Esta história é uma adaptação do livro Devoção,

da autora Jessica C. Reed.

Capítulo II

O senhor Estranho não me seguiu da cozinha. Senti um pouco de remorso quando peguei a primeira camisa e a primeira saia que achei no armário e me escondi no minúsculo banheiro para tornar um banho rápido antes de ir para o trabalho. Antes, fiz uma inspeção em frente ao espelho. Círculos escuros rodeavam meus olhos castanhos. Meu cabelo, também castanho, estava uma bagunça, do mesmo modo como o cabelo desgrenhado dele, mas no meu caso não me caía tão bem. Minha pele estava pálida, porém tinha um brilho úmido que surge depois de muito tempo dormindo ou dos hormônios pós-sexo... Não havia necessidade de me perguntar de onde esse brilho viera, porque eu, com certeza, não tivera uma boa noite de sono, de modo que o brilho só conseguiu me irritar ainda mais.

Sério, o que eu estava pensando com essa ideia de trazer um cara para casa comigo? E o que a Ino havia pensado, deixando-me tomar qualquer tipo de decisão naquele meu estupor alcoólico? Agora eu estava diante de outro dilema. Será que Kiba, meu pretenso namorado, que não definia a relação, esperava que eu contasse a ele? Será que ele seria honesto comigo sobre urna possível conquista?

Furiosa, ensaboei o corpo e lavei o cabelo com xampu. A água quente, de fato, purificou meu corpo, mas não chegou a conseguir lavar toda a minha vergonha. Quando saí do box, tinha tomado uma decisão. A festa pela promoção de Kiba seria em alguns dias, e eu não iria estragá-la. Entretanto, jurei que contaria tudo a ele logo depois, pediria seu perdão e daria o máximo de mim para resolver nossos problemas. Eu gostava dele e queria ver aonde isso poderia nos levar, no futuro, de modo que eu não deixaria que urna transa de uma noite ficasse entre nós. O que acontecera ontem à noite foi nada além de uma má decisão tomada sob a influência de álcool e de hormônios em fúria. O senhor Estranho não ia bagunçar minha vida, minha cabeça ou minha calcinha outra vez.

Preparando-me para receber mais olhares quentes daqueles penetrantes olhos azuis, respirei fundo e deixei a segurança do meu banheiro.

— Ele já foi. — disse Ino assim que entrei na cozinha.

Ela me lançou um olhar de desaprovação, corno se o fato de ele ter ido embora fosse minha culpa, e virou-se para lavar a xícara de café. Eu deveria ter ficado aliviada e, ainda assim, por alguma razão inexplicável, senti-me meio vazia. Traída. Provavelmente, eu seria apenas mais uma marca em sua cabeceira, como faziam os antigos pilotos de caça ao marcar a cabine da aeronave a quantidade de aviões inimigos abatidos...

— Ele disse alguma coisa? — Minha voz saiu meio estridente. Ela olhou para mim sob os cílios com rímel.

— Ele fez algumas perguntas.

— Jura? De que tipo? — Passei a mão trêmula pelo meu cabelo e umedeci meus lábios. — Não que eu me importe. — murmurei, caso Ino tivesse alguma ideia errada.

Ela encolheu os ombros.

— Uma vez que você não se importa, então de fato deixe para lá. Você não deveria estar no trabalho?

Eu odiava quando ela mudava de assunto como dessa vez. Ou quando ela ficava do lado de um cara, coisa que fazia sempre, em especial quando o tal cara era bonito. Se eu pressionasse para saber, ela iria desconfiar de imediato de que eu poderia estar a fim do senhor Estranho, o que não era verdade, porque eu nem conhecia o homem e não tinha intenção de voltar a vê-lo. Além disso, o que ele poderia ter perguntado? Talvez ele quisesse saber quem ganhara o jogo dos Lakers de ontem à noite. Ou pedira a ela que fizesse o favor de chamar um táxi. Fosse o que fosse, eu não precisava saber. Ele pertencia a um passado que eu estava pronta para esquecer.

Dei um suspiro silencioso e peguei minha bolsa do chão, onde eu devia tê-la jogado na noite anterior.

— Até mais. — resmunguei, dirigindo-me para a porta.

— Espere. — chamou Ino, correndo atrás de mim. — A que horas você vai voltar para casa? Vou preparar o jantar.

