Capítulo 5

A tarde na praia foi muito divertida. Mesmo aos trancos e barrancos e xingamentos, Ka e Kanon até riram muito um do outro.

Milo ficou o tempo todo de armadura resistindo dignamente, pois não poderia contrariar o que havia falado sobre estar em missão. Na praia ele teve oportunidade de sondar um pouco mais a personalidade de Luna e descobrir que ela era tímida e recatada foi interessante. Apesar dos joguinhos, ele percebeu que ela quase morreu de vergonha ao tirar o short quando decidiu nadar. Isso apenas o instigou mais, ele a teria, não importa o jogo que tivesse jogar, nunca havia desejado tanto uma mulher e sempre teve o que quis, dessa vez não seria diferente. Pelo menos, apesar do constrangimento, ele tinha certeza que ela não era nenhuma garotinha inocente, isso acabaria com seus planos, ele não era o homem certo para nenhuma virgem. Ele era um homem para curtir uma paixão e não para viver amor, bem, virgens merecem o amor, por isso corria delas.

Depois da praia, as meninas voltaram para o Santuário bastante animas e ficaram um tempo em Gêmeos conversando com July que parecia bem mais calma com a situação. Ela lamentou não ter ido a praia com a amigas e Saga fingiu não ouvir os lamentos. Ele poderia tê-la levado, mas isso seria muito arriscado para seu autocontrole.

Quando passaram por Aquário a casa estava tão fria que não tiveram o menor ânimo em tentar conversar com Annely. Passaram direto e decidiram que ligariam para ela depois que tomassem banho; quem sabe conseguiriam fazer algo juntas a noite?!

Ao ver as amigas de Annely subindo as escadas de sua casa, Camus decidiu que era hora de ir vê-la, e avisar que deveria se arrumar para saírem. Ele, Shura, Milo e Aiolia tinham o costume de irem a um bar local para jogar conversa fora, beber um pouco e curtir. Depois que Shura e Aiolia começaram a namorar, Shina e Marim também passaram a fazer parte do grupo.

Annely pareceu bastante contrariada em ter que acompanha-lo, resmungou algo sobre ele não ter facilitado para que ela saísse mais cedo com suas amigas... Mas como queria mesmo deixar aquela casa glacial, cujo único ambiente com a temperatura normal era seu quarto, respondeu que estaria pronta em meia hora.

No horário combinado a jovem apareceu no andar de baixo da casa vestida em um vestido vermelho, frente única, cintura marcada e uma saia larga não muito curta; calçava scarpins nude. Os cabelos estavam soltos e jogados para um dos lados, a raiz e franja eram lisas, mas o restante dos fios era uma massa de cachos definidos e lustrosos. Os olhos estavam marcados numa maquiagem bem feita. Camus estava vestido de forma casual, jeans, camisa polo e um sapatênis.

Ela passou por ele sem cumprimenta-lo indo para fora da casa, estava tremendo de frio e mal podia esperar pelo conforto da noite grega. Camus ficou surpreso ao ver que a jovem tinha uma das laterais do cabelo cortada bem rente à raiz, coisa que não havia percebido por ela estar com os cabelos presos tanto no aeroporto quanto no evento. Surpresa maior foi perceber que achou aquilo muito sexy. E ele se perguntava qual era o objetivo dela com aquele vestido obviamente provocante. Ao passar por ele, ele teve uma visão privilegiada das costas bem feitas, corbertas apenas por tiras cruzadas em tecido vermelho. Dava para perceber que ela se dedicava a alguma atividade física, embora muito femininos e delicados os músculos das costas eram definidos e bem desenhados. E aquela bunda! O vestido curto estimulava a imaginação... Bufou contrariado, se ela achava que poderia provoca-lo apenas com um vestido estava redondamente enganada, tão redonda quanto aquele... Maldita fosse!

O casal passou por Escorpião, onde se encontraram com o guardião da casa. Ao ver Annely, Milo lamentou não ter chamado Luna. Na verdade não a convidou em respeito ao amigo, sabia que ele ficaria deslocado no meio de tantos casais e na companhia da morena, que por sinal estava linda naquele vestido, se perguntava o que o aquariano estaria achando, mas considerou saudável não perguntar. Ao chegarem à quinta casa, o trio foi cumprimentado por todos. Ao observar quais seriam suas companhias, a jovem não conteve um riso de sarcasmo e falou enquanto se punha a acompanhar o grupo que já descia rumo a Câncer:

- Saem assim sempre? Em casais? Aioria e Marim, Shina e Shura, Camus e Milo...

