14. Prova de Fogo II

Quando ela empurrou a porta, Draco pode ver aquele enorme amontoado de cabeças vermelhas. Estavam todos ali, todos. Os irmãos dela, as namoradas dos irmãos, alguns Weasley-bebês, a Granger, o Potter, o idiota do Longbotton e mais metade da maldita Grifinória.

Sentiu sua pulsação acelerar.

"Virgínia..."

Draco só conseguiu pronunciar o nome dela, mesmo sabendo que Gina não podia fazer nada por ele. Era inevitável que fosse se apresentar para os pais dela algum dia. Olhou para Blaise, em busca de apoio, força, moral, qualquer coisa que o fizesse ter coragem para entrar, e viu que os olhos de Blaise estavam tão arregalados que quase saiam de órbita.

"Te vejo do outro lado, Draco."

Draco engoliu a seco e se bastou em seguir os passos de Gina, olhando muito assustado para as proporções que aquela pequena casa tinha, quando vista de dentro. Por Merlin, que bruxaria era aquela? A casa era enorme.

Pensou, então, o que seu pai diria se soubesse que ele estava em território Weasley. Ou sua mãe. Ou qualquer um que o conhecesse desde... Sempre. Draco virou o rosto para Blaise, e o moreno olhava para o teto boquiaberto. Na certa, estava pensando a mesma coisa que o Malfoy.

Draco se considerou um vencedor quando já estava no terceiro passo dentro da casa e ninguém o havia amaldiçoado ainda. Estava tão cheio que ninguém notou a presença dele. Estava quase cantando o coro de aleluia, quando viu Potter.

Harry virou os olhos verdes para Draco e os arregalou. Olhou para Gina, olhou para a mão dela, viu os dedos dela entrelaçados com os do Malfoy e empalideceu.

Quando a Granger viu a expressão fantasmagórica do Potter, seguiu o olhar dele e ficou igualmente abismada. Passou a mão pelos enormes cabelos cacheados e os prendeu num coque, se abanando.

"Draco, ainda dá tempo de correr..."

Blaise sussurrou ao ver que Harry e Hermione haviam notado sua presença. Conforme iam entrando na casa, mais olhares como aquele iam se seguindo, até que absolutamente todos ficaram em silêncio, encarando Gina, Malfoy e Zabini.

Rony foi o primeiro a se manifestar, e Draco agradeceu a Merlin por Gina colocar-se na frente dele.

"Gina, o que essa doninha albina está fazendo aqui?!"

Draco olhou para Gina e sussurrou em seu ouvido.

"Eu disse que iam me chamar de doninha..."

Gina deu-lhe uma olhada bem feia e voltou as atenções para Rony.

"Eu o convidei, Ron. E convidei o Zabini também. Você tem algum problema com isso?"

Rony apertou os olhos e ficou olhando para Draco.

"Como você se atreve a entrar aqui? Como se atreve a segurar a mão da minha irmã?!"

A varinha de Rony já estava na mão dele e bem apontada para Draco, que se inclinava um pouco para trás. Ele ergueu uma das sobrancelhas. Mesmo que estivesse morrendo de medo de levar um 'avada kedrava' no meio da cara, jamais deixaria transparecer. Jamais.

"Eu não sei se você sabe lavar os ouvidos, Weasley, mas sua irmã já disse que foi ela quem me convidou, não?"

As pontas das orelhas de Rony ficaram vermelhas, e foi a vez de Jorge se aproximar, bastante irritado.

"Bem que eu vi que você estava estranha, Gina. Estava sendo ameaçada por esse crápula, não é? Ele obrigou você a trazê-lo aqui, não foi?!"

Draco arregalou os olhos e quase deixou uma risada escapar. Aparentemente, eles o achavam uma espécie de lobo mau pronto pra devorar no jantar a pobre chapeuzinho vermelho. Mal sabiam aqueles ruivos que Gina era a pessoa realmente malvada daquele relacionamento.

E então, mais um cabeça vermelha que Draco não sabia identificar se aproximou. Por ser o mais alto e com mais cara de bravo, deduziu que era aquele que lidava com dragões.

