Esta história é uma adaptação do livro Devoção,

da autora Jessica C. Reed.

Capítulo III

A Namikaze Realties estava localizada no sexagésimo andar do Trump Tower. O elevador abriu a porta e me vi em um espaço acolhedor e luminoso que adorei na hora. Espessos tapetes tragavam o ruído de meus saltos enquanto caminhava em direção à morena alta que digitava em seu computador, na área de recepção envidraçada. Ela estava vestida de maneira impecável em um uniforme cor de chocolate ajustado ao corpo, e saltos de quinze centímetros que faziam suas longas pernas parecerem ainda mais compridas. Os lábios com gloss brilhante desviavam a atenção de seu rabo de cavalo e lhe davam um toque etéreo. Olhando para cima, ela sorriu e apontou para sua direita; para as cadeiras de couro branco que compunham a parede branca por trás.

— Senhorita Hyuuga, por favor, sente-se. Alguém vai recebê-la em breve. Gostaria de beber alguma coisa? Temos latte macchiato, café espresso, chai latte, e água mineral. — Sua voz era profissional, mas tinha um tom límpido e firme, como se estivesse acostumada a dar ordens.

Eu murmurei um "não, obrigada", perguntando-me como ela poderia saber meu nome. Lembrei-me então da recepcionista lá embaixo, que deve ter anunciado minha visita. Basicamente, eu estava jogando em um campeonato novo, então teria de melhorar meu jogo.

Sentei-me e ignorei as revistas empilhadas com esmero sobre a polida mesa de café. Mantendo um rosto inexpressivo, examinei ao redor da área de recepção da Namikaze, enquanto esperava que meu novo chefe viesse me cumprimentar. Caramba, eu nunca tinha visto nada parecido. Espaçoso era um eufemismo. O lugar era enorme e elegante em uma espécie de estilo minimalista. Vidros espelhados subiam do chão ao teto e ofereciam uma visão panorâmica da agitada rua lá embaixo. Objetos de arte em preto e branco adornavam a parede atrás da área de recepção. Enormes bonsais em vasos chineses tinham sido dispostos ao longo do grande corredor, que eu presumi deveria levar aos escritórios dos chefões.

Se eu quisesse combinar com este lugar, talvez devesse aceitar a oferta de Ino e ir com ela fazer compras. Ela vinha me perturbando sobre meu guarda-roupa ultrapassado havia muito tempo, contudo até agora eu não sentira necessidade de gastar um dinheiro que eu não tinha em roupas. Não havia percebido que a morena estava em pé, diante de mim, até que ela tocou meu ombro com os dedos tão bem cuidados.

— Senhorita Hyuuga? — Ela me entregou um envelope grosso de papel kraft. — Este é o seu contrato de trabalho. Estão destacados seu pacote de benefícios e seu salário. Além disso, você também vai encontrar uma passagem de avião para a Itália, onde vai ajudar o senhor Namikaze no processo de aquisição da Lucazzone, e mais algumas informações sobre o que se espera de você como assistente sênior do senhor Namikaze. O voo é amanhã à noite. Você pode tirar o resto do dia de folga para arrumar suas malas, e, caso tenha um animal de estimação, para procurar alguém que cuide dele durante os próximos dias.

— Ela parou e sorriu de novo. — Se seu passaporte tiver expirado, por favor, informe-nos imediatamente e cuidaremos disso... — E fez uma pausa, esperando por minha resposta.

— Meu passaporte está ótimo. Nunca esteve tão válido. — Eu me encolhi interiormente por causa de minha estranha escolha de palavras, o que me fez parecer um pouco boba.

— Ótimo. — sorriu a senhorita Recepcionista Morena. — Parabéns pelo seu novo emprego e faça uma boa viagem.

Meu queixo caiu quando meu cérebro finalmente registrou o significado de suas palavras.

— Espere, você disse que estou indo para a Itália? — ela assentiu com a cabeça. — Amanhã? — Ela assentiu novamente.

