Olá! Estou de volta com mais um cap \O\ /O/
Estou muito feliz pelas reviews e como eu disse antes essa não será uma história muito longa, talvez tenha só mais uns dois ou três capítulos pela frente . Mas isso pode ser negociado com a titia criatividade.
Boa Leitura
Quando eu acordei no dia seguinte, havia uma inquietude brotando em meu peito. Eu rolei na cama só para ver que Julien ainda dormia profundamente, o que era estranho já que ele normalmente acordava muito mais cedo do que eu. Eu sorri para a sua forma adormecida, seu cabelo loiro estava bagunçado, ele precisava de um corte de cabelo, e ele dormia pacificamente com a boca entreaberta.
Era muito cedo e eu não conseguia entender o motivo de eu ter acordado. Com medo de acordar Julien, eu fiquei na cama em silêncio por cerca de meia hora antes de desistir e me levantar para fazer o café da manhã. Mas antes eu caminhei até o quarto de hóspedes e abri a porta silenciosamente para não despertar a criança que dormia lá dentro.
Eu tive que conter um grito de medo ao ver o quarto completamente vazio. Estava tudo completamente organizado e a cama muitíssimo bem feita. Eu não teria acreditado que alguém estivera naquele quarto na noite passada se não fosse a camisa de Julien perfeitamente dobrada em cima do travesseiro da cama.
Eu desci as escadas e chamei por Erik. Mesmo na penumbra das cortinas fechadas eu pude ver que a casa estava completamente vazia. O pânico começava a se formar em meu peito quando eu saí para o quintal. O que poderia ter acontecido para ele fugir da minha casa na calada da noite?
"Madame De Lavigne." Disse uma voz que vinha das sombras projetadas por frondoso carvalho que crescia do lado de fora da cerca da casa.
"Erik!" Eu exclamei sem conseguir conter uma nota de alivio em minha voz ao ver seus misteriosos olhos brilhando levemente na escuridão. "O que você está fazendo aí?"
Erik se esgueirou rapidamente até o portão que eu abri para ele. Ele tinha um jeito ágil de se movimentar que me deixou espantada. Ele veio até mim e ficou encarando o gramado sob seus pés.
"Porque você estava do lado de fora a essa hora?" Eu perguntei diretamente.
"Maman voltou para casa ao amanhecer. Eu não queria lhe causar problemas, por isso eu voltei para casa sem que ela percebesse." Respondeu ele.
Eu ignorei o estranho fato de ele ser capaz de notar que sua mãe havia chegado em casa sendo que havia uma distância considerável entre a minha casa e a dele. Havia uma apreensão vinda dele que me deixou confusa. Ele realmente parecia ter medo da reação de Madeleine ao descobrir que ele passara a noite na casa dos vizinhos.
"Por que você voltou? Eu havia deixado um bilhete avisando sua mãe que você estaria aqui." Eu perguntei desconfiada que pudesse haver algo mais.
"Eu não posso sair de casa. Padre Mansart disse que eu posso sofrer represálias se as outras pessoas da vila me vissem."
Eu consegui conter minha expressão de medo ao ouvir isso. Erik parecia bem ciente dos riscos que a deformidade que ele carregava trazia para a sua vida.
Pensando bem, a criança triste e assustada que tinha adormecido nos meus braços na noite passada me dizia tudo. Eu sofri ao saber o enorme fardo que essa criança carregava, ele não tinha nem uma década de vida e já sofria o suficiente para uma vida inteira. E eu sabia que ele não tinha visto nem uma pequena fração do que esperava por ele se não tivesse ninguém disposto a ajuda-lo. Minha missão só estava começando.
"Bem, venha para dentro. Vou preparar o café da manhã e aposto que você ainda não comeu nada."
Erik ficou olhando para a minha mão estendida, mas não a tomou.
"Eu preciso voltar. Ela vai me obrigar a escrever, ela sempre faz isso nas segundas-feiras." Disse ele.
Eu fiquei intrigada com isso.
"Você ainda está aprendendo a escrever, Erik?" Eu perguntei intrigada com essa nova descoberta. Erik sabia ler perfeitamente bem, por que ele teria problemas com escrever?
"Eu sei escrever, mas minha letra é feia. É mais fácil escrever com a mão esquerda, mas ela diz que o diabo escreve com a mão esquerda e por isso ela é impura."
