Aos poucos seu episódio com Olívio foi esquecido pela escola. O que restou foi a sua nova amizade com os sonserinos - da qual ela duvidava. Como confiar subitamente em Flint depois de mais de cinco anos, apesar da nova convivência? Além disso, ficou uma inimizade natural com os grifinórios, que mal olhavam para ela nos corredores e nas aulas. Mas de Olívio e Andrew ela não se esqueceria tão brevemente. A presença dos dois começou a se tornar incômoda a um nível insuportável.
Wood pelos motivos óbvios (que Alícia fazia questão de reforçar quando a via). Ele a havia enganado. A tristeza rapidamente se transformou em outra coisa. Talvez raiva. Estranhamente, os anos em que fora apaixonada por ele pareciam ter se dissolvido. Não havia mais o frio na barriga. Ele nem lhe parecia tão bonito assim e, às vezes, ela se perguntava o que havia visto nele, afinal. Sua imagem só lhe despertava rancor. E ela passou a sentir o mesmo rancor por Andrew, que ficou do lado de Olívio sem nem se preocupar com ela. Parecia ter se esquecido de anos de convivência.
Aulas com os dois pareciam se arrastar. Ela contava os minutos em cada um daqueles momentos de confinamento forçado.
Gabriel e Sholk percebiam. E não saiam de seu lado. Sholk fazia questão de ficar por perto - de seu jeito, claro, fazendo piadas durante as aulas, comentários escatológicos e falando de garotas.
Gabriel permanecia fazendo galanteios. Oferecendo doces. Mas nunca passava da linha do que poderia ser considerado apenas uma 'amizade atenciosa'. Se, por baixo da mesa de almoço, seus pés se tocavam acidentalmente, era ele que se afastava, com um sorriso compreensivo nos lábios. Se estavam muito próximos enquanto faziam deveres, ele arrastava sua cadeira um pouco para trás, com o mesmo sorriso.
E Minna, contra o seu bom senso, começou a observar o garoto com mais atenção. Quase desejando que ele não se afastasse quando estivessem próximos. Pensando em como seria passar férias ao seu lado. Mas afastava esses pensamentos assim que eles lhe ocorriam. Era absurdo.
Tudo parecia estar nos trilhos - trilhos novos, é claro. Até que uma carta chegou para Sholk em um café da manhã. No momento em que abriu o envelope e franziu as sobrancelhas, Minna percebeu que havia algo de errado.
- Meu avô está me assassinando verbalmente por ter saído do time. Até estranhei que a resposta dele não tivesse vindo antes. Comecei a ficar preocupado achando que sua carta tinha matado ele do coração, Minhoca. Mas ele está me convidando para ir pra ilha no Natal mesmo assim - Sholk deu de ombros e ofereceu uma das folhas de papel que estavam no envelope para Minna. - Toma, essa é para você.
Minna ficou intrigada. Os acontecimentos recentes fizeram com que ela esquecesse da carta que havia escrito para Kenni. Na resposta, o avô de Sholk agradecia pelas palavras gentis, dizendo que 'tinha certeza que Sholk não as merecia'. Além disso ele falava sobre seu sobrenome. Perguntava se ela era parente de Corali Moncharmin.
Corali.
O nome soou como um alarme em seus ouvidos. Ela havia esquecido de que Quirrell havia citado o mesmo nome. Pedido para ela perguntar a Snape sobre ela.
Corali... Moncharmin.
Levantou os olhos para a mesa dos professores. Snape não estava lá. Mas Quirrell a observava por cima de seu um livro. Minna estava tentando conviver o menor tempo possível com o professor, escapando de sua sala de aula assim que o liberava. Mesmo assim percebia seus olhos sobre ela vez ou outra e se perguntava o que passava em sua cabeça.
Isso fez com que ela pedisse a Snape que lhe ensinasse leglimência. Mas ele se recusou, dizendo que era o motivo errado. Disse que ela era paranóica. Que os traumas do primeiro ano de Hogwarts a haviam deixado com mania de perseguição. "Sondei os pensamentos do Quirrell, ele não esconde nada de errado".
Mas talvez agora ela provasse ao mestre de poções que ele estava enganado.
Sem dar explicações, levantou-se e foi para as masmorras. Gabriel, obviamente, percebeu que havia algo de errado e a seguiu. Sholk estava ocupado demais se entupindo de torrada com geléia.
Minna entrou na sala do professor sem bater, surpreendendo tanto Snape quanto Dumbledore, que estava na sala. Enquanto Severo a assassinava com o olhar, o diretor adotou uma expressão confusa, como se nunca a houvesse visto antes.
- Bom dia... Minna. Senhor Iodovin.
