Capítulo Quinze – A Volta do Lobo

Na segunda-feira, no café da manhã, Sophia sentou-se com os novos amigos da Gryffindor, mas não falou nada sobre o desencontro da noite de domingo. Rafaela, mais uma vez, ficou de lado, agora de propósito. Não era amiga de Sophia e não fazia questão de tornar-se. Além disso, tinha a cabeça junto com um certo lobo em um certo cômodo escondido da escola. Assim que o café acabou e todos os alunos começaram a deixar o salão principal, Sophia aproximou-se de Rafaela.

– Rafaela! Posso te perguntar uma coisa? – começou em português

Rafaela, saindo do banco da mesa – Claro, pergunta.

– Duas coisas, na verdade duas pessoas que despertaram a minha curiosidade. Só curiosidade, mesmo, não precisa pensar mal de mim! – falou rindo

Rafaela não riu – Quem?

– Primeiro aquele menino... Deixa eu ver – procurou nomeio da multidão de alunos –, aquele ali, olha...

Rafaela olhou e quase gritou – Ah! Credo, o Malfoy!

– Credo porquê?

– Se você quer um conselho, não se aproxime dele. É veneno puro, não faz bem ficar por perto. Eu sei o que eu estou dizendo, ele é meio louco.

– Bom, tudo bem, você é quem sabe.

– De quem mais você quer saber?

– Do Charlie! – disse abrindo um largo sorriso, e disparou a falar – Eu gostei muito de conhece-lo, achei que ele é muito gente boa, achei bonito e... – e percebeu a besteira que estava falando – ...e achei ele estranho, também. Ele... È... As roupas dele, chamuscadas, ele meio, sei lá... Eu achei ele meio parecido... Com Dragão... Por acaso ele é animago?

– Você achou ele meio Dragão?

– É... Estranho, né? Mas eu imaginei que se ele fosse um animago, seria um Dragão! Estou certa?

– Não. Ele não é animago.

– Ah, não? Bom, então... Er então foi viagem minha. Então vai pra sua aula, você vai se atrasar... Vou inventar qualquer coisa pra fazer enquanto estiver sozinha.

– Ah... – ficou olhando pra ela ainda por um instante, meio pensativa de boca aberta – Tá, então... Até a hora do almoço.

Hermione cochichou – Será mesmo?

– Mas é claro! Ela disfarçou no meio da frase, fingiu que não era aquilo que ela queria dizer.

– Mas ela não te contaria..!

– Não mesmo, por isso que disfarçou. Meu, ela é namorada do meu amigo, como é que se interessa assim pelo Charlie?

McGonnagal interrompeu o cochichar das duas, chamando atenção para que não atrapalhassem a aula. Calando-se, elas transformaram seus frascos de tinta para a caneta em uma miniatura de vassoura. Todos os outros alunos transformaram em vassouras de tamanho normal.

Na hora do almoço, Hermione, Ginny, Lavender, Parvati e Rafaela se isolaram num grupinho no canto da mesa, deixando os garotos e Sophia pra lá. Parvati fazia questão de contar para suas melhores amiga o que havia acontecido na noite anterior.

– A gente combinou de se encontrar no corujal, numa sala meio escondida que tem lá, onde tem as chocadeiras dos ovos, porque as corujas não tem tempo pra chocá-los, faz pouco tempo que eu sei que a sala existe, e ela fica sempre fechada e escura, e bem quentinha também. Bom, aí eu esperei estar todo mundo dormindo, deixei a minha cortina fechada e saí da torre. Eu morro de medo de andar por esse castelo vazio à noite, mas mesmo assim eu fui, andando grudada na parede, me protegendo nas sombras e tal...

Ginny sorriu – Sua meliante!

– Ás vezes a gente tem que ser, né? – e continuou falando baixo, fazendo as amigas se aproximarem mais – Bom, aí eu fui até o corujal, destranquei a porta com o feitiço e entrei. Eu não sabia se ele já estava lá, aí eu chamei baixinho mas ninguém respondeu. Eu tive certeza de que ele não estava lá, mas aí de repente ele apareceu me abraçando...

