Capítulo Sete – Boas Intenções

O castelo todo se agitou quando um aviso foi anexado no mural do salão principal. O Baile das Bruxas do dia trinta e um estava se aproximando. Os alunos mais novos ficaram nervosíssimos.

– Vai ser bom esse baile acontecer. – disse Ronald – Acho que a gente precisa de um pouco de diversão.

– Já temos diversão nos finais de semana, Ron. – disse Hermione – Pra mim é o suficiente para espairecer.

– Isso é verdade, Mione, mas um baile é bem diferente de Hogsmeade. – discordou Harry

– É o seu aniversário, não é, Rafa? – perguntou Hermione

Rafaela sorriu – É sim! O melhor disso é eu mesma não precisar me preocupar em preparar uma comemoração, o próprio baile vai ser minha festa de dezoito anos.

Ao contrário do começo das aulas, quanto a cada período livre todos aproveitavam para descansar, os cinco amigos agora tinham muito mais energia e pegaram o hábito de aproveitar o tempo livre se reunindo na sala comunal da sala especial apenas para ficarem juntos e bater papo. Era uma hora da manhã. Além deles, Charlie estava sempre junto. Ele trabalhava com os professores, mas vinha ficando muito mais próximo dos alunos, principalmente porque entre eles estavam seus dois irmãos caçulas, e também vinha se dando cada vez melhor com Harry, Hermione e Rafaela. Como os outros formavam dois casais, ele e Rafaela vinham ficando mais amigos com o passar dos dias, às vezes aproveitando o tempo sozinhos quando os outros estavam juntos.

– Eu ouvi pelos corredores todos os aluninhos preocupadíssimos em arrumar par pro baile, como se fosse o fim do mundo. – disse Charlie, também na sala comunal

– Isso foi o fim do mundo pra mim quando eu tinha a idade deles. – disse Harry

– Pois é, eu achava que eu ia morrer. – concordou Ronald

Hermione beliscou o namorado – Não me convidou porque era burro!

Ginny riu – Estou até imaginando as menininhas malucas pra tentar imaginar quem vai convida-las, sonhando que fulano ou sicrano o faça. Eu mesma fiz isso.

Harry ficou meio vermelho – Se eu não tivesse sido tão burro, teria te convidado antes.

– Ah, o que importa é agora, amor...

E os dois se beijaram.

– Pode parar! – disse Rafaela, rindo – Nem vem com essa melação, heim?

– É, coitada da Rafa, está carente. – disse Ronald e foi beliscado mais uma vez pela namorada

– É, coitada de mim. – ela respondeu caçoando

Charles riu – Que absurdo! Você, carente? Onde estão os homens dessa escola?

Ginny se levantou imediatamente, falando alto – Ah, eu vou dormir!

– Também vou, vamos Rafa? – disse Hermione, levantando-se

Rafaela – Vamos sim. Deixar os meninos sozinhos pra nós podermos fofocar em paz!

No último final de semana antes do baile, Rafaela desceu sozinha, depois dos amigos, do salão da Gryffindor para o salão principal. Pretendia tomar café com eles e ir para Hogsmeade, não que quisesse muito ir pra lá, mas porque precisava comprar ingredientes para algumas poções. Saiu sozinha do castelo e, enquanto caminhava pela estrada que levava ao povoado, foi alcançada por um grupo de Slytherins que caminhavam mais depressa. Vários passaram por ela rindo, porém Draco Malfoy e os dois amigos, também acompanhados por Pansy Parkingson, começaram a andar em volta dela. Com as mãos no bolso, Rafaela segurou com força a varinha.

- E então, Salles? – começou Malfoy – Voltou pra Hogwarts porquê? Não acabou o seu intercâmbio?

- Isso não te interessa. – ela respondeu, sem deixar de andar

- Na verdade interessa sim. Deve ter algo muito interessante que te fez querer passar mais um ano aqui.

- Não, Malfoy, qualquer que tenha sido o motivo, não diz respeito a você. Mesmo que você não saiba, o mundo não gira ao seu redor.

- Vocês estão escondendo alguma coisa. – ele disse, ignorando. – Você e os outros. Eu conheço aquela ralé há sete anos, eu acho que os conheço o suficiente pra saber que estão escondendo alguma coisa. O que é?

- Não estamos escondendo nada. Porque você acha isso?

- Não te interessa. – ele disse e parou, fazendo Rafaela parar também dando-lhe um leve empurrão no ombro, e apontou o dedo pra ela, de perto – Mas eu vou descobrir. Estou te avisando, eu vou descobrir.

Acompanhado dos dois amigos grandalhões, voltou a caminhar pela estrada. Pansy foi atrás deles, olhando com um sorriso maldoso para Rafaela.

Mais tarde, ao encontrar os amigos no bar, contou o que havia acontecido e todos pareceram preocupados.

- Como que ele pode saber? – perguntou Ronald – Ninguém mais na escola toda desconfia que tem alguma coisa diferente acontecendo.

- Não se lembra do que eu ouvi ele falando com os outros no trem? – disse Harry – Não é através de nós que ele sabe, é através do lado de lá mesmo. Ele não pode saber que nós sabemos de algo.

- Se ele souber que nós sabemos e ele não, ele vai pirar. – disse Hermione – Malfoy com raiva não vai ser nada bom pra nós.

- Mas o que a gente pode fazer? – perguntou Ginny – Não tem como disfarçar e ser mais discretos do que nós temos sido esse tempo todo.

- Temos que ficar de olho o tempo todo por onde andamos. Ele pode estar nos seguindo. – disse Harry

Em seguida, Charlie chegou para acompanhá-los e todos se distrairam do assunto.

- E você, está melhor? – ele disse baixo para Rafaela, quando todos conversavam outro assunto

- Melhor do quê?

