Sansa recobrou a consciêncua com uma voz chamando seu outro nome, Alayne. Era uma voz de mulher, mas o som vinha à ela como se lhe chamassem a pelo menos uma milha de distância. Ela tentava abrir os olhos, mas o mínimo esforço lhe dava dores horríveis na parte de trás de sua cabeça. "Por que eu estou com essa dor? O que será que aconteceu comigo? Onde eu estou afinal?" Por mais que tentasse se lembrar de algo, era como se sua mente estivesse enevoada. Ouviu o barulho de passos chegando perto de onde ela estava. A pessoa que entrou no cômodo tinha um cheiro que não lhe era estranho, um misto de vinho, cravo e hortelã.
— Ela acordou? — A menina conseguiu reconhecer a voz de Petyr. Agora mais do que nunca ela queria acordar e lhe perguntar a causa do seu estado, mas sua consciência se negava a retornar.
— Ela me parece mais corada... Dê-lhe um pouco mais de vinho dos sonhos para descansar um pouco mais. — Dito isso, ela sentiu um toque tão suave em seus cabelos, que chegou a ficar em dúvida se era fruto de sua imaginação ou um sonho. Após isso, ouviu os passos irem embora, levando com eles os cheiros reconfortantes e sua consciência mais uma vez.
Quando a menina abriu os olhos se viu num quarto desconhecido. Não era o seu quarto, reconheceu. Esse era mais amplo, mais suntuoso. Os móveis tinham uma riqueza que não lhe seriam permitidos por ser uma bastarda. O ambiente era claro e as tapeçarias que envolviam as paredes deixavam o lugar acolhedor. Virou um pouco a cabeça e encontrou um par de olhos cinza-esverdeados a lhe fitar.
— Olá Alayne. Como você está se sentindo? — A menina ficou contente por estar ao lado da única pessoa que podia confiar naquele lugar estranho, Petyr.
— Eu estou bem, pai. Onde eu estou? Há quanto tempo estou dormindo?
— Docinho, não se preocupe com nada. Você está segura agora. Não está reconhecendo o lugar, porque esse é o meu quarto. Mandei que lhe trouxessem para meus aposentos até seu total restabelecimento, assim poderia ficar com um olho em você enquanto trabalho. O jogo nunca para Alayne! Tenha sempre isso em mente.
Enquanto Petyr falava, ela pode notar que seu tutor tinha perdido um pouco de peso. Seu rosto, sempre tão bonito e sereno, estava um pouco mais magro. Seus cabelos estavam um pouco desgrenhados e suas roupas, sempre tão perfeitas e alinhadas, estavam um pouco amassadas e desajustadas. Mas para Sansa, ele nunca pareceu tão respeitável e poderoso. Esse visual lhe atribuía uma certa aura de poder, que combinava muito bem com o homem na sua frente.
— Por que está me fitando com tanto afinco, Alayne?
— Desculpe pai. Mas eu pude perceber que o senhor está mais magro, eu sinto muito por não estar por perto para cuidar do senhor.
Ao ouvir essas palavras, o homem sorriu seu típico sorriso de canto de boca.
— Somente uma filha tão atenciosa para preocupar-se comigo enquanto esteve tão machucada. Eu agradeço Alayne. Saiba que eu cuidei de você todos esses dias, pois é isso que um pai orgulhoso de sua filha deve fazer.
Essas palavras arrancaram um sorriso da menina e lhe fizeram lembrar tudo que tinha acontecido. Estava na hora dela saber dos últimos acontecimentos.
— Pai, onde está a tia Lysa? Por que ela fez aquilo comigo?
— Docinho, eu sei que você não ficará tranqüila enquanto não souber das coisas. Tenho palavras difíceis para lhe contar. Infelizmente sua tia teve um acesso de loucura e retirou a própria vida, após perceber o mal que lhe fez.
Essas palavras produziram na menina uma tristeza. As lágrimas começaram a cair dos seus olhos sem que ela percebesse. Ela não odiava sua tia. Ela era da sua família, irmã de sua mãe. Seus parentes estavam, na maioria, mortos. Ela se sentia sozinha no mundo e desamparada. Petyr deve ter visto o desespero nos seus olhos, pois sentou-se ao lado dela na cama e suavemente conduziu a menina para seu colo. Ficaram assim por minutos, talvez horas. A menina nunca conseguiu contar o tempo que ficaram daquele jeito. Mas se sentiu grata por ter pelo menos uma pessoa no mundo que se preocupasse com ela.
— Você gosta de cavaleiros e canções não é mesmo Sansa? — Essa pergunta surpreendeu a menina, ainda mais a menção de seu verdadeiro nome. Aquilo lhe deu mais vida. Saber que pelo menos uma pessoa nesse mundo tinha o conhecimento que ela era Sansa Stark, menina de Winterfell, lhe alegrou o dia.