Isso, no dicionário de Ino, era o equivalente a peneirar centenas de panfletos de comida delivery e fazer o pedido. Ela estava desempregada por menos de um dia, e já falava como uma dona de casa entediada. Eu precisava me livrar dela, e rápido, antes que decidisse pedir o divórcio. Metaforicamente falando, claro.

— Desculpe, Ino. Hoje vou ver minha mãe.

Eu não conseguia me livrar do sentimento de complacência em sua expressão perdida. Punir alguém não costumava ser meu estilo, porém ela deveria ter me dito o que o senhor Estranho falara antes de ir embora. Isso teria me deixado mais inclinada a convidá-la a ir à casa de mamãe, ainda que os silêncios e olhares gelados de desaprovação de minha mãe me fizessem querer

fugir o mais rápido que pudesse.

Minha mãe achava que Ino era uma cadela pretensiosa e que era minha amiga porque eu era uma pamonha fácil de controlar. E Ino achava que mamãe era uma cadela por não se acomodar só com um cara, nem pelo bem de sua única filha. Em outras palavras, Ino achava que minha mãe devia ter me dado um lar estável em vez de ficar se mudando de cidade em cidade, e de homem em homem, durante todo o período vulnerável de minha adolescência. Embora as duas tivessem certa razão em seus pontos de vista, eu preferia ficar em terreno neutro e mantendo-me fora de seu relacionamento de amor e ódio, e era por isso que eu evitava juntar as duas na mesma sala, ao mesmo tempo.

— Ela ainda está com... — Ino estalou os dedos em seus pensamentos. — Qual é mesmo o nome dele? Sabe, aquele cara da semana passada?

— Foi no mês passado, e o nome dele é Gregg. — respondi.

— Certo. Não vale a pena gastar minhas células cerebrais lembrando-me do nome dele quando isso será notícia velha na próxima semana. — E acenou com a mão, como se dissesse que isso não tinha importância. Eu odiava admitir, mas ela estava certa.

— Ele já é notícia velha.

— Não... Já? — ela riu. — O que havia de errado com ele? Era legal demais? Bonito demais? Roncava demais?

Eu balancei a cabeça, sinalizando que não tinha ideia.

— Haverá um novo em breve. — disse Ino. Ergui minhas sobrancelhas de maneira significativa. Ela riu, recebendo minha dica. — Já?

Assenti.

— Aparentemente, vou conhecer o cara hoje à noite.

— Posso ir? Por favorzinho... Você sabe quanto eu gosto de conhecer os namorados dela. É como enfiar a mão em um saco de doces de halloween. Você nunca sabe o que vai encontrar. — Seus lábios se curvaram em um sorriso, e ela inclinou a cabeça para o lado do jeito que sempre fazia quando estava prestes a iniciar uma grande campanha de persuasão.

— Claro que não! — Pisquei e dei um passo atrás. — Você não vem. — Ela abriu a boca para protestar, então eu a cortei. — Nem sequer comece a fingir que gosta dela, porque eu vejo as duas apertando a garganta uma da outra o tempo todo.

— Isso não é verdade... Bem, talvez seja um pouco, mas você sabe do que eu gosto menos ainda? De ser esquecida pela minha melhor amiga numa noite de terça. Vamos lá, Hinata... — Inclinou-se para mais perto, de maneira conspiratória. — Você tem alguma ideia do que poderia acontecer se eu passasse a noite sozinha? — Ela fez uma pausa para o efeito dramático. — Alguém poderia invadir o apartamento. Ou eu poderia ficar tão entediada a ponto de secar toda nossa bebida e ir transar com nosso vizinho do número quatro.

Eca! O cara do número quatro era um sujeito estranho que andava por aí num roupão de banho. Toda vez que a gente ia sair, ele estava no corredor, como se soubesse.

— Ah, vamos lá, Hinata, por favor... Eu não quero ficar sozinha numa terça-feira, treze!

Revirei os olhos. Ino amava fazer um melodrama e, em particular, se isso a ajudasse a conseguir o que queria. Logo começaria a negociação e se isso não desse certo, ela voltaria à boa e velha chantagem. Minha amiga tinha seguido os mesmos padrões durante os últimos vinte anos, ou desde que eu me recusara a lhe dar minha lancheira no jardim de infância. Eu não ia mais dar corda para isso.