Eu o ouvi dizer isso em um silêncio horrorizado. Quem poderia ter pensamentos tão medievais?
"Ela diz que a minha alma deve pertencer somente a Deus, mas eu não consigo escrever com a mão direita é muito difícil."
Ele disse isso em um tom de auto repulsa tão grande que me assustou. Dizer que algo era difícil parecia custar um esforço enorme da parte dele.
Eu comecei a rir e isso o fez me olhar um pouco ofendido, ele recuou alguns passos.
"Oh! Desculpe-me, querido." Eu disse ao notar a posição defensiva que ele tomou. "Eu apenas lembrei que talvez eu não devesse deixar a sua mãe ver Julien, já que segundo o pensamento dela ele está condenado ao inferno."
Erik ficou olhando para mim com um brilho em seus olhos que deixava muito claro que ele não tinha entendido o que eu quis dizer.
"É que Julien é canhoto. Ele sofreu um pouco com isso quando era criança." Eu esclareci para ele. "Mas não acredito que usar a mão esquerda para escrever vai envia-lo para o inferno."
Erik parecia um pouco mais feliz com essa ideia.
"Eu posso ajuda-lo com a escrita." Eu disse para anima-lo. "Você pode aparecer aqui e eu terei o maior prazer em ajuda-lo."
"Você está falando sério?" Perguntou Erik encantado.
"Sim, nunca falei tão sério em toda a minha vida." Eu respondi. "E então, você aceita?"
Erik concordou imediatamente. E eu fiquei feliz por ser o motivo de alguns dos seus sorrisos.
E foi assim que Erik se tornou uma presença constante em minha casa. Eu e ele fizemos um acordo silencioso de não mencionar essa visitas para Madeleine. Erik se esgueirava alguns dias da semana para fora de seu quarto e vinha até a minha casa onde eu lhe ensinava a escrever como um canhoto. Julien foi de muita ajuda e algumas vezes ele surgia de sua toca, digo, escritório e me ajudava nas aulas de Erik.
Julien também parecia estar se afeiçoando ao menino. Ele emprestava todo o qualquer livro que Erik demonstrava interesse e sempre lhe presenteava com papéis para partitura e material de desenho.
Erik era uma criança incrível e brilhante, sua genialidade atravessava todas as fronteiras da minha imaginação. Ele era observador e perspicaz. Ele tinha talentos para todas as formas de arte, ele tocava piano e violino com uma habilidade desumana, ele desenhava edifícios magistrais de sua própria criação com uma imensa facilidade. E ele era um aprendiz rápido, ele evoluiu de sua caligrafia infantil e hesitante para um traço elegante e refinado. Suas cartas eram muitíssimo bem escritas e com uma caligrafia impecável. Eu estava feliz por ver o seu progresso.
Ele também me contou que há cerca de um ano ele recebia a visita mensal de um professor da escola de arquitetura que lhe dava aulas e se preparava para forma-lo arquiteto. Erik só me surpreendia a cada dia que passava.
Com o passar dos meses ele desenvolveu um interesse incomum pelas ciências. Ele lia os artigos e livros publicados por estudiosos da época. Teve vezes que ele e Julien se fechavam no escritório e passavam horas debruçados sobre teorias e mais teorias para depois passar mais tempo discutindo-as do que comendo durante o jantar. Mas eu nunca me senti excluída, Erik também adorava me seguir por toda a casa, muitas vezes ele se sentava no chão aos meus pés enquanto eu lia algum conto de fadas para ele, como a criança que ele era.
E assim a primavera acabou sendo substituída por dias mais longos e quentes. Eu estava cuidando do meu jardim com mais afinco agora que as chuvas se tornaram mais esparsas. E foi em uma dessas tardes de verão que eu realmente conheci Marie Perrault. A princípio eu estranhei o motivo que a jovem de cabelos ruivos estava rumando para o meu quintal. Ela me viu e acenou para mim. Eu fui cumprimenta-la.
"Bom dia mademoiselle Perrault. O que a traz aqui hoje?" Eu perguntei com um sorriso que se desfez ao ver a expressão assustada dela.
"Aconteceu algo?" Eu perguntei um pouco confusa.
Marie puxou dois livros de sua bolsa, eram livros que Julien havia emprestado a Erik. Se esses livros estavam com Marie, eu só poderia supor uma coisa. Madeleine havia descoberto sobre as visitas de Erik.
