Minna não encontrou nada de muito novo na biblioteca sobre o sangue de unicórnios - e, claro, a presença de Gabriel não a ajudou. Os livros mencionavam uma maldição, mas nenhum deles deixava claro que maldição era essa. Ela desconfiava que, talvez, os livros da seção proibida tivessem mais informações. Ela até tentou conseguir uma autorização de Snape, mas o professor se recusou, afirmando que era bobagem e que ela estava perfeitamente bem. Afinal, fora testada!

- Mas, afinal, o que a maldição do sangue do unicórnio faz? Posso até não estar amaldiçoada, mas que mal faz eu saber de seus efeitos? - Ela até tentou esquecer o episódio, mas flashes do unicórnio e a sensação de ser engolida pelo frio eram frequentes em seus sonhos.

Snape fechou a cara para ela.

- Você não tem venenos para finalizar? Estamos atrasados no cronograma.

Minna invejou a capacidade do professor de ler os pensamentos alheios. Ele até poderia não dizer para ela do que se tratava a maldição, mas ela não desistiria tão fácil. Ele que a aguardasse. Na sexta-feira daquela semana entregou a ele todos os frascos de veneno que ele havia solicitado com uma expressão insolente.

- Na semana que vem começamos com maldições. - ele murmurou antes de dispensá-la.

No fim de semana que se aproximava eles teriam não apenas o passeio para Hogsmeade, mas a festa do Dia das Bruxas durante a noite. Isso significava que logo teria um encontro a sós com Olívio, longe dos olhos de Hogwarts. E que precisaria despistar Gabriel.

Ele não estava chateado com ela, longe disso. Aliás, ele não a deixava um instante a sós, o que estava começando a incomodá-la. Sempre que tinha uma oportunidade de ver Olívio, Gabriel grudava nela. E vinha munido de um doce. Biscoitos, chocolates, balas. Todos os dias ele lhe entregava algo. Quando Minna perguntava o motivo, ele corava e dava de ombros.

- Só quero quebrar esse gelo estranho. Não é nada de mais, Minna, juro. - ele lhe disse, durante um café da manhã no qual trouxe confeitos de mel para ela. - São só presentes.

Minna não engolia aquela história. Achava que ele tentava se mostrar superior a Olívio. Mesmo assim dava de ombros e aceitava os doces. Enquanto comia durante as aulas, via Gabriel sorrir para ela.

Se fosse para manter seu melhor amigo por perto, Minna não via problema em comer alguns doces.

- Não gosto dessa história - disse Olívio apontando para um pacote de pães de mel cobertos com chocolate que Minna carregava, quando se encontraram nos portões da escola. - Qual é a do Gabriel? Ele acha que você tá desnutrida?

- Ciúmes, Olívio? Sério? Logo no nosso passeio? - ela guardou o pacote no bolso, sorrindo pela reação do capitão.

- E você acha engraçado? Que o Gabriel seja apaixonado por você e esteja tentando te roubar?

- Primeiro, o Gabriel não está apaixonado por mim. Se esteve um dia, está se esforçando para esquecer. Segundo, e só vou dizer isso uma vez, Wood - Minna olhou para Olívio com uma sobrancelha erguida, subitamente séria - não sou de ninguém para ser "roubada". Ser roubada de alguém significa pertencer a alguém e eu só pertenço a mim.

Olívio ficou lívido, com olhos arregalados e até Minna se assustou com a rispidez de suas palavras. Mas ela não se arrependia de nenhuma delas.

- Desculpe, Minna, não achei que você fosse encarar dessa forma. Eu só quis dizer...

- Vamos esquecer isso, que tal? - Ela sorriu. A raiva momentânea que sentiu se dissolveu subitamente.