Os dois casais não contiveram a risada, enquanto os dois amigos olhavam contrariados para a Annely, que apenas os ignorava.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Dizer que estava deslocada era pouco. E ela nem poderia dizer que os casais estavam incomodando na troca de carícias, pois não era verdade. Fato é que lá estava ela no meio de um grupo muito coeso de amigos, sendo ela a única peça fora do lugar. As pessoas até tentaram enturmá-la, especialmente as duas mulheres, mas mesmo assim estava difícil conter o desconforto. Se sentia uma intrusa, e, se pensasse bem, ela era isso mesmo. Sem que percebessem, salvo o aquariano que, sentando do outro lado, a vigiava de forma disfarçada, ela saiu da mesa e decidiu se sentar no balcão do bar para poder conversar com as amigas pelo WhatsApp sem se sentir vigiada.

Estava distraída, rindo dos comentários de Ká em relação ao comportamento de Kanon, o quanto ele era grosso, com cantadas francas e machistas, irritante, mas o que mais a fez rir foi Luna dizendo que ela estaria muito mais decepcionada se ele não fosse "grosso", se é que me entendem?! July parecia chateada com o fato de Saga a ignorar e mal lhe dirigir a palavra, enquanto a morena contava o quanto estava sendo desagradável estar naquele barzinho sem ter com que conversar de verdade. Perdida na conversa não viu quando um rapaz, mais ou menos da sua idade, se sentou ao seu lado do balcão.

- Saiu de casa para ficar de olhos fixos no celular? – Disse o homem em inglês.

A jovem levantou o olhar para dar de cara com um único cavaleiro de bronze que ela ainda não tinha visto, o lindo e perfeito Ikki de Fênix. Se perguntou se ele sabia quem era ela, mas pelo forma que ele se aproximou, claramente querendo flertar, ela teve certeza que não. Tentou não sorrir de satisfação, a vingança, sem dúvida, é um prato que se come frio. Ela podia ter que passar o dia todo trancada na geladeira aquariana, mas não deixaria que suas férias virassem com completo desastre por isso.

- Estava esperando que algo mais interessante chamasse minha atenção. – Disse olhando diretamente para ele enquanto guardava o celular na bolsa, também falando inglês, mesmo sabendo que o jovem a entenderia se tivesse falando em português.

- Sou Ikki! – Falou enquanto chamava o barman – Bebe, algo...

- Annely! Bebo sim, uma cerveja! – Ela se esforçava para conter o riso, "jura que você é o Ikki, nem parece...".

- Perfeito, pensei que fosse pedir alguma coisa fresca!

- Gosto mesmo de cerveja.

Os dois emplacaram uma conversa animada, ela rindo por dentro dele dizer que era um agente de uma polícia especializada, um belo jeito de não dizer a verdade sem ao mesmo tempo mentir. A medida que a conversa ia ficando mais descontraída ele ia se aproximando, até que ficaram encostados, falando um no ouvido do outro.

Annely não havia percebido que a mesa em esteve sentada com o grupo inicial estava mais cheia, pois nela agora estavam Shun, Hyoga, Shiryu e Seiya, que chegaram junto com Ikki. Assim que se sentaram eles se deram conta de Ikki já os havia deixado e se aproximado de uma jovem que estava sentada no balcão ao celular, ao perceberem de quem se tratava todos olharam para Camus, quase que institivamente. Camus olhava para o balcão como se o pudesse congelar apenas com o olhar.

- Vocês não tiveram a inteligência de informar ao Fênix que a jovem que ele pretendia abordar está sendo investigada pelo Santuário por espionagem?

- Só agora que vimos que ele está com a senhoria Raccos, Mestre Camus... A Saori disse que elas são convidadas, não?!