"Como um maldito comensal se atreve a pisar na nossa casa e a chantagear nossa irmã?! Nós vamos acabar com você agora mesmo..."

E então Gina gritou.

Não proferiu nenhuma palavra, apenas deu um grito estridente que, naquele momento, pareceu até super sônico.

Os três cabeça vermelha se calaram e Draco ficou olhando para aquela garota pequena, que estava tão vermelha a ponto de explodir. E ele ficou ligeiramente feliz de que não fosse culpa dele. Aquele bando de Weasley estava encrencado.

"Parem de falar idiotices! E abaixem essas varinhas, por Merlin. Especialmente você, Ronald, tudo que vai conseguir com isso é furar o olho de alguém."

Ronald bufou, mas obedeceu, assim como os outros dois.

"Eu já disse, eu o convidei! Draco não está me ameaçando, chantageando nem nada do tipo. Eu insisti para que ele viesse, assim como o Zabini. E, francamente, esperava um comportamento melhor do que este."

Blaise deu um leve aceno com a mão, mas logo após abaixou o braço e ficou quieto.

"Do que diabos você o chamou, Gina?"

Rony perguntou abismado, olhando para a cara de Gina como se ela fosse um E.T

"De Draco."

E Draco sorriu.

"Eu não sei se você sabe, mas é meu nome. Posso mostrar minha identidade, se necessário..."

Gina fulminou Draco com o olhar e afundou o indicador no peito dele.

"Se você não tiver algo que possa me ajudar a amenizar esta situação, Draco, fique quieto."

Draco girou os olhos e assentiu. Gina voltou a prestar atenção nos irmãos, só que não eram mais apenas os três. Todos os cinco Weasley estavam em volta deles, e por um momento Draco temeu por sua vida.

"Escutem, eu não vou parar minha festa pra ficar aqui discutindo sobre isso e suas rixas idiotas do colégio. Quando alguém estiver disposto a conversar comigo, eu vou estar na cozinha, me entupindo de refrigerante e doces."

E, simples assim, Gina, Draco e Blaise passaram por entre aquele muro de ruivos que havia se formado no caminho.

Draco quase cantarolou que estava certo e que os irmãos dela o matariam se tivessem a oportunidade, mas não achou uma idéia muito oportuna, já que Gina estava com um olhar um tanto quanto psicótico.

"Não acredito que eles fizeram isso..."

"Eu te avisei, Gin."

Gina preferiu fingir que não havia escutado o que Draco dizia e caminhou com ele e Blaise até a cozinha. A Sra. Weasley estava lá, terminando de confeitar um enorme bolo todo coberto com creme rosa que o Zabini supôs ser morango. E Luna Lovegood estava lá, lendo um livro de ponta cabeça. Ela usava um singelo vestido rosa, que lhe fazia parecer uma bonequinha de porcelana.

Os olhos castanhos de Blaise prenderam-se na loira por algum tempo, analisando as curvas das pernas torneadas dela.

Quando Luna viu aquele trio peculiar, deu um sorriso meio avoado. Já a Sra. Weasley arregalou os olhos e apertou demais o saquinho de glacê, fazendo um enorme borrão na cobertura do bolo.

"Gina, querida... O que..."

Molly empalideceu. Gina suspirou baixinho e segurou os ombros da mãe, falando com a maior calma que conseguiu.

"É o Draco Malfoy, mãe."

"E eu sou o amigo dele. Blaise. Blaise Zabini."

Gina olhou feio para Blaise e ele recuou um passo.

"O que? Só estou tentando ser educado."

A Sra. Weasley se sentou em uma das cadeiras de madeira ao lado de Luna e ficou encarando o rapaz, meio sem saber o que fazer. Draco sentiu-se constrangido por um momento e coçou a cabeça.

"Olá, Sra. Weasley..."

Molly não respondeu. Apenas encarou os olhos de Gina, como se cobrasse uma resposta. E, aparentemente, a ruiva não tinha nenhuma. Então a Sra. Weasley pareceu se aborrecer por um momento, mas antes que abrisse a boca, Luna a interrompeu.