"O que ela fez com ele?" Eu me peguei perguntando para Marie. Meu coração estava batendo dolorosamente contra meu peito.
Marie ficou em silêncio por alguns momentos. Ela parecia hesitante em me contar. E isso só aumentou meu pânico.
"Padre Mansart foi até a casa avisar Madeleine que Erik anda se aventurando pela vila durante a noite. Ele foi visto vagando nas proximidades da igreja e dizem que ouviram os sons do órgão por volta da meia noite. Descobriram que Erik saia pela janela de seu quarto e por isso Padre Mansart decidiu fecha-la com tábuas. Quando ele foi fazer isso ele descobriu esses livros. Ele e Madeleine supuseram que Erik os havia roubado. Erik não quis dizer para eles de onde vieram os livros, mas hoje ele me contou e pediu que eu os devolvesse."
Eu escutei em silêncio o relato de Marie, e não questionei os motivos pelos quais ela, uma pessoa que eu nunca mantive uma conversa, revelou algo sobre a vida privada dos Levievre. O olhar e os gestos dela deixaram tudo muito claro. Ela estava pedindo a minha ajuda.
"Quando tudo isso aconteceu?" Eu perguntei começando a ficar preocupada. Fazia três dias desde a última vez que Erik esteve na minha casa. Eu não me preocupei com o seu bem estar e só Deus sabe o que pode ter acontecido com ele nesses últimos dias.
"Ontem. Padre Mansart pregou a janela do quarto e Madeleine o trancou lá dentro." Disse Marie prontamente. "O aniversário dele é hoje, eu achei cruel ela fazer isso."
"Muito obrigada pelo aviso." Eu disse varrendo a terra do meu avental e rumando direto para a casa vizinha.
"Madame De Lavigne!" Exclamou Marie assustada pela minha determinação feroz.
Com os livros debaixo do braço eu fui direto para a casa vizinha. A porta estava aberta, mas eu hesitei em entrar sem ser convidada. Mas o som de gritos e de louça quebrando vindos da cozinha me fez abandonar as normas de etiqueta e entrar porta adentro sem convite. Eu corri direto para a origem do som e vi Madeleine com os cabelos desgrenhados e um olhar assassino no rosto, pressionada contra a parede, ela estava mais magra e seus olhos pareciam grandes demais para o seu rosto fino.
Assim que a minha presença foi notada eu ouvi um soluço infantil e finalmente eu notei Erik. Ele estava sem a máscara que jazia jogada em um canto, seu rosto estava ensanguentado e eu notei um corte na linha da raiz dos cabelos, ele também estava com o lábio partido e inchado. Quando me viu, Erik correu em minha direção e eu me abaixei mecanicamente para toma-lo em meus braços.
Madeleine observou o filho correr até mim em uma espécie de silêncio horrorizado. Eu deixei ele me abraçar e beijei o seu cabelo. Madeleine soltou um gritinho a me ver fazer isso.
"O que você fez com ele?" Eu perguntei quase rosnando para a mulher patética encolhida contra a parede.
Madeleine não respondeu e eu não insisti na pergunta, ao invés disso eu peguei Erik nos meus braços e perguntei onde ficava o banheiro. Ele me mostrou e eu prontamente o levei até lá.
Eu lavei o sangue do rosto dele em silêncio, eu mantive meus lábios firmemente pressionados para conter o impulso de gritar de raiva e frustração. Eu me sentia tão culpada por não ter pensado em Erik nos últimos dias, eu estava acostumada com a confiança e a independência que ele demonstrava, eu nunca parei para considerar os riscos que ele corria vivendo sob o mesmo teto que sua mãe.
Erik me observou com os olhos marejados enquanto eu cuidava de seus ferimentos. O corte que ele tinha na testa não era tão ruim para precisar de pontos, mas eu tive o cuidado de limpa-lo para evitar alguma infecção. Não havia muito que fazer pelas outras escoriações. Quando eu acabei eu pus Erik de pé na minha frente e me abaixei para ficar na altura de seus olhos.
"O que aconteceu querido?" Eu perguntei docemente.
"Maman me mandou copiar meus textos hoje de manhã. Eles eram muito extensos e eu queria acabar com eles rapidamente, maman me viu escrevendo com a mão esquerda e ficou muito zangada..."
