"Um brinde à minha namorada, que vai ser a melhor Anne Frank que aquela faculdade já viu!" Finn propôs, levantando seu copo de refrigerante.
"E à minha irmã também, que vai ser a melhor Liesl Von Trapp de todos os tempos." Mandy pediu, se unindo a Finn, Rachel, Ryder e Marley na mesa que ocupavam em um bar. Tinha chegado atrasada por causa de uma aula extra, mas já estava sabendo da conquista recente da irmã.
"Sério? Você nem contou!" Rachel falou, animada, brincando de acotovelar a amiga, que estava sentada a seu lado.
"Ela é muito tímida, cara!" Ryder observou, vendo que a garota ficara sem jeito. "Nem dá pra entender porque ela tá na escola de drama."
"Ela se transforma, quando sobe num palco." Mandy explicou.
"Fica tipo você?" Ele implicou, o que era um ato quase involuntário quando se tratava de sua interação com a gêmea mais extrovertida, desde que eles tinham voltado a se falar.
"Não. Ela é muito melhor do que eu." Respondeu, mostrando a língua. "Ela é melhor que eu em todos os sentidos." Disse, abraçando a irmã de lado, e as duas trocaram sorrisos, fazendo Rachel sorrir também. Tinha ficado muito aliviada ao saber que o desentendimento entre as irmãs havia sido resolvido.
"Em alguns sentidos, eu tenho certeza que sim, mas, em outros, eu não experimentei ainda pra dizer." O garoto continuou implicando, sem perceber que estava envolvendo pessoa inocente em suas provocações.
"Ryder, cara." Finn tentou chamar a atenção do amigo, mas este nem chegou a prestar atenção nele.
"Deixa, Finn. Eu sou tímida, mas sei me defender, e dizer pro engraçadinho que ele não experimentou e nem vai. Eu não ficaria com alguém que quer me usar pra fazer ciúmes na minha irmã." Marley sorriu amarelo e Mandy gargalhou, se divertindo com o fora.
"Foi mal, Marley. Eu não quis te ofender. Eu só tava brincando." Ele disse, envergonhado, passando a mão na nuca.
"Tava querendo me deixar com ciúmes, como ela disse, mas só porque você não se enxerga, né?" Mandy desdenhou o mesmo com quem ela estaria trocando beijos quase indecentes mais ou menos meia hora depois.
Os cinco amigos ficaram no bar, conversando e comendo besteira até tarde, aproveitando que era sexta-feira e que nenhum deles tinha qualquer atividade cedo naquele sábado. Estavam particularmente animados com os resultados dos testes de Rachel e Marley, o entendimento, mesmo que provavelmente apenas momentâneo de Mandy e Ryder, e um convite que Finn recebera para cantar em uma festa tradicional da escola de vozes. Tão animados que nem a triste coincidência de encontrar com Gretchen Weiners e Karen Smith no bar tirou o sorriso do rosto de Rachel.
É claro que as duas garotas ficaram cochichando e rindo, como sempre, ostensivamente para tentar tirá-la do sério, mas ela estava com o namorado e os amigos, e estava disposta a ignorá-las o máximo que pudesse. Aliás, não era novidade para Rachel tentar ignorar as duas criaturas, que, ao contrário do esperado, continuavam infernizando a vida dela, mesmo depois de sua escolha para o papel de Anne, e do suposto fim da rivalidade entre ela e Regina, que foi convidada, mas não aceitou ser sua substituta.
Como a vida não parecia disposta a deixar nada muito fácil para Rachel, a tarefa das duas abelhas operárias tinha sido facilitada quando a professora de dança, Cassandra July, obrigou Rachel a aumentar sua carga horária em balé clássico, e as três se tornaram colegas de classe. Para acrescentar uma azeitona estragada à empada ressecada e com pouco recheio, a garota que iria ensaiar as mesmas falas e marcas de Rachel, para uma eventual necessidade de substituição, e que, durante a seleção, era bastante simpática com ela, fizera amizade com Karen e passara a tratá-la com indiferença.
Obviamente, Karen tinha se aproximado da menina de propósito e, ou ela era ingênua o suficiente para não perceber que estava sendo usada, ou tinha conseguido o álibi que precisava para hostilizar a protagonista da peça, cuja ausência era pressuposto para que ela, um dia, pudesse ter a oportunidade de atuar. De uma forma ou de outra, Rachel sabia que aquela amizade e o novo comportamento de Sabine deveriam ser motivo de preocupação. Ela não conhecia nenhuma delas o suficiente para saber a que ponto seriam capazes de chegar para prejudicá-la e, no caso de Sabine, para ocupar seu lugar.
