Capítulo 4
Pouco tempo depois estavam no Santuário. As meninas verdadeiramente encantadas com o lugar que era muito mais do que haviam imaginado, simplesmente mágico. Foram apresentadas à Atena que as recebeu como ilustres visitantes, dizendo que estavam ali como convidas e não como objeto de investigação, que apenas gostaria de contar com ajuda delas para solucionar o problema evitar que assuntos internos do Santuário fossem divulgados à revelia.
Elas foram informadas que ficariam no prédio do Salão do Grande Mestre. Quando foram apresentadas aos quartos que ocupariam os cavaleiros já haviam se dispersado e voltado ás suas casas. Os quartos eram simplesmente maravilhosos e tinham uma vista esplendida do Santuário e do mar Egeu. Estavam entusiasmadas comentando sobre os quartos luxuosíssimos, quando Annley e July pareceram completamente desconcertadas.
Annely já conhecia bem aquela sensação após o ocorrido no evento, mas para July aquilo era aterrorizante. Podia ver um Saga para lá de irritado andando pela sua casa como um animal enjaulado. Ouvia seus pensamentos como se eles fossem seus e a coisa foi piorando a tal ponto que era impossível ter um único pensamento organizado. Já Annely tentou novamente o truque das músicas, mas dessa vez não estava dando nenhum resultado e sua cabeça chegava a doer.
Em pânico as duas jovens saíram correndo do quarto, como se um imã as guiasse. Ka e Luna se puseram a correr atrás delas sem entender nada. Já haviam passado pela casa de Peixes e desciam loucamente pelas escadas de Aquário quando Annely trombou fortemente com algo metalizado. A dor no nariz foi alucinante, sem contar o tombo no chão com as costas batendo nos degraus da escada.
Sentiu que lacrimejava, mas logo veio o alívio, como se uma compressa gelada tivesse sido aplicada sobre o nariz machucado. Também sentiu uma leve massagem nas cotas. Mesmo com os olhos ainda marejados de dor ela conseguiu focalizar o rosto sério do aquariano. Não era o sério raivoso do carro, mas um sério preocupado e quase gentil.
- Fique tranquila, o nariz não quebrou apesar da batida. Deveria olhar por anda.
- Você que tem reflexos na velocidade da luz! Poderia ter evitado a batida se realmente quisesse. - A jovem mordeu o lábio nervosa, a visão dele na armadura de ouro de Aquário era algo inenarrável, ela mal lembrava do nariz com ele ajoelhado ao seu lado com o corpo quase todo em cima dela.
Vê-la morder o lábio e depois lambê-lo como se estivesse diante de um prato saboroso fez com que o cavaleiro se visse beijando os lábios vermelhos pelo choro. Irritado ele se levantou a puxando com rispidez, quase a derrubando de volta no chão.
- Não tenho culpa se minha presença a distrai! - Disse malicioso. Ela apenas fez uma careta e lhe mostrou a língua. Ele tentou não rir, mas não conteve o sorriso tímido.
Paralelamente a isso, um outro casal quase teve o mesmo trágico incidente que Annely e Camus. Quando July estava para trombar com a mesma intensidade no geminiano, o cavaleiro conseguiu evitar a batida segurando a jovem pelos braços. Mesmo assim, no impacto, seus rostos se aproximaram de tal forma que os lábios se tocaram um por um instante.
O geminiano teve que lutar contra a sombra que pedia para beija-la de verdade e, quem sabe, arrastá-la para o primeiro canto que tivesse próximo e fazer algo mais. July se afastou e fingiu dignidade, fazendo de conta que o contato não ocorreu. Logo estavam todos, inclusive Ka e Luna que assistiram à cena com os olhos arregalados, de volta à Sala do Mestre, era evidente que o cruzamento de mentes estava fora do controle daqueles quatro e algo tinha que ser feito para evitar a perda da sanidade de dois cavaleiros da elite de Atena, sendo que um deles atuava como Vice-Mestre.
Shaka, que já vinha fazendo pesquisas a respeito, havia encontrado algo sobre outros eventos semelhantes envolvendo não apenas cavaleiros, mas pessoas que de um modo geral estivesse em conflito. O feitiço criava uma relação mental entre as pessoas a ele destinadas, aparentemente para fazer com que pessoas avezas se aproximassem, forçando uma convivência. Ele não tinha certeza se a situação em questão estava relacionada a este encantamento, que era ligado a um dos atributos de Atena, mas era evidente que o cruzamento de pensamentos cessava quando os dois casais estavam próximos.