As meninas ficaram em silencio ouvindo Parvati contar sobre sua primeira experiência sexual. Hermione ficou abismada com a loucura da amiga, e disse que eles seriam expulsos e humilhados se fossem pegos. Lavender ficou de boca aberta e partiu para perguntas mais detalhadas, querendo saber exatamente o que Parvati sentira. Ginny se preocupou com questões mais práticas.

– Vocês usaram anticoncepcional?

– Mas é claro! Eu tinha comprado uma poção dessas numa farmácia do Beco Diagonal... Eu também não sei porque foi que eu comprei, já que não sabia que ia me apaixonar nesse ano e querer perder a minha virgindade... Acho que no fundo tinha alguma coisa que me dizia.

– E ele, como agiu? Digo... Depois, o que vocês conversaram? – perguntou Rafaela

– Ele estava cansado e não via a hora de chegar na cama dele. Não ficamos muito tempo lá depois, mas no caminho viemos conversando. Foi a primeira vez dele também!

– E agora vocês assumiram o namoro? – perguntou Hermione

– Claro, né? Ele já tinha me pedido em namoro antes, só que eu não respondi, e ele também disse que está apaixonado. Eu estou amando, gente!

– Que bom que você está feliz, amiga! – Lavender e a abraçou

Hermione, em tom irritado – É, que bom que deu tudo certo! Porque você sabe que foi uma loucura, dentro do castelo vê se pode..!

Rafaela olhou para Hermione e fez cara de "não diga isso!". Hermione não tocou mais no assunto.

– Ah, mas se não fosse lá nas chocadeiras ia ser onde: no quarto feminino com todo mundo olhando? Não dava, né? – Ginny a defendeu

– Claro que não! E lá também é confortável, quentinho, não foi nada de errado. A gente se gosta e...

– Ninguém está dizendo que foi errado. – Rafaela a tranquilzou – É você que tem que saber se é errado ou não, e se você decidiu que queria, então ninguém pode falar nada. Fico feliz por você estar tão bem!

– Parabéns, Parvati. – disse Hermione – Só não se esqueça de comprar mais poção anticoncepcional, viu, se quiser fazer essa loucura mais alguma vez!

Calou-se sendo cutucada po Rafaela.

– Ah, sabe uma coisa estranha que aconteceu, na hora que a gente tava voltando pra Gryffindor? A gente viu a Sophia, cara, quase morremos do coração! Ela viu a gente, passou pela gente, não olhou na nossa cara nem disse nada! Continuou andando, olhando pro nada.

– Será que ela é sonâmbula? – disse Lavender

Hermione e Rafaela se olharam rápida e disfarçadamente.

– Deve ser problema com o fuso-horário, acho que deu insônia. – disse Rafaela

– É, mas ela conhece a gente e nem olhou na nossa cara! Achei muito sem-educação da parte dela.

Hermione e Rafaela se levantaram da mesa na hora de ir para a aula, e se separaram das outras meninas.

– Não precisava ter me cutucado daquele jeito, aposto que elas perceberam!

– Mas eu tinha que cutucar! Você falando que foi loucura dela transar dentro do castelo, sendo que eu me lembro bem quando você e o Ron se trancaram na sua cama! E já usaram a Sala Precisa também, que eu sei.

– Mas não foi a nossa primeira vez! Eu estava dizendo que foi loucura ter uma primeira vez tão... Primitiva como a dela! Imagina, dentro de uma sala chocadeira, perto de um monte de ovos de coruja! É isso que eu estava falando.

– Bom, isso é verdade, mas você não pode julgar a Parvati. Ninguém pode.

– Tá, morreu o assunto.

– A Sophia. Vamos falar com ela?

As duas se aproximaram dela, que estava conversando com Harry e Ronald, que já iam subir a escada principal.

– Aí, Sophia, fazendo um tour noturno pelo castelo, heim? – falou Rafaela, bem-humorada

Sophia sorriu – Do que você está falando?

– Pra onde você foi? Esse castelo é maior esquisito à noite. Você deve ter notado...

– Não, peraí. Eu não andei pelo castelo à noite. Do que você esta falando?