- Aquele outro fim de semana aqui, lá no pub, você não estava muito bem, estava?

- Ah... É verdade, não. Mas estou melhor sim. Não se preocupe. – ela respondeu sorrindo

- Pode contar comigo se precisar de alguma coisa, ok? – ele disse sorrindo e fazendo um carinho em seu ombro

Quando as garotas saíram da mesa, mais algum tempo depois, para ir ao toalete, deixando Harry e Ronald sozinhos com Chalie, este foi imediatamente interrogado.

Charlie riu – Calma, calma, que alvoroço é esse?

– Você está afim dela, não está? – disse Ronald, sorrindo feliz

– Pode até ser... Vamos ver isso no baile.

– Porque no baile? Não pode ser antes? – perguntou Harry

– Pode, claro, mas o baile tem um clima mais propício.

- Ótimo! – disse Ronald

- Mas porque essa torcida toda? – perguntou Charlie

- Ela anda meio pra baixo e fica incomodada de sair só com a gente. Se ela estiver com você... – respondeu Ronald

No banheiro, o assunto era o mesmo.

- Está na cara, Rafa! – dizia Ginny – O Charlie está meio afim de você.

- Eu acho que percebi também... – ela disse, retocando a maquiagem em frente a espelho – Mas pode ser só amizade, não sei, nós dois nos demos muito bem.

- Pode, mas eu acho que é intenção mesmo. – disse Hermione – O quê você vai fazer?

- E se ele te convidar pro baile? – perguntou Ginny

- Não sei... vai ser chato ter que dizer não pra ele. Mas de qualquer forma seria bom não precisar ir sozinha.

- Mas se você for com ele, ele vai tentar ficar com você.

- As coisas seriam tão mais fáceis – disse Hermione – e a sua história fosse com ele, e não com o Remus.

Rafaela parou o que estava fazendo e olhou para Hermione – Como é que é?

- Ahm... – Hermione gaguejou – Desculpa, Rafa, mas é verdade.

- Talvez, mas a minha história não é com ele, e é com o Remus sim. E isso não vai mudar.

- Mas o Remus terminou com...

- Não! – ela a interrompeu – Ele terminou comigo em termos, não deixamos de estar juntos. E mesmo que tivesse terminado, você acha que eu ia sair ficando com primeiro cara charmoso que aparecesse na minha frente? Ah, por favor!

Na manhã do domingo, depois de uma pesada madrugada de aulas práticas, reuniram-se todos à mesa do salão especial, onde o café da manhã de sempre era deliciosamente servido.

– Não, os trouxas não ouvem música da mesma maneira que nós. – explicava Rafaela – A gente usa miniaturas, eles usam discos. Uma coisinhas assim – e fez o gesto – que é fininha e espelhada, aí eles colocam dentro de um aparelho eletrônico e aquilo toca música.

– Mas como uma coisa assim toca música? – dizia Charlie – Eu não acredito que não haja magia...

Hermione riu – Não, Charlie, não há magia. É eletricidade.

– A gente não precisa disso pra viver, porque é que eles necessitam tanto, como eu já ouvi falar? – disse Ronald

– Justamente porque eles não tê magia!

– Mas é só o som? Sem imagem? – continuou Charlie

– Não, é só som, que sai de uma caixa. Com certeza o nosso método é melhor, porque é uma miniatura do próprio cantor que canta ao vivo e se move de verdade.

– E o baile? Será que vai ter banda como já fizeram antes ou só as minuaturas? – perguntou Ginny

- Já falta menos de uma semana. – disse Ronald, olhando feliz de Rafaela para Charlie

– É mesmo. Você vai, Charlie? – perguntou Harry

Rafaela respirou fundo e se concentrou no ovo mexido.

– Claro, e porque não?

– Sozinho?

Alguns professores chegaram e foram se sentar à mesa. Dumbledore não estava presente, tinha alguns problemas de ordem administrativa na escola.

– Snape! – Rafaela disse e se levantou –, preciso de uma ajuda, pode ser? – e sentou-se mais perto dele, distanciando-se da conversa dos amigos.

– Não vou sozinho. – disse Charlie – E vocês não têm que ficar fazendo pressão pra eu convidar ninguém. Eu convido quando eu quiser e quem eu quiser. Isso se eu convidar, mesmo. Posso muito bem ir sozinho, porque não?

– Porque não faz sentido. Você ir sozinho e ela ir sozinha também. – disse Ronald

– Chega. Chega desse assunto, acabou, entendeu?

Somente durante o jantar Rafaela se arriscou a conversar novamente com os amigos. Percebera que Harry e Ronald estavam fazendo campanha para que ela fosse ao baile com Charlie e, pelo que Hermione a dissera antes, sabia que ela também apoiava. A única que não tocava no assunto era Ginny, que parecia respeitar mais a relação dela com Remus, porém também não a defendia. No jantar, a conversa até estava se animando, afinal ela também estava ansiosa para o baile e esse era o assunto geral em toda Hogwarts, e não somente do grupo de amigos. Tentou disfarçar todas as vezes que percebeu que alguém falava com ela sobre "companhia" para o baile, até que isso ficou claro demais para ser ignorado.

– Você está pretendendo mesmo... Ir sozinha, Rafa? – perguntou Hermione

– Quem sabe? – ela respondeu casualmente, disfarçando

– Não precisa ficar com vergonha de demonstrar que quer companhia... – disse Ronald

Rafaela aumentou o volume da voz – Eu não preciso de companhia para ir a um baile. Você não está vendo? Consegui chegar até o Salão Principal sozinha, andando. Sei muito bem cantar sozinha, dançar sozinha, não preciso de companhia.

