A boca de Gabriel foi abrindo à medida em que Minna contava sua história. Mas quando ela chegou na parte em que Snape à colocava em frente ao espelho de Ojesed, sua expressão tornou-se cética.

- É impossível, Minna, como um espelho pode saber qual é o seu desejo mais forte? Não faz sentido. Aposto que o Snape inventou essa história para te assustar, tirar mais informações, sei lá.

- Mas isso também não faz sentido. O que o Snape ganha me assustando? Ou com mais informações sobre... eu? Não é um tópico assim tão interessante para que o professor de poções invista um tempo considerável nessa história.

- Sendo interessante ou não, o fato é que ele está investindo tempo em você sim. E como não poderia ser interessante? - ele olhou ao redor para ter certeza que não estavam sendo ouvidos na sala comunal e falou em voz baixa - Seu cabelo mudou de cor de um dia para o outro.

- Ok, e como vamos saber se ele está falando a verdade sobre o espelho ou não? - Minna revirou os olhos, tentando afastar o seu espanto sobre si mesma.

- É simples. Vamos até ele eu vejo meu reflexo. - Gabriel não via a menor possibilidade dos poderes do espelho serem reais. Ele nem sabia o que era aquilo que mais desejava. E como um garoto de 15 anos poderia saber, afinal? No verão, ele achou que o que mais queria era furar a orelha. Agora, o furo ardia e coçava.

- Não seria bom chamar os outros? A gente pode conseguir uma amostragem maior.

- É uma ótima ideia, Min.

E na hora, realmente parecia.

Mas quando Minna verificou, no dia seguinte, que a porta da sala do espelho estava trancada e que precisaria enfeitiçar a fechadura para conseguir entrar, ter um grupo de quatro amigos barulhentos (e que, por acaso, incluía o absolutamente maravilhoso capitão da Grifinória) sua ideia foi perdendo a graça até chegar a um ponto que começou a irritá-la. Basicamente, ela tentava arrombar uma porta enquanto os meninos faziam uma 'cortina' ao seu redor. Eles eram tão mais altos que ela que, realmente, ficava fácil desaparecer no meio deles. No entanto, tantas pessoas olhavam para eles e, com certeza, achavam seu comportamento suspeito que a ideia tornou tudo mais difícil. Ainda mais quando 'aquela Alícia' apareceu para se jogar para cima de Wood.

Quando sentiu a fechadura ceder, ela puxou Gabriel pela mão para dentro da sala e deixou os outros garotos distraindo os passantes. As bochechas de Iodovin adquiriram um tom rubro.

- Credo, nós só arrombamos uma porta, não matamos ninguém, não precisa ficar se sentindo tão culpado.

Por sorte, Sholk entrou logo em seguida na sala.

- Ufa, deu tudo certo né? Daqui a pouco o Andrew entra. O Olívio ainda tá tentando se livrar da Alícia. Menina grudenta, vou te contar. "Líviozinho, vamos na Madame Pudifoot no primeiro passeio a Hogsmeeeeade?" - Sholk imitou a garota com perfeição, fazendo os outros dois caírem no riso. - Enfim, cadê o espelho do mal?

Assim que Minna apontou o enorme objeto no outro canto da sala, Sholk a olhou com desconfiança.

- E você tem certeza que ele não está amaldiçoado? Esse negócio tem uma cara bizarra.

- Tenho certeza, Sholk.

- E por que temos que fazer isso mesmo?

A garota não havia contado toda a verdade aos amigos - apenas para Gabriel. Não queria que pensassem que era mais maluca ainda.

- Li em um livro sobre ele. Ele mostra os desejos mais profundos da sua alma. E para mim, me mostrou conseguindo a nota máxima nos NOMs. - a 'nerdice' da garota era tão inquestionável no grupo que ninguém questionou a sua história.

Andrew entrou na sala e, sem dizer uma palavra, se colocou na frente do espelho.

- E aí? - Gabriel perguntou, vendo que Minna torcia as mãos de nervosismo.

- Eu me vejo descobrindo a varinha mais poderosa do mundo. Aquela da história das Relíquias da Morte. Eu e meu avô conseguimos descobrir a fórmula de seu cerne e ficamos ricos. - Andrew sorria olhando a cena dentro do espelho - Isso é impressionante. Tem certeza que ele não mostra o futuro?

- Absoluta. - Minna respondeu categórica, o que pareceu deixar Andrew chateado. - Quer dizer, até pode ser seu futuro, nunca se sabe. Só sei que isso é o que você mais deseja no momento.

- Minha vez! - Sholk empurrou Andrew e se posicionou na frente do espelho. - É, esse negócio parece funcionar mesmo.

- O que você esta vendo?