Eu não quis ouvir mais. Levantei-me e voltei com Erik para a sala de estar onde Madeleine estava de pé a nossa espera. Ela olhava para Erik com tal ferocidade que eu instintivamente o coloquei atrás de mim.
"Como você pode toca-lo assim..." Sussurrou Madeleine para si mesma, mas eu a ouvi.
"O que você acha que eu deveria fazer para consolar uma criança que foi vitima das insanidades de sua própria mãe?" Eu respondi colocando toda a acidez possível em minha voz.
Madeleine ficou em silêncio provavelmente absorvendo as minhas palavras e então outro brilho psicótico apareceu em seus olhos cinzentos.
"Você viu o rosto dele, certo?" Gritou Madeleine. "O que eu disse a você, seu demoniozinho?" Gritou ela ferozmente agora se voltando contra Erik.
Eu dei alguns passos para trás arrastando Erik junto comigo para coloca-lo fora do alcance daquela mulher perturbada.
"Erik, você pode ir para o seu quarto por alguns minutos?" Eu perguntei sem tirar os olhos de Madeleine.
Eu senti o aperto em minhas saias se afrouxar e Erik se afastou de mim.
"Sim, maman." Disse ele obedientemente.
Eu e Madeleine arfamos de choque ao mesmo tempo. Eu não tinha certeza se Erik tinha percebido que ele acabara de me chamar de mãe. Uma sensação morna tomou conta do meu coração. Fazia mais de três meses desde que eu vi Erik pela primeira vez. E em cada minuto que ele esteve ao meu lado eu me sentia tão responsável por aquela vida que desabrochava diante dos meus olhos. Eu nunca havia experimentado essa sensação, esse sentimento de carinho, adoração, orgulho e a necessidade de preservar aquela inocência e pureza. Naquele momento em que Erik tão inconscientemente me chamou de mãe, eu descobri que a palavra não parecia deslocada na minha mente, pois eu também o via como meu filho.
Mas, por uma infelicidade da vida, aquela que era a verdadeira mãe de Erik estava na minha frente e parecia prestes a me estrangular.
"Então é para a sua casa que Erik vai quando escapa?" Perguntou Madeleine.
"Provavelmente sim." Eu respondi tranquilamente.
"E foi você que andou ensinando-o a usar a mão esquerda para escrever?" Ela parecia particularmente zangada com isso.
"Não, Erik é uma pessoa canhota ele sempre soube escrever com a mão esquerda." Eu respondi ficando um pouco irritada pelo medievalismo dos pensamentos daquela mulher. "A única coisa que eu fiz foi deixa-lo escrever com a mão que ele prefere."
"Ele já tem o rosto de um demônio!" Gritou Madeleine. "Eu não quero que ele passe a se comportar como um."
Em toda a minha vida eu fui uma menina calma e simples. Eu era filha única e não tinha muitas amigas da minha idade. Minha vida era tranquila e pacifica. Por isso, eu nunca me vi na necessidade de bater em alguém. Mas ainda assim me sinto um pouco orgulhosa em saber que a primeira vez que eu ergui minha mão contra alguém foi para defender Erik.
Eu acertei um tapa no rosto de Madeleine com tanta força que minha mão ficou dolorida. Toda a bochecha esquerda do rosto de Madeleine ficou vermelha e irritada. Eu não fiquei ali para ouvir mais absurdos da boca daquela mulher doente. Mas eu tinha esperanças que a minha atitude extrema colocou um pouco de juízo na mente dela.
Eu marchei furiosamente até a porta, mas antes de sair eu me virei para Madeleine e disse:
"Você tem todo o direito de ser uma desiquilibrada, mas faça-me o favor de não empurrar suas insanidades em cima de seu filho, ele é apenas uma criança."
Eu saí sem ouvir nenhuma resposta. Meu sangue estava fervendo em minhas veias. Meu marido, Julien, se assustou ao ver o meu olhar furioso. E eu devo ter passado uma impressão muito ruim, pois ele não se atreveu a me fazer nenhuma pergunta.
Essa foi a primeira vez que eu experimentei o verdadeiro significado da palavra raiva.
Wow! Sophie está perdendo a paciência com Madeleine... O que acharam disso?
Vejo vcs nos reviews ;)