– Calma, Rafa, não precisa falar tão alto, - Ronald sorriu – o Charlie já vai te convidar, não é? – disse cutucando o irmão

Rafaela ficou indignada. Sentiu-se muito envergonhada e desrespeitada. Todos dali por perto pensaram que ela simplesmente falara alto com a amiga não porque estava de saco cheio da insistência, mas porque ela estaria muito a fim de Charlie, o que não era verdade.

– Escutem... Desculpe, Charlie, eu não estou negando o que você nem mesmo pediu, mas eu não quero ir a esse baile acompanhada, simplesmente porque eu não preciso que ninguém fique e me empurrando para ninguém! Não estou aguentando essa mania de vocês de achar que eu sempre preciso de alguém. Podem ficar aí, juntos, em casaizinhos, que não vai ter ninguém para encher o saco de vocês!

Ninguém saiu atrás dela não porque não queriam isso, mas para não piorar ainda mais, até para Charlie. Rafaela, apesar de estar com uma vontade de um colo, também não queria que ninguém fosse atrás dela. Tudo o que ela queria, agora, era provar mesmo que não precisava de ninguém, apesar de isso ser uma grande mentira. Ela sabia que precisava de Remus.

Às oito e meia não tinha mais como deixarem Rafaela sozinha: alguém tinha que encontrar com ela para às nove horas todos voltarem juntos para as quatro. Ginny foi para seu quarto do sexto ano e entrou em sua cama, apreensiva, esperando dar o tempo para subir a passagem secreta e esperar os outros. Harry e Ronald também já esperavam em suas respectivas camas. Hermione subiu a passagem secreta em cima de sua cama. Ficou pensando se ia ou não durante uns cinco minutos. Estava muito arrependida por ter tentado empurrar Rafaela para Charlie. No fundo queria apenas o bem de Rafaela, e acabou fazendo bobagem. Estava bastante chateada com Ronald, teve uma discussão com ele. Tomando um pouco de coragem e vendo que já faltava quinze para as nove, foi até o alçapão que dava para o teto da cama de Rafaela. Talvez ela ainda estivesse dormindo, mas ela não estava lá. Deixara a cama trancada e vazia. Hermione encontrou-se com os outros três no local de sempre e retornaram às quase quatro horas, na sala de McGonnagal. Entrando lá sentiram um grande alívio ao verem Rafaela em um canto da mesa do salão especial, fazendo algum trabalho de Poções. A grande apostila estava aberta em posição de consulta e havia um pequeno caldeirão de ouro crepitando em um fogo conjurado em cima da mesa. Snape estava sentado à sua frente, de modo que os alunos viam sua expressão, ensinando-a. Minerva aproximou-se dos alunos e conversou baixo com eles, contando que Rafaela havia retornado para lá às duas da tarde, e ficara um tempo no quarto, sozinha, e agora, mais calma, antecipava seu trabalho de Poções com Snape, provavelmente para não fazê-lo com Hermione. Ela quase chorou nesse momento e todos os amigos sentiram-se muito tristes, mas não podiam fazer nada naquele momento. Era hora de estudar.

No dia trinta e um de outubro, Harry decidiu que estava com saudade demais da namorada pra esperar até o baile para poder estar com ela. Não sabia o que estava realmente acontecendo com ele, mas ultimamente pensava mais em Ginny do que no motivo de todos aqueles treinamentos. Uma vez, tentando se analisar, entendeu que estava na tentando fugir da realidade, deixando de pensar muito profundamente no que ia acontecer. Ginny o tornava um jovem normal sempre que podiam estar juntos, tão normal quanto ele nunca fora.

Observou em seu Marauder's Map que Ginny havia acabado de sair da sala comunal e ia por um corredor na direção do salão principal. Conseguiu alcançá-la no pé da escadaria do hall de entrada e a beijou ali mesmo. Corada com a surpresa, Ginny entrou com Harry no salão e os dois se sentaram sozinhos a uma ponta da mesa, lado a lado, e ficaram abraçados e se beijando de vez em quando, ingenuamente acreditando que estavam sendo discretos, só entendendo que estavam enganados quando Argus Filch, o azedo zelador, parou atrás, o olhar maldoso e sorridente por tê-los pêgo.

– Filch, eu sei que é difícil para você entender isso, mas nós somos estudantes, adolescentes, no dia de um baile... Dê um desconto! – tentou Harry

Filch, friamente, os conduzia à sala do diretor – Assim que Dumbledore chegar do almoço vocês explicam isso para ele. Por mim, vocês já estavam na sala de castigo!

Ginny entrou na frente de Filch – Por favor, Filch, você sabe que nós... principalmente eu, meu irmão, Harry, Mione e Rafa não temos tempo para nada nessa escola, acabamos curtindo nos horários de aula, jantar...

– Não me venham com essa história de alunos especiais que para mim vocês são jovens indecentes assim como todos os outros que peguei nessa escola. Ora, seus diabos! Escola não é lugar para essas coisas! Saia da minha frente, menina! – e a empurrou de qualquer jeito.

– Escola não é lugar pra isso! A gente passa a maior parte do nosso tempo aqui, se escola não é lugar pra isso, vou virar freira!

Na sala de Dumbledore, Ginny e Harry permaneceram intermináveis minutos sentados, na presença de Filch, aguardando o diretor. Dumbledore já chegou sabendo de tudo, e estava sem a sua paciência costumeira.

– Muito bem, mais uma advertência por namoro na escola... – disse se sentando e olhou por cima de seus óculos meia-lua para os dois – Sabem o que eu devia fazer? Proibi-los de ir ao baile de hoje! Afinal, vocês já anteciparam as alegrias do baile na frente de várias crianças dos primeiros anos!