– Ah, Sophia! A nossa amiga contou, ela te viu. Você até passou por ela nem sem cumprimentar, ela ficou chateada, viu?

– Essa menina está louca! Eu fui dormir, estava muito cansada, foi um dia agitado. Quem foi que disse isso?

– Não importa quem disse, porque ela também estava errada. – disse Hermione, cortando – Vamos, gente, a primeira aula é longe.

Todos se despediram de Sophia e subiram a escada. Rafaela ficou olhando pra ela ainda mais um pouco.

– Tem certeza de que você não saiu do seu quarto?

– Absoluta!

Depois das aulas daquela manhã, à mesa do almoço, Parvati levou um susto muito forte e deu um pulo na cadeira. Derrubou suco de maçã sobre o prato e ficou de olhos arregalados por um instante.

– Parvati, que foi? – perguntou Neville, preocupado – Você está bem?

Parvati o olhou, abobada – Não foi nada, eu... Senti uma pontada aqui... – colocou a mão na barriga – Todo mês é assim. Dá licença. – e se levantou

Ginny cochichou para os amigos, por cima da mesa – Foi outra premonição.

Enquanto terminava apressada de comer, Rafaela sem querer olhou para a mesa da Slytherin. Draco, Crabbe, Millicent, Pansy e Goyle riam e quase se engasgam com a comida. Devia ser mesmo algo muito engraçado. Rafaela observou quando Draco fez, para os amigos, um gesto com as mãos, indicando um ato sexual de baixo calão.

– Olha lá! – disse Hermionem distraindo Rafaela, ao apontar para Sophia, que estava sentada ali perto – Pra onde ela está olhando?

Sophia estava com o garfo na mão, cheio de carne de peru e arroz, olhando na direção da mesa Slytherin.

– Ela está encarando o Malfoy. – disse Rafaela – Eu disse que essa menina é estranha, ninguém acredita em mim.

Depois da hora de dormir, os cinco se encontraram em um dos corredores secretos para usar o vira-tempo. Chegando à sala fechada de transformações, Rafaela puxou Hermione mais para trás.

– Com o que você está preocupada? – perguntou em voz baixa

– Percebeu, é?

Rafaela concordou com a cabeça e Hermione contou que esta achando Sophia estranha. Negara que saíra do castelo sozinha à noite, encarara Malfoy longamente durante o almoço e há pouco tempo, na hora do jantar, não dera as caras.

– A última vez que eu a vi foi na hora do almoço, enchendo o saco, lá. – disse Rafaela – Está começando a pensar da mesma forma que eu?

– Não com tanta birra.

Rafaela fez um muxoxo de irritação.

– Mas que é estranho, é. – Hermione continuou – Eu a vi encarando o Malfoy, e isso por si só já é estranho.

Harry virou-se para trás, já de dentro da sala especial – Gente, a Parvati não teve outra coisa estranha lá na mesa do jantar?

– Teve sim. – respondeu Ginny – Albus já deve ter falado com ela, ele percebeu a atitude estranha.

Na primeira pausa entre as aulas, à mesa da sala especial, Albus contou qual fora a última visão de Parvati. Ela viu, durante um ou dois segundos, uma única imagem: uma sala, grande, ampla, com vários corpos no chão, gente morta, rostos conhecidos. Alunos, professores, bruxos conhecidos de fora da escola, funcionários do ministério. Não fora algo muito grave, e sim imaginável. Ninguém assumia de verdade, mas todos sabiam que podiam morrer e ser derrotados.

Antes do café da manhã, os cinco amigos foram em comboio até o quarto de Sophia. Ela demorou pra abrir a porta e, quando o fez, estava de cara amassada como se tivesse acabado de acordar.

– Sophia? – disse Hermione

– Oi..?

– Tudo bem?

– Tudo... O quê..?

– Onde você esteve? – perguntou Harry

– Eu..?

– É. – confirmou Rafaela, forçando-se a soar amigável – Porque tão cansada, não dormiu à noite?

– Não, eu... Não passei muito bem, fiquei no quarto. Mas agora estou melhor, só preciso descansar.

