- Minna, o que você foi fazer? - Snape grunhia com ela, sentado à sua frente, no meio da sala apinhada de frascos de poções e ingredientes estranhos.

- Desculpe, professor. Quis ajudar o Sholk a ser capitão e não pensei nas consequências.

- E também não pensou nas consequências ao acobertar o Wood. - ele resmungou, com desprezo em sua voz.

- Na verdade, professor - os olhos dela se levantaram, desafiadores, até encontrar os dele - Neste caso eu pensei muito bem nas consequências.

Snape estreitou os olhos.

- Você se revela mais e mais uma filha de Slytherin.

- Vindo do senhor, espero que não se trate de uma maneira de me reprimir e sim de um elogio. - Minna ficou assustada com as próprias palavras. Nunca havia desafiado um professor daquela forma. Muito menos Snape. Mesmo assim, não endureceu seu olhar.

Um sorriso crispou os lábios de Snape.

- O que você faria por seus amigos, Minna? Até onde chegaria por Iodovin, Sholk, Wood e Olivaras?

A resposta da Minna estava na ponta da língua. Mas, desta vez, ela segurou suas palavras. Soaria muito macabro. Antes que ela pudesse responder, Snape disse, calmamente:

- Uma filha de Slytherin não hesitaria em responder "matar e morrer", Minna.

- Como o senhor sabe...

- ... qual foi a frase exata na qual você pensou? Sim, Minna, estou lendo seus pensamentos. Eu consigo lê-los facilmente. Vejo que não está tão surpresa com essa revelação. Essa técnica chama-se leglimência. E, com o tempo, tenho certeza de que você saberá usá-la tão bem quanto eu. Afinal, pretendo ensiná-la para você. Essa será sua detenção. Aulas especiais comigo. Todas as tardes da semana, depois do período normal. Não só sobre leglimência. Quero que aprenda a se defender melhor do que os outros. Quero que você entenda os segredos das poções melhor do que os outros. Para todos os efeitos, quero que você seja uma bruxa muito superior aos outros.

- Professor, com todo o respeito. Isso não me parece uma detenção. Me parece mais um prêmio.

- É porque, e isso fica entre nós dois, na realidade não é uma detenção. E sim um prêmio. Por se mostrar digna de Slytherin. Merlim sabe o quanto nossa casa precisa de bons alunos. De grandes nomes. De uma nova fama. E você pode me ajudar com isso, sendo a primeira grande aluna em pelo menos 50 anos. Quero que você tire nota máxima em todos os NOMs. Quero não. Exijo isso de você. É sua obrigação com a nossa casa.

Minna se sentia dividida entre a estranheza daquela situação com uma alegria indescritível por ser digna de confiança.

- Tudo isso por um bocado de bosta de dragão?

- Claro que não. Apesar de uma longa detenção ser a desculpa perfeita para encobrirmos aulas extras que não ofereço para mais ninguém. É pela sua trajetória no colégio. E nem me refiro aos acontecimentos na sua vinda pra cá.

Minna se encolheu na cadeira com a lembrança. Os desmaios. As vozes.

- Minna, olhe pra mim

Ela se esforçou para olhar Snape dentro dos olhos do professor.

- Existe uma grande bruxa dentro de você. Esperando para sair da sombra daqueles quatro moleques e se tornar alguém muito importante. Mas, para isso, preciso que confie em mim. Você confia em mim?

- Você já sabe a resposta, professor.

Snape sorriu. Estendeu a mão para Minna que a segurou. A mão do professor era gelada e estava úmida de suor. Minna afastou os pensamentos sobre como o mestre não devia ter muito contato com humanos antes que eles se materializassem em sua mente. Se ele percebeu os pensamentos, não comentou.

- Nossa primeira missão, minha cara, é cozinhar a morte. Preciso de três poções letais. Venenos. E é você que irá fazê-los. Eu não quero saber a receita, a composição, nada. E seu objetivo pessoal é não me deixar capturar nenhuma pista sobre estes venenos em sua mente. Isso é de extrema importância. Caso eu descubra o antídoto deles, eles estarão arruinados. Você consegue fazer isso?

