- Por deus, eu juro que se não me deixar vê-la eu vou invadir essa enfermaria.
- Gabriel, seja razoável, ainda não sabemos o que...
- Eu juro, Madame Pomfrey, eu vou derrubar essa porta! Ela está aqui há dois dias e ninguém a viu.
- Madame Pomfrey, não creio que haja mal em deixar o garoto ver Minna. Eles são amigos e é natural que ele esteja preocupado.
- Mas Severo, Minna está apagada, pode estar enfeitiçada... ok, está certo. Mas se algo acontecer a ela ou a você, Iodovin, a responsabilidade não é minha.
Minna abriu os olhos, sentindo a cabeça estourar de dor. Demorou alguns segundos até reconhecer as vozes alteradas que deviam estar na sala ao lado. E mais alguns segundos até perceber que estava na enfermaria.
Como vim parar aqui?
Sua memória estava embaralhada. Ela lembrava do jogo de quadribol, de estar com Olívio.
Será que era um sonho?
E então a memória do unicórnio e da escuridão tomou conta dela. Ela sentiu garras frias tocando seus braços e um tremor espalhou-se pelo seu corpo. Sua respiração começou a acelerar e ela sentou-se na cama em um salto. Olhava para frente mas tudo o que via era breu. Até sentir um toque quente em seu braço. E a visão começou a voltar para ela, como uma tela de uma TV velha, que se acende aos poucos.
- Minna? - Gabriel tocava seu braço, lívido, com uma expressão confusa. Ele se apressou e ajeitou os travesseiros dela, empurrando-a delicadamente para se encostar neles - Como você está se sentindo?
Ela buscou as palavras para descrever, mas parecia muito difícil lembrar de quais delas significavam o que ela queria dizer. Por fim balançou negativamente a cabeça e, com desgosto, constatou que o movimento fez o mundo girar.
- Você quer alguma coisa? - Gabriel perguntou, preocupado.
- O que aconteceu comigo? - sua voz soava rouca, insignificante.
- O Quirrell encontrou você desmaiada perto da Floresta Negra. Trouxe você pra cá. Você dormiu por dois dias, todo mundo está preocupado. Eu...
- O unicórnio e o Olívio...
Gabriel franziu as sobrancelhas.
- Não havia nenhum unicórnio, Min.
- Chama o Olívio pra mim, Gabriel. Ele deve saber o que aconteceu.
A expressão de Gabriel ficou nebulosa.
- Só eu posso entrar aqui por enquanto, Minna. Pra isso tive que passar por cima da Madame Pomfrey. Ela não vai deixar qualquer um entrar agora.
"Olívio não é qualquer um", Minna pensou, mas ao encarar Gabriel teve a clareza de segurar as palavras.
- Trouxe uma coisa pra você. - Gabriel apontou a mesinha de cabeceira, onde se encontrava uma enorme barra de chocolate Dedosdemel. - Não sei se é legal mostrar pra Madame Pomfrey, acho que ela vai querer te entupir de comida de hospital. Mas acho que chocolate deve te fazer bem.
Minna olhou para os olhos verdes de Gabriel e se viu refletida neles. Percebeu que ele também tinha a aparência meio doentia, com olheiras profundas e pálpebras inchadas.
- E você está doente também?
- Não. Só não consegui dormir direito, ninguém me falava o que tinha acontecido com você. Nem mesmo o Snape. - ele segurou a mão de Minna e brincou com seus dedos. Sorriu. - Mas agora eu sei que você está inteira e posso recuperar meu sono.
A garota ficou olhando para seus dedos pálidos entrelaçados com a mão bronzeada de Gabriel. Aquilo não estava certo.
- Gabriel, eu não posso ser injusta com você.
Gabriel balançou a cabeça, sorrindo, como se aquilo não fizesse sentido.
- Minna, a única coisa que eu quero é ter certeza que você tá bem. Nada além disso. Só ficar aqui ao seu lado até você estar recuperada.
- Então você não vai precisar esperar muito tempo. Quero sair daqui agora. - Minna ameaçou levantar da cama, mas Gabriel a segurou pelo ombro, empurrando-a sem dificuldade nenhuma para os travesseiros.
- Não seja difícil, Minna. Você sabe que não está bem. Que tal um pedaço de chocolate?
Minna viu Gabriel abrir a barra de chocolate com mãos estranhamente trêmulas. Quebrou um pedaço e ofereceu-o a ela. O cheiro do doce estava incrível e Minna percebeu que também não havia comido há dois dias. Ela colocou um pedaço na boca e deixou que o chocolate derretesse. Olhou para Gabriel que sorria, com os olhos incrivelmente verdes sorrindo junto com ele, e se sentiu feliz por ele estar ali. Buscou a mão do garoto novamente e a apertou, delicadamente.
- Obrigada.
Novamente, Minna ouviu uma conversa do lado de fora da sala.
- Olá, Madame Pomfrey - ela sentiu um arrepio na espinha ao constatar que era Olívio. - Como Minna está?
- Ela acordou, Olívio. Acredito que irá se recuperar em pouco tempo. Mas ainda preciso fazer alguns testes.
- Que boa notícia. Eu posso fazer uma visita?
- Não, Olívio, ninguém pode entrar.
Minna olhou confusa para Gabriel. O garoto, por sua vez, deu de ombros.
