Caro Sr. Whisp
Talvez seu neto Christian (nossa, é estranho chamá-lo pelo primeiro nome) nunca tenha falado sobre mim. Ele às vezes pode ser uma pessoa meio desligada. Mas meu nome é Minna Moncharmin e eu sou uma de suas melhores amigas desde o primeiro ano de Hogwarts. Agora, em nosso quinto ano aqui na escola, sinto que talvez o conheça mais do que a mim mesma. Acabo de ter uma conversa com ele que, apesar de ter me deixado irritada, me mostrou, mais uma vez, a mente incrível que ele tem.
E talvez o senhor fique chateado com a notícia que eu tenho para dar. Mas eu, nas condições atuais, acredito que ela tem o potencial de se tornar uma coisa boa. Christian foi expulso do time de quadribol da Sonserina. Ele tentou sabotar o capitão atual para tomar seu lugar. Apesar de parecer uma coisa desonesta logo de princípio, devo avisar que o nosso capitão, Marcos Flint, é uma das pessoas mais insuportáveis da escola e que ele se esforça para tornar a nossa vida (minha, de Sholk, de Gabriel Iodovin, Olívio Wood e Andrew Olivaras, nosso grupo de amigos mais próximos) mais difícil. Logo, vê-lo correndo coberto de bosta de dragão pelo campo de quadribol foi imensamente satisfatório. E devo isso ao seu neto.
Para conseguir isso, Sholk manipulou bosta de dragão, algo extremamente complexo. Coisa que me faz acreditar, mais uma vez, que as notas dele não refletem, nem de longe, seu intelecto. Ou sua lealdade. O afastamento do quadribol poderá guiá-lo por caminhos interessantes, por mais que ele não aceite isso agora. Tenho certeza.
No momento em que eu escrevo, ele acaba de me surpreender com observações certeiras sobre minha conduta nos últimos dias. Então, mais uma vez, me sinto privilegiada por ser sua amiga.
Desejo ao senhor um ótimo outono,
Minna Moncharmin.
ps- não pense que seu neto é um covarde por ter deixado que eu desse essas notícias. Eu que pedi para, finalmente, entrar em contato com o senhor.
pps - estou enviando uma foto nossa, quando Sonserina ganhou a Copa das Casas no ano passado. Eu estou meio diferente desde essa época, mudei a cor do cabelo. Mas me parece estranho escrever para alguém que pode nunca ver o meu rosto.
Minna releu a carta suspirando. Sua criatividade estava prejudicada pelos acontecimentos recentes e tudo o que ela escrevesse não iria ficar muito melhor do que isso. Sim, ela ainda estava irritada com Sholk. Mas isso não a impediu de ser sincera. Ao contrário, a estimulou ainda mais. Colocou a foto no envelope, dando uma última olhada na imagem. Nela, ela e Sholk, abraçados, chacoalhavam uma bandeira com o brasão da Sonserina. Aquela garota mal parecia ela, fisicamente ou emocionalmente. O momento também parecia estar bem longe. Afinal, ela estava abraçada com Sholk, o quão impensável era isso? E quem tirou a foto foi Gabriel. Nessa hora, Andrew estava arrasado e tentando arrastar a asa para Angelina Johnson. Alícia já consolava Olívio.
Tomando cuidado para não pisar em nenhuma pilha de excrementos (o que era difícil, já que eles cobriam o corujal) e enxugando as malditas lágrimas que ficavam correndo por seu rosto, Minna encontrou uma gorda coruja amarronzada da escola e entregou sua carta a ela.
- Ilha de Halloran, por favor. É o único velhote que mora por lá. - Ela deu um pedaço de carne que havia afanado do almoço à coruja. O animal engoliu a comida gulosamente e alçou vôo. A garota ficou olhando a ave se afastar e desaparecer em meio ao entardecer.
Minna precisava se apressar. Tinha aula com Snape em poucos minutos. Ele havia comentado algo com ela sobre a fabricação de venenos letais, o que prometia afastar sua mente de seus problemas com Gabriel. E de Olívio. Para falar a verdade, havia evitado todos os seus amigos no almoço e ido sentar à mesa da Corvinal, com Janice.
Então, obviamente, ela não estava preparada para se deparar com Wood indo para o corujal.
- E aí, Minna - ele cumprimentou, com um ar sério. Lógico, Minna refletiu, ele tinha acabado de ter a briga do século com a namorada no meio do salão principal, na frente da escola toda. Infelizmente, as sobrancelhas cerradas o deixavam ainda mais bonito.