Ela corou furiosamente vendo que havia interrompido uma conversa importante.
- Bom dia, diretor. Vamos aguardar do lado de fora. Desculpe.
- Não há necessidade, já estou de saída. - Dumbledore trocou um olhar significativo com Snape que ela fingiu não ver.
- Espero que vocês tenham um bom motivo - Snape sibilou olhando para os dois.
- Quem é Corali?
O queixo de Snape caiu.
- De onde você tirou esse nome?
- Quirrell me pediu para que eu te perguntasse. E Kenni Whisp quer saber se eu tenho algum parentesco com essa tal Corali. Professor, o senhor sabe alguma pista sobre uma parente minha de sangue mágico?
Snape estava pálido e se sentou em sua cadeira, massageando as têmporas. Gabriel olhava de Minna para o professor com os olhos verdes confusos, sem saber o que estava acontecendo.
- Corali Moncharmin foi uma grande bruxa, que morreu há muito tempo. Eu ainda era um menino na época.
- Então eu realmente tenho sangue mágico. - Minna sentou-se na cadeira a frente do professor - Desde quando o senhor sabe disso?
- Eu não sei disso. Ainda não tenho certeza. Não sabia que Corali possuía parentes diretos, então pensei que você pudesse ter apenas o mesmo sobrenome. Bem, até o começo do ano.
- Do que o senhor está falando?
Snape acenou sua varinha e uma gaveta se abriu em sua mesa. Estivera trancada. De lá, o professor tirou um porta-retrato e o ofereceu à Minna. Ao ver a imagem ela quase a derrubou. Gabriel, ansioso, tirou a foto de suas mãos e a analisou.
- Minna, essa moça é a sua cara!
A imagem mostrava uma bruxa jovem, de pouco mais de vinte anos, abaixada ao lado de um rapazinho de cabelos escorridos que, Minna supôs, devia ser Snape. Ela tinha os mesmos cabelos negros encaracolados. As mesmas sobrancelhas. Os mesmos olhos.
- A semelhança não havia ficado tão evidente até o início deste ano. E até hoje, não sei dizer qual é seu parentesco com ela.
- O senhor deveria ter me dito antes. - Minna tirou o retrato das mãos de Gabriel, deu uma olhada melhor na foto e percebeu detalhes como as roupas ricas de Corali. Devolveu a foto a Snape - Por mais que seja uma suspeita, eu deveria saber.
- Eu tive meus motivos.
- E agora posso saber quais são eles? Afinal, até Quirrell parece saber mais dessa história do que eu.
- O Quirrell só sabe da sua semelhança com Corali. Ele mesmo já comentou isso comigo. Ele sabia que, quando eu era mais novo, tive uma ligação com ela.
- Que ligação?
- Corali me deu algumas aulas. Assim como eu ensino a você, Minna.
A garota achou que percebeu um sorriso nostálgico no rosto de Snape. Mas ele logo desapareceu.
- Então ela era professora de Hogwarts?
- Não. Ela era amiga de minha mãe e estava treinando para ser uma professora. Eu era uma espécie de teste para ela. Ela queria me ensinar através de seus próprios métodos. Era brilhante, absolutamente brilhante. E foi por isso que morreu.
- Como assim? Como ela morreu? - Gabriel perguntou, ansioso.
- Eu não soube de detalhes. Acho que ninguém soube direito, na verdade. A única coisa que sabemos é que ela foi morta por Voldemort.
O nome instantaneamente fez com que um clima pesado se instaurasse na sala.
- Ela foi a primeira vítima do Lorde das Trevas, a primeira conhecida. Foi através de seu assassinato notório que ele começou a ficar famoso. Temido. Diz a lenda que ela seria a próxima professora de defesa contra as artes das trevas de Hogwarts. Voldemort queria a vaga para si. E a matou. Simples assim.
As mãos de Minna tremiam. Gabriel colocou uma mão sobre seu ombro.
- E isso é tudo?
- Minna, prometo que em breve a contarei tudo o que sei sobre Corali. Mas agora você tem aula. E eu também. Mas eu quero que você, em troca, me prometa que não vai sair perguntando a qualquer um sobre Corali. A morte dela ainda não foi aceita pela sociedade bruxa. O ministério da época acobertou muitas informações, até hoje não entendo o motivo, por mais que eu tenha tentado descobrir. E não temos certeza de que você realmente é ligada a ela.
Minna crispou os lábios, irritada. Ao ver a imagem de Corali, tinha certeza absoluta de que eram, sim, parentes. Ela se reconheceu nos olhos da moça. Mesmo assim, assentiu.
- Espero que o senhor cumpra a sua promessa.
- Confie em mim.