— Sansa Stark gostava de cavaleiros e canções. Ela era uma menina tola. Sou Alayne Stone, uma bastarda. E os bastardos não têm tempo ou disposição para essas tolices. — A menina sentiu-se amargurada por dizer tais palavras, no fundo ainda gostava de ouvir histórias e tinha o sonho de se ver em uma canção.
Petyr sorriu mais uma vez para ela. Aninhou a menina melhor em seu peito. Sansa podia sentir o cheiro e o calor do seu peito. Seu gibão estava com os dois primeiros botões desfeitos lhe dando a vista da sua pele clara. A menina percebeu que alguns pêlos escapavam pela abertura do gibão de Petyr. Essa visão lhe despertou um sentimento esquisito e um calor repentino.
— Bom, nem mesmo os bastardos podem ficar alheios a boas histórias. Vou contar pra você a minha preferida. Você será a segunda pessoa que me ouvirá contá-la, e quero que seja a última. Era uma vez um príncipe, ele se chamava Duncan Targaryen e estava destinado a ser rei dos 7 reinos. Era um rapaz muito honrado e o melhor em justas de todos os reinos. Fazia o possível para participar do maior número de justas possíveis. Ele ficou sabendo que teria um casamento, seguido de algumas justas, nas terras da família Mudd. Seu pai, o rei, não queria que ele fosse, mas Duncan era impetuoso, quando colocava uma coisa na cabeça, ninguém lhe tirava. Partiu na primeira hora do outro dia. Como era próprio de um príncipe, uma legião de cavaleiros de bom nome e parte da guarda real lhe acompanharam. A viagem durou poucos dias, pois as terras que serviriam de local para as justas ficavam na região dos rios. Após assistir o casamento e se fartarem com uma deliciosa comida, o senhor das terras decidiu que o torneio seria em honra ao ilustre príncipe. Duncan ficou muito contente e como era costume, resolveu que as justas começariam dali a dois dias. No dia do torneio, enquanto seus escudeiros lhe ajudavam a vestir sua armadura reluzente, ele avistou a menina mais linda que ele já colocou os olhos. Ela era alta, tinha a pele alva como a neve. Seu rosto era perfeito como o da Donzela e seus cabelos eram compridos, brilhantes e da cor do outono — Como eram os seus, docinho —. Duncan sabia que naquela menina estava a sua perdição. Ele faria qualquer coisa que ela pedisse, moveria montanhas por ela. Acompanhou a menina com os olhos até ela sentar-se no seu lugar, nas arquibancadas. Deu ordem para que um de seus escudeiros descobrisse o nome da menina. Ficou descoberto que seu nome era Jenny, morava em Pedravelhas e era filha única de um senhor pequeno. O príncipe concorreu nas justas com ainda mais afinco, pois queria ser o vencedor e nomeá-la rainha da beleza e do amor. A última justa foi a mais difícil, mas Duncan conseguiu vencer e coroou a menina Jenny como sua rainha da beleza e do amor, e dona do seu coração. As notícias da grande afeição do príncipe por uma plebéia chegaram aos ouvidos do rei Aegon. Disposto a não deixar o seu filho envergonhá-lo na frente de toda a corte, dirigiu-se à Pedravelhas, onde os enamorados estavam, afim de dar um ponto final na relação, que ao seu ver, era repulsiva. Quando chegou no lugar de destino pode ver o tamanho do amor entre Duncan e Jenny. O rei percebeu que ali na sua frente tinha um perigo sem igual. O que diria a sua corte se o príncipe se casasse com uma plebléia de tão baixo nascimento? Aegon e Duncan tiveram uma horrível discussão, e o rei, num acesso de fúria, ordenou que o jovem príncipe fosse embora com ele para o castelo, caso contrário, iria destituí-lo do direito ao trono. Duncan era filho único de Aegon, seu único herdeiro. Revelando um amor maior do que todos imaginavam, o príncipe abdicou do seu direito ao trono para viver o seu amor ao lado da sua Jenny de Pedravelhas. Os inimigos da coroa viram ali uma oportunidade para atacar o rei e tomar a coroa. Quando Duncan soube que seu pai estava sendo atacado pelos inimigos, resolveu lutar ao seu lado, pois se sentia culpado pela situação. Despediu-se de sua amada Jenny e cavalgou rumo ao seu destino. Dizem que quando a lança do inimigo atravessou o coração do Príncipe Duncan, sua última palavra foi Jenny. Em cima do túmulo de Duncan sempre se encontram várias libélulas a sobrevoar… Vindo dai o nome de príncipe das libélulas e sua amada Jenny de Pedravelhas.
Quando Petyr terminou de contar, Sansa sentia que mais lágrimas saíam de seus olhos. Um pedaço de Sansa Stark ainda estava dentro dela. Era uma parte que foi intocada pelas maldades que lhe ocorreram nesses últimos tempos. Era uma parte que ainda acreditava que em galantes cavaleiros e que sua vida seria uma canção. A menina não pode deixar de cantar a música dos dois amantes da história, cantou bem baixinho, bem suave, ainda no colo de Petyr Baelish:
"Jenny de Pedravelhas com flores nos cabelos
Ama seu príncipe amado, seu príncipe das libélulas
O coração do príncipe ela conseguiu
Mas foi o beijo do aço a última coisa que ele sentiu
Chorou, chorou... mas seu amado nunca voltou
Sentou e esperou, mas o seu amor nunca acabou
Oh pobre Jenny... como viver depois disso?