Camus não respondeu, estava mesmo era irritado com o comportamento da jovem. Ela sim sabia perfeitamente com quem estava descaradamente flertando! Mas tinha sérias dúvidas que tivesse se apresentado da forma correta ao leonino. Aquilo apenas aumentava suas suspeitas, poderiam até ser mulheres comuns, mas isso não impedia que fossem de fato espiãs. Já havia desaprovado o comportamento de Milo por sua proximidade e interesse na tal de Luna, e agora teria que alertar ao cavaleiro de bronze que estava quase devorando a brasileira com os olhos. Se levantou e foi até o casal que estava tão próximo que seus lábios roçavam um no outro quando falavam.

- Interrompo algo?

Ikki se afastou da moça com quem estava prestes a trocar um beijo para olhar com ódio para o cavaleiro de Aquário, o que ele estava fazendo ali?

- Claramente que sim! O que quer, Aquário? – As palavras saíram quase cuspidas e ao ser interpelado em português pelo aquariano o jovem imediatamente começou a se manifestar na mesma língua.

- Já se apresentou ao cavaleiro de Fênix, senhoria Raccos?

- Claro que sim, não costumo beijar homens que nem sabem meu nome... Está incomodando, eu fiz de tudo para não perturbar sua noite com seus amigos, agora será que pode deixar que eu aproveite minimamente a noite e minhas férias?!

Ikki olhou para os dois com estranhamento.

- Vocês se conhecem?

- Infelizmente sim! – Disseram os dois ao mesmo tempo.

- Fênix, essa é uma das jovens que está sendo investigada pelo cruzamento de mentes...

- A ficwriter? Interessante... Dança senhorita?! Lambada, aqui eles gostam de tocar ritmos típicos de vários países.

- Tipicamente dos anos 80, né? Nossa, eu nem tinha nascido quando isso estava na moda, mas confesso que adoro! – Ela respondeu dando mão à do cavaleiro que já estava estendida num convite. E sem olhar para o aquariano os dois seguiram para a pista de dança sem antes o rapaz entregar ao cavaleiro de ouro a bolsa da jovem.

- Toma conta pra gente!

Totalmente contrariado e ponto de explodir o defensor da décima primeira casa voltou para a mesa onde se sentou jogando a bolsa de Annely na mesa, mas a vontade que teve foi de joga-la no chão e pisotear até não existir mais bolsa alguma! Todos ficaram em silêncio, estava claro que dizer algo ao cavaleiro de Fénix apenas o instigou a ser mais atrevido, afinal, o que ele tinha a ver com aquela situação bizarra de mentes cruzadas? O grupo tentou voltar a estabelecer uma conversa amigável e descontraída, mas as atenções estavam, de um modo geral, no casal que dançava sensualmente na pista de dança do lugar.

Logo os dois estavam se beijando. Dos lábios Ikki passou a avançar sobre o pescoço delgado e depois deu pequenas mordidas nos lóbulos das orelhas, já Annely também se aventurava pelo pescoço do cavaleiro, mordiscando... O pessoal da mesa não sabia onde enviar a cara, no fundo era estranho ver a cena, não pela situação em si, era comum ver o cavaleiro de Fênix com alguma garota nas noites atenienses, mas vê-lo com estrangeira era como vê-lo pegando a mulher do Camus, mas ninguém tinha coragem de verbalizar o que sentia, pois sabiam que era uma coisa absurda!

Fato é que o divertimento foi minguando ao ponto de não terem mais qualquer clima para permanecerem no bar. Tentaram se distrair, falar amenidades, mas a situação era muito constrangedora. Passada uma hora, o grupo decidiu ir embora, Hyoga foi o escolhido para ir avisar a brasileira que tinham que ir.

- Lamento incomodá-los, mas a senhorita compreende que o pessoal já quer ir e como você tem que ir com o mestre...

- Por que tem que ir com o "Coração Gelado"?! – Ikki perguntou enquanto abraçava a jovem por trás. – Diga ao Camus que eu posso cuidar da "investigada", prometo manter a língua dela muito ocupada para que ela não saia contando os segredos do Santuário por ai...

Annely riu com o comentário, mas sabia que não poderia ficar, mesmo que a proposta de Ikki fosse por muito tentadora.

- Tenho que ir, estou hospedada em Aquário e não posso ficar longe dele...

