Olívio olhou ao seu redor. Definitivamente estava perdido. Tudo era escuro a sua volta, mas o barulho de galhos que estalavam sob seus pés e o cheiro de umidade e de folhas em decomposição não deixavam dúvidas sobre o lugar no qual ele estava perdido. A Floresta Proibida.

"O que estou fazendo aqui?"

- Olívio? - Minna chamou. Ela saiu de trás de uma árvore. Sorrindo. Seus cabelos encaracolados e negros pareciam ainda mais longos. Ela usava um vestido branco e leve e estava descalça. Linda.

- Minna, você vai se machucar - Wood apontou, preocupado, para os pés da garota. Ela apenas negou com a cabeça e continuou sorrindo.

- Estou em casa.

Como ele sentiu falta daquele sorriso. Não conseguiu evitar e sorriu também, abrindo os braços. Minna correu para ele e afundou em seu abraço. O beijou com intensidade e, quando Olívio estava sem fôlego, deixou que seus lábios se separassem um pouco. Wood sentia a pulsação acelerada de seu coração se espalhar por todo o seu corpo.

- Não me deixe mais - ela pediu. O sorriso havia desaparecido e agora seus olhos estavam brilhantes de lágrimas.

- Não vou deixar, Minna. Estou aqui. - Wood enxugou as lágrimas da garota que agora corriam livremente por seu rosto. Mas subitamente percebeu que ela não chorava lágrimas normais. Água prateada vertia de seus olhos. Sangue de unicórnio.

- Ele está vindo, Olívio - Minna se afastou dele, deixando um rastro de sangue de unicórnio atrás de si - Eu preciso ir.

E sumiu por entre as árvores, como se nunca houvesse estado perto dele.

- Minna, espere! - Wood tentou acompanhá-la, tentou correr, mas estava preso no chão. Então ouviu um rosnado. Um lobo cinzento estava atrás dele. E se aproximava, correndo, pronto para dar o bote.

Olívio gritou. Abriu os olhos e viu dois grandes olhos amarelados o encarando de volta. O lobo. Não era possível. Alcançou sua varinha.

- Lumos! - A luz da magia não revelou nada ao seu redor. Apenas os olhos de Percy e de Andrew o encarando, preocupados.

- Você tava sonhando alto. - Olivaras reclamou.

- Desculpe. Foi um pesadelo.

- Achou que tava perdendo a copa? - Percy revirou os olhos, se afundando em seu travesseiro.

- Quase isso. - Olívio apagou a varinha, limpou o suor da testa, afofou os travesseiros e fechou os olhos. Não queria dormir agora, não imediatamente. Queria manter-se acordado enquanto a resolução de procurar Minna e esclarecer todo o mal-entendido continuava fresca em sua memória. Naquele momento parecia surreal que seu orgulho o havia mantido distante da garota.


Gabriel acordou, arfante. Sua cabeça girava e seu nariz estava trancado. Gripe, só podia ser. Ele se levantou e foi para o banheiro. Percebeu que seu pijama estava amassado e, ao tirá-lo, notou longos pelos no tecido. Pelos cinzentos. Maldição. O gato de Agatha Mosverlt havia andado pelo seu dormitório novamente. Chacoalhou o pijama para se livrar de todos aqueles pelos e colocou suas vestes.

- Horlogium - murmurou para a varinha, que emitiu sete badaladas fortes e uma mais fraca. Sete e meia da manhã. Precisava se apressar para encontrar Minna antes do café. E dar a ela o pacote de biscoitos de abóbora com canela que havia surrupiado da cozinha na noite anterior - Cattleya labiata - disse, conjurando uma orquídea de coloração rosa-brilhante. Talvez brilhante demais para o gosto de Minna. Usou magia novamente e tirou a cor da planta, deixando-a branca.

Sorriu. De acordo com seus cálculos faltava pouco para Minna decidir ficar com ele definitivamente.

Desceu para o café da manhã e a encontrou, com Flint ao seu lado. Sua expressão denunciava uma irritação completa e o livro em sua mão indicava que ela tinha dever de casa a terminar. E Marcos estava lá atrapalhando. Forçou um sorriso para disfarçar seu descontentamento e os cumprimentou.

- Minna. Flint.

- Olá, Iodovin.

- Tudo bem, Gabriel? - Minna sorriu, seus olhos parando sobre a flor e os biscoitos que ele segurava. Gabriel os estendeu para ela.

