Olívio enfeitiçou três goles para que elas tentassem acertar os aros por conta própria. Eram cinco da manhã de um sábado de outubro que prometia ser frio e nublado. O primeiro jogo da temporada. E ele precisava ter uma performance memorável como capitão. Para isso, o ideal seria uma boa noite de sono. Mas ele não conseguiria pregar os olhos. E isso não se devia apenas ao quadribol. Minna não havia trocado uma palavra sequer com ele durante a semana toda. Não só com ele, mas também com Andrew e Gabriel. Agora ela andava o tempo todo com Janice. Ou com o nariz enfiado em algum livro. No máximo falava com Sholk, mas, de acordo com o sonserino, suas conversas eram breves e pontuais.
Será que Sholk poderia estar enganado?
Apressou-se para segurar uma goles que guinava em direção ao aro da esquerda, com a força de um balaço. Tudo aquilo não fazia sentido. Primeiro, Sholk falava para ele que Minna gostava dele. "É claro que ela gosta de mim, seu trouxa, somos amigos desde o primeiro ano", Olívio respondeu, mesmo sabendo que ele não se referia apenas à amizade.
- Cala a boca, Olívio. Você sabe do que eu tô falando. E não finja que você não é interessado nela também. Desde o começo do ano eu vejo o jeito que você olha pra ela.
Sholk estava certo. Era um daqueles raros momentos em que ele exibia algum sinal de sabedoria surpreendente. Desde que ele havia visto Minna na estação King's Cross sabia que o que sentia por ela não se limitava à amizade. Mas ela continuava sendo Minna, a Minhoca, a Miniatura. Min.
Olívio defendeu duas goles, uma com cada braço, ao mesmo tempo, as arremessando com força de volta para o céu escuro. Logo elas voltariam.
Era exatamente assim que se sentia desde a volta para Hogwarts em relação à Minna. Ele arremessava o frio na barriga que sentia por estar perto dela, bem longe. Afinal, ele estava namorando com Alícia, que era uma garota legal e bonita. Mas cada vez que via Minna, concentrada em um livro, preparando alguma poção o simplesmente rindo de alguma bobagem feita por eles durante o almoço, o sentimento voltava. Sempre voltava.
Como você sabe, Sholk?
O sonserino havia dado uma piscadela.
- Minna é minha irmã, cara. A gente pesca essas coisas no ar. E essa coisa está no ar faz um tempo, não é de hoje. Só que agora a coisa não é mais tão simples.
Do que você tá falando?
- Que você não é o único que olha pra ela. E é bom você tomar jeito na vida se quiser tentar alguma coisa. A concorrência é pesada e, provavelmente, mais forte que você.
Quem?
- Prometi guardar segredo. De novo, é coisa de irmão. Eu nem deveria ter dito nada pra você. Mas acho que você deveria saber, ter a chance de fazer alguma coisa. De terminar de vez com a Alícia. Porque tem gente que vale mais a pena. Não acho que você vai conseguir alguma coisa com a Minna, de verdade. Mas você precisa saber que está perdendo algo.
Olívio rebateu mais uma goles. Inferno, Minna era uma pessoa incrível. Qualquer um que a conhecesse poderia passar a gostar dela. Atualmente, ele achava que qualquer um que a visse tinha risco de se apaixonar por ela. Seus olhos, sua risada, as suas respostas genias. Seu corpo. E ele havia visto como seria naquele espelho maldito. Como seria tocá-la, beijá-la.
Wood se distraiu e deixou as três goles entrarem nos aros ao mesmo tempo. Inferno. Minna era uma de suas melhores amigas. Tentar alguma coisa com ela era loucura.
Mesmo assim, ele havia terminado com Alícia. Lógico que o único motivo disso não era Minna. Mas ela havia ignorado completamente a informação de que ele não estava mais namorando. Não apenas isso, havia parado de falar com ele.
O que você esperava também? Que depois de ver você com a Alícia todos os dias ela ia correr para os seus braços? Não seja estúpido.