No entanto, ela não estava pensando em nada disso, naquela noite, nem mesmo depois de ter visto as meninas sem sua mentora, nem a nova componente do grupo. Não estava pensando nisso enquanto escolhia algumas músicas em uma Juke Box.
"Como ela pode ser tão pudica com um namorado daqueles, hein?" Karen simulou questionar Gretchen, enquanto as duas fingiam esperar para programar a máquina também.
"Sendo frígida como a professora Cassandra sempre diz que ela é." A amiga disse e as duas riram.
"Qualquer dia, ele a troca por coisa melhor, com certeza."
"Eu não me importaria de ser substituta nesse caso." Elas riram de novo, lembrando a Rachel hienas como as do Rei Leão.
"Eu sei que vocês tão falando de mim e que querem que eu saiba, pra me sentir mal com o que estão dizendo." A morena afirmou, virando-se para as duas. "Vieram até a Juke Box só pra me provocar e eu confesso que queria entender qual é o objetivo de toda essa implicância, porque antes a razão era a Regina ter certeza de que eu me julgava à altura do papel, mas não era, e agora... bom, todas nós sabemos que eu PROVEI estar à altura."
"Provou, é? Não na minha opinião." Gretchen passou por ela, indo mexer no aparelho musical.
"Nem na minha, já que só passou por causa da Isabelle." Karen deu de ombros.
"Vocês querem que EU pense isso e duvide do meu potencial. Vocês querem me colocar pra baixo porque acham que assim a Regina vai se sentir melhor, coisa que nem é verdade! De qualquer maneira, não importa quais são os motivos de vocês, porque eu decidi não deixar vocês fazerem isso comigo. Eu passei nos testes porque mereci e tenho um namorado maravilhoso porque mereço. E eu não sou pudica, eu só me dou ao respeito em público. Mas garanto pra vocês que eu sei muito bem fazer com ele tudinho que ele merece entre quatro paredes." Afirmou maliciosa. "Engraçado... eu não vejo os namorados de vocês aqui." Acrescentou, se fazendo de confusa, antes de dar as costas e sair.
"O que aconteceu dessa vez?" Finn perguntou, assim que ela ocupou a cadeira ao lado da dele, sabendo bem quem eram as garotas com quem a namorada estivera falando, porque elas eram o assunto sobre o qual Rachel mais falava nos últimos tempos e Mandy tinha comentado sobre a presença das duas, quando elas apareceram no bar.
"Aconteceu que você não vai mais ouvir falar de Gretchen, Karen ou Regina, porque quando elas abrirem a boca, de agora em diante, vai ser como um zumbido chato pra mim. Já chega de dar importância a quem não tem." Rachel respondeu.
"Um brinde a isso." Finn sugeriu.
"E nós vamos cobrar!" Mandy afirmou.
Não foi preciso cobrança alguma, no entanto, porque além de Rachel estar realmente decidida a ignorar as provocações que viessem, elas não vieram. As três meninas maldosas passaram a agir como se nem soubessem quem era ela, e Sabine voltou a falar a tratá-la com simpatia, quando os ensaios começaram. É claro que Berry achou a mudança muito boa, mas ela não era ingênua então também achou tudo muito estranho. As três não eram do tipo que escuta um discurso no estilo "o que vem de baixo não me atinge" e se recolhe, assumindo tacitamente estar em uma posição abaixo. Além disso, Sabine continuava amiga de Karen demais para também querer estreitar laços com ela.
Rachel agiu normalmente, porque era a única coisa que ela podia fazer, apesar de ter decidido não confiar em Sabine. Não teve muito tempo para temer que ela estivesse tramando algo junto com as outras, no meio de tantos ensaios para a peça, aulas, elaboração de trabalhos teóricos e memorização de textos para encenações curtas, que ainda conciliou com idas a alguns shows da banda de Finn e à apresentação dele na festa da faculdade, porque sabia que sua presença era importante para ele e, consequentemente, para a relação dos dois.
Então chegou a véspera da estreia e, para prestigiá-la, chegaram à cidade os três pais e a mãe da jovem atriz, os pais e o irmão de Finn, e também os melhores amigos dela. Todos se reuniram para jantar, mas ela ficou presa no teatro até muito tarde e só viu Santana e Quinn, que foram dormir no dormitório com ela, enquanto Sam e Puck se hospedaram no apartamento onde Finn morava, e Shelby, Clay, Hiram, Leroy, Carole, Burt e Kurt ficaram em um hotel.