Ele assentiu, mas ainda estava assustado. Se uma garota normal ouvisse que pertencia a ele, ela normalmente sorria de orelha a orelha. Minna quase pulou em seu pescoço. "Faz sentido", Wood refletiu. "Não só por ela ser sonserina. Mas ela realmente tem razão, não tenho nenhum domínio sobre ela. Mesmo que nós fôssemos namorados, que direito eu teria de impedir que ela aceitasse doces do Gabriel? Afinal, é o Iodovin", resolveu deixar o caso pra lá e, quando estavam fora dos terrenos do castelo, passou o braço pelos ombros dela.

"Ainda não a pedi em namoro", Olívio refletia enquanto andavam em silêncio, apenas sentindo o calor um do outro. Seria necessário? Será que ela tinha dúvidas sobre o que ele sentia? E outra coisa - ele havia acabado de terminar o namoro com Alícia. Por mais que já houvesse esquecido a garota, não seria muito cedo?

Enquanto isso, Minna pensava apenas em tomar uma cerveja amanteigada enquanto estava feliz por ter Olívio ao seu lado. Pela primeira vez na semana não pensava em unicórnios, venenos ou em Gabriel.

Entraram discretamente no Três Vassouras, tomando cuidado para não serem notados pelo grande número de alunos que estava lá e se dirigiram a um canto do salão. Olívio pediu duas cervejas amanteigadas e sorriu para Minna enquanto segurava sua mão por cima da mesa.

-Estou feliz de estar aqui com você.

Minna sorriu para ele e ele percebeu em como, em poucos dias, havia começado a pensar na garota de uma forma completamente diferente. Antes ela era sua amiga, uma menina estranha e focada nos estudos. De repente era uma moça bonita e inalcançável. Agora ele sentia como se ela fosse parte indispensável de sua vida. Nas aulas ele mal se concentrava pensando nela - pior era quando tinham aulas juntos e ele se surpreendia olhando para ela fixamente. Minerva já havia dado uma 'pergaminhada' em sua cabeça quando viu, por cima de seu ombro, que ele rabiscava o nome de Minna em um caderno.

- E se eu te beijasse agora? - Olívio provocou, fazendo Minna engasgar com a cerveja que havia chegado na mesa.

- Você não ousaria.

- Você tem medo, Min?

- Não tenho medo de nada. - Ela ergueu uma sobrancelha, convencida. Era mentira, morria de medo que um dos professores, especialmente Snape, os visse juntos. Ou então que o time da Grifinória entrasse no bar rapidamente. Ou, pior, que Gabriel os visse juntos. Sabia que ele não ia encarar uma exibição pública de afeto daquelas com bons olhos. Mas também sabia que Wood não ousaria beijá-la em um lugar tão público.

- Você acha que a escola sabe? Que estamos juntos? - Olívio parece ler seus pensamentos - Não fizemos um anúncio público, mas qualquer um que observar a gente vai juntar dois mais dois.

- E alguém ia perder tempo observando a gente? - Minna revirou os olhos. Logo em seguida, percebeu que talvez muitas pessoas perdessem horas e horas observando Olívio (como ela mesma fazia). - Bem, talvez seja possível que eu já seja odiada pelo fã clube do Wood inteiro.

- Fã-clube do Wood? Que história é essa? Isso não existe.

- Claro que existe, eu era a presidente. - Minna brincou, corando ao ver o sorriso encantador de Olívio. Seus olhos se encontraram e, em um ímpeto, o capitão se apoiou na mesa e a beijou, apressado. A sonserina se afastou o mais rápido possível.

- Olívio, o que você tá fazendo? - ela ralhou.

- Não acho que precisamos esconder nada de ninguém. - Wood justificou, sorrindo afetadamente.

Mas, naquele exato momento, ele percebeu que havia feito uma grande besteira. Os gêmeos Weasley praticamente voaram para perto de Olívio, acompanhados de Percy.

- Ô capitão, tá tudo bem com você? - Fred perguntou, como se Minna não estivesse na frente deles. Ela sentiu as bochechas pegarem fogo.

