3. Gentileza

Beco Diagonal.

Mesmo um ano após Voldemort ter sido derrotado, o beco ainda não havia se recuperado completamente. Estava bem mais ajeitado e as lojas haviam voltado a funcionar, mas ainda havia algumas marcas da destruição que passou por ali.

Draco nunca gostou muito de lá, de qualquer forma.

Sempre que andava por ali estava acompanhado de seu pai, sempre sendo induzido a escolher o melhor, o mais caro, coisas do tipo. E depois de ver quase tudo, tendo dinheiro ou não, ruir na guerra, estava meio desiludido com essa idéia.

Mas caminhava por ali, vez ou outra, antes de ir ao caldeirão furado tomar algumas cervejas amanteigadas. Era tudo que lhe restara fazer, após terminar Hogwarts. Trabalhava no ministério da magia, mas aquilo não lhe trazia muito prazer. Especialmente por que fora jogado para trabalhar com Arthur Weasley, na seção de mau uso dos artefatos trouxas.

Muito empolgante.

Não era como se Draco tivesse alguma opção além de tolerar seu trabalho. Seus pais tinham sumido no mundo com medo de serem presos, ainda não havia conseguido restaurar sua conta em Gringotes, e isso o aborrecia muito. Alguns daqueles galeões seriam muito úteis, mas levaria cerca de dois meses até conseguir ajeitar as coisas.

Estava suspirando baixinho, olhando a vitrine da loja de animais mágicos, com o olhar fixo em uma coruja, quando viu no reflexo aquela ruiva parar ao lado dele. Ela sorria travessa no reflexo, e ele não pôde evitar olhar para ela.

"Olá, Malfoy"

A pequena ruiva carregava uma caixa de papelão enorme com o nome "Gemialidades Weasley" em letras garrafais. Seus cabelos ruivos estavam mais curtos, e sua aparência estava bem melhor desde a última vez que a vira. Calçava belas botas marrons de camurça, e usava um casaco de lã azul, daqueles que a mãe dela costurava, com um "G" enorme na frente.

"Oi, Weasley"

Ela lhe sorriu docemente. Draco arqueou uma das sobrancelhas ao perceber que uma Weasley estava sendo simpática com ele. Especialmente depois de tudo que aconteceu, da perseguição à sua família e de todos os Malfoys serem tratados como a reencarnação do mal.

"Qual o motivo desse sorriso?"

Ergueu os ombros finos, como se dissesse que não sabia. Encarou o loiro por mais algum tempo e percebeu que ele estava desconfortável. Gina tentou, então, um modo de conseguir conversar. Seu pai estava falando tanto do menino Malfoy que trabalhava o dia todo de cara fechada, que ela não pôde deixar de se sensibilizar, especialmente depois que ele a ajudara.

"Como você está? Soube que está trabalhando na mesma seção que meu pai, no ministério..."

Draco riu e coçou a cabeça. Olhou para ela. Os olhos castanhos da menina Weasley lhe encaravam com expectativas, como se estivesse esperançosa por uma resposta positiva. Podia jurar que via um pouquinho de fé naquele olhar.

"De certa forma, não posso reclamar."

Gina sorriu meio desapontada. Ajeitou a caixa em seus braços e suspirou baixinho, lançando a ele um último olhar. Ela parecia fazer realmente muito esforço para segurar aquele peso todo.

"Vejo-te por ai."

Gina ia dando as costas para ele, quando Draco segurou seu cotovelo sem muita força. Não conseguiu deixar aquela menina pequena carregar aquilo. Não sabia o motivo, mas sentia vontade de ajudá-la como não sentia por ninguém desde Hogwarts. A ruiva virou-se para ele e lhe encarou, como se perguntasse o que diabos ele estava fazendo.

Após um breve momento de silêncio entre ele, o loiro suspirou e deixou a cabeça pender para trás. Aquilo era uma atitude de Potter, não de um Malfoy. A ruiva arqueou uma das sobrancelhas, meio sem paciência. Por fim, ele deu-se por vencido.

"Passe-me essa caixa, Weasley, ela é quase do seu tamanho. Seus irmãos devem ter titica de galinha na cabeça pra permitir que você carregue isso por ai..."

E uma Gina confusa entregou aquela caixa para Draco. Ele subiu o Beco com ela sem dizer muita coisa, mas com as bochechas meio coradas, e carregou a caixa até a porta da loja dos gêmeos. A garota sorriu agradecida e o convidou para entrar. O loiro torceu o nariz.

"Acho melhor não. Seus irmãos vão me amaldiçoar."

Gina riu. Pela primeira vez ela riu pra ele. Não só um sorriso de gratidão ou chacota. Só um riso. Sacudiu a cabeça, balançando os cabelos vermelhos e ficou olhando pra ele por um tempo. Draco passou os dedos pelos cabelos, meio sem jeito.

"Espera-me, então, levar essa caixa lá dentro?"

A pergunta surpreendeu Draco. Seus olhos cinzentos se arregalaram de leve e Gina teve de se segurar para não rir daquela expressão no rosto dele.

"Pra que?"

Gina girou os olhos castanhos e sorriu. Suas bochechas sardentas pigmentaram-se de rosa enquanto ela olhava para ele.

"Vou deixar você me pagar uma cerveja no caldeirão furado hoje."

E antes que ele respondesse, ela entrou na loja sacudindo os cabelos, desajeitada com aquela caixa enorme. Draco ficou olhando para o espaço onde Gina estava por um tempo, sem saber se era uma piada ou se ela estava falando sério.

