Petyr encaminhou-se ao seu lugar de honra, à direita de Lorde Robert. Sansa, por ser uma bastarda, sentou-se mais afastada do estrado central. Mesmo estando em um local que não era costumeiro para ela, a menina achou interessante sentar-se mais próxima dos senhores menores. Nesse lugar as conversas eram mais interessantes, sem a polidez e a falsa cortesia dos senhores maiores.
O coração da menina ainda estava acelerado pelos acontecimentos na salinha de leitura. Não conseguia parar de pensar nas ameaças que seu protetor lhe fez. — Pelos setes, Petyr iria me punir de verdade? Eu não comecei essa disputa. Foi ele quem não me contou que iria ficar noivo— Olhou na direção do estrado central e viu Myane sussurrar, sedutoramente, algumas palavras no ouvido de Petyr. O homem sorriu e encostou sua mão na dela. — Eu os odeio. Como ousa ter a pretensão de querer me punir?! O comportamento desses dois é digno de punição.— Petyr deve ter sentido uma fúria em sua direção, pois flagrou Sansa a olhá-los. A última, com vergonha de ter sido descoberta, abaixou os olhos.
O barulho da chegada de uma comitiva a obrigou a levantar o olhar. O grupo era liderado por um rapaz jovem, de cabelos dourados e encaracolados. Se Sansa ainda fosse a menina tola de outrora, teria se apaixonado pelo belo jovem cavaleiro, de sorrisos fáceis e lindas covinhas nas bochechas. Mas agora, ela conseguia ver um pouco além das aparências. Uma menina mais ou menos da sua idade, que estava sentada ao seu lado ofegou com quando percebeu a presença da comitiva:
— Oh! Harry chegou! Ele está ainda mais bonito com o cabelo curto.
— Harry, o herdeiro? — Sansa perguntou curiosa.
— Sim! É Harrold Hardyng. Ele não é galante?
Sansa recordou das palavras sábias que Petyr lhe dissera: "Avidanão é uma canção, querida. Aprenderá isso um dia, para sua mágoa.".Infelizmente ela tinha descoberto. Ficou com pena da menina ao seu lado. Chegaria também o dia que ela iria descobrir.
Começou a observar com mais atenção o seu futuro noivo. Ele sentou-se no estrado central, juntamente com Petyr e Lorde Robert. Distribuía sorrisos a todas as damas que lhe cruzava o olhar. A menina o considerou um tolo sedutor. Em seguida Harry dirigiu a palavra à Myranda Royce, que estava sentada ao seu lado. Esta última lhe deu um enorme sorriso e apontou, descaradamente, na direção de Sansa. — Ai não. Ele deve ter perguntado de sua noiva.— Pensou a menina, que rapidamente abaixou os olhos.
Enquanto o banquete era servido, Sansa não teve coragem de levantar o olhar do seu prato, mas sentia como se alguém a espreitasse. O jantar estava delicioso. As tortas de Pombo lhe lembraram de Joffrey arranhando a garganta, lutando por uma lufada de ar, que nunca veio para seus pulmões. Pensar em sua antiga paixão lhe deu raiva. — Como fui tola... Somente uma menina que nada sabia do mundo iria sonhar em se casar com um menino idiota, com lábios que mais pareciam vermes.
Alarmada com a severidade dos seus pensamentos, Sansa aceitou o pedaço de bolo de limão que estava sendo oferecido como sobremesa. A cabeça da menina estava atordoada, provavelmente do excesso de vinho. Este, por sinal, lhe deu uma ousadia sem limites. Levantou seus olhos em direção ao estrado principal e viu que Harry não estava sentado em seu lugar. Mas foi a expressão irritada que Petyr lhe dava que captou seu olhar e seu coração. Absorta e perdida no olhar de seu tutor, tomou um susto com as palavras que lhe foram feitas:
— Boa noite, senhora.
Sansa deu de cara com Harry ao seu lado. Ele era ainda mais bonito de perto. Seus cachos dourados eram brilhantes e perfeitos. Iguais aos de Joffrey.
— Boa noite, senhor.
— Senhora Alayne és ainda mais bela do que imaginei. As notícias acerca de sua beleza já chegaram a todos os cantos do Vale. Estou encantado.
— O senhor é muito bondoso e também muito galante.
Sansa foi criada para ser uma senhora e sabia que essas palavras vazias eram esperadas dela. Harry estava irritando-a com seus elogios baratos.
— Acredito que a senhora já esteja informada do nosso pré-noivado.
— Já estou senhor. Fui criada para ser uma esposa amorosa e dedicada. Irei servir meu marido com... destreza.
Sua escolha de palavra fez o sorriso de Harry se alargar, mas ele tinha algo a mais em sua expressão. Interesse genuíno.
— Alegra-me senhora saber que terei uma esposa dotada de destreza. Mas é preciso muito mais para entreter um homem.
Sansa sabia muito bem o que ele estava pensando. O menino não era nada inocente, já tinha dois bastardos e outro à caminho. Optou por não responder à provocação do rapaz. Depois de um tempo em silêncio, Harry foi quem primeiro falou:
— Terei a honra de dançar com a senhora?
