Minna desenhava em seu pergaminho, distraída, enquanto Flitwick ensinava mais algum dos feitiços que ela, Gabriel e Sholk haviam aprendido no segundo ano. Poxa, estavam no quinto ano, podiam ensinar coisas mais interessantes a eles.

Ela estava perdida em suas reflexões quando Flitwick a chamou.

- Senhorita Moncharmin! - ela pareceu acordar de um transe - o professor Snape está pedindo que você o encontre em sua sala de aula.

Minna não fazia ideia de como Flitwick havia recebido uma mensagem de Snape, sem que alguém entrasse em sua sala. E tinha ainda menos ideias sobre o motivo que o mestre de poções teria para chamá-la em horário letivo, quando tinha aula com ele no dia seguinte.

Por isso mesmo, se apressou em reunir seu material e sair da sala, sob o olhar preocupado de Gabriel e Sholk.

Ao chegar nas masmorras, na sala de Snape, viu o professor com os olhos fixos em um pergaminho. No momento em que a avistou, ele dobrou o pergaminho, apressado, e o guardou no bolso das vestes.

- Olá, Minna. Você parece diferente. - ele estreitou os olhos analisando os cabelos da garota e o piercing em seu nariz.

- Olá, professor. O senhor me chamou? - Minna esperava, sinceramente, que o motivo daquela reunião não seria uma bronca sobre o piercing.

- É claro que chamei, ou você não estaria aqui. Sente-se.

Minna já estava acostumada com a cortesia habitual de Snape. Sentou-se e olhou nos olhos do professor, para mostrar que não se sentia intimidada por ele. Lógico que era uma mentira.

- O que aconteceu com o seu cabelo?

- Como o professor pode ver, eu o pintei. Cansei de ser loira.

- Não minta para mim - o tom de voz de Snape não se alterou com a denúncia. Continuava baixo e determinado - Você não o tingiu.

A garota ficou assustada. Como Snape poderia saber aquilo? A única pessoa para quem tinha contado era Gabriel.

- Não, professor. Ele simplesmente mudou de cor, do dia para a noite.

- Imaginei. - Snape baixou os olhos e, de uma gaveta de sua mesa, tirou uma tesoura dourada. - Posso?

Minna não poderia achar aquilo mais estranho, mas, sem saída, concordou. Apesar de tudo, confiava em Snape. E se, seja lá o que ele fosse fazer com seu cabelo, a ajudasse a descobrir mais sobre sua própria situação, então ela toparia.

Sentiu as mãos trêmulas do professor puxarem uma mecha de seu cabelo e, com um plec, algumas pontas se soltaram em uma pequena bandeja de prata que Snape havia arranjado.

No momento em que os fios tocaram a bandeja, a cor deles mudou para loiro novamente.

- Fascinante - Snape murmurou.

- O que isso quer dizer? - Minna perguntou, assustada.

- Não faço ideia. - só pelo olhar de Snape, Minna sabia que ele fazia, sim, muitas ideias. - E isso aconteceu durante suas férias, você diz?

- Sim, professor, durante as férias.

- Entendo. Minna, pode me acompanhar, por favor?

Sem esperar que ela respondesse, Snape se encaminhou para a porta da sala e saiu. Restou a Minna seguí-lo, como um cachorro.

Eventualmente, eles chegaram a uma sala que, normalmente, ficava trancada, próxima à biblioteca. Snape tirou a varinha do bolso, deu uma leve batida com ela na maçaneta que, instantaneamente, se soltou. Ao entrar, Minna se deparou com um enorme espelho.

- Esse é o espelho de Ojesed, Minna. Um artefato muito curioso que está passando uma temporada em nossa escola. - Snape olhou para seu próprio reflexo no espelho, mas não sustentou o olhar por muito tempo. Parecia não gostar do que via. - Por favor, você pode olhar para seu próprio reflexo?

Minna se posicionou bem em frente ao espelho e olhou para si mesma. A princípio, nada aconteceu. Depois a superfície do objeto foi se enchendo de fumaça negra, até ficar completamente encoberto por uma cor escura e fosca.

- O que você vê? - Snape perguntou, com um toque de ansiedade em sua voz.

- Absolutamente nada, professor. Nem o meu reflexo. - Minna respondeu com sinceridade.

- Mas isso não é possível, Minna. - Snape fechou os olhos e, depois de alguns segundos, os abriu, assustado - Sim, você está falando a verdade.

- Eu sei. - a garota respondeu mal-humorada. - Professor, eu não entendo o que está acontecendo aqui. Qual é o problema?

- O espelho de Ojesed mostra os desejos mais profundos de nossas almas. Aqueles que, às vezes, nem admitimos para nós mesmos.

- E por que eu não vejo nada?

- É essa a questão. O homem mais feliz do mundo, aquele que não tem nenhum outro desejo, veria a si mesmo, se olhasse no espelho. Mas ele veria alguma coisa. O que significa não conseguir ver nada?

- Eu não sei o que desejo, talvez. Quero muitas coisas para a minha vida, mas não tenho uma vontade específica.

- Sempre há um desejo que se sobrepõe, Minna, mesmo que ele seja momentâneo. Não, eu preciso entender melhor o que está acontecendo. Volte para suas aulas, por favor, e mande minhas desculpas ao Flitwick.

Se Minna já não estava muito concentrada na aula de Flitwick antes de sua conversa com Snape, agora ela era apenas um corpo presente em sala, com os pensamentos bem distantes. Sabia que tinha desejos. Muitos. Pensou em se tornar uma grande bruxa, autora de livros. Pensou em Olívio. Pensou em saber mais sobre si mesma.

Então por que nada apareceu no espelho?

A aula de Quirrel no fim do dia também não ajudou muito. A sensação de estar sendo sufocada pela presença do professor não havia mudado. Ela sentou ao lado de Gabriel, no fundo da sala, e, mesmo assim, sentia-se mal. O pior era quando o olhar do professor caía diretamente sobre ela.

Gabriel, é claro, percebia tudo. Sabia que, no fim daquele dia, teriam uma longa conversa na sala comunal.