Rachel andava, nervosa, de um lado para o outro, sobre o palco do auditório da faculdade onde estudava. Já tinha preparado suas caixas de som portáteis e seu iPod para tocarem a melodia de How Deep Is Your Love, e decorado toda a letra da velha música dos BeeGees, parte da trilha sonora do filme Saturday Night Fever (Embalos de Sábado à Noite), que pretendia cantar, dentro de pouco tempo. Tinha um amigo que tocava piano e até pensara em chamá-lo para acompanhá-la, mas desistira porque queria privacidade para falar com o namorado, a quem estava esperando.
Só não roeu as unhas porque era vaidosa demais para isso, mas sentia o coração disparar dentro do peito, com medo de que Finn não aparecesse para vê-la, como havia planejado. Acalmou-se apenas quando o viu surgir no fundo do teatro, e correr pelo corredor entre as cadeiras, subindo no palco, com jeito de quem estava tão ansioso quanto ela pelo encontro.
Ele estava muito mais do que ansioso. Na verdade, estava apavorado! Temia que ela tivesse pedido que fosse até lá para dizer que não podia abrir mão de uma boa oportunidade relacionada à carreira, somente para atender a uma exigência dele. Não queria perdê-la, de modo algum, apesar de não se arrepender do ultimato dado, uma vez que, com ou sem ultimato, se ela trabalhasse como par romântico de Brody, ele tinha a certeza de que romperiam de qualquer maneira.
Já próximo dela no palco, a viu parar de caminhar e encará-lo, como se esperasse que ele fizesse o primeiro movimento, apesar de ter sido ela quem resolvera que ele deveriam ficar frente a frente, depois de dias se falando somente ao telefone ou por mensagem, e de outros não se falando de modo algum.
"Recebi seu twitt. 'Alguém que seja meu namorado, deve vir ao auditório da minha facul, na hora do almoço' Você podia ter mandado um sms." Comentou.
"Não tinha certeza se estávamos nos falando." Sorriu sem jeito. "Sinto sua falta." Afirmou, se aproximando.
"Eu também." Ele disse, abraçando-a, e os dois ficaram nos braços um do outro por um tempo, matando as saudades.
"Eu sinto como se estivesse voltando ao meu corpo, Finn." Falou, segurando as mãos dele. "Não gosto de ficar sem falar com você. Nada parece real se você não estiver aqui pra eu te dizer."
"Nunca percebi que conversávamos tanto." Riu, mas não pode deixar de se lembrar da razão pela qual tinham ficado afastados, em primeiro lugar. Largou as mãos dela e enfiou as suas nos bolsos da calça, caminhando lentamente pelo palco. "Rachel, eu queria poder retirar tudo que eu te disse, e ficar bem com você, de uma vez e pra sempre. Eu juro que queria, mas eu não posso. Eu também não me sinto eu mesmo sem você, mas aquele Brody..."
"Você não precisa mais se preocupar com isso. Esse assunto tá resolvido. Eu não vou trabalhar com ele." Informou, séria.
"Você me ama tanto assim? Me ama tanto a ponto de desistir?" Voltou a entrelaçar seus dedos nos dela.
"Só agora você descobriu que eu te amo?" Implicou. "Eu amo muito você, Finn. Eu posso até cantar sobre isso. Eu baixei uma base de uma música de um filme, e ela é muito boa." Disse, apontando as caixas de som.
"Eu tenho escolha?" Brincou.
"Eu meio que planejei toda cantoria, caso não fosse muito fácil a conversa e odiaria desperdiçar, então..." Deu de ombros, rindo. "Mas, antes disso, deixa eu te contar." Ela o puxou e os dois ocuparam um banco que imitava um desses de praça, e que estava no palco por ser parte de um cenário. "Eu, na verdade, nem precisei escolher não atuar com o Brody, porque ele foi cortado dos testes! Eu nunca senti tanto prazer na vida com a desgraça alheia, mas nem lamento, porque aquele ali merece! Queria ter visto a cara dele quando soube."
"Essa eu também queria ter visto." Comentou. "Mas deixa esse idiota pra lá, meu amor... isso é maravilhoso! Você vai poder ser a Wendla, como você tanto queria." Puxou a namorada para um beijo de comemoração.
"Na verdade, eu acho que não, Finn."
"Não?" Ele ficou confuso.
"Eu tive uma conversa com as gêmeas M&M e elas me fizeram pensar e... talvez que não vá me sentir confortável, como eu pensei que iria, mostrando meus seios tão jovem, e em uma simples produção de escola."
"Sério?" Franziu a testa.
"Uhum. Eu não paro de pensar em uma filmagem amadora caindo na rede e conhecidos e desconhecidos falando dos meios seios... de como eles são pequenos, principalmente. Imagino os amigos da família julgando meus pais, falando deles pelas costas."
"Mas e as apresentações na Broadway, os olheiros, os pontos que você iria ganhar... a sua vontade de impressionar os professores?"
"Finn, você não tá me escutando. Eu não quero mais fazer a cena. Acho que pode ter um impacto negativo. Além disso, tenho minhas inseguranças quando ao meu corpo. A maioria das pessoas pode ficar bem desconfortável quando o assunto é mostrar o corpo."
"Então não mostre, amor. Não quero que faça algo que te deixará desconfortável." Apoiou. "Obrigado por me dizer isso. E quer saber? Foi muito corajoso decidir assim, e acho legal querer manter privada uma parte de você. Só não entendo a insegurança, porque seu corpo é demais!" Completou, aproximando o rosto do dela, com um semblante carregado de malícia, o que a fez gargalhar, para só depois se inclinar na direção dele também, e colar a boca na dele, em um beijo apaixonado.
"Minha autoestima agradece." Afirmou, depois do beijo.
"Você sabe que não precisa agradecer, babe. Agora, se fizer muita questão, eu posso pensar em algumas maneiras interessantes pra você mostrar essa sua gratidão toda." Ele manteve o jeito sugestivo.
"Eu vou adorar fazer isso, mas vai ter que ser mais tarde, porque eu tenho um teste em meia hora. Eu te chamei aqui justamente porque queria que você me desse um beijo de bom sorte. Eu não queria arriscar ficar sem ele."
"Um teste pra que?"
"Pra uma outra peça, que vai ser montada esse semestre. Se chama O Diário de Anne Frank."
"É a da garota judia, que ficou escondida com a família, durante a guerra, não é?"
"É... e é por isso que a Isabelle acha que o papel tem tudo a ver comigo, o que facilitou muito a minha decisão de deixar de lado os testes pra Spring Awakening." Ele concordou, balançando a cabeça. "Já não parece uma decisão tão corajosa, né?" Perguntou, fazendo careta.
"Você reviu uma decisão que tinha tomado, e isso ainda me parece bem corajoso, Rach. Além do mais, o que é mais importante é que você ainda tem uma boa chance de fazer parte de uma das montagens da escola de drama... ainda vai poder ser notada. Eu to feliz com isso, e você deve ficar também." Sentenciou, levantando-se e oferecendo a mão a ela. "Agora, vem, canta a tal música pra mim, e depois vai e mostra pra eles quem é Rachel Berry. Sobe nesse palco e quebra a perna!"
"Eu te amo." Declarou e andou até o som, ligando-o, pronta a obedecer.
Ela tinha um namorado a encantar, garantindo que ele se apaixonasse por ela um pouco mais a cada dia.
Talvez essa parte não fosse tão difícil, mas ela tinha também diretores a impressionar e um papel importante a conquistar. Ia ser o primeiro real desafio da vida adulta de Rachel Berry.