Harry e Ginny ficaram sem palavras com a reação de Dumbledore. Ao lado deles, em pé, Filch sorria entusiasticamente animado com o que ouvia.

– Suponho, então, que vocês dois hoje farão o horário normal das aulas especiais, voltando às nove horas para as quatro horas, na sala da professora McGonnagal. Teremos atividades especiais para vocês com revisões, elfos domésticos, trasgos... Madame Nor-r-ra poderá supervisiona-los por mim no horário do baile, Filch?

Filch, com a voz amarga e sorridente – Claro, professor...

– Certo. Então está combinado. Às quatro horas vejo vocês no salão especial. Sugiro que voltem agora às aulas normais... E que exatamente, às nove, retornem. Nem um minuto a mais.

Apesar desse grande imprevisto e do quanto foi estranho ver Dumbledore bravo depois de tudo o que vinham passando juntos,o casal sentiu que poderia ser pior, pois pelo menos cumpririam aquela detenção juntos. Harry foi buscar Ginny na aula de herbologia depois da sua última aula que acabara mais cedo. Ao invés de voltarem para o castelo, ficaram no campo de Quiddich treinando com parte do time da Gryffindor. Colin liderava feliz, tinha grandes idéias e falava com energia com o time, porém sem jamais deixar o ar exageramente empolgado e quase sem ar de falar. Harry e Ginny sentam-se juntos no patamar mais baixo da arquibancada antes de entrarem no treino.

- Mas e aí, você não me contou, você e a Mione já estão conseguindo montar exército de trasgos? – perguntou Ginny

– Estamos! É mais difícil que você imagina, senhora faz-tudo-com-a-mente! E você, já consegue fazer curativos como Magine?

– Ah, mais ou menos. – ela respondeu – Só ataduras simples, fechar pequenos cortes... Estou aprendendo uns feitiços tão legais, Harry! Sempre tem alguns nos livros que os professores não citam nas aulas. É muito legal! O interessante é que os livros são bem atualizados, não são aquelas coisas do milênio passado que a gente usa na escola... Alguns feitiços inventados no ano passado. O que eu mais gostei de saber é de um que tira quase 90% das dores do parto.

– Sério? Nossa, sua mãe devia ter sabido disso antes.

– Pois é, coitada, ainda bem que quando chegar a minha vez...

Ela parou de falar imediatamente, sentindo-se corar de leve. Nunca havia falado sobre filhos com Harry, e não sabia que podia ficar à vontade para isso.

Harry, sem perceber – Quando chegar a nossa vez, pelo menos você não vai sentir nada... Assim vai dar para fazer um monte de Weasley-Potter... – e, sorrindo, abraçou a namorada, que descontraiu no mesmo momento os pensamentos.

– Harry, como que eu vou fazer o feitiço em mim mesma?

– Sei lá, pede para a Hermione ajudar, ela também não está fazendo Medicina? Ela vai ser a tia!

Ginny, ainda sorrindo, pareceu meio envergonhada – Ah, Harry, vai dizer que você realmente fica pensando nessas coisas? Não sei, de a gente ter filhos...

– Mas é claro que penso! – ele disse com sinceridade, mas tambem ficando um pouco envergonhado, e sorriu em seguida – Eu penso no nosso futuro juntos. Eu não quero que nenhuma outra mulher no mundo seja a mãe dos meus filhos!

Harry e Ginny chegaram para o jantar com antecedência. Haviam ido se trocar na torre depois do treino de Quiddich e se encontraram novamente. Foram beliscando algumas porções que já estavam na mesa até o salão se encher. Pouco antes de o janta começar, viram Ronald chegar à mesa acompanhado de Hermione, muito bem arrumada, de cabelos presos em um coque elegante – porém ainda usando a capa do uniforme sobre a roupa do baile, assim como todos os outros alunos – e Rafaela, com os cabelos perfeitamente cacheados e a pele um pouco mais morena. Sentaram-se no início da mesa, sem perceberem Harry e Ginny a várias pessoas de distãncia. Às oito e meia o casal punido saía do salão, sob o olhar vigilante de Dumbledore. Seguiram o grupo dos alunos do primeiro ao quarto ano para o salão comunal da Grifinória e se encontraram minutos depois, no corredor secreto, para usarem o vira-tempo. Passariam o fim da tarde e a noite (até as nove, horário em que finalmente iriam ao baile) estudando, quase sem intervalos.

Mesmo que aqueles já não fosse mais o primeiro baile dos alunos e a animação não fosse igual á que havia sentido anos antes, só se falava nesse assunto à mesa. Quase todos os alunos tinha um par. Daquele grupo, apenas Parvati, Neville e Rafaela iriam desacompanhados. No entanto, apenas Rafaela não parecia se importar com isso.

Durante o jantar, Parvati cochichou com Hermione, que estava ao seu lado – Eu não entendo o Neville... Ele está sozinho e eu também, e somos amigos. Porque é que não me convida?

– Porque você mesma não fala isso pro Neville? Se são amigos ele não vai reparar. – disse Hermione

– É... Acho que vou fazer isso, mesmo. – ela disse e ficou pensativa olhando para seu prato

Na mesa dos professores, Snape estava muito mais calado do que o de costume. Geralmente costumava trocar palavras quase amigáveis com os outros professores, mas nessa noite estava em silêncio, estranhamente concentrado em seu prato, alheio ao que quer que acontecesse á sua volta. Mesmo para aquele professor sempre calado, aquele comportamento era estranho.

Após terminarem de jantar, a imensa maioria das garotas correram de volta para suas casas para terminarem de se arrumar. Sem correr tanto, os garotos também foram, a maioria para esperar pelos seus pares. No salão comunal da Gryffindor, Neville e Ronald estavam esperando meio calados, já prontos havia muito tempo. Ao ver Rafaela e Hermione descerem, Ronald foi até a namorada. Rafaela passou reto e foi na direção da saída.