- O cruzamento de mentes! Seiya comentou comigo... – Ele se aproximou da jovem e cochichou em seu ouvido, sabia que os outros cavaleiros poderiam ouvir se assim quisessem, mas nem ligou – Sei que ficou comigo muito para provocar o Aquário, mas saiba que me divertir muito e sempre estarei disponível para irritá-lo, nunca foi tão gostoso irritar aquele empertigado. – Voltou a beijá-la com certa intensidade e se despediram.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Assim como na ida, os dois casais foram embora num carro que era dirigido por Shura. Os cavaleiros de bronze estavam todos juntos e deram o próprio jeito de voltarem para o Santuário. Annley voltava com Milo e Camus, este dirigindo e ela ao lado trocando mensagens com as amigas:

"Peguei o Ikki! #aindabemqueamarfnaoveio!"

"Como assim?!" - July perguntou incrédula.

Quando estava digitando a resposta, toda risonha para o profundo ódio do cavaleiro ao seu lado, chegou um áudio que ela sem querer ativou.

Pegou aquela coisa linda e perfeita do Ikki?! Você é uma fdp, Annely Luana! Ai, amiga, conta tudo, ele tem pegada?! Tem cara, né?! - Era a voz da Luna, o que fez Milo quase pular no banco traseiro e se aproximar para ouvir melhor.

Mal teve tempo de se recompor e outro áudio.

O Milo foi?! Ele não pegou nenhuma piriguete, não né?! E o Camus, levou numa boa você ter ficado com o pássaro de fogo?!

Annely tinha vontade de matar Luna, estava confusa e não conseguia para de ativar os áudios, enquanto ainda recebia mensagens de July e Ká perguntando se ave fênix era quente mesmo.

- Parem, vocês vão me deixar maluca! Resposta um - Não o Milo não ficou ninguém! Resposta dois – Foda-se para o Camus que está com a mesma cara de paisagem de sempre! Reposta três - Claro que sim!

Ao ouvir o que a jovem respondeu em áudio para as amigas o aquariano acelerou o carro. Queria chegar o mais rápido possível ao Santuário e parar de ouvir aquela risadinha irritante de mulher quando quer dar! A simples lembrança de que ainda teria que subir todas as escadas até a sua casa na companhia da jovem fez com que tivesse vontade de congelar o celular dela e jogá-lo pela janela.

Milo se contorcia de tanto rir no banco de trás. Claro que era um riso silencioso, mas ele nunca havia conhecido alguém que fosse tão capaz de tirar a paz de Camus como a jovem morena fazia. Era cômico! Ele sabia tudo que estava passando pela cabeça do amigo e estava surpreso dele ainda não ter tirado o celular da mão dela e jogado longe!

- Meninas, nesse momento o Camus quer atingir a velocidade da luz com o carro! Acho que, afinal de contas, ele ficou irritado sim, pois na cabeça doente dele eu não tenho o menor direito de me divertir nas minhas férias, pois sou uma espiã que vou entregar para todo o mundo que ele não é tão frígido quanto a gente pensava...

Outro áudio, esse ela fez olhando diretamente para ele! Também estava irritada, ela tinha que ter passado a noite beijando ele e não o Ikki, embora ela não tivesse nada a lamentar a respeito. Estava com raiva por saber que a raiva dele não tinha nada a ver com ciúme, mas apenas com vergonha pela exposição.

De repente uma frenagem brusca.

- Para com isso agora mesmo! Se a sua frustração sexual está num ponto tal que, além de escrever pornografia barata, precisa de se expor ao ridículo como está fazendo agora, use esse maldito telefone para ligar para o Fênix, a mim pouco importa que ele dê um jeito no seu fogo no rabo lá em Aquário! Apenas pare de me expor, ou vou pegar essa bosta de celular e quebrá-lo em mil pedacinhos congelados!

Annely sentiu um nó na garganta e os olhos lacrimejarem no mesmo instante! Teve vontade de meter a mão na cara dele, mas simplesmente guardou o telefone na bolsa e se ajeitou no banco olhando para o outro lado sem conseguir conter as lágrimas. Estava com raiva dele, mas tinha mais raiva dela, sabia que seu comportamento tinha sido infantil, uma tentativa boba de chamar a atenção e para que, já não estava suficientemente demonstrado que tudo o que ele sentia por ela era desprezo?!

