Depois das festividades, quando a sala comunal da Sonserina estava em silêncio, Minna, em seu roupão verde estampado com sapos, preparava duas xícaras de chocolate quente – só um pouquinho alteradas com duas doses de conhaque que ela havia conjurado. Ela iria precisar.

Gabriel, sentado no sofá observava a garota. Como era possível que houvesse mudado tanto em tão pouco tempo? Não era só o cabelo, mas havia algo em sua postura.

Sorrindo, e fingindo não perceber o olhar desconfiado do amigo, Minna entregou uma xícara para Gabriel.

- Bolo?

- Claro.

Ela conjurou uma cesta de muffins de aveia com gotas de chocolate e, segurando sua xícara, sentou-se ao lado de Gabriel. O garoto apressou-se a enfiar o maior dos muffins na boca.

- Um brinde a nossa quinta noite em claro, antes do primeiro dia de aulas.- Minna sorriu, batendo sua xícara na do garoto.

- Que essa tradição se mantenha- Ele falou, solenemente e de boca cheia, antes de tomar um demorado gole de chocolate quente que desceu queimando. Gabriel olhou escandalizado para Minna que, por sua vez, deu de ombros.

- É pra dar coragem em ano de NOMs.

Por fim ele riu. Não era hora de ser o nerd certinho. Deu um gole bem demorado em sua xícara e sentiu que a bebida o deixou ainda mais ansioso. Ele observou aquela Minna mutante deixar sua xícara em cima da mesinha que havia diante deles e estava tão distraído olhando para seus longos dedos que não percebeu quando os olhos dela pousaram em seu rosto.

- Qual é a história do brinco?

Ela levantou a mão para examinar a argola, mas Gabriel deu um tapinha gentil nela, corando.

- Nem ouse.

- Achei que caiu bem. Sério mesmo.

- Faz sentido você achar isso, já que resolveu fazer a mesma coisa. Qual é a história do cabelo?

- Você acreditaria se eu contasse?

- Provavelmente.

Minna se afastou e Gabriel ficou aliviado por ela ter se afastado, por mais que seu bom senso dissesse que não era uma coisa boa de se desejar.

- Ok, desembucha - ele a apressou.

- Meu cabelo mudou de cor. Sozinho.

- Oi? Como assim?

- Dormi loira. Acordei morena. Pesquisei muito sobre ocorrências como essas e todas apontaram para metamorfomagos. Mas as transformações dessa galera normalmente são intencionais, não se acorda de um jeito diferente.

- E o que você vai fazer sobre isso?

- Não sei. Não sei com quem falar. Sempre tem o Snape, mas...

- Ele é uma ótima opção, você sabe.

- Mas... - Minna continuou, irritada por ter sido interrompida - queria resolver isso sozinha.

- E se você tiver sido enfeitiçada? E se for um resquício do que aconteceu no primeiro ano?

Minna balançou a cabeça negativamente, fechando os olhos como se pudesse afastar as lembranças.

- Fui examinada depois daquilo, lembra? Não tem nada de errado comigo.

- Bom, se serve de consolo, o novo cabelo ficou bonito. - Gabriel corou furiosamente e colocou toda a culpa das palavras no maldito choconhaque.

- Sabe o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas? - a garota fingiu não ouvir Gabriel, seus olhos se perdendo em algo que ela não podia ver - Aquele que vimos na cerimônia de seleção?

- O do turbante?- Gabriel lembrava-se claramente da figura bizarra.

- Ele mesmo. Você não achou que ele era todo esquisito?

- Minna, isso não tá na cara?

- Não nesse sentido! Não só por causa do turbante. Ele não te passou uma sensação estranha?

- Não mais do que qualquer pessoa de turbante passaria, eu acho.

- Quando eu o vi, pela primeira vez, no trem...

- Você viu ele no trem? – "Será que era isso que estava incomodando?", pensou, lembrando-se da cara chateada da amiga.

- Foi muito rápido. Mas eu olhei pra ele e ele me olhou de volta de um jeito tão estranho.

- Ih, Minna! - Gabriel riu- Ter casos com professores dá expulsão. E se for mesmo o que você quer, acho que consegue coisa melhor do que o Turbante. O Snape, por exemplo. Sempre chamando você de a melhor aluna, coisa e tal.

- Não seja babaca, você entendeu o que eu disse. E não coloque o Snape na história. Ele é um professor muito decente.

- Isso é o que você acha. Vai saber o que não se passa pela cabeça dele. Vendo uma aluninha querida demonstrando toda sua rebeldia com piercing no nariz e tomando conhaque em plena sala comunal. Aposto que ele ia achar a cena bem divertida.