— Não perca seu voo. O senhor Namikaze está esperando sua chegada. Agora, foi minha vez de assentir, aturdida, meus pensamentos ainda girando em torno das palavras "assistente sênior". Como assim? Eu era uma corretora de imóveis. Claro, já havia ajudado Gai com os projetos mais complicados, mas ele nunca tinha me levado para a Itália e com certeza não esperava que eu fosse capaz de lidar com uma aquisição. Engoli em seco e me levantei. Eu não sabia falar italiano. Talvez devesse ter esclarecido com Gai as implicações deste emprego, para ver se eu poderia me equiparar aos chefões, em vez de imaginar que ficaria algumas semanas em treinamento.

— Se você tiver alguma dúvida ou quiser discutir o contrato, Rita Young, de Recursos Humanos, terá prazer em ajudá-la com isso. — disse a morena. — Assim que estiver satisfeita com os termos do contrato, por favor, certifique-se de assiná-lo e devolva para nós antes de sair. Sinto muito, mas o dever me chama. Foi ótimo conhecê-la.

Ela se virou para ir embora quando agarrei seu braço para detê-la.

— Espere. Estou um pouco confusa. Você disse que eu estaria ajudando o senhor Namikaze, porém eu nem sequer o conheço. Então, quem me contratou? Eu não sei de onde veio aquela pergunta quando havia pelo menos uma dúzia de outras questões mais importantes que eu poderia ter feito. Tais como, por exemplo, eu teria seguro-saúde ou conseguiria um telefone da empresa? Ou, mais importante, qual seria meu salário?

— Isso eu não sei. Uma vez que a senhora Young tem se esforçado para que o contrato fique ao seu gosto, só posso supor que você tenha sido sugerida por algum headhunter. Agora, se me der licença…

Ela bateu os cílios com impaciência. Lentamente, ficou claro para mim: a mulher estava ocupada e eu já tinha tomado o suficiente de seu tempo.

— Obrigada.

O grosso envelope pardo pesava na minha mão quando caminhei até o andar de baixo, passando por executivos e executivas à espera de elevadores na recepção principal. Só quando cheguei ao espaço confinado do meu carro permite-me um sorriso idiota. Eu não conseguia parar de sorrir, porque eu, Hinata Hyuuga, tinha sido indicada por um headhunter. Aquela era uma palavra poderosa, importante. E tinha acontecido comigo. E eu, Hinata Hyuuga, iria para a Itália. Estava prestes a fazer minha primeira viagem para a Europa. Busquei meu telefone em minha bolsa e avaliei para quem ligar primeiro.

Minha mãe foi minha primeira opção, porém, mais uma vez, não seria meu namorado a pessoa que deveria saber primeiro? Ele merecia ser colocado em primeiro lugar, em especial depois que eu o traíra. Livrei-me da minha consciência culpada assim que disquei o número de Kiba. Ele respondeu ao segundo toque.

— Kiba Inuzuka.

Eu podia ouvir o ruído de fundo da cafeteria habitual: os alunos conversando e rindo, bandejas e os talheres tilintando. Ele provavelmente estava fazendo sua pausa para o almoço.

— Adivinha? — E não esperei por sua resposta. — Acabei de arrumar

um emprego na Namikaze Realties.

A linha permaneceu em silêncio. Prendi a respiração enquanto esperava

a reação dele, que veio um segundo tarde demais.

— Uau, isso é incrível. Vamos comemorar esta noite. Eu poderia aparecer na sua casa.

Ele parecia tenso, o que não era a reação que eu esperava. Talvez ele tivesse outros problemas em sua mente e estivesse se esforçando para ser feliz por mim.

— Sim, isso não é tudo. Estou indo para a Itália. Parece que vai acontecer uma grande aquisição por lá e eu vou ter de ajudar o senhor Namikaze.

Uma pausa de novo, então:

— Puxa! Isso é ótimo. Vamos comemorar no próximo fim de semana,

então.

— Sim, por aí. Meu voo é amanhã e estarei de volta em duas semanas.

— Então a gente se vê quando você voltar.

