Sansa conseguiu chegar num lugar afastado do salão de festa antes que suas lágrimas caíssem. Seu coração doía de um jeito estranho, era como se ficasse quente em seu peito. Uma angústia lhe subiu e a sua vontade era gritar e xingar todas as pessoas, como Arya teria feito no seu lugar. Pensar em sua irmã não ajudou em nada a acalmar seu ânimo. Ela e Arya nunca foram muito próximas, mas era sua irmã, e tinha certeza que saberia o que fazer numa situação daquela.
Ter esse pensamento só fez a menina se sentir ainda mais solitária. Estava num lugar desconhecido, com pessoas estranhas e que não faziam a mínima idéia de quem ela era. — Agora eu sou somente Alayne Stone, uma bastarda. Tenho que cumprir com meu papel — A menina ouviu uma voz baixa chamar o seu nome:
— Alayne, por que está chorando? Você está triste?
Quando se virou, deu de cara com Lorde Robert.
— Oi, meu passarinho. Eu não estou chorando de tristeza. Estou chorando de felicidade por estar num baile tão bonito. O salão não está belo?
— Pensei que você estava chorando porque o senhor Petyr vai se casar.
Aquelas palavras pegaram a menina de surpresa. Às vezes as crianças, com sua inocência, viam as coisas de uma maneira melhor.
— Por que eu iria chorar por isso? Estou feliz que ele irá se casar.
— Mas... você gosta dele!
A menina não pensava em ter esse tipo de conversa, naquele lugar e com o menino. Mas ouvir outra pessoa dizendo isso lhe fez enxergar o motivo de toda a sua angústia:Ciúme!
— É claro que eu gosto dele. Ele é meu pai. Você não gostava de sua mãe? Eu gosto dele assim.
— Quando minha mãe casou, eu fiquei muito triste. Mas não tão triste como estou agora. Sinto falta dela. Eu me sentia seguro com ela. Ela dizia que me amava!
A menina não deixou de ter pena daquela pequena criança na sua frente. — Coitado do passarinho. Tão pequeno e já passando por tanta tristeza.
— Meu passarinho, e se a gente fosse dançar? Você sabe que a primeira dança que uma donzela reserva é a mais importante? E você será a minha primeira dança da noite!
Ouvir aquilo deixou o menino radiante. E pareceu, para a menina, que ele ficou até mais corado e saudável.
— Dê-me o braço então, passarinho. Vamos dançar uma dança antes do banquete.
Saíram os dois de braços dados em direção à alguns casais que já dançavam, mas no meio do caminho Sansa sentiu alguém lhe puxar o braço. Quando olhou na direção do movimento percebeu que era Petyr quem exigia a sua atenção.
— Alayne, minha filha. Pensei que a sua primeira dança seria com seu dedicado pai.
— A primeira dança é minha! Alayne me prometeu. — Falou um Robert indignado.
— Lorde Robert, vejo que as suas maneiras não são as melhores. Pelo visto essas semanas que estive fora não lhe corrigiram a educação como deveria.
Ouvir essa ameaça velada na voz de Petyr deixou o menino com um leve tremor. Lorde Robert tinha um saudável temor de seu padrasto. Sansa não querendo que a situação piorasse e o menino tivesse um de seus ataques na frente de toda a corte, interviu em seu favor:
— Pai, eu prometi à lorde Robert a minha primeira dança. Mas pelo visto, e pelo o que estou sabendo, candidata não lhe faltará para dançar. Com a sua licença.
A menina desviou de Petyr e foi com Robert em direção aos outros casais que dançavam. Conseguiu lançar um último olhar para trás e ver que a expressão no rosto de Petyr era matadora. — Meu Deus. Estou com um comportamento terrível. Pareço a Arya. Talvez meu sangue de lobo esteja falando mais alto, ou a ousadia dos bastardos está ao meu lado hoje.
Sendo Robert o senhor do Ninho da Águia, era costume ele escolher a canção que iria dançar. O músico parou a canção pela metade e lhe reverenciou:
— Senhor, qual a música que terei a honra em tocar para você e essa bela dama?
O olhar que o músico lançou para a menina era cheio de luxúria. Por estar tão chateada com o noivado de Petyr, não percebeu que por onde passava todas as cabeças viravam para lhe acompanhar o andar. — Devo estar realemente muito bonita.
— Alayne irá escolher. — A menina sabia que lorde Robert não conhecia muitas canções.
— Irei escolher... Coração sangrando. — A menina não esperava escolher essamúsica. Mas foi tão repentino que lhe veio aos lábios a música que combinava com seus sentimentos.
