Com o inverno batendo à porta do Ninho da Águia, quem ali vivia fora obrigado a descer para os Portões da Lua. Estar em um lugar tão diferente não fez bem ao pequeno lorde Robert. Ficava cada dia mais debilitado e seus tremores eram ainda mais constantes.
Desde a morte prematura de sua mãe, o menino definhava. A menina não sabia se era de tristeza ou das constantes doses de sono doce que o meistre lhe dava para acalmar seus tremores. Estava num estado de dar dó, e o gênio difícil do garoto só fez espantar as pessoas que tentavam cuidavam dele. Seus acessos de raiva eram terríveis, chegando ao ponto de jogar o penico na cabeça do meistre.
A menina era sempre chamada para acalmar os ânimos do menino. Com Petyr em constantes viagens, a responsável pelo bem-estar do pequeno lorde era a menina. Ficou ao seu cargo, também, a organização de um baile em honra à alguém que ninguém sabia. A ausência constante do lorde protetor era como uma faca em seu coração. Desde a mentira sobre a morte de Lysa, a presenca do homem foi requisitada em vários lugares do Vale. Era seu papel como Protetor assegurar a justiça e a ordem do lugar. Sansa esperava ansiosamente pela volta de Petyr. Ele tinha lhe prometido um vestido de presente para o baile.
Sansa tinha dispensado a sua aia para que tivessem mais pessoas ajudando no banquete do baile. Quando viu o belo vestido que estava posto em cima de sua cama suprimiu um suspiro. Era o vestido mais lindo que já tinha visto. Era de uma cor pérola, com um corte que lhe deixava mais justo no corpo. O corpete era todo bordado com pedras não preciosas — Sou uma bastarda agora — mas a menina achou que ali estava a beleza da vestimenta. Nas costas ele era fechado por vários botões, desde a sua nuca até o seu quadril. Não tinha toda a ostentação dos seus antigos vestidos, mas era o que mais combinava com ela. Era delicado, mas sensual na medida. Por ter um nascimento baixo, não lhe seriam permitido o uso demasiado de jóias, mas ela era filha bastarda do Protetor do Vale. Não poderia parecer muito abaixo de sua condição. Decidiu que usaria uma tira de renda de Myr preta amarrada em seu pescoço branco e um brinco pequenino, com somente uma pedra, de ônix em suas orelhas.
"Se o vestido está em minha cama, quer dizer que Petyr já voltou... mas por que não veio me ver?" Saber que o homem já estava no castelo e não tinha vindo vê-la deixou-a com um pequeno desconforto.
Tomou um banho demorado em sua banheira, lavou seu cabelo com lentidão e usou uma colônia com um cheiro delicioso. Nada faltava para ela nos Portões da Lua, mas tinha consciência que não podia exigir muito para não chamar a atenção. Esfregou sua pele até ficar vermelha e aproveitou o momento e tingiu seus cabelos novamente, suas raízes já estavam querendo aparecer.
Enquanto tomava seu banho a menina pensava quem era o homenageado do baile. Nos sete reinos era tradição homenagear um senhor que chegasse de viagem, um acordo de noivado e visitas ilustres. Tentou mexericar com as mulheres da cozinha e até mesmo com Myranda Royce, mas ninguém soube lhe dizer quem estaria chegando. Seu pai não lhe dizia nada, e ela achou por bem não perguntar — Se ele quisesse que eu soubesse me diria. — Estava um pouco excitada por ir a um baile. Sansa Stark sempre ansiou por danças e bailes, mas Alayne Stone não sabia pelo o que ansiar. "Tenho que ser Alayne todo o momento. Na minha cabeça e no meu coração. Todos os olhos estarão postos sobre mim e Petyr essa noite."
Ouviu a porta do seu quarto abrir — Quem será? Mandei não ser incomodada até a hora do baile. — Ouviu passos se aproximarem do seu banheiro e seu coração acelerou, lembrando-se de Marillon e suas investidas. Mas ouviu a voz de Petyr a lhe chamar:
— Alayne? Está tomando banho?
— Sim, meu pai. Estou me preparando para o baile.
— Posso entrar?
