça seu trabalho e volte vivo. Mesmo que para isso tenha que voltar sozinho. – Ainda que amantes, ela era a Godaime e tinha sua autoridade.

– Não se preocupe comigo.

– Há um Uchiha com elas, sendo ou não Itachi não tente bancar o herói, apenas faça seu trabalho. Meu coração não suporta mais perdas, Kakashi.

– Eu volto assim que encontrá-las. – Ele a beijou uma última vez antes de se vestir e pegar suas coisas.

Estava prestes a sair pela mesma janela em que Jiraya assistira a quase tudo, mas sentiu seu pulso ser fortemente segurado. Ao olhar para trás viu os olhos tristes de sua amante o encarando, ela queria lhe dizer alguma coisa, mas talvez o posto que ocupava não a permitisse. Ele sorriu, voltou e a abraçou mais uma vez.

– Sabe que a amo e que não vou fazer nada imprudente que me impeça de voltar pra casa. – Disse por dizer, apenas pra acalmar a loira que parecia muito mais aflita que o normal.

Não tão longe dali, o velho coração do eterno aventureiro ainda tentava compreender que mais uma vez Tsunade estava apaixonada e mais uma vez, não era o corpo dele que acompanhava o da loira guiando cada gemido, cada espasmo de prazer como já fizera uma vez. Pegou uma pedra qualquer no chão e a jogou na água, vendo-a quicar na superfície algumas vezes e então desaparecer no fundo das águas escuras.

Por quanto tempo mais teria que esperar até ela perceber que era ele a pessoa certa para ela? Quanto tempo ainda teria que viver naquela agonia de desejá-la e ter que se conter com a lembrança de uma noite apenas?