Olívio usou magia para fazer as Goles pararem. Sentia gotas de suor escorrendo por sua testa. Precisava fazer alguma coisa. Não conseguiria jogar a partida daquele jeito, liderar o time da Grifinória como deveria. Não conseguia nem respirar direito daquele jeito, quanto mais cumprir suas funções como capitão. Montado em sua vassoura, voou pelos jardins, dando a volta no castelo. Era incrível voar apenas por voar, sem a necessidade de estar jogando.
Ficou planando próximo ao chão, perto das masmorras. Contou as janelas. Se estivesse certo, a cama de Minna seria ao lado da terceira janela da Sonserina, no térreo. Ainda montado na vassoura, sem encostar os pés no chão, enxugou o suor da testa e pigarreou para testar a voz. Bateu duas vezes com o nó do dedo indicador na janela se sentindo bizarramente eufórico.
Estou batendo na janela da SONSERINA de madrugada.
Seu estômago deu um salto quando a cortina se moveu levemente, revelando uma fresta que logo se fechou.
- Minna - ele sussurrou - Min! Preciso falar com você.
- Vá embora! -Olívio ouviu a voz da garota responder, sussurrando - Vou chamar o Snape.
- Não vai. E eu também não vou embora. Você pode, por favor, ser uma pessoa civilizada e conversar comigo por um segundo?
Minna apareceu na janela, com sua melhor expressão irritada, vestindo um robe estampado com sapos e com os cabelos presos em uma longa trança. Seu rosto estava marcado pelo travesseiro.
- Você é louco? Quer acordar todos os sonserinos? - Minna tentava afastar de si o pensamento de que Olívio, usando seu uniforme de quadribol, estava parado em sua janela à noite.
Olívio, por sua vez, sentiu que suas mãos estavam geladas e que seus joelhos tremiam. Mas sorriu e desmontou da vassoura, ficando com os olhos no mesmo nível dos olhos de Minna.
- Só quero falar com você. Por incrível que pareça, sinto que é mais fácil fazer isso agora do que tentar encontrar pelo castelo durante o dia.
- É madrugada! Vá dormir!
- Tecnicamente, já é de manhã. Você quer dar uma volta? Não queria acordar suas colegas de quarto.
- Uma volta? De vassoura, você quer dizer?
- É. De vassoura. Te dou cinco minutos pra pegar um casaco.
Minna encarou os olhos brilhantes de Olívio. Que diabo era aquilo? Sholk havia contado tudo para ele, com certeza. E ela, agora, precisaria ouvir de Wood que ele não sentia a mesma coisa. Que seriam amigos e apenas isso. Tudo o que ela já sabia.
Arranque o band-aid, Minna.
Sentindo que havia lágrimas em seus olhos, a garota suspirou.
- Ok. Me dê cinco minutos.
Minna apareceu na janela usando jeans e jaqueta de couro, com os cabelos soltos, mas ainda com sua expressão irritada. Olívio estendeu a mão para ajudá-la a escalar a janela, mas ela fingiu que não viu. Mau sinal.
- Estou aqui, acordada, de casaco. O que você quer, Olívio?
- Já disse, te convidar para dar uma volta.
- Você disse que queria conversar. Isso é necessário? Podemos conversar aqui e eu ainda posso aproveitar umas horas de sono.
- Minna, não sei o que aconteceu com você na última semana. De verdade, não faço ideia. Mas não queria continuar dessa forma.
- Ok então. Somos amigos de volta. - a garota sorriu, irônica, estendendo a mão para ele.
Olívio alcançou a mão dela e, em vez de apertá-la, segurou-a entre as suas.
- Você acordou insuportável, como sempre. - ele deu a ela seu sorriso mais encantador - Mas se você concordar em dar uma volta comigo pelos jardins eu vou tentar mudar o seu humor.
Minna precisou de uma enorme força de vontade para não deixar o queixo cair e ficar com uma expressão de pânico absoluto. Perdeu a sensibilidade nas pernas e sentiu que, se desse um passo, ela iria cair. A mão que Olívio segurava formigava, como se estivesse queimando.