Essa não era bem a coisa que queria ouvir. Desde a noite que dormiram juntos, Petyr evitava ficar sozinho por muito tempo com a menina. Além do mais ela estava nua e não queria que ele a visse daquela maneira, tinha vergonha.
— Docinho, pode ajeitar-se na banheira. O que eu tenho a lhe dizer é muito importante, e você precisa saber até a hora do baile para portar-se como deve ser.
A menina ajeitou-se com rapidez na banheira, abraçou os joelhos, dividiu seus longos, e agora negros, cabelos e ajeitou-os em cima de seus seios. Estava pronta, e conseguiu tapar o máximo que pôde.
— Meu pai, pode entrar agora, se lhe aprouver.
Petyr abriu a porta lentamente, entrou e a fechou. Estar sozinha e nua num ambiente tão íntimo e pequeno deixou a menina envergonhada. Um rubor lhe subiu à face e ela não conseguiu tirar os olhos da água. Mas a falta de fala do seu protetor fez a menina levantar os olhos e fitá-lo. Quando seus olhares se cruzaram, Petyr tinha uma expressão de adoração em seus olhos. Era uma mistura de prazer e tormento. O homem balançou a cabeça, como se para afastar algum pensamento e lhe disse:
— Tenho algumas notícias que dizem respeito a nós dois. A primeira é que toda a corte do Vale já chegou para o baile. E você sabe, meu docinho, o quão importante é sustentar a nossa história da morte de Lysa. Um erro e nossas cabeças rolarão e onde ficará todo o trabalho que tivemos para chegar até aqui?
— Minha madrasta foi morreu em decorrência de dores na barriga. O nosso meistre pode lhe dar detalhes, se aprouver o senhor. Foi tudo tão repentino que ainda me dói falar disso. Ela me tratava como uma filha.
Petyr sorriu para ela. — Minha filha é muito sensível e muito esperta, se continuar assim irá muito longe ao meu lado.
— Obrigada meu pai. Quais as outras notícias?
Petyr hesitou antes de falar. — Fiz um contrato de casamento para você.
— O quê? Por que?
— Cada pessoa tem um papel a desempenhar, docinho. Não quer saber quem é o noivo?
— Quem iria querer se casar com uma bastarda?
— Alayne não fale assim. Você é bastarda do senhor de Harrenhal e protetor do vale. Você é preciosa e a mais bela donzela dos sete reinos. E eu tenho dinheiro suficiente para lhe dar um dote assombroso, que faria os mais nobres senhores quererem correr para debaixo de suas saias.
— Eu não sou uma mercadoria. — Lágrimas começaram a brotar dos olhos da menina e ela viu que Petyr ajoelhou-se ao lado da banheira. Ele pegou os dois pulsos da menina e beijou, nunca tirando os olhos dos seus.
— Minha menina, eu escolhi ninguém menos que Harrold Hardyng.
— Harry, o herdeiro?
— Sim, minha menina. O herdeiro de Lorde Robert passarinho.
— Mas Myranda me contou que ele tem dois bastardos!
— E o terceiro está à caminho.
— Por que quer me casar com ele? Não quero ter um marido que me traga bastardos para cuidar.
Aquilo fez o homem rir.
— Meu docinho, você sabe que lorde Robert não ficará entre nós por muito tempo. Infelizmente o menino tem uma saúde muito frágil, e você seria nada mais e nada menos, que Senhora do Vale de Arryn. Quando chegar a hora você se mostrará como Sansa Stark, herdeira de Winterfell e todos os cavaleiros do Vale correrão a mostrar suas espadas para vingar e retomar sua casa. Esses são os presentes que lhe dou... Harry, o ninho da Águia e Winterfell. Isso não lhe deixa feliz?
— Me deixa feliz sim, meu pai. Mas eu estava pensando em uma coisa que o senhor me disse.
Petyr estreitou os olhos. — O que eu lhe disse?
— Lembra-se quando Sor Lyn Corbray casou-se com aquela menina de 16 anos?
— Sim, Anne era o nome dela. — Petyr respondeu desconfiado.
— O senhor me disse que meninas novas eram mais felizes com homens mais velhos.
