Bem, eu não achei forma melhor para comemorar o dia das crianças do que com um capitulo dessa fic com nosso Little Erik. É um cap meio aleatório que não vai avançar muito trama, mas vai criar o cenário para os próximos capitulos.

Espero que gostem.

Boa leitura


Desde pequena eu tive uma educação religiosa. Os conceitos de céu e inferno, puro e pecador haviam sido impostos desde muito cedo. Mas os últimos acontecimentos me fizeram questionar a existência e a necessidade de um local de tortura pelos nossos pecados.

O arrependimento já é castigo suficiente.

Lentamente o inverno começou a dar seu lugar à primavera. Eu nunca mais vi Madeleine depois do que aconteceu naquele dia infeliz, mas Erik continuou aparecendo na minha casa. Ele havia mudado muito naquele período de tempo, no início eu não percebi, mas depois de algumas semanas eu notei que seu comportamento estava diferente.

Não era algo ruim exatamente, mas era estranho. Algo que aconteceu depois que ele voltou para casa naquele dia, algo quebrou dentro dele. Erik não era mais tão agitado e energético como antes. Ele havia perdido todos os seus modos infantis para assumir uma postura extremamente adulta e posso dizer também fria. Eu não gostei. Preferia meu menino carinhoso que me perseguia falando sobre seus projetos e sonhos e não essa figura muda e apática.

Eu tentei várias vezes tocar no assunto, mas ele se mostrava tão arredio que eu desisti de força-lo a me dizer o que tinha de errado. Mas eu me esforçava em mostrar para ele que eu estava ali para ele sempre que ele precisasse. Um abraço carinhoso quando ele chegava, um beijo de agradecimento quando ele me ajudava com algo. Eu via em seus olhos que algo estava acontecendo e eu me sentia extremamente frustrada por não saber o que era e como ajuda-lo.

Uma manhã, Julien me acordou com uma ótima notícia. Seu livro havia sido finalizado e seu editor lhe deu uma resposta muito positiva. Ele iria até Paris para acerta alguns detalhes da publicação. Ele queria que eu o acompanhasse, mas minha cabeça estava tomada por Erik e eu não quis viajar desse jeito. Eu disse para Julien que estava indisposta e ele partiu sozinho.

Uma semana depois, eu estava arrumando flores em um vaso da sala quando eu ouvi os passos leves que eu sabia serem de Erik.

"Boa tarde, Erik." Eu cumprimentei com um sorriso no rosto ao vê-lo parado no hall me observando timidamente. "Senti sua falta nesses últimos dias."

Fazia alguns dias que Erik não aparecia na minha casa. Vê-lo me causou um imenso alívio. E eu também me sentia solitária sem Julien.

"Madeleine estava doente." Respondeu ele entrando na sala e ficando ao meu lado.

"Você não deve se referir a sua mãe pelo nome dela." Eu respondi imediatamente.

"Madeleine não é minha mãe, você que é." Respondeu Erik fazendo um beicinho teimoso.

Isso me quebrou. Eu lhe dei um beijo na testa e o levei para a cozinha para tomar um chá. Tenho que confessar que eu estava empurrando para ele todos os doces que eu podia cozinhar, eu era pior que uma vovó estragando os netos. Ao contrário de sua relutância em comer outros tipos de alimento, ele tinha uma clara preferência e queda por doces. Para um menino que parecia quase um esqueleto em sua magreza, eu não via nenhum mal em enchê-lo de biscoitos, bolos e chocolates. E ele parecia adorar a minha culinária, eu ria por dentro ao ver seu rosto sujo de chantilly.

Mas hoje eu lhe ofereci alguns biscoitos que eu tinha assado pela manhã e para minha surpresa ele não tocou em nenhum. Ele bebericou o chá, mas parecia estar mais interessado em observar as folhas no fundo da caneca do que em beber o líquido que já estava esfriando.

"Aconteceu algo, querido?" Eu perguntei ao notar seu desinteresse pelo lanche que eu lhe servi.

Ele não respondeu de imediato, e quando eu abri a boca para insistir na pergunta ele ergueu os olhos para mim muito seriamente e perguntou:

"Por que você e Julien se casaram?"

Eu fiquei um pouco muda com a pergunta repentina dele, mas me esforcei pra responder.