- Sou eu ganhando a copa das casas, enquanto o Flint beija meus pés. Tenho três namoradas, uma com cada cor de cabelo.

Minna revirou os olhos para Sholk enquanto Olívio entrava na sala.

- Poxa, demorou hein - Andrew reclamou enquanto Wood ajeitava os cabelos e a gola da camisa. "10 pontos de autocontrole pra Sonserina", Minna pensou, enquanto via como ele ficava incrível de cabelo bagunçado e reprimia a raiva por ter sido Alícia "a pentelha" Spinnet quem tinha feito isso com ele.

- Quem é o próximo? - a garota perguntou olhando para Wood e Gabriel.

- Cheguei agora, não quero furar fila. Vai lá, Gabriel - Olívio sorriu enquanto passava a mão nos lábios e nas bochechas para verificar se não havia manchas de batom.

Gabriel posicionou-se na frente do espelho. Precisou fazer força para não abrir a boca com o que viu. Ele andava pelos jardins de Hogwarts cobertos de neve com Minna a seu lado. De mãos dadas. Ele parava para fotografá-la e ela tirava a câmera de suas mãos para beijá-lo. Quase pôde sentir o momento. O vento congelante contrastando com os lábios quentes de Minna. O sorriso da garota.

E os olhar dela pesando em suas costas, no mundo real. Será que ninguém mais realmente poderia ver o que ele via? Desgrudou os olhos do espelho, não sem dificuldade, esperando ver rostos surpresos, abismados. Mas quando encontrou os olhos dos amigos viu que nenhum deles tinha a menor ideia do que ele acabara de ver.

- E então? - Minna perguntou, sorrindo. - Você não tá com uma cara muito boa.

- É que... é que ali eu... eu virei o Ministro da Magia. - Ele inventou a história mais absurda que pôde naquele momento. Tão absurda, que todos acreditaram nele. Menos Minna, é claro.

- Não sabia que você tinha esses desejos de grandeza política.

- Pois é, acho que tenho. Nunca pensei muito sobre isso. - Gabriel tentou acabar com o assunto de uma vez - Wood, falta você.

- Sim senhor, senhor Ministro - Wood sorriu e colocou-se em frente ao espelho.

- Aposto um galeão como ele vai se ver ganhando a copa. - Sholk cochichou.

Mas Gabriel prestava atenção na expressão de Olívio. Não era a expressão de quem se via ganhando a copa de quadribol ou a copa das casas. Era a expressão de quem via algo completamente inesperado. Uma expressão parecida com a sua. Subitamente ele desviou os olhos do espelho e, quando o olhar de Minna encontrou o dele, ele apressou-se a olhar para outro lugar.

- O que houve, Wood? - Até Sholk percebeu que havia algo de errado.

- Eu me vi terminando com a Alícia.

O silêncio que se fez na sala pesou no grupo todo.

- Achei que vocês estivessem bem. - Andrew questionou.

- É, eu também. - Sholk concordou. - Afinal vocês estavam até agora...

- Mas acho que eu não queria estar com ela. Não de verdade.

Minna sentiu um comichão na garganta com as palavras de Olívio - a sensação se converteu em um tremor que tomou conta de seu corpo todo. Precisou respirar fundo antes de falar:

- Esse é o grande desejo da sua vida, Olívio? Só... terminar com a Alícia?

Gabriel pôde perceber que não. Que não era só isso que Wood havia visto no espelho. E, com base em sua própria atitude ao ver o seu desejo mais profundo, chutaria que Olívio não queria algo muito diferente do que ele próprio. Tinha certeza que, no espelho, Olívio terminava com Alícia. Para ficar com Minna. A única diferença é que o capitão não conseguiu inventar uma história, como ele havia feito.

- Parece tão pouco, né? - Wood suspirou.

- Nenhuma taça? Nenhuma defesa incrível no quadribol? - Sholk franziu as sobrancelhas.

- É claro que tinha taças. E defesas - Olívio ficou na defensiva.

- É algo tão simples de ser resolvido, Wood. Vai lá e termina o namoro. Pronto - Andrew deu de ombros. - Nossos ouvidos serão gratos também.

- Mas e o time? Quer dizer, Alícia é apanhadora...

- Você vai aguentar um namoro que não quer só para evitar um climão no treino? - Sholk, que nunca teve uma namorada, adotou um tom de 'entendido no assunto'.

- Não preciso decidir isso agora. - Wood suspirou. - E você, Minna? Não vai arriscar dar uma olhada?

- Tenho certeza que ele ainda vai me mostrar conseguindo a nota máxima nos NOM's. - ela deu de ombros. Embora, ao sair da sala e passar pela frente do espelho, Minna tenha visto, de relance, a silhueta de Olívio em meio à fumaça escura.