— "A inocência e a experiência dão um casamento perfeito". Sim eu lhe disse isso.
— Pensei que o senhor iria me casar com outra pessoa. Alguém com uma idade próxima à do senhor.
As palavras da menina deixaram Petyr sem fala. Passou o polegar e o indicador no seu cavanhaque, pensativo, e enfim falou sorrindo:
— Fico contente de ver que você presta atenção no que eu lhe ensino. Mas, infelizmente, você terá que se casar com Harry. Tivemos tanto trabalho para chegar até aqui...
— Eu irei me casar, pai.
— Ótimo, minha menina.
O homem levantou-se com uma grande desenvoltura e encaminhou-se para a porta. Quando tinha aberto alguns centímetros virou a cabeça e lhe disse:
— Eu soube que dispensou a sua aia. Enquanto você termina de tomar banho irei me arrumar e voltarei para ajudá-la a se vestir.
Dito isso, nem esperou resposta, e saiu num rompante pela porta deixando a menina embasbacada.
Sansa tentou de todo o jeito colocar o vestido sozinha, mas não obteve sucesso. Seu cabelo já estava arrumado. Penteou-o tanto que era somente cachos num lustroso castanho acobreado. Olhou a sua imagem no espelho e uma menina com bochechas coradas e profundos olhos azuis lhe fitaram. Não tinha se visto no espelho muitas vezes nessas últimas semanas. Seu rosto estava mais magro, seu corpo tinha mudado muito, tomando formas de uma mulher, mais voluptuoso. Ficou também mais alta e seus cabelos já lhe chegavam à cintura fina.
Ela sentiu a presença dele antes mesmo de vê-lo. Era como se o ar do ambiente ficasse mais pesado. Ele tinha o poder de impelir às pessoas a fazerem o que ele queria. Era essa energia irresistível, como uma aura de poder irradiando do corpo de Petyr. Chegou mansamente por trás da menina e ela viu pelo espelho que ele tinha trocado de gibão. — "Está lindo" pensou a menina.
— Vejo que, como eu pensei, você não conseguiria colocar esse belo vestido sozinha. Quando eu o comprei, sabia que combinaria com seus cabelos.
— Obrigada Petyr, ele é perfeito. — Disse a menina num sussurro.
— Bom, já está quase na hora do baile, e quero você ao meu lado recepcionando as pessoas e de olho em tudo.
— Pode deixar, papai. Meus olhos e meus ouvidos serão seus essa noite.
— Somente eles, Alayne?
O homem tirou os cabelos da menina de suas costas e pousou-os com delicadeza na frente de um de seus ombros.
— És tão bela, menina. Hoje não terá um homem que não a desejará. Sem exceções.
O comentário fez a menina corar. Sansa foi criada achando que ter contato tão íntimo com um homem era errado. Mas sentir Petyr parado tão prõximo dela era bom. Quando as mãos hábeis e suaves do homem encostaram na pele nua das costas dela, a menina não conseguiu suprimir um arrepio. A expressão no rosto de Petyr indicava que ele não estava alheio às respostas do corpo dela. Pelo espelho Sansa conseguiu ver que ele deu um pequeno sorriso. Enquanto ajudava Sansa a abotoar o vestido, Petyr não disse nenhuma palavra, suas mãos eram tão suaves que a menina nem conseguia sentir o peso delas.
— Pronto minha menina. Dê-me a renda para colocar no seu pescoço.
E outra vez as mãos suaves e hábeis de Petyr estavam em seu corpo. Onde ele tocava deixava um rastro de fogo na pele da menina. Quando terminou de colocar a renda de Myr no pescoço dela, plantou um beijo suave em sua bochecha — que causou arrepios em Sansa — recolocou os longos cabelos castanhos acobreados de volta às costas da menina.
— Não terá uma só mulher, seja ela bem nascida ou não, que não morrerá de inveja de você hoje. Harry morrerá por você.
Dito isso, ofereceu o braço para a menina e a conduziu para fora do quarto.