– Esperando por quem, Neville? – ela perguntou

– Pela Parvati. Resolvemos ir juntos. – ele respondeu sorrindo

– Ah, que bom! Até mais, bom baile pra vocês.

– Ah, Rafa!

Rafaela parou na altura do quadro – Oi?

– Esqueci de dizer feliz aniversário!

Rafaela sorriu – Obrigada!

Sozinha, Rafaela caminhou pelos corredores. Havia um número razoável de pessoas passando por eles, na direção do salão, a maioria em pares. Estava tranqüila até que ouviu uma voz pastosa e cínica atrás de si.

– Então quer dizer que a brasileira vai sozinha ao baile?

Rafaela não parou de andar, virou apenas a cabeça sem encarar Malfoy, que andava com seu sorriso seco atrás dela – Sai daqui.

– Coitadinha, ficou sem par. Acabou sozinha, veja só.

Ela parou e virou-se de frente para ele, vendo quem o estava acompanhado.

– Vou sozinha porque quero, Malfoy. É melhor do que ter um par como você. Eu sinto muito que tenha que ir com ele, Pansy. – virou as costas e voltou a andar

Ela conseguiu se distanciar de Malfoy nos corredores. Ao chegar no hall de entrada, a música alta vazava pelas portas abertas e a maioria dos alunos já havia chegado.

– Rafa! Rafaela, espera!

Hermione e Ronald a alcançaram quase correndo e sorridentes.

– Tá fugindo, é? – disse Ronald

Rafaela riu – Não, só não gosto de ser uma vela.

Hermione estava linda. De vestido preto com gotas prateadas, usava os cabelos cacheados presos em um coque com algumas mechas soltas. Estava sorridente do alto de seu salto e de braços dados com Ronald. A decoração do salão estava especialmente caprichada para aquele baile. O tapete que ficava sob as mesas, em toda a volta do salão era felpudo e negro, as abóboras iluminadas planavam levemente por todo o teto, e havia uma miniatura delas em cada mesa redonda de seis lugares, junto com uma estatueta de uma bruxa muito bela que soltava faíscas coloridas e levemente brilhantes pela ponta de sua varinha. O salão estava cheio de rapazes com roupas de gala e garotas de vestidos longos nas mais variadas cores.

– Vamos encontrar uma mesa, antes que não sobre nenhuma! – Ronald disse e foi na frente das garotas. Por sorte, encontraram uma mesa bem ao canto do salão que ainda estava vazia. Acomodaram-se. Pediram suas bebidas e, aos poucos, as pessoas começaram a deixar as mesas para encher o meio do salão. As seleção de músicas estava muito boa.

– Gente, vamos lá, também, vocês não querem ficar isolados aqui, né? – disse Hermione

– Vão vocês, gente, eu vou terminar o meu vinho. – sorriu Rafaela

– Vamos, Rafa, seu aniversário, tem que comemorar! – disse Ronald cutucando-a no ombro

– Eu vou comemorar! Mas podem ir na frente.

– Ok, depois você procura a gente lá, heim? – disse Hermione se levantando

– Pode deixar!

Os dois passaram por entre as mesas de mãos dadas, Hermione à frente andando depressa. Rafaela sorriu ao vê-la animada e continuou tomando seu vinho.

O professor Snape observou, de perto da entrada do salão, a movimentação dos alunos dançando e falando muito às mesas. Ninguém notou sua presença, como quase sempre acontecia em momentos alegres. Satisfeito, deixou o salão e caminhou decidido até o salão comunal da Slytherin. Todas as crianças já dormiam e o silêncio dominava o lugar. Igualmente decidido, foi até a saída do salão, que levava aos jardins de Hogwarts e caminhou depressa e incógnito até o portão da escola. Abriu-o e passou por uma brecha pequena, fechando-o em seguida.

Olhou para a estrada e respirou fundo. Era hora de dar um jeito na sua vida. Concentrou-se e desaparatou.

Rafaela sentiu-se sozinha à mesa, quase terminando sua taça de vinho tinto. Não teria lá muita graça ir dançar sozinha no meio de todo mundo, já que todos estavam dançando em pares. Começava a detestar aquele aniversário.

Sorriu ao ver Harry e Ginny entrarem quase correndo, de mãos dadas, no salão. Os dois não viram Rafaela à mesa, e foram direto para o meio do salão, encontrando-se rapidamente com Hermione e Ronald. Sem dizer nada, passaram a dançar juntos. Todos ali precisavam de um momento leve em que não pensariam em nenhum problema.

– Como foram as aulas? – gritou Hermione para ser ouvida

– Um saco! Eu não via a hora de vir pra cá! – respondeu Ginny

– Eu achei que vocês não viessem, que iam ter aula até mais à noite. – disse Ronald

– De jeito nenhum! – respondeu harry

– Não queriamos perder esse baile, não! – disse Ginny, sorrindo muito

Algumas pessoas foram falar com Rafaela, que agora tomava sua segunda taça de vinho. Davam-lhe os parabéns, perguntavam porque não estava dançando, e ela sempre respondia que já estava indo, que só queria terminar sua taça antes.

Enquanto dava um gole de vinho, sentiu por poucos segundos um toque conhecido em seu ombro, a mão quente a apertou brevemente e a soltou. Arrepiada, ela o olhou e viu Remus sentando-se na cadeira ao seu lado.

– Está tudo bem? – ele perguntou, pedindo imediatamente uma taça de vinho de abóbora

– Está sim. E você, fora de perigo?

Remus sorriu – Como um lobo manso!