Será que percebi um toque de irritação na voz dele? Eu fiz uma careta e

umedeci meus lábios.

— Você está bem, querido?

— Sim, estou bem. — Ele não parecia nada bem. Ficamos em silêncio por um segundo ou dois. Kiba retomou a conversa antes de mim. — Na verdade, não, não estou. Podemos conversar? Há algo que eu preciso lhe dizer.

Por que não gostei de como isso me pareceu? Minhas mãos foram ficando úmidas e meu coração começou a bater como um martelo.

— Claro! — Tentei infundir uma jovialidade que não sentia em minha voz. — Em nosso lugar de sempre? Eu posso estar lá em meia hora.

— Tudo bem. — Ele desligou.

— Tchau. — sussurrei, mesmo sabendo que ele não podia me ouvir. Meu coração batia forte, tão forte que pensei que meu peito ia explodir. Talvez Kiba tivesse me visto com o senhor Estranho. Talvez ele, de alguma forma, tivesse descoberto sobre a noite passada antes que eu tivesse a chance de lhe contar, e talvez ele se importasse, afinal. Esta seria minha chance de ser honesta e definir as coisas de uma maneira correta antes de viajar para a Itália. Eu não queria ir embora com uma coisa assim tão importante entre nós.

Vinte minutos mais tarde, sentei-me em meu lugar, em nossa mesa habitual com vista para o lado leste do campus da Universidade de Nova York, e pedi um latte grande, um panini de frango e batata frita. O café estava quase vazio nesta hora do dia, o que eu atribuí ao fato de que a pausa para o almoço já tinha terminado e todo mundo já estava de volta às suas salas de aula. Kiba chegou alguns minutos depois. Eu tive alguns segundos para avaliá-lo, antes que ele me visse e se aproximasse da mesa. Ele era poucos centímetros mais baixo do que o senhor Estranho, com os cabelos escuros, e olhos negros de matar. Se a camisa azul e a calça preta não gritassem que ele era um aluno fazendo a pós-graduação e professor-assistente, seus óculos fariam isso.

Ele parecia um nerd, o que não poderia estar mais longe da verdade. Vindo de urna família de acadêmicos, Kiba fora empurrado para uma carreira acadêmica, porém seu sonho sempre fora se tornar piloto profissional de carros de corrida. Ele tinha a força física, o talento e a experiência, mas não a vontade de ir contra a vontade da família.

— Ei, você! — Eu me levantei na ponta dos pés para beijá-lo nos lábios. Ele sorriu e roçou os lábios com suavidade contra os meus. A sensação de que algo estava errado se intensificou. — Quer alguma coisa? — perguntei. Minha fome se dissipou, e apontei para meu panini ainda quente. O que quer que ele tivesse a dizer, decidi que não iria gostar.

— Eu acabei de comer. — disse Kiba, e tomou um assento em frente ao meu.

Não pude deixar de perceber a distância que ele colocou entre nós. Kiba cruzou as mãos em cima da mesa e olhou para cima. Sua expressão permaneceu muito séria enquanto ele me olhava. Seus olhos, em geral quentes, agora não exalavam nenhum tipo de amor que eu usualmente enxergava.

Puxa!

Nunca tinha visto ele agir de modo tão frio. Isso só poderia significar uma coisa. Eu podia não ter muita experiência com relacionamentos, mas conseguia enxergar muito bem os sinais. Meu coração se afundou no meu peito.

— Você queria falar alguma coisa... — instiguei-o a acabar logo com isso.

— Sim... — Ele passou a mão pelos seus cabelos, querendo mais tempo.

— Então, fale e pronto.

Apesar da turbulência acontecendo dentro de mim, minha voz parecia surpreendentemente calma e composta.

— Tudo bem. — Seus olhos pousaram nos meus lábios por um segundo, corno se estivesse prestes a me beijar. E então seu olhar mudou-se para as mãos cruzadas. Ele nem conseguia me olhar nos olhos. — Eu não posso mais fazer isso.