- Gabriel, peça pra ele entrar!
- Você ouviu a Madame Pomfrey, Minna, não dá pra ninguém entrar.
- E você é um fantasma, por acaso?
Subitamente, Olívio entrou na sala. Madame Pomfrey veio atrás dela, apressada.
- Achei que tinha ouvido sua voz - ele sorriu.
- Wood, por favor, vá embora. - a enfermeira até tentou empurrá-lo. Mas Olívio era dois palmos mais alto que ela e não se moveu um centímetro.
Os olhos de Olívio passaram de Minna para Gabriel e ele teve um lampejo de clareza. Voltou-se para Madame Pomfrey.
- Por que o Iodovin pode estar aqui e eu não?
- É o que eu também quero saber - Minna estreitou os olhos encarando Gabriel. O sonserino deu de ombros e um sorriso enviesado passou por seu rosto.
- Porque eu tenho autorização especial do Snape. Será que você consegue uma também, Wood? - ele respondeu, sem tirar os olhos dos olhos de Minna. Ele não viu a expressão de Olívio, mas pôde imaginá-la.
- Você poderia ser um bom amigo e conseguir uma pra mim, que tal, Iodovin? - Minna percebeu que o rosto de Olívio havia perdido a cor e que seus punhos estavam cerrados. Mau sinal.
- Ninguém vai precisar de autorização especial nenhuma. Eu estou saindo daqui agora. - a garota levantou-se com dificuldade. Para o desgosto de Olívio, Gabriel fez questão de ajudá-la - Madame Pomfrey, por favor, onde estão minhas roupas?
- Minna tenho que fazer testes...
- Então, por favor, faça os testes. Já perdi dois dias da minha vida aqui, não quero perder mais nenhum.
Quando Minna saiu da sala da enfermaria em que estava, já vestida com o uniforme, viu que Olívio a esperava. Gabriel, para seu alívio, havia ido embora.
- Que história é essa do Gabriel estar aqui? - ele perguntou, amargurado, enquanto eles andavam pelos corredores do castelo.
- Não é tão absurdo. Ele é meu melhor amigo e Snape sabe disso. É natural que ele tenha deixado o Gabriel entrar. - Minna respondeu, com sinceridade.
- E por que ele não me ajudou a conseguir a mesma coisa?
- Ele mal sabe sobre a gente, Olívio.
- Então está na hora de deixar claro para ele, não?
- O que você espera, Olívio, sério? - Minna parou de andar para encarar o capitão - Que eu anuncie pro mundo que estamos juntos?
- Pelo menos para seu melhor amigo. Acho que seria legal com ele. Honesto. E não é isso que melhores amigos fazem? Contar coisas um pro outro? A não ser, claro, que ele não seja seu amigo. - Olívio sentia uma veia pulsar em sua têmpora. Minna ficou muda. - É ele, não é? A concorrência da qual Sholk falou. Eu fiquei quebrando minha cabeça porque achei que ele, por ser nosso amigo, nunca se oporia a ideia de que ficássemos juntos. Mas, claro, não cogitei a hipótese de que talvez ele quisesse estar em meu lugar.
- Eu daria a minha vida pelo Gabriel sem pensar duas vezes. Amo o Gabriel. - Minna respondeu, ríspida. Olívio empalideceu com a declaração. - Mas como um amigo. Não tenho nenhum interesse romântico por ele. Não me sinto atraída por ele. É completamente diferente do que eu sinto por você.
Ela buscou a mão de Olívio e sorriu, tentando acalmar o grifinório.
- Não sei porque ou como ele passou a pensar em mim de outro jeito. E quero que ele entenda que não vai acontecer nada entre a gente nesse sentido. Mas não quero machucá-lo esfregando na cara dele que escolhi outra pessoa. Que, por coincidência, é um cara incrível do qual ele sempre teve uma pontada de inveja. E sei que você também gosta do Gabriel de verdade. Sei que você não gostaria de magoá-lo, de arriscar o grupo que construímos.
- E o que você sugere então? - Wood ainda estava de cara fechada, apesar de estar mais calmo.
- Não sei. Vou tentar conversar com ele sobre esses assuntos delicados. Mas com calma, na hora certa. Enquanto isso, não vejo necessidade de ficarmos desfilando juntos na frente dele. Até porque o que temos entre nós só interessa a nós. - Ela tocou o rosto de Olívio que, finalmente, sorriu.
- Por falar nisso, no próximo fim de semana temos o passeio pra Hogsmeade. E eu pensei que poderíamos ir juntos. No Madame Pudifoot, se você quiser.
Minna olhou para Olívio horrorizada.
- No MADAME PUDIFOOT? E quem você pensa que eu sou pra ir em uma casa de chá rosa?
Wood riu.
- Ah é, esqueci que desde que você colocou o piercing no nariz virou uma assassina sanguinária.
- Olívio. Eu sou da Sonserina. Não é de hoje que eu sou uma assassina sanguinária. E assassinas merecem uma cerveja amanteigada no Três Vassouras, não chá sem gosto em uma xícara florida, servido em uma mesa com toalhinha de crochê. - ela descreveu o cenário como se aquilo a horrorizasse completamente - Desculpa, você vai precisar deixar de pensar como menininha pra me agradar.
Ele a empurrou para trás de uma armadura e a beijou com força.
- Ainda estou parecendo uma menininha pra você?