– Não arrumou nenhum par para a festa... Com quem você pudesse ser visto?

– Olha, senhorita Salles, se a senhorita não se importa, eu acho que acabei de arrumar.

Rafaela corou brevemente e sorriu – É claro!

– Ninguém pode falar nada, afinal eu não a convidei, não estamos "juntos" – ele disse fazendo um breve gesto de aspas – E eu apenas me sentei á mesa com você. Nada de ilegal, certo?

- E além disso é meu aniversário. Como um professor honrado e gentil, você não poderia me deixar sozinha nessa noite, poderia?

Tentando disfarçar ao máximo todo o sentimento mútuo que havia entre eles, apenas ficaram sentados ali, bebendo juntos e comentando sobre as outras pessoas do baile e sobre as aulas especiais, rindo às vezes, descontraindo-se. Rafaela jamais imaginaria que aquilo teria um tom tão natural a ponto de ninguém estar reparando em professor e aluna sentados juntos como dois amigos. Ninguém os olhava ou questionava, provavelmente por estarem eles mesmos ocupados cuidando de suas próprias noites.

– E como vãos as aulas de Animagia? Já está aprendendo a virar bicho sem ser no susto daquele jeito?

– Ai, não sei... – ela respondeu suspirando - Eu ainda não tenho noção do que eu seria. McGonnagal disse que o fato de eu ter virado um beija-flor não significa que eu seja realmente um beija-flor na minha forma definitiva. Foi só a primeira vez, a coisa ainda está confusa.

– Olha, eu tenho bastante experiência em ver de perto esse negócio de querer virar bicho... – disse Remus – Você sabe, James, Sirius e Peter eram desesperados para aprender isso e treinaram muito. Ainda bem que eu nunca tive essa dificuldade – disse rindo da própria desgraça –, mas eu diria que você definitivamente é uma ave, se não for beija-flor é com certeza algo que voa. Eu vi o seu patrono, é uma ave magnífica. Uma gaivota, talvez... Mas com certeza você seria uma ave de pequeno porte. Não tente virar um avestruz ou um pavão... Muito menos uma galinha.

Rafaela riu – Nossa, isso realmente foi animador! Eu sempre sonhei voar, e sempre cantei, e como dizem meus amigos, eu também gosto de falar bastante... Talvez eu seria uma arara, bem brasileira.

– Que pena que eu não conheço araras... Mas com certeza McGonnagal vai te ajudar bastante com isso.

– E se ela inventasse de querer me caçar? Afinal, ela é um gato. Se eu virasse um sabiá ela poderia me engolir! Você sabe, instintos felinos... – Rafaela disse fazendo Remus rir

Hermione e Ronald, quando se perceberam, estavam bem mais longe da mesa e perderam Rafaela de vista. Pararam para tomar uma bebida e viram que a mesa estava vazia. Ronald convidou a namorada para ir dar uma volta do lado de fora do salão.

– Boa idéia. Vamos até o lago perto do salgueiro lutador?

– Só não vamos chegar perto demais daquela árvore, por favor... Sou um aluno especial mas ainda tenho meus direitos de sentir medo disso!

Hermione riu – Nunca vai deixar de ser aquele menino medroso, Ron!

Ginny e Harry até tentaram dançar mais, mas estavam cansados das aulas e não tiveram tempo de tirar um cochilo com o tomba-touro, ainda mais com Madame Nor-r-ra vigiando-os desde o horário que começou o jantar – o horário que Dumbledore não poderia ficar com eles. Ninguém entendia bem como Madame Nor-r-ra conseguia demonstrar tudo o que via para Filch, alguns diziam que o zelador conseguia interpretar os miados dela perfeitamente.

– Vamos sentar um pouco, Harry? Você não tem nada que levanta o astral um pouco, não?

– Eu aprendi essa semana na aula normal do Flitwick um feitiço para acordar quem está dormindo, não sei se funciona com quem já está acordado.

– Ah, sei – Ginny disse sentando-se a uma mesa ainda vazia, tirando o sapato que machucava os pés – Eu aprendi no curso avançado de feitiços... Funciona, sim, se quiser fazer em mim, afinal estou praticamente dormindo. Se quiser eu faço em você, você também está se sentindo um bagaço?

Harry, sentando-se desabadamente na sua cadeira – Muito!

– Ok, então vou fazer primeiro. Assim você presta atenção e não corre o risco de errar. Vai que você me faz virar uma abóbora – tocou o ombro de Harry e começou a balbuciar umas palavras, sem nem tocar em sua varinha e logo Harry arregalou os olhos e sentiu-se completamente revitalizado.

– Funcionou! Ginny, você é realmente boa com esse negócio de Magine!

Ginny o olhou fazendo uma careta – Na verdade era para eu fazer sem tocar em você ou balbuciar qualquer coisa, mas como é em você, tive medo de machucá-lo... Então fiz desse jeito, mesmo.

– Você quer que eu faça em você?

Ela sorriu – Você tem certeza que não vai me transformar em abóbora?

Rafaela e Remus já não estavam mais à mesa. A desculpa para saírem do salão foi que queriam evitar olhares acusadores quando eles não estavam fazendo nada de errado além de beber juntos e conversar. Foram se sentar no lado de fora, no grande parapeito de uma das janelas. A lua era minguante, e mesmo assim iluminava muito bem o gramado e era refletida no grande lago.

– E pensar que um dia eu já pude admirar a lua cheia. – disse Remus, pensativo

Rafaela, tomando o seu ponche – Eu imagino que é bastante difícil, mas acho que você tem que se libertar desse medo constante. A poção funciona muito bem, não há risco pra ninguém.