- Oi Olívio - "20 pontos pra Sonserina". - Vai mandar alguma coruja?
- Na verdade não. Estava atrás de você. O Sholk comentou que você estava chateada e disse que eu iria te encontrar por aqui. Sei lá, não sou a melhor opção para animar alguém, mas queria saber se tem algo... - os olhos castanhos e brilhantes de Olívio se encontraram com os de Minna e ela sentiu as bochechas queimarem -... algo que eu possa fazer.
- Acho que não. - Minna baixou os olhos e tentou recuperar o fôlego. A última coisa que queria, nesse momento, era ficar se torturando ao olhar para Olívio e pensar em como seus olhos eram incríveis, em como seu sorriso era capaz de aquecê-la por dentro. - Na verdade, não tenho muito tempo para conversar. Tenho aulas com o Snape agora.
- Agora? Mas é de noite.
- Essa foi minha detenção. Aulas todos os dias até os NOMs.
- Nunca achei que Snape daria detenção a você.
- Acho que tanto eu quanto ele consideramos isso um favor.
Um sorriso enviesado cruzou o rosto de Olívio e Minna precisou desviar o olhar.
- Você é a única criatura viva que pensaria assim, Miniatura.
- Pois é. - Ela muxoxou começando a andar em direção ao castelo a passos rápidos.
- Ei, posso pelo menos te acompanhar até a aula? - Olívio a seguiu.
Minna suspirou. O que tinha feito de errado para merecer aquilo?
- Na boa, Olívio, você nunca se importou muito comigo, estando chateada ou não. Qual é o problema agora? - ela soou ríspida, sem parar de andar rápido e sem olhar para o capitão. E sabia que estava sendo injusta. Wood estivera com ela em muitos momentos bons e momentos difíceis, impondo a sua presença incrível e dolorosa.
Ele, no entanto, não apontou aquilo para ela. Podia ter dito que ela estava sendo mentirosa, que estava de TPM, que ele só queria ajudar e ela era uma ingrata. Mas, claro, Olívio nunca diria isso.
- Só queria conversar com você.
Minna tentou segurar as palavras dentro dela. Mas os pensamentos se materializaram em som de uma forma muito intensa, impossível de ser segurada.
- Converse com a Alícia.
Ela se arrependeu no instante em que ouviu a frase. Mas não pediu desculpas. Continuou andando decidida para o castelo. Afinal, por que ficar arrastando a dor, certo? Podia sentir a dor do mundo de uma só vez e acabar com tudo o que a incomodava em uma tacada só.
- O que aconteceu com você, Minna? - Olívio perguntou assim que entraram no castelo.
A garota não respondeu. Apressou os passos em direção às masmorras. E, para seu desgosto, ouvia os passos de Olívio atrás de si. "Foco, Minna. Não olhe pra trás. Não olhe pra trás. 10 pontos para a Sonserina. 20. 30. 40...". Ela já sentia os cheiros misteriosos que vinham da sala de Snape quando ouviu a voz de Wood novamente.
- Eu terminei com a Alícia.
Ela deu mais alguns passos até processar o que havia ouvido. Quando entendeu o que Olívio disse, sentiu algo frio percorrer sua espinha. Não saberia descrever o sentimento que tomou conta dela. Não era felicidade. Nem tristeza, claro. Era algo mais próximo de nervosismo, mas que a paralisou completamente.
"Não olhe pra trás, Minna".
- Eu queria...
O que Olívio queria, Minna não soube. Snape abriu a porta de sua sala e sorriu para a aluna.
- Oh, olá Minna. - ele tentou fingir surpresa ao vê-la. Não conseguiu. - Você está bem na hora.
- Boa noite, professor. - Minna cumprimentou, antes de se surpreender ao ver que Gabriel saía da sala de Snape. Ele deu um aceno de cabeça para a garota, sério, antes de seus olhos encontrarem Olívio, parado um pouco atrás dela. Minna viu o olhar dele escurecer enquanto ele também acenava para Wood.
Tudo o que Minna conseguiu pensar, na hora, é que se Snape estivesse usando leglimência, estava com a trama de uma novela nas mãos. Preferia acreditar que ele ainda tinha algum respeito pela privacidade dos alunos. Mas a urgência com que ele pareceu querer tirá-la daquela situação provava o contrário.
- Entre logo, Minna, temos muito trabalho pela frente.
- Ok. - ela se apressou para a sala, sem olhar para Olívio e se sentindo levemente aliviada por deixar dois grandes problemas para trás - apesar de saber que teria que encará-los mais cedo ou mais tarde.