"Bem, a melhor reposta seria por que nós nos amamos." Eu respondi um pouco confusa.

"Como vocês se conheceram?" Perguntou ele sem fazer comentários sobre a minha resposta.

"Bem vejamos. Não é uma história muito interessante. Meu pai tinha negócios com a família dele e um dia eles foram convidados para jantar, lá eu conheci Julien e nós... bem é difícil de explicar com palavras, mas foi como se certa afinidade tivesse crescido entre nós sem nos conhecermos direito. Ele era doce, inteligente, cavalheiro..."

Eu corei sobre o olhar de Erik e acabei me calando.

"Apenas isso?" Perguntou ele parecendo decepcionado.

Eu fiquei confusa, mas então a luz veio a minha mente. Erik não sabia nada sobre os relacionamentos. Vivendo isolado com uma mulher como Madeleine, ele não teve a chance de aprender sobre as diversas formas de se relacionar. Uma pena. Pois ele é um menino doce e amável e deveria ter várias pessoas ao redor dele para lhe dar amor e carinho.

"Bem, certas coisas não podem ser realmente ditas em palavras. Pois elas vêm do coração e apenas você entende a língua dos seus sentimentos. Tudo que você pode esperar é encontrar pessoas cujos sentimentos falem um idioma parecido com os do seu."

Eu devo ter me enrolado toda, mas era difícil explicar algo assim. As pessoas meio que nascem entendendo isso.

"Com o tempo, você vai entender isso." Eu disse para encerrar o assunto. "Mas, existe um motivo para você vir com essas perguntas hoje?"

Erik ficou calado por um tempo antes de dizer.

"Madeleine tem um pretendente."

Ele disse isso como se fosse algo que ele tenha decorado, mas não soubesse o real significado disso.

"Isso é uma boa noticia, você pode ganhar um novo pai." Eu respondi sem muita esperança.

"Não! Eu não vou ganhar." Disse ele imediatamente. "Madeleine disse que eu sou o único motivo pelo qual ela não pode se casar."

Eu fiquei muda ao ouvir isso. Estava explicado o humor de Erik. Aquela bruxa ainda estava torturando a mente dessa pobre criança.

"Isso não é verdade, Erik." Eu disse sem pensar. "Se esse homem realmente ama a sua mãe, ele iria se casar com ela. Você não tem culpa de nada. Você é filho dela, e essa é uma ligação muito forte."

"Ela não é minha mãe." Resmungou ele novamente. "Você é e eu gosto mais de você do que dela."

Eu saí do meu lugar e me pus de joelhos na frente dele.

"Eu te amo como se você fosse meu filho." Eu disse passando a mão nos cabelos dele. "Mas você já tem uma mãe e eu sei que ela tem suas falhas, mas ela também te ama."

"Ela me odeia." Disse Erik. "Ela sempre diz que me odeia."

"Oh, Erik as pessoas dizem coisas tolas quando se irritam. Não leve como verdades. Ela te ama."

"Ela nunca disse que me ama. Mas você disse. Eu queria que você fosse minha mãe."

Eu o puxei para um abraço.

"Eu também gostaria. Eu gostaria mais do que tudo que Deus tivesse dado você para mim."

Eu fiquei com ele nos meus braços por alguns minutos. Quando nós nos afastamos eu não me levantei e olhei seriamente para ele.

"Mesmo que não seja sua mãe de verdade, essa casa sempre será sua quando você precisar. Venha aqui sempre que você quiser e você sabe o quanto eu adoro a sua companhia."

"Verdade?" Perguntou ele timidamente.

"E você tem dúvidas?" Eu respondi antes de dar um beijo na testa dele o que lhe devolveu o sorriso que eu estava acostumada a ver. "Agora você deve comer alguns biscoitos ou irei levar isso como uma afronta a minha cozinha."

Erik acenou concordando, o velho brilho alegre estava de volta em seus olhos. Ele passou toda à tarde comigo e eu amei cada minuto. Quando o sol estava se pondo ele disse que deveria voltar. Minha vontade era de segura-lo comigo para sempre, mas eu sabia que não podia.

Mas eu deveria ter me arriscado. E eu irei me arrepender até o fim de meus dias, por não ter sido um pouco mais irresponsável.

E tê-lo segurado junto comigo.

Arrependimento será meu castigo.