– É um grande consolo saber que não vou sair atacando todo mundo, mas também é horrível perder uma semana por mês, todo mês. Se eu calcular o tempo de vida que já perdi... De qualquer forma, apenas a transformação em si já me faz um mal danado... Por exemplo, quantos anos você me daria?

– Eu sou suspeita de dizer porque sei exatamente a sua idade, não é? E tenho certeza de que você, aos trinta e sete, está mais em forma que muita gente da sua idade. O Snape, por exemplo...

– Também não vai querer comparar com um cara que já foi comensal da morte... Aquela marca faz mais mal que três luas cheias para mim!

– Coitado do Snape... Ele é muito amargo, acho que não é culpa dele. Nunca deve ter sido muito feliz...

– Eu também sempre achei isso dele. Sabe, nos primeiros anos de Hogwarts ele não era assim. Também não era exatamente mal, apenas andava com "aquela" turminha, mas na realidade não fazia nada muito grave... Foram nos últimos anos que começou a ficar esquisito. Não sei porque, eu não lembro muito bem agora, mas acho que teve algum grande motivo que o fez ficar deprimido e fechadão para sempre...

– Algo..? Algo como a morte de algum parente?

Remus fez um esforço para tentar lembrar – Não, eu realmente não lembro o que era. E olha que lobisomem tem bom faro de memória, mas eu não lembro mesmo. – e tomou um gole de seu ponche.

Snape chegou na estação não muito movimentada, no centro de Londres, e dirigiu-se diretamente a um pequeno guichê, onde uma bruxa velha, magra e aparentando não saber o que é um banho há pelo menos um ano contava dinheiro bruxo.

– Por favor, eu gostaria de uma passagem para a América do Sul.

A mulher olhou-o com uma feição que demonstrava o quanto detestava o trabalho – Por supuesto, quieres conocer el continente latínoamericano... Sí, sí, es solo eso que vosotros quieren... – e começou a carimbar uma passagem – Conocer las belezas... Después prometem una vida mejor... y nosotros tornamos ESCRAVOS... – e começou a descontrolar – ESCRAVOS de túa riqueza!

Se Snape não estivesse muito decidido a viajar, já teria desaparatado rapidamente do lugar. Olhou para os lados enquanto a mulher discursava sua situação no primeiro mundo, que mesmo trabalhando dia e noite em uma empresa de metrô bruxo, vivia praticamente na miséria, que a família dela achava que ela estava ganhando rios de dinheiro na Inglaterra, só para não passar muita vergonha. O professor já estava ficando de saco cheio daquilo, ainda porque nunca tivera pavio muito longo, mesmo.

– Escuta, minha senhora, eu só quero partir no próximo metrô para a COLÔMBIA. Entendeu? Escuta... De que lugar você veio? – percebendo que a mulher não entendera muito bem, repetiu pausadamente

– Yo soy venezuelana.

– Ok. Então que tal voltar para a sua terra de origem, hein?

– Como yo puedo voltar? Mios padres no me reconocerían! Yo dise que estoy rica!

Snape pegou sua passagem e saiu de perto. Meia hora depois, embarcou no metrô escuro e desconfortável, começando a primeira das muitas viagens que estava determinado a fazer todos os finais de semana, escondido, até que encontrasse quem queria encontrar.

– Mas por que se preocupar tanto com o Snape? Sabe, eu já tive dó dele, as acho que ele é o único culpado da amargura dele, ninguém instituiu que ele tinha que viver assim... E ele é muito arrogante, às vezes.

- Eu que o diga, não é? Depois do que eu passei com ele no ano passado... De qualquer forma, nós dois conversamos e acabamos nos entendendo. Aos poucos vai me dando menos angústia estar perto dele, e na verdade ultimamente temos nos dado muito bem

Remus olhou indignado para Rafaela – Não!

– Como assim? É, ele é legal comigo, a gente até conversa de vez em quando...

– Não é isso que eu estou falando, Rafaela... Mas pelo o que eu sei, o Snape não é "bem legal" nem com a pessoa que ele mais admira, que é Dumbledore...

– Ah, sei lá, talvez ele esteja mudando.

– Não..! – ele repetiu com uma cara boba, querendo dar risada, e ainda indignado

– Pára de falar "Não"! – sorrindo – O que você quer dizer com isso?

– Não pode ser... Eu disse que eu farejo as coisas, Rafaela! E pela minha experiência de vida só dá pra concluir que, no mínimo, o Snape esteja interessado em você.

– O quê?! – ela gargalhou – Cara, isso é a coisa mais absurda do mundo! Ele nunca demonstrou isso. Jamais, ele ANOS mais velho que eu!

– E no mínimo seria impossível alguém com a idade dele se interessar por você e muito menos você se interessar por ele?

Rafaela, ainda indignada – É lógico! Imagina, você está ficando louco.

– Então me diz, por que você acha que alguém da idade dele jamais se interessaria por você e vice-versa?

– Porque o Snape simplesmente não tem nada a ver comigo. E duvido que tenha a ver com qualquer outra mulher!

- Não sei não, pra mim agora tem tudo a ver. Olha só a quanto tempo estamos falando dele.

– Mas não tem nada a ver! Você não farejou isso mesmo, né?

– Ok, tudo bem, não tem nada a ver, mesmo, não farejei nada.

– Ufa! – Rafaela disse rindo e virando o resto do ponche de uma vez

– E não entendo porque tanta indignação.

– Como assim?

–Sabe, estou até pensando em tirar alguém com idade mais próxima da minha pra dançar nesse baile... Como a professora Sibila...

Rafaela começou a rir – Mas por quê? Justo aquela louca?!

– É que você acabou de dizer que acha Snape um velho, e se você não se lembra, ele tem exatamente a minha idade.

