"Rachel, amiga, você vai passar mal assim!" Marley comentou, vendo Rachel colocar na boca três batatas fritas besuntadas em molho barbecue, enquanto segurava, com a outra mão, seu terceiro hambúrguer, já mordido.
"Essa aí sempre come assim, menina. E não só é magra de ruim, como nunca tem um enjoozinho sequer, enquanto você tem as suas queimações e eu vivo de regime." Mandy assegurou, olhando distraidamente as próprias unhas.
"Hoje ela tá comendo ainda mais." Retorquiu a outra.
"Eu to! Porque eu to tensa... eu não sei o que fazer!" Rachel deixou de ser apenas o assunto para também participar dele.
"Não adiantou nada ver o Finn?" Marley perguntou.
"Não." Respondeu a namorada de Hudson, fazendo careta. "Eu entendi a intenção de vocês, mas, enquanto eu não tiver uma resposta pra dar a ele, não adianta a gente se encontrar." Disse, se referindo ao fato de que suas duas melhores amigas de faculdade a tinham tirado de casa e arrastado até uma lanchonete, depois de combinar com os rapazes da banda de Finn, para que eles levassem o garoto ao mesmo lugar.
Desde o dia em que o namorado de Rachel lhe pedira para desistir de estrelar Spring Awakening, eles só tinham se falado pelo telefone, e somente para um saber se o outro estava bem. Não tinham tocado no assunto e não estavam agindo como namorados, o que tinha sido percebido e causara preocupação em todos os amigos deles.
"Oi." Ela dissera, timidamente, depois de vê-lo na fila do caixa e se aproximar.
"Oi." Ele respondera, com um sorriso triste no rosto.
"Finny..."
"Rach..." Os dois tinham falado juntos, o que os fez rir, mas ficar ainda mais tensos.
"Pode falar primeiro." Ela autorizara e ele saíra da fila, indo com ela para uma mesa vazia.
"Faz exatamente três dias que eu te pedi pra não fazer mais as audições pra peça da faculdade... e eu acho que foi o tempo necessário para você me responder."
"Não é uma decisão para a qual possa ser colocado um prazo, Finn."
"Eu entendo que você precise de um tempo, mas não ouvir uma decisão sua me deixa meio triste." Ele explicara, cabisbaixo.
"Não fica!" Ela pegara na mão dele. "Olha... eu te amo, ok? Eu não quero te perder... eu quero me casar com você um dia." Sorriu e ele correspondeu. "É só que... eu não esperava ter que fazer uma escolha como essa nunca! E normalmente eu pediria ajuda pra você pra tomar as minhas decisões, então... eu to muito perdida, Finn. E, se você exigir uma resposta agora, ela vai ter que ser..."
"Não, não, não... não diz nada. Você tá certa... não devemos por um prazo nisso. Apenas pensa, por mais alguns dias, tá?" Finn tinha beijado o seu rosto e ido até os amigos, que convencera a irem embora com ele, enquanto ela se juntava às meninas e as três entravam na fila para comprar seus lanches.
"Você sabe, sim, o que fazer, amiga." Mandy contestou sua afirmação. "Você só não quer dar o braço a torcer!"
"Normalmente, eu e a Mandy não concordamos, mas dessa vez é diferente, Rach." Marley se pronunciou. "Eu também acho que você sabe muito bem o que é o certo... o melhor pra todo mundo, nessa história. Você só queria não precisar fazer isso... queria que as coisas não tivessem acontecido assim, pra não ter que fazer a escolha você mesma."
As amigas tinham razão e Rachel não tinha por que contrariá-las. Ela não queria fazer a peça com Brody, já estava desconfortável mesmo antes do ultimato dado por Finn. De modo algum, deixaria que ele a tocasse a pretexto de encenar uma peça, e que alcançasse o claro objetivo de estragar a felicidade dela, acabando com seu namoro. O que a estava impedindo de tirar seu nome da lista das audições era apenas o fato de não querer que parecesse, nem ao namorado nem a ninguém, que ela era uma garota sem personalidade que fazia o que ele exigisse dela.
"Você tem razão. Eu queria que acontecesse um milagre e o idiota do Brody desistisse da peça." Suspirou. "Ou talvez que as audições dos meninos fossem antes, pra eu só continuar fazendo as minhas se ele não fosse escolhido... sei lá."
"Mas não é só esse o problema também, Rach... a gente já tava pra falar com você sobre essa montagem, antes mesmo de sabermos do Brody." Marley comentou.
"E qual é o outro problema?" Ela perguntou, curiosa e as outras duas meninas se entreolharam.
"Rachel, você não pode fazer uma cena de nu." Mandy afirmou.
"Não é uma cena de nu... é uma cena de topless." Rachel respondeu.
"É a mesma coisa! De topless é tão nua quanto qualquer um vai querer te ver." Falou, indiferente. "Vamos dizer que você fizesse, então..."
"Pensa na regra do 2-2-2." Marley pediu, como se tivesse pensado em algo genial de repente, tirado um coelho da cartola. "Em duas semanas, como você ia se sentir? Provavelmente bem, não é?"
"É..." Rachel sorriu.
"Você sentiria uma brisa legal nos peitinhos... se sentiria até renovada." Mandy completou, debochada.
"E como você ia se sentir dois MESES depois?" Sua irmã questionou a amiga de ambas.
"Eu não sei." Rachel começou a ficar confusa. "Nervosa? Preocupada que não tivesse ficado legal?" Pensou alto.