- Vou encarar essa sua cara de surpresa como um consentimento - Wood não sabia de onde havia surgido a sua eloquência. Seu coração dava saltos e ele sentia os batimentos cardíacos na garganta. Olhando para Minna percebeu que Sholk havia falado a verdade. Ainda não entendia sua irritação com ele, mas sabia que ela realmente gostava dele. E não podia deixar de sorrir, abobado. Nunca havia se sentido daquela forma. Talvez ele nunca tivesse gostado realmente de outra garota, ou, pelo menos, de alguma que achasse tão especial. E saber que era correspondido era uma sensação indescritível.
Soltou a mão de Minna e montou novamente em sua vassoura. Então segurou aquela garota subitamente muda e em transe pela cintura, divertindo-se com o estado dela, e a colocou a sua frente, sentada de lado. Não pretendia voar muito rápido ou alto, só sentir o vento batendo no rosto. Assim que levantou vôo, sentiu o peso dela contra o seu enquanto ela se apoiava de lado nele. Eles planaram em silêncio, a esmo, tentando se acostumar com a presença um do outro de forma próxima. Minna sentia que não havia acordado. Wood acreditava estar em uma realidade paralela ao sentir a testa da sonserina encostada em seu pescoço.
O sol laranja do início do dia começava a aparecer e a refletir no lago. Olívio, então, rumou para o meio da água, sobrevoando a superfície, seus pés quase tocando o lago.
- Acho que você queria conversar - Minna lembrou, com uma voz rouca.
- Eu também achei. - Olívio 'estacionou' a vassoura, fazendo com que ela ficasse parada bem no meio do lago. Minna se afastou dele, ainda sobre a vassoura, e sentou-se de frente pra ele para olhar em seus olhos. "Será que ele tem noção da força que estou reunindo pra fazer isso?" ela se perguntou.
- E então? O que estamos fazendo aqui?
Olívio sorriu, novamente. Será que nunca mais conseguiria ficar sério? Minna o olhava com uma expressão grave e ele estava lá, rindo como um pateta.
- Eu achava que tinha muita coisa pra falar, Min. Muita coisa pra te dizer, pra discutir. Mas eu olho pra você e o negócio é simples. Eu acho você incrível. E estou apaixonado por você, não sei desde quando. E não quero complicar as coisas com discursos sobre o grupo e sobre amizade. Só quero estar com você. Só quero ver o dia nascer assim.
Os olhos de Minna encheram-se de lágrimas. Ela mordeu os lábios enquanto o encarava.
- Acho que eu vou cair da vassoura.
- Não vai.
Olívio a puxou de novo para perto de si, fazendo com que ela se encostasse em seu peito. Fechou-a em um abraço enquanto encostava os lábios em seu rosto. Minna sentiu o coração do grifinório batendo contra suas costas e, por um momento, achou que fosse desmaiar quando ele beijou seu pescoço.
- Espero que eu tenha mudado seu humor, Minna. - ele riu baixinho - Minha.
Eles ficaram congelados, daquela forma, ouvindo a respiração um do outro até o sol nascer por completo. Depois, sem dizer uma palavra, Olívio a levou novamente para a janela do dormitório da Sonserina.
Minna estava com uma expressão que variava entre o susto absoluto e sorrisos repentinos. Ele a ajudou a desmontar da vassoura e, em seguida, desmontou também. Ela iria falar algo, provavelmente uma despedida, mas Olívio a puxou para perto de si e roubou um beijo demorado dela. Apertou-a contra seu corpo com força, sentindo os lábios dela abrirem-se contra os seus e suas mãos percorrerem seu pescoço, puxando-o contra si. Nunca havia beijado alguém com tanta vontade, ou sido retribuído com tanta intensidade. Antes de separar, mordiscou de leve os lábios dela e, quando olhou dentro de seus olhos, percebeu que havia deixado escapar um suspiro. "Beijo bom é beijo com barulho", lembrou do ditado de Sholk, que nunca havia levado a sério.
- Vejo você no jogo? - ele perguntou, ofegante.
- Vou estar usando verde. - Minna sorriu, depois se aproximou de seu ouvido e cochichou: mas vou torcer pela Grifinória com todas minhas forças.