Deixando-a voltar para a cama, ninguém comentou nada, mudaram de assunto. Hermione e Rafaela se entreolharam, concordando. Durante cinco dias, Sophia simplesmente não falava com ninguém. Snape tentou entender o porquê daquilo, mas ela o enrolou e não contou nada. Sentava-se à mesa da Gryffindor, conversava um pouco, mas depois sumia novamente. Hermione achou que Rafaela estava meio neurótica quando ela disse que Malfoy estava mais sorridente do que antes, e que aquilo devia ter alguma ligação.

– O Snape deve ter falado com ela sobre o Malfoy, ela não vai se aproximar dele! – garantiu Hermione

– Você coloca a sua mão no fogo? – Rafaela perguntou, irritada

– Eu não porque não a conheço direito. – respondeu Ginny – Tudo bem que eu sei que ela está estranha, mas não acho que tenha a ver com o Malfoy.

– Ah, sei não. Vocês têm muita boa-vontade com ela. Esquecem que ela é completamente Slytherin.

– Isso não quer dizer nada, olha o Snape, agora é uma pessoa boa. – disse Hermione

– Droga... Eu não sei, tem alguma coisa errada. Você viu como ela está sumida!

– É, está mesmo. Quem sabe arrumou um namorado por ai. – disse Ginny

– Será?

Rafaela ficou irritada – Ai, porque foi que essa menina teve que vir pra cá? Que raiva, menina enxerida!

– Você não está nervosa só por causa dela. – disse Ginny, divertida

– Por quê..? – começou Hermione – Ah! É mesmo, hoje acaba a lua cheia.

Rafaela acabou sorrindo – Ai... É, acaba. Eu estou tão nervosa!

– Estranho, Rafa! – disse Ginny – É como se vocês nunca tivessem ficado juntos, mas não vai ser a primeira vez.

– É, também não entendi isso. – concordou Hermione

– Não sei, gente... É porque agora voltamos a namorar, e se pensar bem, é o começo do namoro de verdade. E é dentro do castelo, não fora como foi antes. Vai ser diferente do que foi, e eu to ansiosa com isso...

Depois do jantar, quando era hora de dormir, Rafaela voltou no tempo mais do que os amigos, pelo menos duas horas, quando sabia que Remus já havia voltado ao normal e devia estar descansando em seu quarto. Eram duas da tarde, enquanto estava na aula de defesa contra artes das trevas com Snape, Rafaela parou diante da porta do escritório de Remus, munida da capa de invisibilidade de Harry e da sua cópia do Mapa do Maroto.

Dobrou o mapa, guardou-o no bolso e segurou a maçaneta. Empurrou-a e entrou no quarto escuro. Sem ver nada, fechou a porta e trancou-a com um feitiço não muito simples que aprendera nas aulas especiais, para não arriscar ser pega no quarto de um professor. Virou-se para dentro e fitou a escuridão.

– Remus...

Ela o ouviu se mover há alguns metros, e então ouviu sua voz rouca e arrasada.

– Rafaela..?

Rafaela esboçou um sorriso, mas ficou preocupada demais com o tom de voz dele. Deu um passo e puxou a varinha – Lumos.

– Você não devia estar aqui. – ele falou se levantando

– Eu sei que eu não devia. Mas não agüentei esperar você ficar bom pra ir me procurar.

Remus chegou até a luz. Estava com olheiras e rosto cansado, mas os olhos brilharam olhando para Rafaela. Ela ficou com o coração apertado, mas abriu um largo sorriso.

– Ah, Remus, que saudades!

Jogou a varinha pro lado, que foi parar ainda iluminando em cima da cama, e lançou-se num forte abraço. Remus a envolveu fortemente pela cintura, e ela se pendurou nele.

– Como é bom te ver de novo! – ele disse olhando-a de perto – Você esteve lá, não esteve?

– Como você sabe?

Remus olhou para baixo, desviando o olhar e a soltou – Eu não sei, acho que senti...

– O que foi?

– Eu não queria que você tivesse ido.

Rafaela colocou a mão no rosto de Remus, fazendo-o olhar novamente pra ela – Eu sei disso, mas... Não deu pra ficar uma semana esperando.

– Eu não queria, Rafa, eu te disse... Não era pra você me ver daquele jeito.