"Olá Malfoy. Você continua sendo o mesmo de Hogwarts?"

Draco encarou Luna meio atordoado. Tinha até se esquecido da presença dela, quando sua voz macia soou. Ela olhava para ele meio concentrada, tentando analisar o que estava acontecendo. Só que a loira sempre teve uma percepção muito melhor que a de qualquer um, mesmo com seu jeitinho avoado.

"Bom, mantive meu nome e meu sobrenome."

Foi a única resposta que Draco conseguiu encontrar. E era verdade, não havia se transformado em um amador dos pobres e inocentes. Não mesmo, em hipótese alguma. Não gostava nem um pouco de Weasleys, grifinórios e qualquer coisa parecida.

Exceto, claro, Virgínia.

"Você parece menos assustador."

Draco quase bufou, mas apenas deu um meio sorriso.

Por fim, a mãe de Gina pareceu finalmente se recuperar e ficou de pé, limpando as mãos no avental.

"Gina, você deveria ter me avisado antes..."

Gina colocou uma das mechas do cabelo atrás da orelha e suspirou. Não estava sendo nem um pouquinho fácil, e a tendência era apenas piorar. Na verdade, ela não sabia explicar como seus irmãos ainda não haviam invadido a cozinha e colocado os dois sonserinos pra fora na base do chute.

"Como eu poderia te avisar sobre isso, mãe? Não acho que é algo que dê pra avisar ou explicar..."

"Poderia começar me contando o motivo de trazê-los aqui?"

Gina suspirou e Draco quase riu. Teve vontade de gritar que estava certo, mas não achou que era uma boa idéia. Mesmo tendo visto os dois de mãos dadas, aparentemente era muito inacreditável que estivessem namorando. Mesmo para a Sra. Weasley, que fora a pessoa que melhor lhe tratara aquela noite.

"Bom, mãe..."

Gina ficou vermelha da cabeça aos pés e começou a torcer os dedos. Blaise ficou olhando pra ela com medo que explodisse. Então, num ato de misericórdia, Draco segurou uma das mãos dela e entrelaçou seus dedos. A ruiva olhou espantada para o ato do rapaz, mas não tanto quanto a Sra. Weasley.

Os olhos de Molly Weasley quase saltaram das órbitas e ela se sentou mais uma vez.

"Acho que entendi, Gina..."

Draco nunca fora muito bom com palavras, e por isso seus gestos costumavam dizer um pouco mais que um discurso de duas horas. Um Malfoy segurar a mão de uma Weasley com aquela convicção, sem cara feia ou de nojo significava bastante.

Um minuto de silencio se formou naquele cômodo. Draco não era o tipo de namorado que esperava que Gina fosse lhe apresentar. Jamais. Nem em mil anos. Nem sequer imaginava como aquele romance havia começado e há quanto tempo. Como a filha tinha conseguido esconder e como ela não havia notado nada de diferente no comportamento da garota.

Enquanto a Sra. Weasley estava absorta em seus pensamentos, Gina olhou para Draco com os olhos castanhos cheios de medo. Como se dissesse que ele estava certo e que não deviam ter feito aquilo. O Malfoy suspirou e ergueu os ombros, apertando os dedos na mão dela, como se dissesse claramente "Uma hora ia ter que acontecer, e nós vamos conseguir". E, pensar que ele dizia isso fez com que o coração da ruiva se acalmasse um pouco.

Não era o fim do mundo, certo?

Mas pareceu bastante com o fim do mundo quando Rony entrou pela porta da cozinha, bufando feito um boi bravo e mais vermelho que um pimentão.

Os olhos cinzentos de Draco se arregalaram e ele ficou sem saber o que fazer. Gina foi mais rápida e colocou-se na frente dele, com a expressão parecida de quem estava preparada para parar um trem em movimento.

"Gina, eu não acredito que você ainda não mandou ele embora!"