— Fazer o quê? Ir trabalhar? Estudar para seu doutorado? Morar em Nova York? Você vai ter de ser mais específico que isso, Kiba! — A histeria borbulhava em algum lugar no fundo da minha garganta. Engoli em seco para ver se me livrava dela.

— Nós... — Seus olhos pousaram em mim e, naquele instante, eu tive a resposta. O último grão de calor escoou para fora de sua expressão. Talvez ele estivesse com medo de que eu fizesse uma cena, gritasse, fizesse perguntas, implorasse que não me deixasse. — Não dá mais para ficarmos juntos.

Ele estava terminando comigo. Chame de intuição, mas eu sabia que isso aconteceria desde aquele estranho telefonema, eu só não queria reconhecer, de imediato, que seria isso. Estranhamente, essa conformação não doeu tanto quanto eu pensava que doeria. Eu não queria perguntar, e ainda assim tinha de saber.

— Há mais alguém?

— Não...

Meu olhar procurou em sua expressão alguma pista de que ele estivesse mentindo, mas não encontrou nada. Respirei fundo e depois soltei o ar devagar.

— Então, e agora? — perguntei.

Ele suspirou e balançou a cabeça ligeiramente. A paixão que eu estava acostumada a ver em seus olhos voltou, mas desta vez não tinha nada a ver comigo.

— Você já teve a sensação de que há mais na vida do que aquilo que você tem e do que você faz?

Quero dizer, eu acordo, vou trabalhar, volto para casa, volto a fazer as mesmas coisas, vezes e vezes sem fim. Eu não quero desperdiçar minha vida com essa merda. Eu preciso de mais… Eu assenti com a cabeça, embora essa divagação não fizesse sentido. O cara tinha vinte e cinco anos. Como ele poderia ter uma crise de meia-idade nessa altura da vida? Os pontos pretos começaram a nublar minha visão. Esfreguei meus olhos para me livrar da sensação latejante que estava se acumulando por trás deles.

— Quer dizer que você vai atrás dessa coisa de corrida. — disse eu.

— Um tempo atrás recebi uma oferta de patrocínio de um fabricante de automóveis francês... — disse Kiba, sem notar o que suas palavras me fizeram.

— Eu estou voando até lá para assinar o contrato. Está feito. Não posso recuar agora.

— Não pedi para você fazer isso. — respondi com suavidade. Sua mão cobriu a minha, e ele olhou direto nos meus olhos.

— Você sabe quanto é uma pessoa incrível, e em circunstâncias diferentes eu jamais abriria mão de você. Mas isso é o que eu devo fazer agora. Não consigo me concentrar na minha carreira e também em nossa relação. Você merece mais do que isso.

— Claro, é sua opção, sua chance, eu entendo. — Você ainda pode seguir sua vocação e permanecer em um relacionamento com a pessoa que você, uma vez, disse amar, que tinha vontade de gritar. E ainda assim permaneci composta, ignorando a pontada que estava perfurando meu peito. Uma vez que Kiba estava rompendo nossa relação, agora seria a hora de contar a ele sobre minha traição, mas, por algum motivo, fiquei quieta. Talvez fosse egoísta de minha parte querer romper em bons termos, mesmo que esses bons termos não fossem nada mais do que uma farsa.

Ele me deu um leve aperto na mão.

— Quero que a gente continue sendo amigos.

Assenti. A dor em meu peito ficou mais forte.

— Quer dizer que agora você tem um novo emprego. Conte-me sobre isso. — disse Kiba, de repente, mudando de assunto.

Eu sorri amargamente e acenei com minha mão.

— Comparado com o seu, não é nada especial, de verdade. — Ele sorriu, e não insistiu no assunto. Seus olhos voltaram a brilhar e, naquele instante, senti um forte desejo de me levantar e deixá-lo para trás. Eu tinha me enganado por completo ao pensar que aquilo que nós tínhamos era algo especial. É, ele não era mesmo "aquele" cara. Não podia ser. O "cara" nunca me deixaria para trás.