Após a reunião com o Cavaleiro de Virgem, ficou claro que a duas garotas não poderiam ficar no prédio do Salão sem que isso resultasse em cabeças confusas. O grupo então seguiu em direção das doze casas, onde os cavaleiros foram descendo as escadas até chegaram ao ponto limite em que poderiam se afastar das jovens sem qualquer problema.
Constataram que não havia meio não apenas nas garotas ficaram no Salão, como também era impossível que elas ficassem em outro local que não fosse a casa de Aquário e Gêmeos. As duas voltaram para o quarto que lhes havia sido preparado, com cara de enterro, bem, Annely tinha cara de enterro, July tinha cara de pânico! Luna e Ka ficariam onde estavam, pois não havia problemas entre as mentes delas e de qualquer cavaleiro.
Camus e Saga esperavam ansiosos do lado de fora do quarto em que as garotas estavam reunidas. Milo, Hyoga, Mu e Shaka faziam companhia aos dois.
- Não acho isso adequado, ter desconhecidos nas casas zodiacais é arriscado...
- Camus, a situação é circunstancial... Estamos perto de descobrir o porquê do cruzamento metal e esse contratempo será superado.
- Também não gosto nada dessa ideia, Mu, elas podem ter cara de inocentes, de meninas comuns, mas podem ser inimigas infiltradas dentro das doze casas. Acho mesmo absurdo que Atena as tenha colocado no Salão do Mestre, nossa deusa está se expondo demais!- Disse Saga irritado.
- Elas são meninas comuns, Saga, você aceitando isso ou não! Não estamos sob qualquer ameaça e as duas que ficarão nas casas apenas por ser impossível ficarem em outro lugar, sabem disso! - Disse Shaka com firmeza.
Camus respirou fundo e encostou-se na parede.
- Fica calmo, cara! - Disse Milo - Sei que a Annely é irritante, quer dizer, ela gosta de te irritar, mas olha pelo lado positivo, vai descobrir se o "Camus" existe mesmo...
Camus olhou com ódio para o amigo, enquanto os outros não conseguiram conter o riso, até Saga se sentiu mais relaxado.
- Peço apenas que a tratem com o máximo de educação e que evitem problemas. Ainda que não sejam inimigas, são pessoas de fora, pessoas alheias ao nosso mundo e que devem continuar assim o máximo possível. Evitem assuntos reservados do Santuário enquanto não puderem ficar definitivamente longe delas.
Saga olhou com cara de poucos amigos para Shaka, como se fosse preciso lhe dizer o óbvio.
- Que demora! - Falando isso o geminiano de dirigiu para a porta do quarto e bateu com uma força desnecessária.
Dentro do quarto as jovens se assustaram com a batida forte, July e Annely se olharam como se estivessem prestes a serem entregues a um carrasco.
- Não vamos poder enrolar para sempre! - Disse July. Annely concordou com um aceno de cabeça. Despediram-se das amigas e abriram a porta.
Do outro lado um Saga com olhos estranhamente avermelhados as olhava diretamente. July segurou no braço e tentou inutilmente se esconder atrás da amiga que era mais baixa. Annely também estava impressionada com o olhar do geminiano e se pôs ainda mais a frente da amiga. A jovem o olhou com uma cara tão brava que fez o cavaleiro recuar e afastar o olhar.
Saga tocou a cabeça, como se ela doesse e Camus ficou preocupado ao se lembrar que Saga havia dito que sua sombra parecia se interessar pela jovem escritora de fanfic. Ele não queria expor amigo, mas tomaria providências junto a Kanon para que o outro geminiano ficasse de olhos nas oscilações do irmão. Se Saga perdesse o controle poderia ser desastroso. Recuperando controle de si mesmo, Saga pegou a mala de July com máximo de gentileza.
- Sei que nossa situação é constrangedora, senhorita do Vale, mas lhe garanto que sua estada na casa de Gêmeos será o mais tranquila possível.