Rony bufava. Hermione apareceu logo em seguida, tentando lhe puxar pelo braço e olhando bem feio pra ele. O coque improvisado da castanha se desfazia aos poucos, e os cachos caiam como uma enorme cascata por suas costas. O vestido vermelho que ela usava parecia um pouco mais justo do que deveria ser, com alcinhas bem finas e indo até a metade das coxas, todo rendado. Zabini se perguntou se a Granger estava engordando ou se comprara o vestido menor que seu tamanho.

Provavelmente havia uma história bem engraçada por trás daquilo.

"Pare de ser estúpido, Ronald..."

"Eu estou sendo estúpido? Hermione, tem um Malfoy na minha casa! Você não pode estar achando isto normal..."

"Eu só acho que não é problema meu. E nem seu."

"É problema meu quando um idiota está se aproveitando da minha irmã apenas para rir dela depois. É problema meu ele estar apenas zombando dela mais uma vez. Eu não posso deixar isso acontecer."

Hermione suspirou, ainda fazendo um esforço aparentemente desumano para puxar o braço de Rony pra trás. Draco ergueu uma das sobrancelhas e deu um sorriso de canto.

"O único que eu quero rir da cara é você, sabe? Mesmo depois de todos esses anos continua sendo o mesmo idiota cabeça quente que não consegue assimilar nada nem que dance na sua frente."

"Draco, maldição!"

Gina bufou e olhou feio pra ele. Draco olhou pra ela como se pedisse clemência, largando os braços ao lado do corpo. Não agüentava ouvir tudo aquilo e simplesmente ficar quieto.

"Por Merlin, Virgínia. Ele acha que eu sou estúpido o suficiente pra querer só sair com você pra rir de você! E ainda mais estúpido pra sugerir que eu vim me enfiar na tua casa e me apresentar pra sabe quantas pessoas que querem me matar só por causa de uma piada. Qual é!"

Rony parou de tentar se desvencilhar dos braços de Hermione e ficou apenas olhando feio para Draco, ainda com o rosto vermelho de raiva.

"Ele tem razão, Rony."

Quando Hermione falou, os olhos de Ronald quase saíram de órbita. Ele a encarou num misto de raiva e surpresa que a fez bufar, entediada.

"O que? Se tem algo que os anos em Hogwarts nos comprovaram é que ele não é nada burro. E seria uma baita burrice vir pra cá só pra sacanear a Gina."

Rony deixou os braços caírem ao lado do corpo e Hermione colocou as mãos na cintura. A Sra. Weasley ainda assistia a cena embasbacada, e Luna deu um meio sorriso.

"Vou ver se o Harry quer um pouco de pudim..."

E saiu saltitando pela cozinha. Antes que atingisse a porta, Blaise gritou.

"Ei, Lovegood! Eu! Eu quero pudim!"

Luna olhou para Blaise com os olhos azuis brilhantes e sorriu de canto, caminhando até ele e o puxando pelo antebraço pra fora da cozinha com ela.

"Você perdeu o juízo? Vou morrer se sair daqui!"

Blaise tentou impedir a loira de lhe arrastar pela casa, mas Luna não parecia se importar muito com a morte do moreno.

"O pudim está lá na sala, Zabini. Deixa de frescura."

Blaise lançou um olhar de misericórdia á Draco, mas o loiro não moveu uma palha para lhe ajudar. Já não bastava ele se meter em confusão por causa de uma garota, não se meteria em outras por causa da loira Lovegood.

Quando estava imaginando o que aconteceria com Blaise quando os Weasley pusessem os olhos nele, a mão de Gina começou a lhe puxar pelo antebraço na mesma direção que o moreno havia percorrido ao ser arrastado por Luna.

"Gina, que pensa que esta fazendo?"

Ela ergueu os olhos castanhos pra ele e sorriu.

"Eu quero dançar."

"Eu não acredito que vai dançar com ele, Gina!"

Rony estava um pouco menos vermelho que há cinco minutos, mas ainda parecia bem irritado. Gina bufou, cansada daquela situação.

"Você queria dançar com ele?"

Draco ergueu uma sobrancelha e Hermione riu.

"Então para de me amolar, Ronald..."

E a ruiva saiu balançando os cabelos e guiando um Draco Malfoy dividido em três sentimentos: surpresa, medo e alegria.

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