— Tenho de fazer as malas. — sussurrei, erguendo-me da cadeira. Um sorriso forçado brincou em meus lábios.

— Claro, quer que eu...

Eu levantei minha mão para interromper qualquer que fosse a tímida oferta que ele estava prestes a fazer.

— Não, estou bem. E parabéns por encontrar um patrocinador. Deve ter lhe custado semanas, se não meses de trabalho árduo. — O trabalho árduo que ele não conseguiu me contar.

Kiba se ergueu para me beijar na bochecha. Eu, de alguma forma, consegui me esquivar dele, peguei minha bolsa, murmurei um "vejo você por aí" e corri para a porta, ansiosa para me afastar dele o mais rápido possível. Eu não o odiava, contudo também não me sentia da maneira que sabia que deveria ter me sentido.

Quando cheguei ao meu carro e me atrevi a respirar profundamente o ar frio de Nova York, meu coração desacelerou e minhas mãos pararam de tremer. Fui para casa com mais cuidado do que o habitual. Meu celular tocou uma vez e, em seguida, apitou algumas vezes avisando sobre mensagens recebidas.

Olhei para o identificador de chamadas e desliguei o aparelho. Claro, eu não podia culpá-lo por querer seguir seus sonhos, em especial quando eu estava prestes a fazer o mesmo. Entretanto, com certeza não podia suportar ouvi-lo falar sobre isso do jeito que ele fez, com aquele brilho em seus olhos que me dizia que tinha encontrado, enfim, uma paixão maior do que nosso

relacionamento.

Minhas entranhas estavam dormentes, mas meu cérebro permanecia surpreendentemente lúcido. Então era isso. Um ano desperdiçado com Kiba, e que passara em um piscar de olhos. A dor pode vir mais tarde. Agora eu me sentia uma idiota por alguma vez acreditar que nós dois tínhamos

um futuro juntos. Este novo emprego não poderia ter chegado em momento melhor, e eu estava determinada em superar essa coisa com Kiba concentrando toda minha energia nele.

Ino não estava em casa, e me senti agradecida por isso. Não estava com vontade de ter companhia e muito menos de ficar ouvindo reclamações sobre Kiba, que era a única maneira pela qual Ino sabia lidar com um rompimento. Eu me tranquei no meu quarto e mandei urna mensagem para minha mãe, contando-lhe que não poderia ir até lá de noite por causa do meu novo emprego, prometi ligar para ela o mais rapidamente que pudesse assim que desembarcasse na Itália. Por um minuto pensei em mandar um SMS para Ino, caso ela não voltasse para casa antes de eu sair para o aeroporto. Não era incomum que ela encontrasse um cara e passasse os dois dias seguintes com ele,

esquecendo-se do mundo que existia do lado de fora do quarto. Contudo, no fim, decidi esperar até às dez horas da noite para o caso de ela encontrar o caminho de volta para casa, afinal.

Fiz para mim uma xícara de chocolate quente e me acomodei na cama para revisar o contrato. Até agora, ele parecia melhor do que o esperado. Grandes vantagens como o seguro-saúde, um smartphone novo com duas linhas, uma sendo minha e a outra do senhor Namikaze, e até mesmo um pacote de ações. Um salário dez por cento maior assim que terminasse o período de experiência de três meses, todas as despesas pagas quando em viagem pela empresa e até mesmo um bônus de Natal.

Gostei do que vi e assinei de imediato e, depois, passei uma hora vasculhando meu guarda-roupa para escolher o que levar comigo. Eu tinha roupas, muitas delas, mas não achei que elas se parecessem com algo que uma assistente sênior fosse usar. Morar em Nova York não era barato. Depois de nove meses de desemprego, e um pouco antes de conseguir meu emprego — o emprego anterior, lembrei a mim mesma — meus cartões de crédito estouraram, eu ainda estava pagando a dívida, de modo que sair para a rua e comprar roupas novas estava fora de questão. No final, peguei emprestado o terninho azul-marinho de Ino e um vestido de mangas compridas, da mesma marca do terninho, que terminava pouco acima do joelho. Essas eram as roupas menos caras do recheado guarda- roupa dela, então sabia que ela não se importaria de emprestá-las. Ela em geral preferia usar roupas mais ousadas, de qualquer maneira, com vestidos mais curtos, de modo que ela provavelmente nem sequer notaria que não estavam lá.