Rafaela soltou seu rosto e baixou a cabeça. Remus, desanimado, voltou-se e sentou na cama. Rafaela levou a mão ate o bolso interno da capa e tirou um frasco de poção, indo em seguida sentar-se ao lado de Remus.

– Olha... Eu fiz pra você, deve fazer bem.

Remus pegou o frasco e olhou para Rafaela – Obrigado...

Ele girou a tampa e bebeu todo o liquido de uma só vez, voltando a falar em seguida – Você deve ter ficado... Eu não sei, impressionada ao me ver...

– Eu não podia deixar de ir. Eu tenho mesmo que me acostumar com isso, não tenho?

– Porquê..? – disse quase sem voz

– Porque eu amo você.

Remus a olhou nos olhos, em silêncio, na penumbra. O efeito da poção foi quase imediato, sentiu-se calmo, mas com bem mais energia. Pôde até mesmo imaginar que seu rosto estava menos sofrido do que segundos atrás. Finalmente ele sorriu. Foi um sorriso feliz e tranquilo, de olhos brilhantes.

– Eu também te amo.

Rafaela passou todas as horas que podia no quarto com Remus. Foi forçada a ir embora pois seu tempo estava acabando e ela precisava voltar para a realidade das aulas. Remus a acompanhou até a porta e, antes de desfazer o feitiço que a trancava, ela o beijou novamente.

– Eu te amo muito. Vamos lutar juntos, ok?

– Agora eu tenho um sentido pra lutar pela vida.

Cobriu-se com a capa de invisibilidade, saiu do quarto e, cuidando para não trombar com nenhum aluno, correu o mais que pôde até a sala de transformações. Entrou pela porta, enfeitiçada, a tempo de ver Ronald, Harry, Ginny e Hermione aparecendo.

Logo que Rafaela sumiu do corredor secreto, às nove da noite, usando seu próprio vira-tempo, os outros quatros se juntaram para voltar também no tempo, menos do que Rafaela, para as quatro da tarde. Hermione girou a ampulheta por cinco vezes. Os quatro sumiram e apareceram em seguida cinco horas antes, na sala de transformações. Todos travaram de susto ao ver a porta da sala se abrindo, assim que chegaram, e fechando-se em seguida. Antes de poderem falar qualquer coisa, Rafaela apareceu debaixo da capa de invisibilidade que emprestara de Harry.

– Porque esse susto? – ela perguntou

– Porque a porta estava se abrindo! – disse Hermione, respirando novamente

– A gente achou que fosse alguém que ia nos descobrir. – disse Harry

Rafaela, rindo – Ah, desculpa, eu não pensei nisso!

– E aí? – perguntou Ginny – Foi lá?

– Pra que horas você voltou? – Harry pergunto

– Voltei até as duas da tarde, ele já estava lá.

Ginny deu pulinhos até Rafaela – E aí? Conta, conta!

– Ah, sinto muito. – disse Hermione, autoritária - Agora é impossível. Vamos pra aula, na primeira pausa que houver ela nos conta tudo.

Ronald foi andando até a entrada secreta – Credo, Hermione, não está nem curiosa?

– É claro que estou, mas temos que estudar.

– É, ela está certa. – concordou Rafaela – Também porque se eu empolgar demoro o tempo da próxima aula inteira pra contar tudo!

– Só nos diga com Remus está passando. – pediu Harry

– Está ótimo! Estava cansado, mas a minha poção funcionou muito bem.

Meia noite. Hermione e Ginny haviam deixado a aula de Medicina, Harry e Ronald a aula de Defesa Contra Artes das Trevas e Rafaela a aula de Transformações. Ginny estava especialmente desanimada: fora um feitiço de atordoamento que ela não conseguiu curar em Hermione, por pouco. A professora e enfermeira Pomfrey encerrou a aula antes que Ginny ela terminasse a cura, e ela mesma desfez o feitiço.

– Ela podia ter me dado mais um minuto, eu ia conseguir!

– Eu acho que ela estava certa, Ginny. – disse Hermione, com firmeza – Foram quase dez minutos pra você desfazer, em uma situação extrema dez minutos são muito valiosos.