Milo estava com os olhos arregalados e não sabia o que fazer, na verdade ele sabia que o melhor a fazer era continuar a fingir que não estava ali. De tudo aquilo ele só teve certeza de uma coisa, Camus podia estar agindo como se sentisse irritação pela exposição e brincadeiras, mas Milo o conhecia o suficiente para saber que ali estava outro sentimento, um que Camus não queria aceitar, por isso a reação raivosa. Se ele não ligasse para o evento em si, para o fato de Annely ter ficado com outro homem na sua frente, ele não teria reação nenhuma as provocações dela, simplesmente a trataria com sua indiferença treinada. Ele apenas não sabia definir se a raiva era pela situação toda, pelo cruzamento de mentes e o fato de ter que conviver forçadamente com uma moça, ou se era por, no fundo, querer estar no lugar do cavaleiro de Fênix.

Os três chegaram mudos ao Santuário e mudos subiram as escadas. Após chegarem à casa de Escorpião, Camus passou a imprimir velocidade aos seus passos, ficando o mais distante que era possível da sagitariana. Tanto que quando ela chegou à Aquário, ele já havia sumido em seu quarto. Ela tremia dos pés à cabeça, a sensação térmica estava muito pior do que quando haviam saído. Mesmo na parte de cima a casa estava embaçada por uma neblina gelada.

Estava sem os sapatos, pois era impossível manter-se calçada após toda aquela escadaria. Segurando os sapatos e se abraçando ela foi até o quarto que ocupava, ansiando pelo seu cobertor quentinho. Girou a maçaneta e nada! A porta não abria, passou a empurrá-la com a lateral do corpo e mesmo assim a porta não cedia, era como se ela fosse feita de chumbo e não de madeira.

Começou a se desesperar, aquilo não podia ser sério, será que ele havia trancando porta do quarto para deixá-la morrer congelada?! Ele não seria tão sádico, além do mais, ele era responsável pelo bem estar dela perante todo o Santuário. Bufou nervosa, mesmo não querendo, ela sabia que teria que pedir ajuda, se ficasse ali morreria, ela já sentia dificuldade em respirar.

Ele ouviu batidas na porta e não conseguiu acreditar no nível de impertinência da garota. Como depois de tudo ela ainda tinha coragem de vir lhe incomodar?! Estava determinado a não atendê-la quando as batidas ficaram mais insistentes, como se ela estivesse se jogando na porta.

- Camus, pelo amor de Deus! Abre!

Ele quase não conseguiu ouvir súplica, pois ela estava com voz falha. Era só o que faltava, ela querer pedir perdão chorando! Como era patética!

- Não consigo entrar no meu quarto!

A frase saiu num fio de voz, mas ele ouviu perfeitamente, pois tinha aguçado a audição para conseguir perceber melhor o que estava acontecendo.

- Merda!

Ele abriu a porta no mesmo instante e ela caiu quase desmaiada em seus braços. Estava roxeada e tremia dos pés à cabeça.

- Senhorita, senhorita! Annely! - Ela o olhou, mas não conseguia falar nada, pois os tremores não deixavam.

Ela tinha que ser aquecida imediatamente, ou aquele quadro poderia levar a falência de alguns órgãos. Coloca-la no chuveiro quente era a melhor e mais rápida ideia, não fosse o fato de que ao sair ela novamente estaria em um local frio, mesmo seu quarto não sendo tão frio quanto o resto da casa, ele ainda era frio para uma pessoa comum desagasalhada. Podia imaginar o que tinha acontecido. Ela havia fechado a porta do quarto que ocupava ao sair e os quartos das doze casas, por questão de segurança, somente abriam por dentro. Apenas o cavaleiro de ouro guardião, que era trocado toda semana, poderia retirar a proteção para permitir a abertura externa e apenas o próprio incumbido da tarefa sabia quem era o guardião do momento. Assim ele teria que convocar os doze cavaleiros para descobrir qual deles estava naquele momento responsável pela proteção interna das casas.

- Annely, não tenho como abrir seu quarto e muito menos tenho cobertas aqui, também não posso esquentar suficientemente a casa! Posso aquecer um pouco meu próprio cosmo, mas ainda assim seria pouco para restabelecer sua temperatura.