- Fala sério, cala a boca.

- Ou eu falo ou eu calo.

- Por que você precisa ser tão babaca? Vamos mudar de assunto. O que achou do Potter na Grifinória? O povo todo daqui tava torcendo pra ele acabar na Sonserina.

- Não vi nada de extraordinário nele, pra falar a verdade.

- Eu também.

Eles conversaram até as primeiras horas da madrugada, quando o conhaque passou a impedir que ficassem acordados. Subiram para os quartos e tudo o que Gabriel concluiu da conversa foi que Snape acharia essa nova Minna bem atraente. Como ele.

Na primeira manhã de aulas, Sholk, Gabriel e Minna se encontraram nas masmorras e foram juntos ao Grande Salão. Tomavam um café da manhã reforçado para se manterem acordados quando Bruno, um monitor de cabelos negros e testa espinhenta, passou entregando os horários.

- Flitwick na primeira aula, Sibila na segunda, um tal de Quirrel nas outras duas e Binns na última. – Sholk concluiu.

- Quirrel é o professor do turbante - Minna lembrou, coçando o queixo. - Ah não... - ela adquiriu um ar desanimado.

- O que?

Minna não precisou responder. Marcos Flint se aproximava. Tinha um ar irritante e confiante demais. Ele, Gabriel e Sholk não se entendiam desde o segundo ano, quando fizeram os testes para o time de quadribol.

- Iodovin e Choquinho! - ele berrou, cumprimentando-os.

- Flint, como vai? - Gabriel perguntou, seco.

- Pra falar a verdade, muito bem. Adivinhe quem é o novo capitão do time?

- Pelo jeito...

- Sim, Iodovin! EU!

- Fala sério - Minna reclamou, alto demais. Flint olhou para a garota, como se não tivesse reparado nela antes.

- Minna...?

- Sim, Marcos, esse é meu nome - ela muxoxou, virando-se para o café da manhã. Gabriel franziu as sobrancelhas. Sempre desconfiou que Minna tivesse uma paixonite por Flint, mas sabia que se o recém-capitão havia olhado duas vezes seguidas para ela seria muito.

Marcos fingiu não ter ouvido os comentários da garota e seus olhos voltaram para Gabriel

- E o que é isso na orelha? Tá virando fruta? Ou melhor, assumindo que é fruta?

Gabriel ficou mudo.

- Eu gostei.- Minna encarou Flint, novamente, surpreendendo os três garotos e apontou para o próprio piercing - Tanto que também fiz um. A gente não tem medo de se furar. Ou de um pouco de sangue.

Com a menção da palavra "sangue", Flint ficou pálido. Foi sentar do outro lado da mesa, de onde ainda encarava Gabriel.

- Minna, você não precisava ter se metido. – Iodovin ficou irritado com a situação. Defendido por uma garota? E por Minna? Ela, por sua vez, sorriu.

- Desculpa, princesa. - após ser chamado de princesa, e justamente por Minna, Gabriel se escondeu por trás do suco de abóbora.

- Ele vai aprontar alguma coisa, tenho certeza. Agora que é capitão vai querer abusar do poder. Escreva o que estou te dizendo.- Sholk comentou, preocupado. Neste momento, eles perceberam que o olhar de Minna tinha se perdido no outro lado do salão.

- EI! - Sholk chamou a atenção – Time da Sonserina em crise aqui! Vai escutar ou não?

- Desculpe. Estava distraída.

- Percebi - Gabriel olhou para o outro lado do salão e viu que Minna olhava para Olívio, que conversava animadamente com os gêmeos Weasley. "Queda pelo Flint nada", remoeu. Também havia percebido o jeito com que Wood olhava para ela e não estava gostando nem um pouco dessa história. Afinal ele não estava namorando com aquela Alícia? Sholk riu sonoramente.

- O que? – Minna perguntou, não vendo a graça

- O Wood tá de cueca de oncinha? – ele sorriu, cutucando a garota. O fato de Sholk, a pessoa mais desligada do mundo, também ter percebido tornou a situação ainda mais irritante para Gabriel. A garota fez cara de deboche.

- Só estava imaginando se ele já sabe que o novo capitão é o Flint. Não sei se ele vai ficar muito feliz com essa história. E por que toda essa preocupação com os meus olhos?

- Preciso proteger sua virtude, como menina oficial do grupo. Você não sabia que vai morrer virgem? Pois é, agora sabe.

- Cala a boca e toma seu café, Sholk. – Minna puxou o menino para o banco. Gabriel decidiu que um voto de castidade talvez não fosse uma ideia ruim para Minna.