— Eu coço suas costas se você coçar as minhas. — sussurrou. — Você

quer saber o que o Naruto disse?

— Quem é Naruto? — E foi aí que me dei conta. O senhor Estranho. Ele tinha se apresentado naquela noite em que nos conhecemos, mas o nome era tão incomum que eu não o guardei. Até mesmo seu nome soava sexy e proibido. Eu não pude deixar de me imaginar gemendo enquanto ele beijava todo meu corpo. Meu rosto ficou quente e cada vez mais quente. Droga. Isso foi tudo culpa da Ino. Ela sabia mais do que eu. Se ela não estivesse tão prontamente preparada para negociar sua informação, eu não estaria literalmente ofegante ao som do nome desse cara.

— Naruto... Quer dizer, Ino, eu não tenho tempo para isso. — Merda. Eu estava sob o feitiço dele. Eu precisava tirá-lo do meu sistema, e bem depressa, antes que acabasse bancando a completa idiota. Prendi minha bolsa no peito e saí pela porta, ignorando a incrédula boca aberta de Ino.

— Espere, Hinata! Não me deixe aqui! — gritou ela atrás de mim.

Lançando olhares por cima do ombro para me certificar de que ela não estava me seguindo, corri para o estacionamento que ficava ao virar a esquina e pulei dentro de meu carro, pronta para encarar mais um dia de trabalho duro, ou o que restava dele, agora que era quase hora do almoço.

….

O tráfego em Nova York era um pesadelo. No momento em que consegui abrir caminho até o centro, já estava com três horas de atraso. Droga. Não bastava aquele Naruto, o senhor Estranho, estar mexendo com minha vida, ele também estava arruinando minha carreira. Meu chefe, Gai, não ficaria satisfeito. Na verdade, quando cheguei ao escritório e desabei em minha cadeira giratória, com os dedos começando a digitar com fúria no teclado para verificar os e-mails e compromissos do dia, quase pude sentir as ondas quentes de raiva vindo da sala de Gai. Talvez ele não tivesse notado minha ausência. Ah, quem eu estava pretendendo enganar? O cara sabia de tudo. E, apesar de sua gentileza gay, ele com certeza sabia gritar, coisa que eu estava prestes a ouvir em três...

Dois. Um.

— Hinata, traga seu lindo rabo até aqui neste instante!

Agora eu estava em apuros. Com um profundo suspiro eu me levantei da cadeira, alisei minha saia lápis e me dirigi a ele para enfrentar o inevitável com passos lentos, medidos. Na minha mente, eu podia ouvir os sons assustadores de um tambor informando a desgraça iminente. Wendy, a recepcionista, me lançou um olhar de pena, solidário. Eu sorri de volta e lutei contra a vontade de fingir que precisava sair de novo para uma reunião de negócios. Eu era uma mulher adulta e, de maneira nenhuma, me sentiria amedrontada por Gai.

— Feche a porta. — ele disse, quando entrei em seu escritório. Fiz o que ele mandou e me acomodei na cadeira em frente à sua enorme mesa de mogno. Minhas mãos ficaram dobradas no colo enquanto olhava para cima para encontrar seu olhar furioso.

Mesmo sendo pelo menos dez anos mais velho que eu, ele não parecia ter mais do que trinta anos. Seu cabelo preto era penteado para trás de sua suave testa. Sua pele tinha um brilho dourado que todos atribuíam a sessões semanais de bronzeamento, e isso causava um forte contraste com sua camisa, de um branco nítido, e um terno preto. Seus olhos penetrantes estavam focados em mim, me medindo de cima a baixo. Puxei meu paletó apertando-o em volta do corpo, como se quisesse me proteger daquele olhar curioso. Por que ele estava me olhando assim? Por que ele simplesmente não começava seu discurso habitual, incluindo um ou dois avisos, e acabava com isso de uma vez?

Eu estava prestes a pedir desculpas pelo meu atraso quando uma batida soou na porta.

— Entre. — disse Gai, olhando por cima de mim para nosso novo estagiário, um cara de vinte e poucos anos chamado Tim.