- Tá muito frio! - Ela conseguiu falar, pois estar no colo dele já trazia um pouco de conforto.

Ele a levou até a cama, não tinha outra a coisa a ser feita e já estava resignado com a situação. Bem, ela parecia entender um pouco sobre tratamentos para hipotermia, pois tinha escrito algo sobre o que ele iria fazer num fic em que ele ficava com a mãe do Hyoga... Pelos deuses, era muita criatividade!

Depois de deita-la, ele se despiu rapidamente, ficando apenas de boxer preta. Pegou um par de meias e colocou nos pés gelados da jovem, aquilo ajudaria, ainda que de forma débil. Assim que terminou de calça-la ele se deitou junto a ela. A abraçou e ficou esfregando os braços para repor o calor perdido, mesmo tendo um cosmo gelado seu corpo tinha a temperatura normal de qualquer ser humano.

- Se sente um pouco melhor?

Ela tremia, freneticamente, mas balançou a cabeça em sinal de positivo.

Ele jogou um lençol fino sobre os dois e continuou a abraça-la, tentando passar o máximo de calor. Passados alguns minutos ela continuava a tremer e a cor ainda não havia voltado, ele sabia que para dar realmente certo o torso dos dois deveria estar despido. O contato das peles aumentaria a sensação térmica, coisa que o tecido do vestido impedia apesar das costas nuas.

- Vou ter que tirar seu vestido!

- Mas eu estou só de calcinha! - Ela disse ainda completamente trêmula.

Para que ela foi dar aquela informação! A simples menção ao fato dela estar praticamente nua sem o vestido foi o suficiente para que o corpo dele reagisse de uma maneira não muito adequada para a situação em que se encontravam. Ele respirou fundo. O que tinha que ser feito, tinha que ser feito. Baixou o ziper traseiro da saia do vestido, desfez o nó nas tiras depois a colocou de costas na cama para poder puxar a roupa pelas pernas. Ele pedia aos céus para que ela não o olhasse. Ela disse que estava usando uma calcinha, mas aquilo não era uma calcinha, era uma tira minúscula, talvez menor que um tapa-sexo. Se ele já estava excitado com a mera insinuação, agora se sentia latejar e se perguntava como iria abraça-la sem que ela percebesse.

Annely estava morta de vergonha, mesmo um pouco aturdida pelo frio, ela tinha plena consciência de tudo que estava acontecendo, que estava praticamente nua na frente do homem que mais desejava no mundo, mas que sentia por ela apenas desconforto e raiva. E ainda por cima acabaria por dever sua vida a ele. Ao menos teve forças para tapar os seios. Para esquentá-la ele não precisava vê-los!

Ele voltou a deitar junto a ela a abraçando por trás e jogando novamente o lençol sobre os dois. Entrelaçou as pernas nas dela, para trazer o máximo de aproximação e, com isso, o calor necessário.

Annely arregalou os olhos ao perceber um volume duro e absolutamente suspeito quase na altura de suas nádegas. Se aquilo era ele desanimado ela nem queria imaginar o que significaria ele em estado de animação. Senhor, era muito duro! Ela se sentiu esquentar imediatamente, quase acabanando com todo o mal estar que gerava os tremores. Na verdade ela começava suar só de imaginar se ele estaria mesmo excitado.

- Viu como assim é mais rápido, você está bem mais quente agora...

- Hum rum! - Não tinha a menor condição de falar nada. 'Na verdade estou quase fervendo, isso sim!" Pensou maliciosa.

- Vamos ter que passar a noite toda assim? - Consegui perguntar.

- Assim que a sua temperatura estiver normal, o que acho que já está, poderemos nos vestir, vou te emprestar um blaiser para que fique mais quentinha. Mas, como disse, não tenho cobertas, teremos que dormir mais próximos para que o frio do quarto não a incomode.

Ele foi quase meigo e a jovem derreteu. Não acreditava que ele pudesse ser tão gentil depois daquela noite desastrosa.

- Me desculpa por ter te exposto perante minhas amigas, mas é que você é tão irritante e faz tanta questão de mostrar que eu estou incomodando...