Flint olhou de Minna para Gabriel, intrigado.

- É o seu aniversário, ou algo assim? - o capitão perguntou.

- Só uma gentileza. - Iodovin respondeu, controlando a voz para não mostrar sua irritação. - Você pode nos dar um minuto, Marcos? Tenho assuntos pra tratar com Minna... em particular.

Marcos olhou para Gabriel incrédulo, como se parecesse impossível que ele quisesse com Minna - e que ele não havia feito isso nos últimos cinco anos.

- Minna, ele está incomodando? Se você quiser...

Gabriel sentiu as entranhas queimarem. ELE incomodando Minna? A audácia de Flint fez ele cerrar os dentes. Até semanas atrás, ele nem olhava para a garota. Agora, subitamente, ela era interessante?

- Eu vou dizer o que está sendo um incômodo, Flint.

- Diga, Iodovin. - ele se levantou, encarando Gabriel nos olhos. Minna revirou os olhos, impaciente.

- Marcos, por favor, você pode nos deixar a sós? - ela tocou no braço do capitão, tentando acalmá-lo. O movimento não passou despercebido aos olhos de Gabriel. Desde quando Minna era íntima o suficiente para tocar o rapaz assim? Seu maxilar doía com a tensão. Por fim, Flint sorriu para a garota e saiu, não sem antes dar uma piscadela para o time da Sonserina e passar por eles dando hi-fives.

Quando Gabriel voltou os olhos, ferventes de raiva, para Minna, ela sorriu.

- E você dá risada? - ele sentiu o ódio dissolver-se dentro dele.

- Quantas vezes preciso contar para vocês que eu não quero nada com o Flint? Fora que não tenho nem tempo de pensar nessas coisas. - ao ver que Iodovin corava, resolveu mudar de assunto - Gabriel, Snape ainda não me contou nada sobre Corali.

- E qual é a desculpa dessa vez?

- Nenhuma. Ele não me conta mais nada. Só fica insistindo que eu aprenda oclumência rápido. Até parou as lições sobre maldições.

- Então talvez seja nosso dever fazer uma pesquisa sobre ela.

- Ele me fez prometer que não faria isso. E pense só, faz todo o sentido. Ele quer que eu aprenda oclumência, a arte de esconder os pensamentos, antes de me contar sobre Corali.

Gabriel chacoalhou a cabeça, como se não entendesse. Minna revirou os olhos e, puxando Gabriel para que ele se sentasse ao seu lado, cochichou:

- Significa que ele quer me contar segredos de vida ou morte, que desconfia que alguém poderia roubá-los da minha mente. E eu até já sei de quem ele suspeita.

Os olhos de Gabriel voaram para Quirrell, instintivamente. Minna deu um chute em seu joelho.

- Não dá bandeira - ela murmurou, com os lábios rígidos e os olhos fixos nos seus.

- Sim senhora - disse ele, tentando disfarçar. Passou a olhar para a orquídea nas mãos de Minna - Gostou do presente?

Ela corou subitamente.

- Todos os dias, Gabriel. Todos os dias você me entrega doces. E presentes como essa flor. E ainda assim, diz que não está tentando...

- Pois é. Sei mentir como ninguém - Gabriel começou a se servir de torradas e de geléia, sorrindo, sem olhar para Minna. Então não viu quando o queixo da menina caiu, mas pôde sentir sua expressão pelo tom de voz da sua resposta.

- O que você quer dizer com isso?

- Que é óbvio que eu tenho outras intenções, Minna. O que me surpreende é você ter acreditado no que eu dizia sobre ser apenas gentileza, logo você que costuma ser tão observadora.

O tom de pele avermelhado de Minna foi substituído por uma palidez extrema. Ela fechou os livros com força e se levantou, mas Gabriel a impediu de ir embora com suas palavras:

-Por isso eu acho que você sabia o tempo todo. Sabia que me matava quando estava com o Wood e viu como me deixou só de ver você junto com o Flint. E sabe o que eu quero. Você é muito inteligente pra não saber.

Minna estava paralisada, com os livros presos na frente do corpo como um escudo e com os grandes olhos fitando abertamente Gabriel. O garoto sorriu, com dificuldade, sentindo-se diminuído por aquele olhar, e continuou a falar.

- Mas acho que existe um motivo para você ter aceitado esses presentes e não ter dito nada.

- Gabriel, eu não tive escolha - O olhar de Minna se voltou para seus próprios pés - Se eu tivesse feito alguma coisa eu teria te afastado. Logo você, eu não posso te perder.