A sua escolha de música pegou as pessoas de surpresa e até mesmo o cantor lhe lançou um olhar avaliador, mas foi Myranda quem lhe salvou:
— Acredito que você deve ter ouvido, senhor cantor. A donzela pediu coração sangrando. Nada como uma bela e triste história de amor e ciúmes. Essas são sempre as minhas canções preferidas. Vamos! Toque que eu quero dançar antes do banquete ficar pronto.
A menina conseguiu ver a expressão no rosto de Petyr — Ele está se divertindo com a minha situação!
E o cantor pegou a sua harpa e começou a cantar:
"Não sei por que insisto tanto em te querer
Se você sempre faz de mim o que bem quer
Se ao teu lado sei tão pouco de você
É pelos outros que eu sei quem você é
Nós somos cúmplices, nós dois somos culpados
No mesmo instante em que o teu corpo toca o meu
Já não existe nem o certo nem o errado
Só o amor que por encanto aconteceu
Agora eu sei que o fim chega
Você sabia desde o começo
Não queria acreditar que era verdade
Você está sozinha de novo
Minha alma estará com você
Por que o relógio ainda está correndo
Se meu mundo não está mais girando
Ouço sua voz pelo vento na porta
Você está sozinha de novo
Eu estou só esperando
Você despedaça meu coração
Antes de ir sem arrependimentos
Eu chorei por você, minhas lágrimas virando sangue
Estou pronto para me render
Você diz que eu levo isso muito a sério
E tudo que eu peço é compreensão
Trago de volta pra você um pedaço do meu coração despedaçado
Estou pronto para me render
Eu me lembro dos momentos
A vida foi curta pro romance
Como uma rosa isso irá desaparecer
Eu estou deixando tudo
Sem arrependimentos, a guerra acabou
O retorno de um soldado
Ponha minhas mãos no meu coração sangrando
Eu estou deixando tudo pra trás
Sem mais esperas"
Enquanto dançava com um desajeitado passarinho, pôde sentir os olhos de Petyr no seu corpo. Quando o homem percebeu que a menina tinha lhe surpreendido o olhar, não se acanhou e continuou a acompanhar cada movimento dela. Confiante em provocar Petyr, Sansa mexia-se com ainda mais graça e sensualidade, e os olhos de seu protetor escurecia a cada movimento.
A música traduzia o estado de espírito da menina. Saber do noivado de Petyr deixou seu coração sangrando e seus nervos em frangalhos. Era como se uma nova Sansa, impulsionada pela falta de identidade, surgisse naquele baile. Uma menina mais confiante e desafiadora.
A canção acabou com um último acorde triste e palmas ecoaram pelo salão. A voz de Petyr elevou-se acima das demais:
— O banquete está pronto, damas e cavalheiros. Vamos tomar os nossos lugares. Venha comigo Alayne. Meistre Collemon irá levar nosso Lorde Robert para seu assento.
Sansa não conseguiu ter pistas da intenção de Petyr, mas viu que seus olhos estavam negros como duas fendas. O homem tomou o seu braço com um toque rude, que a menina nunca tinha sentido dele. Mas ao invés de levá-los aos seus assentos, Petyr os conduziu à uma pequena porta lateral. — Pelo visto é normal uma conferência entre pai e filha.— Pensou uma Sansa assustada.
Adentraram a uma sala pequena e fria. A menina percebeu que era uma sala de leitura. Continha alguns livros e somente uma poltrona.
— Sente-se Alayne. — O tom autoritário de Petyr não cabia desobediência.
A menina esperou que o homem introduzisse o assunto.
— Não tem nada para me falar, Alayne?
— Não, senhor. — Por mais que quisesse gritar com ele, a posição dominadora de Petyr impedia que Sansa lhe falasse sobre o noivado dele e Myane.
Petyr deu a volta na poltrona e postou-se atrás da menina, de modo que ela não poderia vê-lo, somente senti-lo.
— Alayne. O que eu faço com você? Seus modos estão terríveis e quero que saiba que penso seriamente em colocá-lo sobre meus joelhos e lhe dar algumas palmadas.
Ao ouvir aquilo a respiração de Sansa acelerou. Ela nunca tinha sido reprimida fisicamente por ninguém — Talvez eu nunca tenha precisado.
— Mas pode ficar despreocupada que não irei fazer isso, por ora.
— Obrigada, senhor. Irei ser uma menina mais sensata.
O tom sedutor e ameaçador de Petyr despertaram algumas sensações desconhecidas na menina. Ela sentiu o homem debruçar-se sobre ela e lhe sussurrar no ouvido:
— Espero que sim, Alayne. Minhas mãos às vezes coçam...
A menina não deixou de corar.
— Vamos, docinho. Os outros já devem estar sentindo a nossa falta.
Sansa levantou-se, alisou a saia e pegou o braço que Petyr lhe oferecia e juntos foram em direção ao banquete.