— Aqui estão os seus papéis, chefe. — Tim sorriu com timidez, o que por sua vez fez o rosto de Gai se iluminar como uma vela de Natal. O rapaz tinha um belo corpo com músculos bem definidos e uma pele da cor de chocolate derretido, o que me fez acreditar que ele devia passar muito tempo na academia.

— Obrigado, querido. Melhor agora do que nunca... — Os lábios de Gai se curvaram para cima enquanto seus olhos devoraram a bunda empertigada de Tim.

— São os papéis que o senhor solicitou na semana passada. Desculpe o atraso, mas cheguei tarde hoje. Trânsito.

Tim me lançou um olhar conspiratório, como se eu soubesse exatamente sobre o que ele estava falando, coisa que eu não sabia. Tim tornara um hábito estar sempre atrasado, e eu chegava sempre na hora certa.

Exceto hoje.

— Não se preocupe com isso. — Gai acenou com a mão, brincando. Eu me perguntei se ele seria tão gentil assim comigo. — Não há um ditado que diz "guarde o melhor para o final"? Vejo você no almoço.

Tim lançou um sorriso de dentes brancos e iguais antes de fechar a porta atrás dele.

— Então... — Gai suspirou e se virou para mim. Engoli o repentino nó que se formou em minha garganta enquanto a expressão calma do chefe se modificou para alguns tons mais escuros. Não existe um tratamento preferencial para você, Hyuuga.

— Me desculpe, cheguei atrasada. — eu disse, para quebrar o silêncio desconfortável. — Havia uma papelada que eu precisava verificar, e pensei que poderia muito bem fazê-lo de casa. — O que não era mentira. Eu estava planejando ler essa papelada ontem à noite, quando Ino me convenceu a me juntar a ela em nosso barzinho habitual e o senhor Estranho entrou no caminho.

— Não me venha com besteira. Eu sei que você está mentindo. Mas não foi por isso que chamei você. — Ele umedeceu os lábios e seu olhar esquadrinhou a porta atrás de mim, e então se estabeleceu sobre mim de novo.

— Como foi com Namikaze?

— Ele não apareceu. — As sobrancelhas de Gai dispararam e ele parecia descontente. Um pressentimento desagradável passou por mim. Talvez o cara tivesse voltado para falar com seu chefe, que se queixara a Gai, e agora eu estava com problemas maiores do que pensava. — Por que está perguntando?

— Porque recebi um telefonema esta manhã. — A carranca dele se acentuou. Ops... Isso não era bom. Engoli em seco e me imaginei limpando a minha mesa. — Era Namikaze, oferecendo-lhe um emprego em seu departamento. E ele quer que você comece de imediato.

Meu queixo caiu e eu quase despenquei da cadeira. Puxa! Quer dizer que ser grosseira era o suficiente para conseguir um emprego em uma grande empresa? E foi aí que me lembrei de ter feito mais do que falar. Todo o calor foi drenado do meu rosto. Eu tinha transado com o senhor Estranho, que por sua vez convenceu seu chefe a me contratar. Eu só podia imaginar seus argumentos...

Ela é muito boa, muito boa mesmo. Precisamos de mais pessoas como ela, pessoas que são cooperativas e acessíveis, e que levam a arte de fazer negócios a um nível totalmente novo.

Ah, Deus.

Eu tinha acabado de fazer o teste do sofá no caminho corporativo. Isso é que é ser vulgar.

— É óbvio que eu disse que você prefere ficar com a gente, porque está muito feliz com seu pacote de benefícios. — continuou.

Balancei a cabeça para sinalizar que estava seguindo suas palavras. Na verdade, meu pacote de benefícios não era tão grande assim. E minha vontade era ressaltar que ainda estava à espera de um aumento de salário prometido havia seis meses, entretanto, mantive minha boca fechada. Gai fez uma careta e meu coração ficou apertado no peito antes mesmo que ele abrisse a boca para transmitir a má notícia.

— Eu sinto muito, Hinata, mas vou ter de demiti-la. Namikaze disse que romperia todos os nossos contratos se eu não a deixasse ir. — Ele passou a mão no cabelo, como se estivesse aliviado por ter acabado com isso, e acrescentou:

— Foi ótimo trabalhar com você.

Meu Deus!

