Naquele mesmo dia, ao entardecer, Minna entrou no Salão Comunal e deu de cara com Gabriel e Sholk conversando em frente à lareira. Inconscientemente arrumou os cabelos - que Olívio havia despenteado completamente - e ficou paralisada, sem saber se devia se sentar com eles. No entanto Sholk a chamou e Gabriel lhe deu um leve sorriso.

Enquanto se aproximava, Minna percebeu que Gabriel havia emagrecido - seu maxilar estava mais saliente. Também haviam círculos vermelhos sob seus olhos, indicando falta de sono. Sentou-se ao lado de Sholk que, por sua vez, tirou uma garrafinha de cerveja amanteigada de uma sacola a sua frente.

- Cortesia de meus comparsas. - ele deu de ombros, antes que a garota tivesse chance de perguntar. Ofereceu uma garrafa para Gabriel e ficou com uma para ele enquanto suspirava. - Minhoca, querida, precisamos conversar.

Os olhos de Minna foram de Sholk para Gabriel. Esperava que uma conversa com Iodovin fosse inevitável, mas talvez preferisse estar a sós com ele. Sholk pareceu perceber o raciocínio dela e logo apressou-se a explicar:

- Quero saber que diabo aconteceu com você nestes últimos dias. Desmaiar e ficar apagada não é normal.

Minna surpreendeu-se ao notar que ela não havia nem refletido sobre o que realmente acontecera. Estava tão preocupada com Olívio e com a reação de Gabriel que simplesmente esqueceu que havia apagado em frente a um unicórnio ferido.

- Você tem razão. - ela admitiu - Não é nada normal.

- Min, você acha que talvez aquelas coisas do primeiro ano... - Gabriel a encarou com os olhos verdes cheios de preocupação. - ... elas poderiam voltar?

Minna chacoalhou a cabeça negativamente, como se para espantar os pensamentos.

- Isso é diferente. Não tem a ver com vozes, nem visões. Olívio pode confirmar - ela percebeu que os olhos de Gabriel ficaram menores com a menção de Wood - ... eu realmente vi um unicórnio. Ele estava ferido, sangrando. Olívio foi buscar Hagrid e eu tentei tocar no unicórnio. E então apaguei.

- Mas não havia nenhum unicórnio quando te encontraram. - Sholk refletiu. - Ele poderia ter te atacado e fugido?

- Isso não faz sentido. Minna não estava fisicamente ferida. Ela foi vítima de algum feitiço. - Gabriel teorizou, assumindo novamente seu olhar preocupado.

- Mas quem teria me enfeitiçado? O unicórnio? Não faz sentido também, não havia mais ninguém lá. A não ser que... - um lampejo passou pela mente de Minna. Precisaria pesquisar para confirmar aquela ideia, mas se estivesse correta tudo faria sentido.

- A não ser que...?

- Sangue de unicórnio é uma substância extremamente mágica. Muito potente. Dizem que unicórnios são muito puros, tão puros que quem os machuca, ou entra em contato com o sangue deles pode ser amaldiçoado. - Minna lembrava de ter lido sobre isso nos livros de Snape, no terceiro ano.

- Mas o que significa essa maldição? E você não machucou o unicórnio, estava tentando ajudar o bicho! - Sholk argumentou

- O sangue não deve ser capaz de escolher quem afeta. - Gabriel revirou os olhos. - Min, por que não vamos dar uma olhada na biblioteca e ver se encontramos algo sobre isso?

- Eu tenho aula com o Snape...

- Ele não vai querer te ver hoje, era para você estar descansando. Mas sei que você não é capaz disso agora. - Gabriel deu o seu sorriso enviesado.

- Então vamos de uma vez. - Sholk se levantou. Minna dirigiu-se à porta, mas voltou-se para trás quando viu que os meninos não a seguiam. Gabriel murmurava alguma coisa para o outro.

- Minhoca, acho que vou passar a visita na biblioteca, na verdade - ele se desculpou, dando de ombros. - Sabe como é, não curto essas coisas de livros.

O garoto se apressou e subiu para os dormitórios, deixando-a a sós com Gabriel. Ela nem se deu ao trabalho de questionar. Sabia que precisaria conversar com ele mais cedo ou mais tarde.


Seguiram em um silêncio perturbador até a biblioteca. Seus passos ecoavam nos chãos de pedra das masmorras e o único som que ouviam além disso era o farfalhar de suas vestes. Outros sons foram se adicionando à trilha de fundo enquanto adentravam locais mais habitados do castelo. Minna nunca achou que pudesse considerar a biblioteca um lugar particularmente barulhento.

Chegando lá, cumprimentaram Madame Pince com um aceno (retribuído com um erguer de sobrancelhas) e rumaram direto para a seção de animais mágicos. Só lá, entre duas fileiras opressoras de livros é que Minna teve coragem de falar algo.

- Acho que precisamos conversar. - sua voz saiu trêmula e infantil. Ela odiou a si mesma.

Gabriel parou de olhar as lombadas dos livros e dirigiu o olhar para dentro de seus olhos - dentro dela mesma, como sempre.

- Eu acho que sei tudo o que você tem pra me dizer. - ele se apoiou de costas para a estante, cruzando os braços em frente ao corpo. Minna sabia que aquele cruzar de braços significava que ele estava intimidado.

- Talvez você saiba. Mas eu me sinto obrigada a esclarecer. - Minna se apoiou na estante oposta, sem desviar o olhar dele. Sustentar seus olhos dessa forma exigia uma força monumental e, pela primeira vez desde que saiu da enfermaria, ela se sentiu fraca. - Eu e o Olívio, nós gostamos um do outro.

Minna viu que o canto direito dos lábios de Gabriel estremeceu, mas esse foi o máximo de reação que ele exprimiu.

- E ao mesmo tempo aconteceu aquela coisa com a gente.

Coisa. A palavra bateu em Gabriel como um soco no estômago. Ela gostava de Olívio, do troglodita do Wood. E chamava o beijo dele de coisa. Mas ele se manteve forte, de braços cruzados.

- Eu quero que tudo continue como sempre entre nós. Não quero que um caso isolado estrague como somos, como sempre fomos. Gabriel eu... os últimos dias foram confusos. Eu preciso de você, não sei agir sem você por perto. - os olhos dela se encheram de lágrimas.

Dessa vez Gabriel precisou morder os lábios para que eles não tremessem de forma ridícula. Seus olhos também se encheram de lágrimas e ele foi capaz apenas de acenar com a cabeça positivamente, para sinalizar que entendeu. O silêncio incômodo se instalou entre eles novamente e Minna finalmente baixou os olhos, não sendo capaz de encarar o amigo. Eventualmente ouviu um barulho de plástico e viu que Gabriel segurava, na sua frente, a barra de chocolate que havia dado a ela na enfermaria.

- Você esqueceu. Pega.

Minna tentou sorrir e se serviu de mais um pedaço de chocolate, desejando que aquele gosto doce fizesse com que seu coração ficasse menos apertado ao olhar Gabriel e sua expressão triste. Percebeu que ele tremia.

- Você ainda quer pesquisar sobre unicórnios? - ela perguntou, cuidadosa.

- Viemos aqui pra isso, não? - ele deixou o pacote de chocolate sobre uma mesa e começou a puxar livros. Enquanto buscava algo de útil sobre sangue de unicórnios, Minna torcia para que aquela fase passasse rápido. Sua ansiedade fez com que ela acabasse com os chocolates Dedosdemel em pouquíssimos minutos.