- Não deveria ter gritado com você!

Ele não sabia por que estava gostando daquela proximidade, não era apenas o fato de achá-la atraente, estava surpreso em perceber que a companhia não era de todo desagradável. Ele se aconchegou ainda mais a ela e dessa vez ela não teve a menor dúvida de que ele estava excitado mesmo.

- Está se aproveitando para ficar se esfregando em mim?!

- Você é uma peste ingrata!

Ela se virou para ele.

- Devo ser grata por você está passando o seu... seu..., na minha bunda?!

- O nome é pênis, senhorita, como pode ser fácil me descrever te penetrando fundo, mas ser difícil dizer pênis?

Ela ficou sem fala! Afinal nunca, nem nas mais sórdidas fantasias, imaginou Camus de Aquário sendo tosco e que aquilo poderia ser tão provocante. Virou de costas para ele novamente, tentando conter a própria excitação.

Ele se levantou para buscar a roupa que havia prometido. Jogou a parte de cima de um terno para ela e voltou a se deitar.

- Eu não sou um eunuco, senhorita! Mas o fato de ter ficado excitado não quer dizer que eu realmente queira transar com você, foi uma simples reação biológica. Vai ficar com frio mesmo com o terno...

- Então está querendo me dizer que ou eu morro de frio ou fico com o seu..., o seu...

- É pênis, senhorita, pau, caralho, cassete, pinto, membro, isso! Você adora escrever membro!

- ... Seu pintinho se esfregando em mim a noite toda!

Ele se virou de costas para ela ignorando o comentário.

Ela já voltava a sentir frio, mesmo se enrolando no lençol todo.

- Vou congelar aqui...

- Só porque você é teimosa... Já disse que é apenas uma reação biológica... mas não tenho controle sobre isso...

- Você está se divertindo as minhas custas!

Ele sentiu a voz embargada, não queria que ela começasse a chorar, a noite já estava sendo suficientemente ruim. Voltou a se virar para ela e a puxou para perto de si, se colocando debaixo do lençol junto a ela. Abraçou-lhe dando sinal de que a discussão acabava ali e logo os dois estavam dormindo.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Já passavam das duas da manhã e havia pelo menos quatro que Juliane rolava de um lado para outro da cama. A simples ideia de estar tão próxima ao cavaleiro de Gêmeos a deixava completamente insone. Era a primeira vez que ela realmente parava, naquele dia, para pensar em tudo que estava acontecendo. Ele existia! E leu tudo que ela já havia escrito sobre ele e parecia não gostar nem um pouco, o que não a surpreendia, também não gostaria de se sentir tão exposta. E ele não gostava dela, era educado, mas deixava evidente o descontentamento com a sua presença. Contudo quem parecia gostar dela era o Ares! Riu com a constatação, mas ao mesmo tempo aquilo a deixava apavorada.

Como o Santuário permitia que ele continuasse a atuar como cavaleiro tendo tamanha falha de caráter? Aquela criatura, ou seja lá o que fosse, tinha traído Atena, dominado o Santuário e espalhado o mal por onde pôde. E se ele tomasse o controle novamente, e se ele viesse a lhe fazer algum mal. Aquele pensamento foi angustiante, a jovem se levantou apavorada, sentia muito, muito medo mesmo, quase que de forma irracional.

Sentiu, de repente, que ele já havia lhe feito mal! Algo horrível que ela não sabia o que era. Sentia como se todos os seus sonhos lhe fossem tirados... Sua vida arrancada na flor da juventude.

O coração estava disparado, o rosto úmido de suor e lágrimas. Era um verdadeiro ataque de pânico. Respirou fundo e fechou os olhos tentando se acalmar e em sua mente veio a imagem de Annely lhe dizendo que ela era mais forte que ele.

- Isso, Juliene, você é muito mais forte que ele. Ele é só uma criança mal educada! - Dizendo isso em voz alta para se convencer das próprias palavras a jovem saiu do quarto decidida a tomar um copo d'água para se acalmar definitivamente.

Ela estava encostada na pia de frente para uma grande janela que lhe fazia fundo e estava tão admirada com a vista que não percebeu a chegada de outra pessoa. Só de deu conta disso quando sentiu duas mãos masculinas em sua cintura e lábios nos seu pescoço.