- Ela é da sons... - Percy começou a falar, mas foi interrompido por Olívio.

- Eu a conheço desde o primeiro ano e ela sempre foi a minha melhor amiga. Só agora vocês perceberam que eu ando com sonserinos?

- Wood, isso é diferente. - Jorge deu tapinhas nas costas de Olívio. Minna percebeu uma veia se destacando na têmpora do capitão.

- Posso saber por que? - Minna interferiu e os rapazes olharam para ela como se só tivessem percebido sua presença agora.

- Não é nada pessoal, Minna, mas a sua casa fala por si. Preciso lembrar dos anos passados, Wood? - Percy argumentou - Quando eles roubaram no quadribol para tirar as nossas taças...

- Isso é uma mentira, Percival, nós ganhamos honestamente. - Minna levantou-se. Sentia-se estranha. Se fosse no ano passado, ela provavelmente já estaria no banheiro chorando. Mas agora algo queimava dentro dela, uma estranha euforia. Ela colocou a mão no bolso onde guardava a varinha. - E não admito que você fale mal da Sonserina.

- Calma lá, Minna, não queremos confusão - Fred deu um sorriso amarelo.

- Então por que vieram aqui arranjar uma? - Olívio perguntou, levantando-se da cadeira, colocando-se na frente de Minna. Era um palmo mais alto que os Weasley.

- É verdade então? - A voz de Alícia soou da porta do bar. Ela havia acabado de entrar. Estava lívida e seus lábios tremiam - Eu ouvi histórias, mas me recusei a acreditar. Você está junto com essa ninguém? Eu nem sei o nome dela, essa sonserinazinha aí - ela apontou para Minna com descaso. Nessa hora o bar todo já olhava para eles.

- Não fala besteira, você não só sabe muito bem quem ela é como sempre teve inveja dela. - Olívio interviu.

- Do que? Dessa cara dela com certeza que não. Ter inveja por ela ser a criaturinha rastejante do Snape? Olívio, está na cara que ela usou uma poção do amor em você. Vamos tomar um antídoto. - ela deu uma piscadela para Wood.

- Já chega, Alícia! - Olívio avisou, mas Minna fez algo muito mais eficiente. Saiu de trás dele e lançou uma maldição furnunculus que acertou Alícia bem no nariz. Imediatamente a grifinória caiu no chão, escondendo o rosto com as mãos.

- Acho que talvez agora você fique com inveja do meu rosto, Spinnet. - Minna sorriu desdenhosa. De repente sentiu o sangue esfriar e era como se outra pessoa estivesse usando sua boca para falar. - Aliás, acho que esse feitiço até fez bem pra você. Disfarçou sua feiura.

Minna abaixou-se para ficar no mesmo nível dos olhos cheios de lágrimas de Alícia.

- Ouse falar mais uma vez comigo, sua vaca, que vou fazer você sentir saudades do tempo em que só tinha uns furúnculos no rosto. - Ela levantou-se e apontou a varinha para os Weasley - E vocês, se eu ouvir vocês falando um 'ai' sobre a Sonserina de novo, juro que faço vocês entenderem de onde vem a fama da minha casa.

- Minna, no que você tá falando? - Olívio estava pálido. Ele murmurou mais alguma coisa, mas suas palavras foram engolidas pelo barulho ensurdecedor que os sonserinos presentes no bar faziam, aplaudindo Minna. A garota viu Sholk entre eles, sorrindo para ela. De repente seu sorriso murchou e ele apontou para trás da garota.

Minna não precisou nem se virar para bloquear o feitiço de Alícia e desarmar a sua varinha.

- Pare de tornar as coisas ainda piores pra você. - Minna ofereceu a ela um sorriso condescendente.