Então, ele esperou.

#

Tornou-se rotina.

Todas as sextas, Gina ia trabalhar mais arrumada que o costumeiro e corria com o serviço na loja dos gêmeos. Ajeitava tudo o mais depressa possível, fechava o caixa e saia com expectativas, sem notar o irmão desconfiado que deixava para trás.

Toda sexta ele estava lá esperando por ela. Do outro lado da rua, evidentemente, mas estava. Não queria correr o risco de ter algum daqueles produtos insanos atirados contra ele. Iam juntos ao caldeirão furado e conversavam enquanto tomavam algumas cervejas amanteigadas. Era só isso.

Fazia dois meses.

Aquela sexta não começou diferente. Muitos clientes na loja, muitas vomitilhas vendidas, assim como poções do amor. Depois do dia corrido, ela fechou o caixa e deixou o irmão terminando de receber as encomendas. Ajeitou um pouco o cabelo antes de sair. Seu coração palpitava.

Gina se sentia como uma adolescente.

Quando saiu da loja aquele dia e não viu Draco, ela sentiu uma pontinha de desapontamento. Será que ele tinha se cansado de brincar de ser amiguinho de uma Weasley? Será que não viria?

Estava pensando no que fazer enquanto ia se afastando um pouco da loja, quando o viu se aproximando com pressa.

Sorriu.

"Oi, Malfoy. Pensei, por um momento, que você não viria."

Draco ajeitou melhor o casaco preto que usava. Estava ficando próximo do Natal, e o frio se intensificava cada vez mais. Gina usava uma calça preta justa em seu corpo e a mesma blusa de lã que vestia no dia em que a encontrara no beco, semanas atrás. Ela não parecia sentir muito frio, embora suas roupas não fossem quentes como as dele. Em outras épocas, Draco caçoaria dela e de suas roupas velhas.

Mas algo o impedia de fazer isso agora.

A lembrança dos olhos assustados da Weasley em Hogwarts, quando ele a ajudara, contrastava absurdamente com os olhos castanhos tão tranqüilos olhando para ele agora. E aquele belo sorriso que ela deixou escapar ao vê-lo...

Então, Draco pigarreou, antes de falar com ela.

"Eu tive algumas complicações no ministério, Virgínia... Seu pai vai ficar feliz em te contar essa longa história, então não vou estragá-la."

Os olhos de Gina se arregalaram e Draco pensou ter dito algo errado.

"Do que você me chamou?"

Draco olhou pro lado, fitando a vitrine da "Floreios e Borrões".

"Virgínia. É seu nome, certo? Ou prefere que te chame de Weasley fêmea pelo resto da vida?"

As pontas das orelhas de Gina ficaram vermelhas. Não gostava quando ele a chamava de Weasley fêmea. Não gostava nem um pouco. Estava abrindo a boca para começar uma discussão, quando ele olhou pra ela e riu. Riu levemente, só um pouquinho.

Foi a primeira vez que ele riu para ela.

A expressão de Gina suavizou um pouco. Ela colocou as mãos na cintura e olhou pra ele, meio ameaçadora.

"Qual a graça?"

Ele girou os olhos cinza, perdendo um pouco do breve sorriso que deu e olhou para ela. Seus olhos tinham um pouco de divertimento.

"Você. Quando fica brava, fica parecendo os insanos dos seus irmãos. Especialmente aquele goleiro grifinório irritante."

Gina tentou não achar ruim. Respirou fundo e segurou-o pelo antebraço.

"Vamos logo para aquele maldito bar antes que eu amaldiçoe você."

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Eu disse que não ia demorar a postar, olha ai. Sou uma pessoa de palavra, rapaz hahahaha. Eu tenho um carinho especial por esse capítulo por que... sim. Já tinha ele em mente há muito tempo, e foi tipo uma limpeza mental quando escrevi tudo.
E, olha, vocês comentaram *-* que bonitinhos.
.5268: Muuuito obrigada por ler e comentar *-* pois então, não vai demorar muito pra que os detalhes daquele dia na floresta sejam explicados. Mas não vou contar pq estraga a surpresa hihihi a Gina gosta do Harry, mas como um amigo, um irmão... Eu não lembro em que capítulo ela falava disso com o Draco, mas acho que é no próximo... Acho... hahahahaha E sim, a guerra do 2º cap é a última. Então, eu vou desenvolvê-los fora de Hogwarts. Nesse capítulo mesmo, acho que já deu pra ter uma noção de como as coisas vão seguir, né? XD muito obrigada pelos elogios e pelo comentário, espero que continue acompanhando *-* bjs
Guest: hihi muito obrigada por ler e comentar. Espero que continue acompanhando ^^
Ludi A: Muito obrigada por ler e comentar. Tá muito difícil ganhar review hoje em dia, ainda mais nesse shipper... Estamos em crise hahaha. Bom, não sei ao certo se ela aparentou ser mimada no primeiro capítulo, mas a intençãããããão era fazer parecer que ela estava só de saco cheio de receber da ordem as tarefas mais "fáceis", quando ela queria mesmo era ação. Queria agradecer muito seus elogios, ta? Me senti até gente *-* hihi. Ah, sobre o nome dela... Me perdoe se você gostar de Ginevra, mas eu não consigo e.e Não sei, mas sempre imaginei Virgínia mesmo, então não consigo aceitar Ginevra. Parece errado, sei lá hahahaha Muito obrigada por ler e comentar, espero que continue acompanhando ;*