Ela retesou, sabia muito bem quem era e que personalidade estava ali.

Lembrou novamente da frase a amiga, se parecesse assustada, ele ganharia. Então procurando toda a frieza que pudesse existir em si ela permitiu que ele continuasse o beijo no pescoço como se fosse indiferente ao ataque, mas não deixou de sentir um arrepio quando do pescoço ele seguiu para a parte sensível atrás da orelha.

Respirando fundo, até para despistar um gemido pela carícia, a garota de virou para encará-lo de frente.

- Não deveria ter pintado seus cabelos, gosto do vermelho, lembra sangue e desejo...

- Sério!? Lamento decepcioná-lo mais esse é o tom natural dos meus cabelos, apenas me cansei de tingi-los. É que vermelho me lembra olhos maconhados e isso não me agrada em nada! Então tira as patas de mim se não quiser que eu grite tanto que vai ficar não apenas com os olhos, mas com as orelhas vermelhas.

O coração batia tão freneticamente e as palavras saíram tão rápido que ela nem as percebeu. Rezava para que ele não percebesse o nervosismo e o quanto ela não estava sendo ela mesma.

As palavras ríspidas e irônicas chocaram a ponto de Ares não mais conseguir manter o controle sobre a mente do geminiano.

Ele tocou a cabeça e se encostou numa mesa próxima, voltando ao normal. Mesmo estando dominado ele tinha exata consciência do que havia acontecido ali. Ele olhou para a jovem que, apesar da firmeza que havia demonstrado, estava claramente em pânico e o olhava como se ele fosse um monstro. E aquilo doeu, doeu como nunca, era como se ele tivesse traído algo mais sagrado que Atena mesmo que não soubesse o motivo.

- Me desculpe, Juliane! Acredite, eu não quero lhe fazer mal, mas não sei a razão dele quer tanto você! Não é como antes, como quando eu, eu... Eu trai o Santuário. Por isso não queria que viesse para cá...

- Lamento por você, Saga, mas tão pouco posso te ajudar... Ele é você e apenas você pode acabar com isso!

Naquele momento ela descobriu que era muito mais fácil encarar um Ares que o olhar carente dele. Ele havia se sentando umas das cadeiras da mesa e isso o deixava quase que na mesma altura que ela, apenas poucos centímetros mais baixo.

- Agradeço pelo que fez, ajudou a afugentá-lo - Ele sorriu e ela quase babou, mas se segurou! Sensibilizada com o estado emocional dele ela se aproximou tocando seus cabelos em sinal de carinho e conforto.

- Sei que é mais forte que ele, sempre foi!

Nesse momento ele a pegou pelo braço e trouxe para seu colo. Ela ficou apavorada, mas dessa vez não havia nenhum olho vermelho lhe espreitando, apenas belos olhos azuis brilhantes e magníficos.

- Não te consolo mais, á tão safado quanto ele! - Ela disse raivosa, mas sem tomar nenhuma iniciativa para sair do colo dele.

- Mas você gosta dos safados, eu sei! - Dizendo isso, ele de deu um beijo suave e provocante. Não aprofundou muito, ele queria apenas marcar território, dizer para si mesmo que apenas Saga tocaria naquela mulher!

July não teve qualquer força para reagir, como ela já havia percebido, brigar com Ares era fácil, resistir a Saga era missão impossível!

Ele mesmo parou o beijo e com delicadeza a fez se levantar dando um beijo suave em sua mão:

- Vá dormir! Lhe garanto que ele não vai te importunar. - E olhando profundamente nos olhos completou - Nunca mais vou te machucar, Nunca!

O Olhar dele era sério, como de um verdadeiro cavaleiro de Atena. Ela assentiu, mesmo sem entender o teor das palavras dele.

- Eu não sou mais aquela tola ingênua, eu também garanto que nunca mais vai me machucar!

Ela não sabia o que a levou a falar assim, mas sabia que para ambos aquilo fazia sentido. Mesmo agitada pelo beijo, ela estava muito mais calma agora, como se tivesse começado a por as coisas no lugar. Feliz ela seguiu de volta par seu quarto, e quando deitou na cama, dormiu sem nem perceber.

CONTINUA