– O pior é que eu sei disso!

Harry e Ronald estavam felizes, empolgados, e não queriam que aquela aula de DCAT tivesse acabado. Dois professores, Charlie (que estava ajudando na falta de Remus) e Snape os atacaram com azarações de verdade, nada muito grave, mas que trariam desagradáveis resultados se pegassem. Com eficácia, os dois conseguiram se livrar e até mesmo rebater alguns dos feitiços.

Já Rafaela levara uma grande bronca da professora Minerva, por dois motivos. Um era que não conseguia de maneira nenhuma se concentrar no feitiço de camuflagem que ela já sabia fazer há séculos e devia estar apenas recordando. O segundo motivo era o fato de ela nunca conseguir acertar em que animal se transformaria.

– Isso definitivamente não é normal! – bradou McGonnagal – Imagina, eu, se ao invés de um gato de repente me transformassem em um tigre!

– Mas, professora...

– Não tem desculpa, Rafaela! Você precisa se decidir de uma vez, ou então vou desistir de te fazer uma animaga!

– Não, isso não!

– Então trate de uma vez de descobrir qual é o seu animal interior. Não pode ser um beija-flor, uma coruja, uma águia e uma avestruz ao mesmo tempo!

– Eu juro que eu tento... Mas eu sempre me transformo na ave que me é mais propícia no momento. Na verdade eu acho até que isso poderá ser útil na invasão e...

– Pode ser útil na invasão, mas dessa maneira você nunca vai conseguir se registrada. Quer ficar clandestina para sempre?

Rafaela quase disse que achava boa idéia ficar clandestina, mas definitivamente não podia dizer aquilo para McGonnagal.

– Não, professora. Mas se todas essas aulas são para nos preparar para a invasão, eu acho que posso usar muito bem esse meu... Erro, como a senhora diz.

– É, podemos. – ela disse com um pouco mais de calma – Confundir o inimigo pode ser uma boa coisa. Mas ainda assim você precisa saber qual animal você realmente é. Se não conseguir fazer isso, eu mesma vou me opor quando você for se registrar junto ao Ministério.

Com todas as aulas encerradas, os cinco se encontraram na sala comunal especial. Logo que todos se encontraram, ficaram em silêncio se olhando, ou seja, olhando mais para Rafaela, que era quem tinha as novidades mais quentes. Rafaela riu e gargalhou, e começou a dançar parada, imitando um ritmo inexistente, fazendo sons estranhos com a boca e arrancando risadas de quem estava por perto.

– Que isso, endoidou? – perguntou Charlie, que estava próximo à mesa

– O que há para ficar tão feliz? – disse McGonnagal com ar desapontado

Rafaela parou, não havia visto a professora na sala – Er... Nada, não, professora.

– Na sua última aula não vi grandes motivos para essa comemoração.

Rafaela ficou seria – Eu só queria dispersar um pouco essa fumaça de gases de agouros. Posso? – virou as costas e saiu da sala, mas parou na porta de seu quarto – Gente, vem cá!

Imediatamente, feito cavalaria, Harry, Ronald, Ginny e Hermione saíram dos sofás e entraram com ela no quarto. Minerva quase falou algo sobre garotos no quarto feminino, mas eles sumiram antes que ela dissesse alguma palavra.

– Relaxa, professora. – disse Charlie, sorrindo – Todos têm que se divertir um pouco, senão enlouquecem.

No quarto, os cinco estavam espalhados à vontade pela cama, enquanto Rafaela contava empolgada apenas o começo, quando ainda trancava a porta do quarto de Remus com um feitiço forte. Precisou voltar mais a história até o ano anterior, quando os sentimentos entre ela e Remus começaram a nascer, porque Harry e Ronald estavam sabendo só agora do que acontecia. Era mais de uma da manhã quando Harry e Ronald deixaram o quarto feminino, com muito sono. Hermione, Ginny e Rafaela se acomodam e dormiram mesmo sem trocar de roupa. Haviam todos ficado felizes por Rafaela e rido muito quando ela, ao contar sobre o beijo, se levantou e começou mais uma vez a dançar, cantando alguma coisa inteligível para os amigos.