July ainda tentou se segurar na amiga, ela lhe apertou a mão em sinal de força e a olhou com firmeza, afirmando pelo olhar que tudo fiaria bem, mas antes a trouxe para perto e cochichou no ouvido da ex-ruiva, sem saber que os cavaleiros poderiam ouvi-las sem qualquer dificuldade:
- Seja firme July, seja dura! O lado maconhado dele não sabe lidar com uma mulher forte e determinada como você! Confia em mim, põe ele no lugar e qualquer coisa corre e grita feito doida! Ele é apenas um aluno mal educado, pensa nisso e põe nos olhos aquele olhar professora de "cê tá ferrado".
July riu e sentiu o ânimo renovado. Ela saberia lidar com ele. Estranhamente todos os cavaleiros ali presente ficaram admirados com a determinação daquelas duas. Shaka e Mu se olharam confiantes, Camus sentiu orgulho da pequena morena que dominava seus pensamentos e quase se esqueceu do quanto ela era inconveniente.
Foi com alívio que o grupo de cavaleiros e Annely viram o casal se afastar. Assim que eles saíram de vista, Annely olhou para Camus e com o sorriso maroto lhe entregando a mala.
- Não acha que está muito velha para uma mala assim?! – Disse irônico ao pegar a mala das Princesas.
- Sagitarianos nunca crescem!
- Pensei que seu caso era falta de comida da infância e não por problemas no seu mapa astral...
Ela fingiu não ter ouvido a provação e começou a andar sem esperá-lo.
- Vamos?! – Olhou para trás para chama-lo - Vai ser um prazer passar essa temporada com você.
E seguiu de costas para o grupo rindo de orelha a orelha. Camus também estava rindo, o que até assustou os demais. Camus sorrindo nunca era um bom sinal, não para quem o sorriso era direcionado. Todos ali sabiam, a casa de Aquário logo estaria glacial.
Milo ficou na porta do quarto depois que todos foram embora. Sentia o coração bater acelerado, mas sem aquela queimação esquisita. As palmas da mão suavam e ele se sentia ridículo. Era só uma garota como qualquer outra que ele já tivesse paquerado, não tinha motivos para aquilo. Ele era lindo, sensual, charmoso, ele era o Milo! E não tinha porque ficar ansioso. Reunindo forças, bateu na porta.
Luna abriu a porta e deu de cara com um escorpiano deslumbrante em sua armadura dourada. Os dois ficaram se olhando feito bobos sem falar nada, até que Milo falou:
- Então, o que quer?
Luna levantou uma sobrancelha e gargalhou:
- Foi você que bateu na porta, você é que tem que me falar o quer?
- Eu!...eu...Eu queria saber se está tudo bem, se está confortável.
- Estou sim, apenas achando ruim que eu não tenho uma desculpa para ficar na sua casa. Mas... fazer o quê, deixa eu ir, pois eu e a Ká vamos a praia que tem aqui perto, umas servas vão nos acompanhar.
Dizendo isso a garota deu um selinho no cavaleiro e fechou a porta na cara dele. O escorpiano ficou ali, feito bobo com a cara quase grudada da porta sem se mover nem um milímetro até que Seiya apareceu por ali, de camiseta, bermuda, chinelos e guarda sol nos braços.
- Algum problema Milo?!
- Tem um risco nessa porta...
Seiya o olhou incrédulo. Enquanto Milo reparava nos trajes do rapaz.
- Onde você pensa que vai?
- À paria. Atena considerou seguro que não apenas servas, mas também um cavaleiro acompanhasse as convidadas.
- NÃO! - O escorpiano gritou fazendo que Seiya arregalasse os olhos.
- Quero dizer, uma coisa assim deve ser acompanhada por um cavaleiro de ouro, e não por um...por um...
- Por um cavaleiro de bronze interinamente ocupando a cada de Sagitário? - Seiya falou provocativo enquanto se encostava na parede com os braços cruzados.
- E suas responsabilidades como Cavaleiro de Ouro? Vai deixar a casa de Sagitário desguarnecida?!
Seiya quase não se continha, o cavaleiro de Escorpião não falava nada com nada.
- Quer ir no meu lugar para ficar perto daquela lourinha que parece um bichinho de goiaba?