Minna iria murmurar um 'vou tentar', mas Snape adotou uma expressão severa, franzindo a testa. Diante disso, Minna respirou fundo e respondeu:

- Sim, professor, consigo.


- Aulas extras com o morcegão? Todos os dias? E eu achei que EU tinha me dado mal. Meus pêsames, Minhoca. - Sholk deu batidinhas nas costas dela, mas, mesmo achando que havia alguém em situação pior ('mal sabe ele', pensou Minna), seu humor não melhorou.

- Você ainda pode treinar por conta, Sholk - Gabriel consolou, alimentando o fogo da lareira da sala comunal com magia. A hora já era avançada e apenas os três estavam lá. O que era bom, já que todos estavam comentado sobre seu impressionante feito com ganache de diabrete.

- Mas vou precisar contar para meu avô. Ele vai me matar.

- Pelo menos assim ele vai sair daquela ilha infernal dele. - Minna resmungou, assustando Gabriel e Sholk. - Desculpe, Sholk, não quis ofender.

- Você tem razão. Talvez ele faça isso. E venha nadando me matar. - Sholk afundou em sua poltrona.

- Eu gostaria de conhecê-lo. - Minna sorriu. - O grande Kenni Whisp.

- Então faça um favor para mim: escreva uma carta para ele em meu nome, dizendo que eu estou desmaiado e inconsciente com o choque e que não estou em condições de avisar ninguém. - ele atirou um rolo de pergaminho na direção dela e subiu para o dormitório, cantarolando algo indefinido.

A garota deu de ombros, se dirigiu a uma mesa, tirou uma pena dos bolsos e começou a escrever.

Caro, Sr. Whisp

- O seu neto é um trasgo montanhês. - Gabriel, que havia puxado uma cadeira para sentar ao seu lado, sugeriu. Ele colocou o braço ao redor do encosto da cadeira de Minna, e se aproximou, corando furiosamente no processo. Ele não havia esquecido do que viu no espelho de Ojesed. Olhou de relance para o rosto da garota enquanto ela escrevia palavras cuidadosas na carta. Como seria beijá-la? Será que algum dia aconteceria? De forma discreta, se aproximou mais. O rubor em seu rosto já estava evoluindo para uma sensação de formigamento gelado.

- Posso te ajudar em alguma coisa? - Minna virou-se para encará-lo, seus narizes ficando a milímetros um do outro. Mas ela não parecia nem de longe tão desconfortável e incomodada quanto ele.

Como ele poderia se aproximar?

Neste momento, um trovão chacoalhou as vidraças do salão comunal, fazendo as luzes das velas fraquejarem. Minna sorriu.

- Gabriel, chuvas de outubro! - ela cochichou, não precisando alterar sua voz pela proximidade do garoto. Ele também não pôde evitar o sorriso. - Você lembra do primeiro ano?

- A nossa caçada por Will o' the wisp?

Gabriel lembrava como ontem. Quando ele e Minna avistaram uma luz estranha ao entardecer, próxima à orla do lago, e acabaram perdidos nos terrenos de Hogwarts. Claro, sob a primeira das grandes chuvas de outubro daquele ano.

- A gente era tão bobo né? Imagina, perseguir uma luz qualquer. Podia ser um feitiço. - Minna riu baixinho.

- Eu ainda acho que não era um fenômeno natural qualquer. Em Guernsey chamam essas luzes de faeu boulanger. Dizem que são almas perdidas que querem mostrar alguma coisa. Por isso quanto mais nos aproximamos, mais... - ele olhou nos olhos de Minna, sem fôlego - ... mais distantes elas ficam. Elas mostram um caminho que pessoas normais não conseguem seguir.

Minna ficou em silêncio, absorvendo aquelas informações. Gabriel percebeu que a sala comunal ficava cada vez mais escura quanto mais a chuva açoitava as janelas.