O salão estava perfeito, como nas canções. As mesas estavam alinhadas de uma forma harmonica e eram usadas as melhores louças do Portão da Lua. Os cantores já estavam dedilhando suas harpas e paquerando as moças que serviriam o banquete. Alguns convidados já tinham chegado, e a grande maioria já eram conhecidos da menina. Mas a presença de uma comitiva misteriosa chamou a sua atenção. Dava para perceber pelas suas roupas e jóias que detinham uma boa posição social. Os cavaleiros estavam todos vestidos de veludo, e as damas ostentavam as melhores jóias. Mas uma mulher entre todas elas chamou a sua atenção. Ela não era a mais bonita do baile, mas seus olhos tinham uma expressão maliciosa e profunda. Seus cabelos eram loiros e encaracolados, sua pele era mais morena, típica de quem vivia perto do mar. Mas o que mais chamou a atenção foi o modo como a mulher olhou para Petyr.
Quando a dama em questão viu que o lorde Protetor chegou no salão, seu sorriso se alargou e não deixou de lançar um olhar de desprezo para Sansa. "Por que está me olhando assim? Eu nem te conheço…" — Pensou a menina.
A loira chegou mais perto dos recém-chegados e cumprimentou Petyr de maneira descaradamente sensual. Seus seios eram fartos e o justilho que ela usava deixava isso sem nenhuma dúvida. Sansa se sentiu mal por ser ignorada de uma maneira tão deselegante, mas esperou seu pai fazer as apresentações.
A mulher ainda conversava animadamente com o Protetor, mas o último, dava para perceber, estava desconfortável com as maneiras da mulher. Pela conversa a menina conseguiu ouvir que o nome dela era Myane e que ela e Petyr estiveram juntos num banquete em Vila Gaivota. Um sentimento esquisito começou a aflorar em Sansa, como se agulhas enfiassem em seu coração. Estava começando a ficar irritada com alguma coisa que não entendia. Sansa não era uma menina de gênio ruim, mas algumas vezes, quando muito pressionada, mostrava uma faceta descarada.
— Vejo, meu pai, que está em companhia de uma bela e educada senhora. Pelo visto minha presença não será sentida aqui. Irei conversar com Myranda, ela já me acenou duas vezes.
Dito isso, saiu caminhando duro, deixando para trás um Petyr boquiaberto e uma Myane embasbacada.
— Nossa Alayne! Você será a atração da festa. Harry ficará encantado com você. — A menina percebeu pelo comentário de Myranda que seu noivado já estava na boca do povo.
— Obrigada Myranda. Você que é muito gentil. A propósito seu colar é maravilhoso.
Esse comentário fez o sorriso de Myranda se iluminar.
— Vejo que você conheceu Myane.
"Ah... Então Myranda também conhece ela." Pensou uma Sansa nervosa.
— Ah sim. Uma senhora muito cortês e gentil. — Tentou esconder seu desconforto, mas a frase saiu mais áspera do que queria.
— Não sei se estamos falando da mesma senhora... a Myane que conheço não tem nada de cortês e gentil, somente muito de descarada.
Myranda deve ter visto a expressão horrorizada de Sansa, e disse:
— Desculpe Alayne. Esqueci o quanto você é virtuosa. Mas voltando a Myane, ela é filha de um senhor muito importante de Vila Gaivot seu noivado que será homenageado no banquete de hoje.
— O seu noivado é a homenagem do banquete de hoje? Mas por que a festa não foi em Vila Gaivota ou nas terras no noivo?
Sansa percebeu que Myranda lhe lançou um olhar avaliador.
— Você não sabe ainda?
— Não sei o que?
— A festa está sendo aqui porque Myane estará noiva do seu pai no banquete. O baile é em homenagem à eles.
— O que?!
Sabendo disso, Sansa se virou rapidamente na direção do casal, mas não viu os dois em nenhum lugar. Uma fúria maligna estava tomando conta do corpo da menina, e não querendo que Myranda desconfiasse de nada, disse:
— Bom, eu fico feliz por meu pai. Todos sabem como ele foi um marido devotado para a senhora Lysa. Mas o luto não pode durar para sempre. Com a sua licença senhora, preciso ir ver como está nosso Lorde Robert.
Dito isso saiu num rompante apressado e já podia sentir que lágrimas se formavam em seus olhos.