A guerra à Pedravelhas também chegou
Jenny, com um filho do príncipe você ficou?
Destruído tudo será, e suas vidas iremos tirar
E aquele castelo, que outrora foi o lar do seu amor
Destruído foi, somente ruínas lá ficou
E hoje, por Pedravelhas quem passa
Ouve a bela Jenny a chorar por seu amado
Chorar pelos poucos dias que tiveram
Seu eterno príncipe das libélulas."
A menina percebeu que os olhos cinza-esverdeados de Petyr estavam marejados. Conseguiu entender que ali estava uma faceta daquele homem que quase ninguém conhecia. Ele se mostrava sempre tão confiante e destemido, que Sansa o pintava como uma pessoa insensível às vezes. Era muito difícil conseguir distinguir Mindinho de Petyr Baelish, mas ali na sua frente, ela tinha certeza, estava o homem que ninguém conhecia, somente ela.
— Quantos anos você tem, senhor Baelish? — A menina não conseguiu parar a pergunta, e quando percebeu ela já tinha sido feita.
Ele a fitou com ainda mais atenção, em seus olhos dava para perceber que a pergunta tinha lhe pegado de surpresa.
— Por que a pergunta, curiosa Alayne?
— Porque eu tenho certeza que o senhor é mais novo do que aparenta ser.
Sua resposta fez o homem gargalhar de um jeito que ela nunca tinha visto. Era um som gostoso, e Sansa teve certeza que queria ouvi-lo muitas outras vezes.
— Bom minha doce Alayne, vejo que você está muito melhor. Vou deixá-la descansar. Já se passa da meia-noite. — O homem deve ter visto o beicinho que a menina fez, pois acrescentou: — A não ser que você queira que eu lhe faça companhia... Me diga o que você quer.
Ao ouvir isso, o rosto da menina se iluminou. Estava cansada, mas também com medo de ser deixada sozinha. Petyr era a única pessoa que ela tinha no mundo agora. A única pessoa que sabia sua verdadeira identidade.
— Se o senhor quiser, eu ficaria muito feliz se pudesse dormir aqui comigo.
Ela o viu dar seu sorriso de canto de boca. Retirou-a do seu colo e colocou-a suavemente no colchão de penas. Sansa sentiu uma coisa esquisita por estar tão próxima de um homem que não é da sua família. O que septã Mordane e sua mãe pensariam dela tendo esses tipos de pensamentos. Sabia que não era certo deitar-se com um homem que não era seu marido, mas ao lado dele sentia-se segura.
Começou a ficar com medo do que viria a seguir, e nao conseguiu pensar em mais nada para falar. Só acompanhava todos os passos de Petyr pelo aposento. Primeiro ele selou uma carta que estava em cima de sua mesa. Percebeu que a menina lhe fitava e sorriu mais uma vez seu sorriso típico. Depois disso, ele se dirigiu lentamente até a cama, nunca tirando os olhos da menina. Apagou a vela que iluminava a cama e desabotoou com uma velocidade torturante cada botão que faltava de seu gibão. Quanto mais desabotoava, mais seu sorriso aumentava. Deixou cair sua roupa no chão com um barulho suave.
Nessa altura o coração de Sansa já estava martelando no seu peito. Era tão forte que teve medo de Petyr conseguir ouvir. Suas mãos começaram a suar e um medo do desconhecido começou a despertar na menina. Petyr deve ter percebido o desconforto da menina, pois acrescentou divertido:
— Acalme-se Alayne. Eu não posso dormir totalmente vestido, não é mesmo docinho?! — Dito isso, deitou-se ao lado da menina na cama. Seus movimentos eram graciosos e cheios de confiança.
— Quer que eu chegue mais perto, Alayne? — Ele não esperou a resposta. Aproximou-se ainda mais da menina, que estava de costas para ele. Retirou com suavidade os cabelos que estavam no pescoço dela e plantou um beijo em seu pescoço, fazendo a pele dela arrepiar. — Agora iremos dormir, docinho. Boa noite e tenha sonhos lindos.
O único toque que ele lhe deu foi o beijo no pescoço. Era como se o homem tivesse medo de tocar a menina, mas Sansa ansiava por ser tocada. Ficou bastante tempo acordada, e tinha certeza que Petyr também não conseguia dormir, mas nenhum dos dois disse nenhuma palavra. Num momento o torpor tomou conta da menina, e ela adormeceu.
Sansa acordou com uma mão a apertar sua cintura. O toque era um pouco rude, possessivo. Tinham dormido separados, mas amanheceram juntos.