— Terá, senhor. A primeira dança depois do banquete será sua.
— Você é uma menina misteriosa, Alayne. E eu gosto disso.
Nesse momento os criados começaram a arrastar as mesas para dar seguimento às danças. Lorde Robert estava sendo levado para seu quarto por meistre Collemon.
— Terei a honra, senhora? — Harry lhe estendeu o braço, e a menina o pegou com delicadeza. Quando o rapaz a viu de corpo inteiro sua expressão mudou, ficou mais voraz. — Tenho comigo agora, a donzela mais formosa de todos os sete reinos. Que homem sortudo eu sou.
Sansa sabia que não era esperado resposta à suas admirações, mas o vinho a deixou ousada e quando percebeu que Petyr e Myane estavam ao seu lado, prontos para dançar, falou para Harry:
— O senhor é ainda mais gentil e belo do que dizem as meninas. — Abaixou-se mais do que o necessário para cumprimentá-lo antes da dança, deixando à mostra o seu decote. Quando voltou seu corpo para cima, Petyr lhe fitava com um olhar avaliador. A menina sorriu sedutoramente para seu pai.
A canção era sobre um menino pobre que se apaixonava por uma menina de boas relações. Os acordes e a voz melodiosa do cantor embalavam os casais. O rodopio dos vestidos das mulheres transformou o lugar num mar de cores vibrantes. Por ser uma canção mais romântica, os corpos dos dançarinos ficavam muito próximos. Harry era um pouco mais alto do que ela e um dançarino regular, mas usou de todas as oportunidades para encostar em sua cintura fina e deslizar as mãos por seus cabelos castanhos acobreados. Em alguns momentos, quando os dois dançavam mais colados, a menina sentiu algo duro cutucar-lhe o ventre.
Petyr e Myane dançavam colados. A mulher, Sansa tinha que admitir, era sensual. Seus cabelos voavam lindamente quando Petyr a rodopiava. O último, aliás, era um dançarino esplêndido. Seus movimentos eram suaves, mas confiantes. E sorria para a mulher, mas sua felicidade não lhe atingia os seus olhos cinza-esverdeados. — Ele está representando o seu papel ou está gostando? — A dança terminou contando do suicídio do menino apaixonado após saber do casamento de sua amada.
— Você dança muito bem, Alayne. Seu corpo é esguio e bom de conduzir.
Está querendo me seduzir. Ele acha que sou tola e influenciável como as meninas que conhece.— O senhor que é galante em excesso.
E Sansa, novamente, o sentiu antes mesmo de vê-lo. Quando a voz baixa e sensual de Petyr lhe chegou aos ouvidos, todo o seu corpo arrepiou-se:
— Vejo que conheceu minhaAlayne. Ela não é adorável, Harry?
— É sim, senhor. A mais bela donzela dos Sete Reinos, exatamente como o senhor falou.
"Ele falou isso de mim?"
— Com a certeza que é, Harry. — Petyr virou-se na direção da menina — Você poderia dar o prazer da próxima dança ao seu dedicado pai, Alayne?
A vontade de Sansa era dizer não, para puni-lo por seu noivado desconhecido e por ameaçar bater nela. Mas uma senhora era armada de sua cortesia.
— Com certeza eu darei a honra da minha próxima dança ao meu maravilhoso pai.
— Então estarei deixando-a em boa companhia, Alayne. Irei pegar mais um pouco de vinho. — Harry virou-se e foi em direção à mesa de bebidas.
— Docinho, vejo que está representando o seu papel muito bem. Quem não te conhece diria que está interessada no jovem falcão.
Aquelas palavras de Petyr despertaram uma fúria na menina. Sua rebeldia estava tomando conta de seus atos:
— E qual moça do salão que não está interessada nele? É belo, galante e educado e, pelo que sei, meu futuro noivo.
Petyr estudou-lhe os olhos, como se os estivesse vendo pela primeira vez. — Tem os olhos de sua mãe. Olhos honestos e inocentes. Azuis como um mar ao sol. Muitos homens irão se afogar nesses olhos. — Disse isso e caminhou até o cantor, de certo para pedir uma música.
A resposta de Petyr às suas afrontas não foi o que ela esperava. Não achava Harry tão belo e galante como disse. Falou somente para irritar Petyr. Mas o homem falou de seus olhos, comparando-os aos de sua mãe. — Será que um dia ele irá se afogar neles?
O acorde melodioso de uma canção lhe captou a atenção. Príncipe das Libélulas.
Petyr tomou a sua mão e encaixou a outra em sua cintura, com um toque ousado e firme. Ele era um dançarino muito melhor que Harry. Conduzia o corpo da menina com uma destreza sem igual. Seus corpos se juntaram ainda mais na parte da música que Sansa tinha cantado para os dois, em seu colo:
"Jenny de Pedravelhas com flores nos cabelos
Ama seu príncipe amado, seu príncipe das libélulas
O coração do príncipe ela conseguiu
Mas foi o beijo do aço a última coisa que ele sentiu
Chorou, chorou... mas seu amado nunca voltou
Sentou e esperou, mas o seu amor nunca acabou
Oh pobre Jenny... como viver depois disso?