- Quando vou conhecer Guernsey, Gabriel? Quero conhecer sua casa um dia. Ver onde você cresceu.

- Podemos passar as férias de natal lá, se quiser. Mas eu levaria você no verão. Nosso verão é fresco e ensolarado ao mesmo tempo. Podemos caminhar na orla do mar e ver se encontramos faeu boulanger de novo, quando estiver anoitecendo. Posso te levar a lugares isolados, onde eu brincava com meus amigos de infância, longe dos trouxas. Fazíamos competições de quem fazia a magia mais barulhenta. Nem sempre dava certo. Então desistíamos e íamos nadar no mar ou pescar. Já dormi na praia.

Minna podia ver tudo o que Gabriel contava como se estivesse passando diante de seus olhos. O Gabriel que ela conheceu, aos 11 anos, correndo com os amigos. Depois andando solitário pelas praias, riscando as areias com um graveto durante as férias do terceiro ano. Quase podia sentir o cheiro de mar ao imaginá-lo nadando nestas férias de verão.

- Minna eu... - eles estavam tão próximos que a respiração dos dois se confundia. O hálito fresco de Minna contrastava com o calor que emanava do rosto dos dois. - Eu acho que posso te levar pra lá agora.

Gabriel tocou os lábios de Minna de leve inicialmente, esperando que ela recuasse, torcendo para que isso não acontecesse. Ao ver que ela fechou os lábios sobre os seus, lábios quentes como ele imaginava, ele pensou em tudo o que queria transmitir com aquele beijo. Tudo o que ele era, de tudo o que ele era feito. Areia e sal e mar. Fechou os braços nas costas da garota e pensou em tempestades de outubro. Os gramados da Escócia que viam da janela do Expresso de Hogwarts. Minna. Ele era feito, em parte, dela. E, agora que estavam unidos por um beijo, aquilo fazia todo o sentido do mundo. O sal, o mar, a areia, as chuvas, o gramado. O cheiro de verão. Os ventos. Ele havia guardado tudo para ela. Criado aquilo só para ela.

Quando ele sentiu, relutante, que ela se afastava, viu que nos olhos brilhantes de lágrimas dela, estavam impressos todos aqueles momentos. Toda aquela vida que agora era deles. As lágrimas correram pelo rosto de Minna, lágrimas de sal do oceano de Guernsey.

- O que você... - Minna suspirou, se levantando, cruzando os braços.

- Você sentiu, não sentiu? - Gabriel sussurrou, sem fôlego. Levantou-se e aproximou-se dela, te?ntando captar seu olhar. Buscou sua mão. Puxou-a para perto de si e colocou a outra mão sob seu queixo para que pudesse ler seus olhos como sempre havia feito - e o motivo disso agora era tão óbvio!

- Eu não sei o que eu senti. - Minna respondeu e Gabriel leu em seus olhos o medo. Medo que foi transmitido a ele.

E assim aquela conexão se quebrou. Como a mágica que a havia criado.

- Preciso ir para meu dormitório, Gabriel. Preciso pensar.

"Pensar sobre o quê, Minna? Ainda resta alguma dúvida?"

- Claro. Eu entendo. Boa noite - ele forçou o seu melhor sorriso enviesado. Aquele que já haviam dito que era infalível. Mas ele só provocou a queda de mais lágrimas silenciosas no rosto de Minna. Ela virou-se subitamente e subiu para seu dormitório com passos apressados.

Gabriel sentou-se novamente em uma poltrona próxima da lareira. Mordeu os lábios, evocando o beijo que já se transformava em memória, tentando arrastar o tempo para que ele fosse, por mais alguns segundos, o presente. Mas já era impossível. Agora a sensação de plenitude já o abandonava, dando conta a uma nova preocupação. Uma enorme preocupação.

"O que eu fiz?"

Enquanto Gabriel subia para seus próprios dormitórios, as luzes da sala comunal foram se apagando aos poucos. Tudo o que restou foi uma luz fraca, azulada, na lareira. Faeu boulanger.