"É tão bom ver vocês!" Ela disse, abraçando as duas amigas ao mesmo tempo. "Pena que vai ser tão corrido." Lamentou.
"A gente não podia deixar de vir te ver no palco da faculdade, no papel principal, né? Tão chique!" Quinn falou, sorridente.
"Mas também não temos como demorar, por causa das aulas." Completou Santana, fazendo cara feia. "A Britt tá tão cheia de tarefas e testes que nem pode vir! Mas ela te mandou um beijo e desejou muito sucesso. Ela falou um palavrão qualquer em francês pra eu te dizer, mas eu esqueci." Riu, se referindo ao hábito de origem francesa de se dizer "merda" como sinônimo de boa sorte no teatro.
"Todo mundo que não pode vir te mandou beijos e desejou que você seja aplaudida de pé, e tudo mais." Quinn observou.
"Não tenho conseguido manter contato com todos. Essa vida é uma loucura!" Rachel afirmou, cansada. "Mas é muito legal também!" Sorriu, largamente, deixando transparecer toda a sua expectativa pelo dia seguinte.
Como ela teria um dia cheio, por mais que as três estivessem com saudades e tivessem muito sobre o que falar, não foram dormir muito tarde. Acordaram cedo e foram tomar café no hotel em que estavam os pais dela, e para onde foram também os meninos. O grande grupo fez um passeio rápido e almoçou em uma lanchonete, antes de continuar visitando lugares que alguns não conheciam, já sem a companhia de Rachel, que foi para a faculdade a fim de se preparar.
Era quase hora de pisar no palco e Berry estava apenas esperando no camarim, com vários colegas, quando foi surpreendida por uma ofegante Sabine, que parou a seu lado com as duas mãos apertadas contra o peito.
"Rachel!" Ela disse com dificuldade, respirando fundo algumas vezes antes de continuar. "Rachel, por favor, me diz que você não bebeu isso." Apontou para a garrafa vermelha em que ela colocava o isotônico que era distribuído pela produção.
"Eu... não sei. Acho que não bebi ainda hoje. A garrafa tá cheia. Mas... o que houve?" Perguntou, confusa.
"Graças a Deus!" A garota suspirou aliviada e tirou as mãos do peito. "Rachel, eu fiz uma coisa horrível e... tudo bem se não me desculpar, mas eu precisava consertar, de qualquer jeito."
"O que você fez, Sabine?" Era Rachel quem respirava com dificuldade, pois sentia seus medos se concretizando naquele momento. Como ela pensara, não se tratava de paz, mas de uma guerra fria, o comportamento novo das quatro meninas.
"Eu levei sua garrafa pra Karen colocar laxante e você não poder fazer a peça, mas meu namorado me fez ver que, se eu subir naquele palco só porque você não pode, eu vou estar assumindo que não tenho talento... que preciso armar pra conseguir as coisas."
"Como você conseguiu um namorado tão sensato, hein?" Questionou, irônica, mas não esperou a garota responder e até fez um sinal para que ela ficasse calada, quando ela tentou. "Olha, eu poderia pegar isso aqui e entregar pros diretores, dizendo o que vocês fizeram. Provavelmente, eles mandariam analisar e vocês receberiam uma punição." Disse, pegando a garrafa. "Mas eu vou só jogar fora, e isso vai ficar entre nós, porque eu não quero ter a responsabilidade pela destruição da carreira de ninguém. Essas são vocês... não sou eu, entende?" A outra menina apenas balançou a cabeça, concordando.
"Obrigada, Rachel." A garota disse, aliviada. Ao tomar a decisão de contar porque queria fazer sucesso por mérito e não em razão de uma armadilha, nem tinha pensado sobre as consequências do que tinha feito e poderia ter se dado muito mal!
Rachel não respondeu e apenas foi ao banheiro se livrar do líquido, antes que algum desavisado o bebesse. Depois continuou aguardando sua entrada no palco, fazendo exercícios de respiração. Ainda estava muito animada e ansiosa para seu debute, mas agora tinha ainda mais certeza de que não escolhera uma carreira fácil.
Teria que aprender muito mais do que as técnicas que a escola ensinava. Teria que aprender a lidar com pessoas dispostas a jogar sujo para ofuscar seu brilho.