A guerra à Pedravelhas também chegou
Jenny, com um filho do príncipe você ficou?
Destruído tudo será, e suas vidas iremos tirar
E aquele castelo, que outrora foi o lar do seu amor
Destruído foi, somente ruínas lá ficou
E hoje, por Pedravelhas quem passa
Ouve a bela Jenny a chorar por seu amado
Chorar pelos poucos dias que tiveram
"Seu eterno príncipe das libélulas."
A respiração de Petyr ficou ofegante em seu ouvido, causando arrepios em lugares inimagináveis para Sansa. A voz rouca e baixa do homem lhe fez fechar os olhos:
— Por que você me desafia, Alayne? Eu não gosto de ser contrariado. Quando eu jogo, consigo saber o movimento do meu oponente, mas você, às vezes, não faz o que espero.
As sensações de calor se alastraram por todo o corpo da menina, dando forças para perguntar o que estava corroendo o seu coração:
— Pai, por que você não disse que ia casar-se novamente? Por que eu tive quedescobrir pelos lábios de Myranda?
Enquanto esperava a resposta para suas perguntas, Sansa encostou o queixo nos ombros de Petyr. O cheiro dele era um espetáculo à parte, uma mistura de vinho, menta e suor. Aquele odor inebriante estava mexendo com os sentidos da menina, suas pernas ficaram bambas e um calorão lhe subiu à face.
— Docinho, por que está tão brava comigo? Você também irá ficar noiva, não é verdade? — Sussurrou o homem.
— Eu irei ficar noiva porque você quis. Eu nunca pedi isso. Eu sou só um peão pra você?
As palavras ásperas de Sansa fizeram o homem sorrir.
— Vejo, Alayne que seus modos não melhoraram, mesmo depois da nossa conversa na sala de leitura. Minha coceira aumenta a cada segundo.
Petyr a pegou pela cintura e a rodopiou na última nota da música. Colocou-a no chão vagarosamente, nunca tirando os seus olhos dos dela.
— Aproveite o baile, meu docinho. Todos os cavaleiros do salão hão de querer dançar com você. — Fez uma reverência, virou-se e caminhou à passos confiantes para o outro lado do salão.
As pernas da menina estavam bambas e seu coração estava tão acelerado que a pele do seu peito chegava a mexer. "Nunca me senti assim antes, tão... devassa. Quando Joffey dançou comigo eu senti como se fosse levitar, mas agora, dançando com Petyr, eu sinto algo muito mais forte, um calor que me sobe, que me faz ficar arrepiada...O que está acontecendo comigo hoje?!"
Após cinco danças com os mais diferentes e honrados cavaleiros e senhores do Vale, Sansa sentia-se cansada. Algumas pessoas já tinham ido embora, mas a maioria ainda dançava com fervor. Petyr dançou com várias senhoras, deixando Myane desapontada e muito brava com a sua atitude. Esta última tinha acabado de partir quando Sansa sentou-se.
Uma senhora, muito velhinha, aproximou-se da menina. Seu rosto não tinha lugar para mais rugas, tamanha era a quantidade. Era ainda menor que Lorde Robert e em sua boca não restava mais nenhum dente.
— Olá menina. Estou querendo lhe falar a muito tempo.
Assustada, Sansa olhou em volta, mas ninguém estava prestando atenção nas duas. A presença da velhinha fez os cabelos de sua nuca ficar em pé.
— Desculpe minha senhora, mas nos conhecemos?
— Você não me conhece, mas eu sei tudo sobre você menina lobo.
Os olhos de Sansa se arregalaram e sua boca ficou seca. Queria sair correndo dali, contar para Petyr o que ela ouviu, mas suas pernas estavam bambas e moles como geléia. Tentou manter a calma, pois ninguém estava prestando atenção nas duas.
— Senhora, acredito que esteja me confundindo com alguém.
— Menina lobo, você está nos meus sonhos desde que nasceu. E não adianta olhar para os lados, somente você pode me ver.
— Eu não sou uma menina lobo! O símbolo da casa do meu pai é um Tejo.
— Aí está mais uma coisa que você não sabe. Uma primeira mentira. As pessoas não são aquilo que você acredita. Uma grande sombra vai pairar sobre você. Escute bem menina! Quando a fé chegar alguém irá querer te resgatar, mas eis a questão: quem você escolherá?
— Não entendo o que a senhora está dizendo. Quando a fé chegar?
— A fé irá chegar e com ela chegará também o seu destino. — A velhinha levantou-se. — Ainda nos veremos mais uma vez, senhora Sansa Stark.
Os olhos de Sansa se arregalaram ainda mais. "Ela sabe quem eu sou! Mas eu nunca a vi na minha vida... iria me lembrar de uma senhora como ela."Olhou para os lados e no momento que virou sua cabeça em direção à velhinha ela havia sumido. Assustada com os acontecimentos da noite, Sansa saiu correndo para seu quarto. Iria deitar-se e dormir, talvez tivesse bebido vinho demais.