– Aaah... Mas é diferente, Remus! Você já está em outra categoria, não é? Categoria essa que não inclui idade, profissão, nem nada... Você não tem o cabelo sujo, não tem cara de que chupou limão azedo, não tem nariz de gancho nem dá aula de POÇÕES!

– Há! Olha quem fala, uma praticamente futura professora de Poções... Quer dizer que você vai começar a cultivar aspectos horrendos para ser especialista em Poções? Como criar verrugas no nariz, pêlos nas mãos...

– Não, eu não sou um lobisomem! – e gargalhou com Remus

– Me chamou de horrível!

– Você não é horrível!

– Só porque eu sou lobisomem!

– Pelo menos mais interessante que um pardal, pombo de igreja, ou sei lá o que eu vou me tornar! Pense pelo lado positivo... Pelo menos eu vou poder continuar fazendo a sua Wolfsbane quando Snape se aposentar...

– Se não for comida antes por um gato que caça pombos de igreja... – voltando a beber o ponche, no copo que se encheu sozinho novamente.

– Mas aí você vai ter que usar seu espírito canino pra me proteger, oras!

– Ah, mas isso com certeza, Rafaela.

Pararam sorrindo um para o outro, cansados das risadas, suas taças nas mãos. Rafaela suspirou econtinuou olhando para ele. Finalmente, deixaram de fingir que era apenas professor e aluna que era muito amigos.

– Queria tanto poder te levar pra longe daqui agora... – disse Remus, bem mais baixo

– Eu também... Mas mesmo assim é ótimo poder estar com você mesmo que seja assim... Sem poder te tocar.

– É... Sua companhia já faz valer mais a pena.

Harry e Ginny atravessavam o gramado, quase chegando á escadaria para entrar de volta no castelo. Haviam saído apenas para respirar um pouco, mas estavam tão animados depois dos feitiços que fizeram um no outro, que acharam melhor voltarem ao salão para não acabarem fazendo nenhuma bobagem e pegarem mais uma detenção. Perto dali, quase escondidos à sombra de uma árvore, algo chamou a atenção de Ginny. Espantada, ela fez Harry olhar na mesma direção. O que viram foi um casal encostado em uma árvore, dando beijos seguidos de mais beijos. Neville e Parvati nem ligavam para quem estava em volta e se alguém poderia ver e puni-los por tão frívolos beijos.

– A coisa tá ficando feia lá, heim? – disse Ginny rindo

– Eles não deviam fazer isso aqui, porque... – disse Harry, e parou arregalando os olhos – Olha onde está a mão dele!

Ginny gargalhou – Vamos sair daqui, Harry! – e puxou-o pela mão – Não quero ser cúmplice disso!

À beira do lago, Hermione estavam sentada com Ronald deitado sobre suas pernas, recebendo os carinhosos afagos da namorada em seus cabelos.

– Eu já disse que amo você, não disse? – sussurrou Ronald

Hermione sorriu serenamente – Já. Mas eu adoro ouvir isso outras vezes.

Ronald alargou o sorriso – Eu te amo.

– Eu também te amo.

– O que a gente vai fazer depois, Mione? – perguntou Ronald pensativo – Depois que tudo isso acabar, que a gente se formar... Você vai estudar não sei onde, eu vou fazer outro curso, não sei onde... Mas eu não quero ficar longe de você, eu acho que...

– Não, Ron. Não fique pensando nisso, agora. O nosso presente já está conturbado demais, já temos tanto pra nos preocupar agora..! Nos preocupar com o futuro, agora, é o que a própria palavra diz, pré-ocupar. Estamos aqui, agora.

Ronald se levantou e abraçou Hermione. Ela era preciosa demais para ele, e jamais suportaria ficar longe dela.

Aos poucos, os pares começaram a se cansar e se sentar às mesas novamente, ou deixar o salão voltando para suas casas. Rafaela e Remus continuavam sentados na janela. Ela se encostara na parede, de pernas cruzadas. Suas taças, sempre sendo repostas, estavam pousadas entre eles. Remus estava vermelho, já como resultado da bebida, e Rafaela falava um pouco enrolado, sem conseguir parar de rir.

– Você vai ficar bêbado! – Rafaela disse assim que ele pediu mais vinho de abóbora

– Olha só quem fala!

– Eu estou bêbada? Eu não!

– Está sim. E eu também. Eles não deviam liberar bebidas para jovens como você.

– Ah, nem vem. Você já teve a minha idade, e não era nenhum santo. E além disso, eu sou emancipada, então perante a lei já sou adulta e não estou cometendo nenhum crime.

– E além disso – disse Remus, concordando – é seu aniversário! Champanhe, pra comemorar!

Suas taças de ouro se transformaram e belas taças de cristal com a melhor champanhe bem gelada já servida. Os dois brindaram.

– Saúde, minha querida. – disse Remus, carinhosamente

Rafaela sorriu, corando – Saúde. Que tudo dê certo, pelo amor de Deus, que isso tudo não pode ser tempo perdido.

– Certo. Porque teremos muito o que fazer depois que toda essa história acabar.

Rafaela sorriu para ele em silêncio.

– Tenho um presente para você.

Remus mexeu no bolso interno do casaco e tirou um saquinho de veludo preto amarrado com um fio vermelho. Entregou na mão de Rafaela, segurando-a brevemente. Rafaela o abriu e tirou dele uma delicada corrente de outro. Como pingente, dois pequenos anéis entrelaçados.

– Só pra você saber que quanto tudo isso acabar... Eles vão ser de verdade. – disse Remus, apontando os pequenos anéis.

Rafaela o olhou, emocionada. Deixou a corrente pousada nas mãos abertas e as aproximou de si. A corrente planou levente e se envolveu em Rafaela, pousando suavemente sobre seu pescoço.