- Claro que pode. Se eu realmente estivesse sendo insuportável, se eu realmente estivesse incomodando, você teria se afastado. Doa a quem doesse. Foi uma escolha, Minna. Você escolheu aceitar os presentes. E escolheu ficar do meu lado. E agora você provavelmente vai correr para a aula de Aritmancia, que não temos juntos, enquanto eu vou para o estudo de Runas Antigas. Vai ficar presa em seus pensamentos, enquanto toma notas, sem nem prestar atenção no que escreve. E vai escrever tudo que a professora falar de forma mecânica, em letrinhas miúdas e geométricas, com o A em forma de triângulo. Na próxima aula, em Feitiços, você vai sentar do meu lado, apesar da sua vergonha, apesar da sua indignação. Porque você quer estar sempre do meu lado, Minna. E o motivo não é só amizade. Nem só o que eu sinto e seu desejo de não me magoar. Isso só se sustenta porque vem dos dois lados. Eu sei que você sente alguma coisa.

Minna olhou para ele assustada. As juntas dos dedos que seguravam o livro estavam brancas e ela mordia os lábios, nervosa. Isso só deu ainda mais coragem a Gabriel.

- E eu vou esperar até você descobrir o que é isso. Vou estar lá do seu lado nas aulas. Vou ser o amigo com o qual você se importa tanto. Vou te abraçar quando estiver triste e vou rir com você como sempre. Vou beber chocolate quente com conhaque até de madrugada com você. Vou montar festas inteiras só pra te ver sorrir. Vou fazer tudo o que você quiser. E vou adorar cada momento, porque vou estar perto de você. Mas saiba que tudo isso tem uma intenção muito clara. E que eu cansei de mentir sobre ela.

Os lábios de Minna ficaram com uma marca roxa da pressão de seus dentes. Naquele momento ela sentia que estava em um universo paralelo. Claro que ela sabia. Claro que todas as palavras de Gabriel faziam o maior sentido do mundo. Mas nunca esperou que ele tivesse coragem de dizê-las assim, na lata. Olhou para os olhos verdes do garoto e sentiu o coração na garganta.

- Você tem razão - ela sussurrou - Mas eu... eu não sei...

Gabriel levantou-se sorrindo seu sorriso infalível, fazendo Minna sentir os joelhos fraquejarem.

- Que tal fazer um teste? Um teste inocente que não vai machucar ninguém? Já andamos de mãos dadas muitas vezes. Então o que proponho é que você me deixe acompanhá-la até a porta da aula de aritmancia, segurando sua mão. Só isso.

Minna sentia a boca seca e tremia. O que havia de errado com ela, afinal? Era Gabriel, apenas Gabriel. Ainda assim, aquelas palavras a transformaram em outra pessoa. Alguém insegura. Ridícula. E que iria aceitar o convite.

Ela estendeu a mão para Gabriel. Quando ele apertou sua mão, Minna relembrou o que já havia percebido no primeiro ano - suas mãos se encaixavam. Mas agora aquilo tinha um significado muito diferente do que naquela época. No momento em que ele a tocou, seu coração disparou ainda mais, mas seus sentidos começaram a retornar. Como se a pele de Iodovin, de alguma forma, afastasse a confusão.

- Ok, para a sala da Prof. Vector. - Gabriel sorriu. Ele mesmo estranhou o que havia acabado de fazer. E, apesar de sentir cada célula de seu corpo vibrando com ansiedade, suas ações ainda pareciam calmas. Ele conseguia calcular seus movimentos. Segurar a mão de Minna com a força certa. Andar em um passo que combinasse com o dela. Deixá-la na porta da sala de aula, sorrir e dizer um "até logo", acompanhado de um olhar firme, enquanto afastava uma mecha de cabelo do rosto da garota. Movimento que terminou em um toque em sua bochecha.

Tudo o que Minna conseguiu foi esboçar um sorriso. E ir para a aula, fazer notas mecânicas, em letras miúdas e com A's em forma de triângulo, enquanto seu pensamento estava longe, em Gabriel.

Na sala de Poções, Olívio fazia a mesma coisa. Mas o que mais lhe incomodava era o sorriso de Snape. De alguma maneira, Wood acreditava que o motivo do sorriso do professor era a mesma razão de sua inquietação - ver Minna e Gabriel saindo do café da manhã de mãos dadas.