Milo sentiu um sangue ferver, bichinho de goiaba?! Luna era uma mulher linda e o fato dos óculos maiores que o normal a deixarem com cara de...de bicho de goiaba, não dava a ninguém o direito de chamá-la de bicho de goiaba!
- Veja como fala das convidadas de Atena! - Ele disse com uma falsa dignidade - E se você se considera incapaz de cumprir a tarefa designada por nossa deusa, eu não me importo em assumir o encargo.
- Claro Milo, uma tarefa própria para um cavaleiro de ouro da sua estirpe. Quer um conselho?! Vá de armadura, pois assim, se ocorrer qualquer incidente ao olhar a goiabinha de biquíni, ela nem vai perceber... - E dizendo isso o sagitariano apenas entregou o guarda sol para o outro cavaleiro e saiu assoviando.
No instante que o cavaleiro de Pégaso se afastou, as duas garotas saíram do quarto. Luna vestia um biquíni rosa e um short jeans curto e como Milo pensava, apesar de magrinha, ela tinha curvas no lugar certo e estava deslumbrante sem aqueles óculos deixando em evidência os olhos castanhos claros.
- Ainda aqui? - Ela perguntou com suavidade.
- Vou acompanhá-las! - Ele disse automaticamente.
- Assim? - Perguntou Ka.
- Estou em missão senhorita, e não em momento de lazer, devo me portar como um cavaleiro!
- Então vamos - Disse Luna alegre, mas antes se aproximou do cavaleiro e disse sussurrando - Pena que não poderei te ver de sunga.
Milo respirou fundo e pensou, Seiya estava certo, ele teria que ir de armadura.
O grupo seguia pelas doze casas e em Aquário o cavaleiro guardião da casa informou que Annely não poderia ir à praia por que isso o obrigaria a ir e ele tinha muitos afazeres para aquela tarde. A jovem estava na parte de cima da casa, onde ficavam os aposentos dos cavaleiros e nem soube da passagem das amigas.
Quando chegaram em Gêmeos tiveram uma estranha surpresa, Kanon já os esperava vestido com uma bermuda e sem camisa, pronto para ir à praia.
- Bem, eu estava rondando o Salão do Mestre no meu horário de patrulha quando vi uma bela garota na varanda de um dos quartos vestindo um biquini amarelo e laranja que me fez pensar... Isso só pode ser um convite, pois ninguém se arruma tanto para ir para praia para chegar lá e descobrir que se trata de uma praia semideserta onde ninguém vai aprecia-la.
No mesmo instante Ká o olhou com olhos faiscantes pela ousadia.
- Uma mulher não se arruma apenas para agradar um homem... Esse pensamento é medieval, não ligo a mínima que não tenha ninguém para reparar em mim, é até mais confortável.
- Querida, você pode até acreditar que não o faz para chamar atenção, mas faz, e como todo homem medieval eu sou um cavalheiro e não posso deixar uma dama decepcionada.
Dizendo isso, ele se aproximou oferecendo o braço que ela fingiu não ver e seguiu adiante. Ele correu até ela e cruzou um dos braços com o dela.
- Não seja assim, isso não é postura de uma dama educada!
Ela tentou se afastar novamente, mas ele não deixou e dois foram se esbarrando por todo caminho.
Luna apenas virou para Milo e sorrindo falou:
- Ela tá tão preocupada em defender suas ideias feministas que nem percebeu que ele confessou que a estava espiando trocar de roupa.
- Bem, ninguém mandou ela fazer isso na varanda num lugar cheio de homens! Aqui impera o machismo, ela vai arrancar os cabelos se tentar lutar contra isso! - De repente o cavaleiro parou de falar e olhou para jovem indignado. - Você não se trocou na varanda, né?!
- Claro que não! Tem coisas que só eu posso ver... E, talvez, um certo cavaleiro que mora na nona casa zodiacal...
- A nona casa é Sagitário!
Ela apenas sorriu e seguiu o casal brigão sem olhar para o contrariado escorpiano. Ela jamais contaria para ele que ficou ouvindo a discussão entre ele e o cavaleiro de Pégaso e que se divertiu muito com o desconcerto dele. Mas no fundo ela queria manter seu coração seguro, se deixasse ele se aproximar demais ela poderia ser perder nele, assim manteria as brincadeiras, os joguinhos e, com eles, o controle da situação.
CONTINUA