- Ss-se-senhorita Moncharmin, quque está acontetecendo? - Quirrell 'brotou' no centro da confusão. Olhou feio para ela e a arrastou para fora do bar, em meio aos aplausos ensurdecedores da Sonserina (ela ouviu Flint e o resto do time de quadribol entoando músicas de torcida com seu nome). Saindo, Minna viu Olívio se abaixar, preocupado, para analisar o rosto de Alícia. Ele e aquele senso ético irritante. Mas agora tinha coisas mais urgentes para se preocupar.

- Professor eu...

- Me acomp-a-panhe, Min-na. Sem uma papalavra.

Quirrell a arrastou até o caminho da Casa dos Gritos, antes de parar e olhar para ela.

- O que-que você fez?

Foi então que Minna caiu em si e percebeu que não só havia ameaçado grifinórios como havia enfeitiçado Alícia. Sentiu a chama da euforia se apagando dentro dela.

- Eu só me defendi.

Quirrell, inesperadamente, soltou uma gargalhada.

- E fo-foi ótimo. Sério. Co-conte para os out-tros que eu te d-dei uma de-te-tenção. Diga que você vai a-ajudar o Fifilch. Min-na, você fez meu di-dia valer a pena.

Minna estava intrigada. Tinha certeza que a maioria dos professores cogitaria até uma expulsão depois daquela exibição.

- Você irritada estava a ca-cara de uma bruxa que eu con-conheci. Corali, já ouv-viu falar?

A garota fez que não com a cabeça.

- Pe-pergunte ao Snape qu-quem ela foi. E enq-quanto isso, fique fofora de mais confusões, ok? - Quirrell deu uma piscadela para ela. Minna sentiu os olhos arderem intensamente e precisou coçá-los para que lágrimas não escorressem deles - Esse é nosso segredo.

Quirrell voltou para a cidade, deixando Minna sozinha. O que ela faria agora? Provavelmente era a pessoa mais odiada da escola. Andou até o jardim da casa dos gritos e se apoiou na cerca da propriedade. Já havia passado por momentos ruins na vida, mas eles nunca foram notados pela escola toda.

E Olívio? O que pensava dela agora?

Minna estava perdida em pensamentos quando ouviu passos atrás de si.

- Eu já fiquei sabendo - a voz de Gabriel soou - Achei que você talvez pudesse estar escondida aqui.

Minna sentiu um cheiro estranho e, antes de olhar para Gabriel, perguntou:

- Você tá fumando?

Quando se virou viu Gabriel usando sua jaqueta de couro, cabelos arrepiados, piercing e com uma aura de fumaça ao seu redor. Um Gabriel que ela não conhecia. E que, possivelmente, a assustava um pouco.

Ele deu de ombros.

- Quer que eu apague?

Então Minna, no segundo momento em que não se reconheceu no dia, tirou o cigarro da mão do amigo e deu uma tragada.

- Não.

Gabriel riu sonoramente.

- Não pode ter sido tão ruim. As pessoas estão usando seu nome e 'histórico' na mesma frase.

- Tipo 'a Minna pagou um mico histórico e agora todo mundo odeia ela'?

- Na verdade, Min, tá mais para 'a Minna deu uma surra histórica na Alícia e agora quero beijar o chão onde ela pisa'. Não se iluda, só o pessoal da Grifinória gosta daquela loira aguada.

Minna revirou os olhos e deu uma tragada.

- É. Só o pessoal da Grifinória.

Gabriel riu e mordeu os lábios.

- Acho que você precisa esquecer o pessoal da Grifinória. Hoje é dia das bruxas. E vai rolar uma festa clandestina nas masmorras depois das comemorações oficiais.

- As pessoas não me convidariam para uma festa clandestina. - ela respondeu amargurada.

- Min, você é a convidada de honra. - Gabriel sentou-se na cerca da Casa dos Gritos, tiro outro cigarro do bolso da jaqueta e o acendeu com um estalar de dedos. Depois remexeu em outro bolso e deu à Minna um pacote de balas de cereja.