"Rachel, é uma peça de faculdade! Talvez... eu disse TALVEZ seja encenada umas duas ou três vezes na Broadway... mas não é uma produção DA Broadway, ainda é uma coisa amadora. Nem tem como ser assim tão boa!" A mais expansiva das gêmeas observou.
"E daqui há dois anos, Rach?" Marley completou a tal regra. "Como você acha que iria se sentir a respeito?"
"Culpada. Torcendo apenas para que meus filhos jamais vissem uma gravação da cena, feita por alguém, online."
"Mas eles iriam ver!" Mandy continuou, sem dó nem piedade. "Uhum! E nunca mais ia ser a mesma coisa."
"Ok, espera!" Rachel se irritou um pouco com tamanha pressão. "Por que eu to recebendo conselhos seus, pra começar, hein? Não teve uma sex tape sua que caiu na rede?" Perguntou, retoricamente, se referindo a um vídeo caseiro divulgado pelo namorado de ensino médio da garota, sobre o qual ela mesma tinha lhe contado.
"Pois é... teve sim. Uma cena constrangedora minha, que me persegue todos os dias. Procura pelo meu nome na Internet agora!" Rachel pegou o iPhone e fez o que a garota mandou.
"Mandy Rose, nudez, seios, sexo, americana ou europeia... interrogação." Leu.
"Bingo! E isso vai ficar aí talvez... pra sempre."
"Mas, Mandy, algumas mulheres acham que dá poder aparecer nua em obras artísticas..."
"É, mas não em uma produção estudantil, de recursos super limitados."
"Olha... a gente se importa com você." Marley, que estava calada havia um tempo, se manifestou. "A gente tá pensando no que é melhor pra você. Por favor, com Brody ou sem Brody, não faz essa peça."
Rachel ficou pensativa, enquanto devorava o resto de seu lanche e suas companheiras falavam alguma coisa na qual não prestava atenção, mas logo esqueceu o assunto nudez porque, independentemente dele, estava decidida a não fazer mais os testes. Seus pensamentos passaram a girar em torno da busca por uma maneira de contar sobre sua decisão a Finn, deixando claro que o amava, mas que não estava abrindo, e nem abriria, mão de uma oportunidade importante em sua carreira, só por causa da relação dos dois, e sim porque compartilhava das preocupações demonstradas por ele.
Deixou para fazer isso no dia seguinte, no entanto, depois que já tivesse tomado as providências necessárias na faculdade, o que acabou sendo algo muito bom, uma vez que o rumo das coisas mudou sozinho. Duas vezes!
"Rachel, corre aqui, garota!" Um colega seu chamado Oliver, que sabia de seus problemas com Brody, fazia sinal efusivamente, para que ela fosse até ele, que olhava algo no quadro de avisos.
"O que foi?" Ela riu da presa dele e olhou na direção do que ele estava olhando. "Isso é sério?" O sorriso dela aumentou e ele assentiu, balançando a cabeça também de forma efusiva.
"Agora, você vai poder ficar super tranquila, hum? Além de tudo, só sobrou biba!" Comentou o rapaz, referindo-se a si mesmo e a mais três colegas de faculdade deles, que concorriam ao papel do qual Brody e outros dois tinham sido vetados preliminarmente, por não terem o perfil do personagem, de acordo com a diretora do espetáculo, a professora Alexia.
Rachel iria mentir se dissesse que não se regozijou com o dispensa de Brody, mas, naquele momento, ela voltou a pensar nas palavras das amigas. Quando pensava em mostrar os seios, várias vezes, para várias plateias lotadas, não se sentia tão confortável quanto quisera parecer ao contar para o namorado sobre a cena, e ao rebater as amigas. Ela iria se expor, e também ao namorado e à família, e talvez fosse melhor só fazer isso depois de amadurecer um pouco mais, tanto como pessoa quanto como artista.
"Eu não sei se vou..." Começou a falar com o amigo, mas foi interrompida.
"Rachel, querida, tudo bem? Eu queria muito falar com você, pode ser?" Sua mentora na escola de drama, Isabelle, solicitou, gentilmente, e as duas se afastaram um pouco do rapaz. "Você não só não foi cortada das audições, como... eu não vou mentir pra você... tem grandes chances de ser escolhida!" Sorriu, simpática. "Maaaaas, mesmo assim... eu queria que você considerasse a possibilidade de fazer audições pra peça que eu vou dirigir, e que eu acho que tem tudo a ver com você."
"E qual é a peça?" Perguntou, já empolgada, mas querendo saber bem onde ia se meter. Imagina se, em vez de fazer topless, nessa outra peça ela tivesse que ficar nua em pelo, ou houvesse alguma possibilidade de Brody voltar a ser uma pedra no caminho?
"O diário de Anne Frank. Conhece?" Rachel fez sinal positivo, mas, mesmo assim, ela continuou. "O papel foi feito pela Natalie Portman na Broadway. A peça é a história de uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto. Ela morreu aos quinze em um campo de concentração, mas se tornou famosa porque escrevia em um diário que foi publicado,depois da morte dela... com as experiências do período em que a família se escondeu da perseguição aos judeus dos..."
Rachel prestou atenção no começo, mas àquela altura já não estava ouvindo mais nada! Não via a hora de contar a Finn que uma oportunidade ainda melhor, e sem seios expostos ou seres parasitários implicados nela, havia surgido. Ela faria o possível e o impossível para passar nas audições e ser Anne Frank, o que, de quebra, ainda daria enorme orgulho, com toda a certeza, à parte judia de sua família.
Pensou que talvez, independente de qual fosse a religião da pessoa, ela podia, sim, ser salva por verdadeiros milagres, se precisasse muito deles.