Eu ainda estava fuçando o guarda-roupa de Ino quando a chave girou na porta e ela entrou alguns momentos mais tarde.

— Quer dizer que você está atacando minhas coisas? — Ela ergueu o terno azul-marinho que eu havia escolhido mais cedo e sorriu.

— Você poderia ter escolhido algo menos...

— Monótono? — perguntei.

— Eu ia dizer "matronal", mas monótono serve... — Ela jogou o terno de lado e sentou-se na cama, colocando as pernas nuas sob o corpo. A saia que estava usando era tão curta que dava para ver sua calcinha com babados, da Victoria Secrets.

— Espero que você não se importe...

— Na verdade, você está me fazendo um favor. — Ela lançou um olhar desprezível ao terno corno se ele estivesse prestes a roubar sua bolsa.

— Fui chutada do departamento. — disse eu, pronta para compartilhar minha grande notícia.

— O quê? Foi aquele idiota do Gai? — Ela se aproximou e envolveu seu braço esquerdo em volta do meu ombro. — Eu sinto muito, Hinata. — Eu poderia dizer, olhando para sua expressão animada, que ela não estava nem um pouco triste. — Vendo, porém, pelo lado positivo, agora nós somos duas garotas desempregadas com um mundo de Margaritas aos nossos pés!

Eu sorri.

— Olha, eu não entendo. Por que você sempre tem de ser tão convencional? — Ela enfatizou a palavra como se fosse uma coisa ruim. — Você não afrouxa no trabalho. Você não transa nunca. Você é muito... — Ela acenou com a mão no ar, procurando a palavra certa.

— ...Chata? — disse eu, sorrindo.

— Responsável.

Meu sorriso se tornou amargo quando eu olhei para longe. Ela me fez a mesma pergunta muitas vezes durante todo o tempo dessa nossa amizade. Eu sempre evitei dar uma resposta direta porque sabia que ela não iria entender. Ninguém entenderia. O mundo não gostava de ouvir sobre essa parte da minha vida. Felizmente, Ino me conhecia bem o suficiente para não pressionar por

uma resposta.

— Vamos tornar uma bebida. — disse Ino. — Sabendo que você vai ficar desempregada por muito pouco tempo, digo que a gente tem de aproveitar ao máximo.

Eu odiava arruinar seus sonhos movidos a álcool, mas alguém tinha de fazê-lo. Eu devia isso à humanidade.

— Na verdade, não fui demitida. Gai e a Namikaze Realties têm um acordo, e Namikaze me promoveu a assistente sênior. Estou embarcando para a Itália amanhã.

— Mas, como... ? — O queixo dela caiu. Por um momento, pareceu desapontada, até que se deu conta de que, como minha melhor amiga, ela deveria ficar feliz por mim. — Uau! Meus parabéns!

Eu sabia que ela de fato não estava sentindo uma única dessas palavras. Sua expressão no rosto era tão entusiasmada como a de um salmão que tivesse acabado de ser pescado.

— Deixe disso, você está patética! — Revirei os olhos e bufei. — Você preferia que eu ficasse em casa com você, pegando uns caras e indo para a cama na hora em que os outros estivessem acordando para ir trabalhar.

Ela deu aquela risada tilintante que apenas confirmou minhas suspeitas.

— Uma promoção dessas é quase tão boa quanto ficar de pijamas o dia todo. Isto exige urna celebração. Vixen em meia hora?

— São quatro da tarde.

— Tem razão, está ficando um pouco tarde. Vamos para lá daqui a dez minutos.

Fiquei olhando para ela de boca aberta enquanto ela agarrava um punhado de coisas de seu guarda-roupa e ia para o banheiro para se trocar.