Essa não era uma razão boa o suficiente para me despedir, não é? Sei lá, em algum lugar bem no fundo da minha mente eu percebia que poderia processá-lo por... Não sei... Contudo, um advogado com certeza poderia encontrar algo quando eu contasse essa história maluca. Gai disse que

Namikaze cortaria todos os nossos contratos. Que tipo de psicopata faria isso só para contratar uma pessoa? Não era como se eu fosse alguma famosa que tivesse mostrado suas habilidades em O Aprendiz. Eu nem mesmo era como Ino, que se formara como uma das primeiras da classe. Que diabos aquele Naruto — não, eu não lhe daria a cortesia de chamá-lo pelo nome — que merda

aquele senhor Arrogante teria dito sobre mim?

Minha mente estava girando, e eu podia ouvir o sangue correndo em meus ouvidos. E não tinha certeza se deveria estar irritada ou feliz, ou ambos. Levei um tempo para entender o significado das palavras de Gai. Meu coração começou a rufar com insistência em meus ouvidos e minhas bochechas queimavam. Eu tinha, enfim, conseguido um emprego em uma grande empresa. Tudo bem, não era uma Delaware & Ray, mas era um começo. A grande chance que eu estava esperando.

Então, por que estava hesitando? Por que isso não parecia ser um grande sucesso? Porque não tinha sido merecido, eu não conquistara isso. Meu subconsciente empinou sua cabeça desagradável. Eu tinha dormido com alguém em uma posição superior à minha, mas não fiz isso de propósito. Eu não era uma putinha, uma mulher que deliberadamente dorme com um caracom o único propósito de ganhar uma vantagem pessoal, financeira ou qualquer outra.

— Vou ter de pensar sobre isso. — respondi.

— Não, Hinata, não vai. Eles são enormes. Eles têm ligações, eles lidam com os grandes trabalhos. Sem eles estaríamos perdidos há muito tempo na lagoa dos pequenos corretores de imóveis. — Gai hesitou. Eu sentia que havia algo que ele não me dissera, mas não fiz pressão sobre essa questão. Fosse o que fosse que ele tinha com Namikaze não era da minha conta. Um leque de emoções passou pelo rosto dele e, então, sua carranca relaxou e seu rosto tornou-se uma máscara impassível. — Vamos lá, você sabia que não ficaria trabalhando aqui para sempre. É uma grande oportunidade para você. Não estrague tudo.

Respirei fundo e desejei que minhas mãos trêmulas parassem de tremer. A Namikaze Realties era uma empresa enorme com escritórios em todos os Estados Unidos e na Europa. Embora não concordasse muito com suas práticas de negócios, eu não podia negar o que Gai dissera.

— É melhor se apressar. Eles precisam de você na sede antes do final do dia. — disse Gai, me sacudindo para fora da minha consciência culpada.

Ele se virou e agarrou o telefone para sinalizar que a conversa tinha acabado.

— Então é isso?

Levantei-me e o olhei incrédula. Com certeza, esse não tinha sido o emprego dos meus sonhos, e nunca esperei ficar toda emocionada ao sair daqui, mas não podia deixar de sentir uma súbita melancolia. Gai teria me oferecido um emprego durante a recessão, quando ninguém estava disposto a dar uma chance para uma garota inexperiente e recém-saída da faculdade. Ele, porém, me ensinara muito sobre o negócio, então eu esperava mais do que um aceno de cabeça e um sinal mostrando-me a porta de saída.

— Não se esqueça de nós quando estiver por cima, chica. — sussurrou Gai sem levantar os olhos de seu telefone.

Eu sorri e dei a volta na mesa para lhe dar um abraço, sussurrando em seu ouvido:

— Obrigada por tudo.

Sem olhar para trás, deixei o escritório de Gai e dei um adeus choroso a Wendy, que ficou surpresa ao saber que eu tinha sido demitida, e mais surpresa ainda ao ver que eu estava feliz. Depois de muitas promessas de mantermos contato, fui arrumar os poucos pertences que cobriam minha velha mesa: algumas fotos de minha mãe com os dois homens que chegaram mais próximos de ser um pai para mim, e um cacto que Ino me dera quando arrumei o emprego. Era o meu cacto da sorte.

— Ninguém foi deixado para trás. — disse, quando coloquei o cacto no banco da frente e o prendi com o cinto de segurança, e então programei o GPS para me levar para o escritório central da Namikaze Realties, em frente à Delaware & Ray.